29 de setembro de 2018

Capítulo 27

FOI IMPOSSÍVEL NÃO NOTAR NOORSHAM PRIMEIRO. Mesmo de longe, eu acompanhava seu progresso com a mira da arma, graças ao reflexo do sol no elmo de bronze.
Era apenas meio dia de caminhada a partir do posto avançado da ferrovia até Fahali. Tínhamos aterrissado na montanha logo depois de o sol nascer. Já era quase meio-dia, o sol lá no alto iluminando a cena. De vez em quando dava para ver a sombra de Izz nas montanhas, voando em círculos, cauteloso. Esperando uma chance.
Passei a mira da arma por Noorsham e pelos soldados. Tinha algumas dúzias deles. Naguib estava lá também.
Meu dedo ficou tenso no gatilho.
— Nem você conseguiria acertar esse tiro, Bandida — ouvi Jin dizer no meu ouvido. — Ele ainda está fora do alcance. — Assim que meu dedo se afastou do metal do gatilho, a sensação aterrorizante e estonteante de ter um deserto inteiro nas mãos, pronto para fugir do controle, voltou em uma onda. Meus poderes ainda precisavam ser controlados, Shazad tinha concluído. Eu não sabia o suficiente sobre eles para contribuir como demdji.
Deixei escapar um longo suspiro. Então a cabeça de Noorsham se virou em nossa direção. Eu podia jurar que ele havia olhado diretamente para o nosso esconderijo. Do meu lado, Shazad prendeu a respiração.
Ele não pode nos ver, disse a mim mesma.
Hala estava se certificando disso. Estava deitada na pedra ao meu lado, de olhos fechados. Eu podia ver o esforço em seu rosto ao tentar controlar a mente de todos os soldados de uma vez só, criando uma ilusão para que tudo o que vissem quando levantassem a cabeça fosse uma montanha vazia.
Vi a fresta de pele entre a máscara de bronze e a armadura no pescoço de Noorsham. Era um tiro mais difícil do que uma garrafa de vidro em uma arena de tiro na outra ponta do deserto. Eu estava rezando para não precisar disparar aquele tiro.
O plano era simples. Usar as ilusões de Hala para afastar Noorsham de seu pequeno exército e induzi-lo a revelar a traição do sultão aos gallans. Em seguida, matar Noorsham e fugir, deixando Naguib e o general Dumas se enfrentarem.
Simples como salvar uma cidade inteira de Miraji e destruir um tratado estrangeiro de duas décadas. Simples como assassinar meu irmão. Matar Noorsham era a parte difícil. Ainda bem que esse era o papel de Izz. Eu só usaria a arma se ele falhasse. Se eu tivesse a chance de disparar um tiro certeiro.
O próprio general Dumas dissera que tinha uma longa tradição de matar pessoas com sangue real. Só não seria o príncipe em que ele estava pensando.
Sem Noorsham, Naguib não teria como enfrentar o Exército gallan. Seria um pequeno bando de soldados mirajins contra as tropas do general. Ele acabaria morto ou capturado. De um jeito ou de outro, devido à morte de um príncipe mirajin ou à traição do sultão, haveria guerra.
Eu só usaria a arma se tivesse a oportunidade de matar meu irmão.
Não. Afastei o pensamento. Jin estava certo. Família e laços de sangue não eram a mesma coisa. Talvez eu não quisesse que Noorsham morresse, mas estávamos numa guerra. O que eu queria não importava.
Meu coração batia forte no peito enquanto o pequeno exército de Naguib avançava em direção a Fahali.
Perto de mim, Jin franzia a testa, observando algo em sua mão. Esticando o pescoço, percebi que ele segurava a velha bússola de latão. A agulha balançava frenética. Eu só a tinha visto fazer aquilo uma vez, quando os dois estavam juntos no acampamento.
— Por que ela está fazendo isso? — sussurrei. O exército estava próximo agora, tão perto que qualquer ruído mais alto poderia se propagar desfiladeiro abaixo.
— Significa que Ahmed está em movimento. Só que não teria como ele saber o que estamos fazendo.
— Delila — eu me dei conta. Ela tinha me contado que costumava ficar acordada à noite, tentando dizer em voz alta que Jin estava vivo. Que estava em segurança. Que logo voltaria para casa. Delila sabia que só conseguiria dizer essas coisas se fossem verdade. Estávamos em apuros sérios o suficiente para que uma dessas frases não fosse verdadeira. E Ahmed estava indo atrás de nós.
— Temos que sair daqui antes que ele nos alcance — Jin disse, enfiando a bússola no bolso. Tive um súbito surto de ressentimento. Por que ele podia manter seu irmão vivo enquanto eu estava apontando uma arma para o meu?
— Hala — Shazad ordenou. — Agora.
— Ah, é fácil assim, né? — Hala disse, sarcástica. Mas ela respirou fundo e confundiu três dúzias de mentes para que vissem a mesma coisa.
Compartilhamos com todos os homens de Naguib a ilusão de que os portões da cidade estavam sendo abertos, deixando passar uma dúzia de homens em uniformes gallans. Tudo o que eu podia enxergar era o topo do quepe do uniforme quando estiquei o pescoço acima da beira do desfiladeiro e os observei cavalgando em direção ao exército de Naguib, os cavalos jogando areia para o alto.
Eles não eram reais. Mas bastavam para enganar alguém. Para confundir os soldados gallans de verdade, que eu podia ver escalando os muros da cidade naquele momento, observando os soldados que acreditavam ser seus aliados cavalgando em direção a ilusões.
Naguib se inclinou para a frente e disse algo para sua arma. Noorsham desmontou e começou a avançar a pé para encontrar os soldados gallans. Uma distância segura o suficiente para que não acabasse queimando os soldados de Naguib junto com o inimigo.
Quase lá. Outro passo. Ele levantou as mãos. Quase. Quase.
A onda de calor bateu como um golpe físico. Eu podia senti-la, mesmo de longe. Fui jogada para trás, assim como os outros. A primeira coisa que vi foi a areia ficando preta aos pés dele. A segunda foi a ilusão dos soldados gallans gritando. Gritando como Bahi tinha gritado. Gritos inseridos na mente do exército de Naguib por Hala. Enquanto isso, ela encheu o ar com o cheiro de queimado. Noorsham avançou.
Mais alguns passos. Meu coração batia forte.
Suas mãos estavam erguidas, como se os estivesse abençoando.
E outro passo.
O calor varreu a areia e atingiu os muros da cidade. Atingiu os soldados gallans de verdade. Subitamente os gritos se tornaram reais. O cheiro de queimado distraiu Hala um pouco. Não muito, mas o suficiente. O suficiente para a ilusão fraquejar.
Um dos soldados falou alguma coisa, apontando direto para nós, quando ficamos visíveis. Armas foram apontadas em nossa direção. Rolei para longe da beira do desfiladeiro um instante antes de a primeira bala tirar uma lasca da rocha. Levantei, a arma empunhada novamente.
Lá no alto, Izz guinchou. A ilusão desapareceu completamente, um segundo antes de ele se jogar do céu em cima de Noorsham, transformado em um gorila gigante. A pequena silhueta de bronze caiu com força no chão. Virei o rosto. Não queria ver Izz esmagando bronze e cérebro.
— Izz! — O grito de Hala me fez voltar a olhar.
Noorsham estava levantando. Izz ainda estava na areia, transformado em garoto. Por um momento achei que estivesse morto, mas então ele rolou. Minha própria pele ardia com a visão de uma queimadura vermelha forte no seu pescoço.
Noorsham levantou a mão sobre a cabeça de Izz.
Gritei seu nome.
O grito foi abafado por outro guincho. Um enorme roc marrom com um tufo de penas azuis na cabeça sobrevoou o desfiladeiro.
Maz. Com Ahmed nas costas.
Ele mergulhou em direção ao irmão. Noorsham já estava levantando a mão em direção a ele. A ponta de suas asas começou a pegar fogo. Não!
Fiquei de pé no mesmo instante, tentando me equilibrar na beira do nosso posto elevado na montanha. Noorsham estava na minha mira agora, e meu dedo estava no gatilho.
A bala o atingiu direto no peitoral de aço. Noorsham cambaleou para trás. Levantou a cabeça. Mesmo daquela distância eu podia ver seus olhos, pontos azuis atrás da máscara. Ele me viu.
Ergueu as mãos como se quisesse cumprimentar um amigo que não via fazia tempo.
E a força do calor me derrubou.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!