23 de setembro de 2018

Capítulo 27

JONAS
PAELSIA

Eles saíram da hospedaria ao amanhecer.
Mia, a atendente com amnésia — que Lucia insistia em dizer que era uma imortal — já estava acordada, servindo o café da manhã, e lhes deu um pouco de pão velho e mel para a viagem.
A caminho das Montanhas Proibidas, Lucia mal falou. Ela se movimentava com rapidez pela trilha precária, claramente determinada a avançar.
Jonas observou os picos pretos e irregulares que se elevavam ao redor deles e puxou o manto sobre os ombros. Estava frio, a temperatura estava muito mais baixa do que no pequeno vilarejo que tinham deixado. Era um frio que ele sentia mais do que na superfície. Que chegava fundo, até os ossos.
— Sabe o que me disseram sobre essas montanhas quando eu era criança? — ele perguntou, sentindo necessidade de puxar assunto.
— O quê? — Lucia questionou, ainda com os olhos fixos no caminho.
Jonas tinha se esquecido delas até então — das histórias contadas pelos adultos para as crianças sobre as Montanhas Proibidas. Ele nunca tivera paciência para contos de fantasia ou magia. Ele preferia sair para caçar, mesmo quando mal conseguia levantar um arco.
— Disseram que são bruxas ancestrais, amaldiçoadas por usar sua magia negra contra o primeiro rei de Mítica, logo depois que o mundo foi criado.
— Ouvi outras lendas sobre elas, mas a sua não me surpreende nem um pouco — Lucia afirmou em voz baixa. — Bruxas sempre são culpadas por tudo, quando a maioria não tem magia suficiente nem para acender uma vela.
— Por que acha que isso aconteceu? — ele se perguntou em voz alta.
— O quê?
— Bruxas… Elas com certeza existem. Agora sei disso. Mas a magia delas é inofensiva, ao contrário do que dizem as histórias.
— Eu não diria isso. Até mesmo os mais fracos elementia podem ser fortalecidos com sangue. Pelo jeito foi assim que minha avó conseguiu ajudar Kyan com seu ritual. Então, se uma bruxa fortalecer sua magia até um nível perigoso, e se suas intenções forem sombrias, ela com certeza não é inofensiva.
Jonas não sabia quantas bruxas existiam, apenas que, se alguém descendesse de um Vigilante exilado, havia uma chance de ter magia dentro de si.
— Imagino que esteja certa. E devemos agradecer que você seja a única que tem a quantidade de magia que tem.
Lucia não respondeu.
— Princesa? — ele perguntou, franzindo a testa. — Ainda tem sua magia, não é?
Ela hesitou.
— Enfraqueceu de novo. Não sei quanto tempo vai demorar para retornar totalmente a mim. Nem mesmo se é uma possibilidade. — Lucia olhou para trás, para onde ele estava. Seus olhos estavam arregalados e vidrados. Jonas ficou com o coração apertado.
— Você não é apenas uma bruxa comum — ele disse, balançando a cabeça. — É uma feiticeira. A feiticeira.
— Eu sei. Mas Lyssa… de algum modo, ela tem roubado minha magia desde a gravidez. Mas juro pela deusa, mesmo que não houver um vestígio de elementia dentro de mim, vou salvá-la, não importa o que tiver que fazer.
— E vou ajudar — Jonas disse com firmeza, mesmo assustado com a ideia de a magia dela não ser mais confiável para auxiliá-los na batalha contra Kyan. — Prometo.
— Obrigada. — Lucia o encarou nos olhos por um instante, antes de assentir e virar. — Agora, continue andando. Estamos quase chegando.
Jonas fez o que ela disse, um pé diante do outro.
Ele se obrigou a continuar caminhando mesmo que cada passo fosse um teste de sua coragem. Aquelas montanhas sempre fizeram parte de sua vida — uma imagem apavorante ao longe, visível de qualquer ponto de Paelsia.
Os dois entraram na região montanhosa, e qualquer resquício de vegetação que tivessem visto nos quilômetros anteriores desapareceu por completo. O céu estava nublado, como se uma tempestade se formasse e, mais distante, para além das montanhas, nuvens ainda mais escuras bloqueavam o sol.
Conforme mais se embrenhavam nas montanhas negras, Jonas percebeu que fazia mais frio ali do que em Limeros. Era um frio congelante, que chegava até os ossos e se alojava neles. O tipo de frio que ele sabia que não podia ser afastado com um cobertor e uma fogueira.
Ele esfregou o peito, a marca em espiral dos Vigilantes. O frio parecia tocar mais fundo precisamente naquele ponto, a ponta de uma lâmina procurando seu coração.
— Este lugar — ele disse. — Passa uma sensação de morte.
Lucia concordou.
— Eu sei. Há ausência de magia aqui… Ausência de vida em si. Pelo pouco que entendo, foi isso que escorreu sobre Paelsia por gerações, fazendo sua terra definhar e morrer.
Jonas observou os terrenos áridos. Ele estremeceu.
— Como um pêssego podre que começa a contaminar toda a cesta.
— Exatamente. Por sorte, no meio de toda essa morte está… aquilo.
Eles chegaram a uma colina cinzenta e rochosa e, do outro lado, para onde Lucia tinha apontado, havia uma paisagem que fez Jonas perder o fôlego.
Um grande fragmento de cristal roxo, da altura de três homens, emergia em meio a uma área de vegetação ao longe. Além daquele pequeno círculo de vida, havia apenas solo preto e queimado.
— Foi onde enfrentei Kyan — Lucia comentou com seriedade enquanto subia a colina íngreme que levava ao monólito. — Ele não estava em sua forma mortal. Estava como você viu no meu sonho.
Um monstro gigantesco feito de fogo.
— Você foi muito corajosa naquele sonho — ele disse, lembrando-se da garota sobre um manto que confrontou o deus de fogo e jurou que o deteria.
— Não posso dizer com sinceridade que fui tão corajosa na vida real. Mas isso… — Ela passou a mão no anel de ametista que sempre usava. — Isso me protegeu como supostamente protegeu Eva quando ela o usava. E Kyan explodiu. Achei que o tinha matado, mas apenas destruí o corpo que estava usando como veículo. Eu desmaiei e, quando acordei, estava no Santuário.
Jonas não conseguia mensurar como aquilo devia ter sido assustador. Enfrentar um monstro de verdade sem recorrer a ninguém, sem ter ajuda. Ele tinha julgado mal aquela garota por tempo demais. Lucia tinha passado por muita coisa; era um milagre continuar viva e sã.
Ele observou o monólito quando se aproximaram.
— Então isso é um portal para outro mundo, como as rodas de pedra?
— Sim — ela confirmou. — Foi daqui que se originou aquela magia, a capacidade de transitar entre os mundos. Só espero que, agora que estamos aqui, a passagem funcione mesmo que minha magia esteja tão instável.
— Tenho fé em você — Jonas disse. — E em sua magia.
Lucia virou para ele com olhos vermelhos, como se esperasse uma reação mais dura, mais crítica àquela declaração.
Em vez disso, Jonas abriu um pequeno sorriso para ela. Estava sendo sincero.
Apesar de qualquer intenção sombria que Timotheus tivesse atribuído a Lucia, a fé de Jonas nela tinha apenas crescido desde que o imortal lhe dera a adaga dourada.
Jonas se lembrou da visão sobre a qual Timotheus tinha lhe contado: Lucia com a adaga no coração e Jonas sobre ela.
Não, Jonas pensou. É impossível.
Ou ele estava errado, ou estava mentindo. O próprio Timotheus disse que via muitos futuros possíveis. Aquele era apenas um.
Jonas precisava de respostas do imortal. E exigiria saber a verdade sobre tudo.
Lucia já estava bem à frente, e Jonas deu vários passos para alcançá-la.
— Certo — disse a feiticeira ao virar para ele. — Agora vamos saber se essa jornada não passou de uma imensa perda de tempo.
Quanto mais perto chegava do monólito, melhor Jonas se sentia. O frio tinha se dissipado completamente, e um calor latejante fluía por seu corpo.
— Está sentindo isso? — ele perguntou, olhando para Lucia.
— Sim — ela respondeu.
— Veja — ele disse, apontando para a mão dela. — Seu anel… está brilhando.
Lucia levantou a mão e arregalou os olhos.
— Espero que seja um bom sinal.
O monólito também começou a brilhar, formando uma névoa violeta em volta deles.
— Acho que está me reconhecendo — ela sussurrou.
Jonas imitou Lucia e encostou a palma da mão sobre o cristal frio.
— Espero que não exploda.
Lucia riu, nervosa.
— Por favor, nem pense nisso.
O brilho do monólito logo se tornou tão intenso que Jonas precisou fechar os olhos para protegê-los da luz.
Quando os abriu, poucos instantes depois, não estavam no mesmo lugar de antes. Não mesmo.
Ele deu uma volta para observar o novo entorno. Os dois tinham ido parar em um campo gramado que lembrava a paisagem de fundo de seu último sonho com Timotheus.
— Funcionou? — ele perguntou, arqueando a sobrancelha e virando para a feiticeira a seu lado. — Ou estamos mortos?
— Você parece tão calmo, considerando que acabamos de viajar para outro mundo — ela comentou. Lucia o observou de cima a baixo, analisando-o de todos os ângulos. — Eu não tinha certeza se você poderia vir comigo para cá. Sua magia deve ser mais forte do que eu pensava. O que aconteceu… com certeza não aconteceria com qualquer pessoa.
Jonas teria respondido, mas estava ocupado demais observando a cidade radiante ao longe.
— Funcionou — ele respondeu, perplexo. — Este é o Santuário.
— É.
— Vou precisar de um tempo — ele disse. Jonas se abaixou, apoiando as mãos nos joelhos, tentando recuperar o fôlego. Sua mente estava acelerada. Um minuto antes, eles estavam nas Montanhas Proibidas, na frente de uma enorme pedra brilhante.
E agora estavam… no Santuário.
Ele sempre dizia que só acreditava no que podia ver com os próprios olhos. E podia ver aquilo. Tudo aquilo, de uma única vez.
Era real.
— Não temos tempo para descansar. — Lucia saiu andando na direção da cidade. — Precisamos encontrar Timotheus.
À primeira vista, tudo parecia bem normal — céu azul, grama verde, flores coloridas — e, ao longe, uma cidade com construções altas e douradas.
Mas, ao mesmo tempo, nada era normal, Jonas pensou, enquanto passavam por duas rodas de pedra gigantescas sobre o terreno verde entre o campo e a cidade de cristal.
— O que são essas coisas? — ele perguntou.
— São os portais que os imortais usam para adentrar nosso mundo — Lucia explicou. — Em forma de falcão.
Jonas se deu conta de que não via nenhum falcão havia algum tempo. Pelo menos não do tipo grande e dourado como os que sabia serem imortais espiões.
Talvez simplesmente não estivesse prestando muita atenção.
Depois dos portais de pedra, Jonas avistou outras diferenças entre o Santuário e o mundo mortal. As cores ali eram mais vibrantes, como as de pedras preciosas. A grama era de um tom vivo de verde-esmeralda, e as flores vermelhas que pontuavam o campo pareciam rubis. O céu era bem azul — da cor de um dia de verão, sem nenhuma nuvem.
Mas não havia sol, apenas uma fonte de luz indeterminada.
— Onde está o sol? — ele perguntou.
Lucia observou o céu, protegendo os olhos da claridade.
— Parece que eles não têm sol aqui. Mas é sempre dia.
Jonas balançou a cabeça.
— Como é possível?
— Vamos nos concentrar em chegar à cidade, que tal? Então você vai poder fazer as perguntas que quiser a Timotheus. Espero que tenha mais sorte do que eu em obter respostas.
A cidade tinha altas muralhas de proteção, muito parecidas com as da Cidade de Ouro, mas os portões ficavam abertos e desprotegidos.
Lucia hesitou apenas por um instante antes de atravessá-los e entrar na cidade.
Jonas não sabia lidar com tudo o que estava vendo. Cidade de Ouro e Pico do Falcão eram as duas cidades mais ricas de Auranos. Havia ouro incrustado nas pedras das estradas cintilantes, e ambas eram imaculadamente limpas. Nenhuma das duas, no entanto, chegava aos pés daquela em termos de beleza e fascínio. Parecia totalmente feita de cristal, prata e vidro transparente e delicado. Mosaicos brilhantes e coloridos cobriam o labirinto de estradas que os conduziam por aquele verdadeiro sonho.
Os prédios eram mais altos do que qualquer coisa que Jonas já tivesse visto, ainda mais altos do que os palácios em Auranos e Limeros, com torres que iam até o céu. Ali, cada estrutura individual era estreita, com cantos angulosos e irregulares que o faziam se lembrar do próprio monólito. Eram duas vezes mais altas que uma torre de sentinela, mas Jonas nunca tinha visto uma torre feita de outro material além de pedra e tijolos.
— Incrível — Jonas murmurou. — Mas onde está todo mundo?
Lucia não parecia tão impressionada com a vista; ela estava ocupada demais adentrando a cidade.
— Não há muitos imortais aqui, considerando o tamanho da cidade — ela respondeu. — Talvez uns duzentos, mais ou menos. Faz o lugar parecer completamente vazio.
— Faz mesmo — ele concordou.
— Mas é estranho — ela disse, franzindo a testa. — Achei que já teríamos visto alguém a esta altura.
Jonas notou o desconforto na voz dela e ficou preocupado.
Ele seguiu Lucia até uma clareira que parecia ter cerca de duzentos passos de diâmetro. No centro, havia uma torre três vezes mais alta do que qualquer outra na cidade, que subia na direção do céu como um feixe brilhante de luz.
— Essa torre é o lar dos anciãos — Lucia explicou. — É como um palácio. Quando estive aqui, todos os outros imortais se reuniram nessa praça para ouvir um anúncio de Timotheus.
Jonas observou o local vazio, franzindo a testa.
— Alguma coisa parece errada, princesa — ele disse. — Está sentindo?
Ele não sabia dizer exatamente o quê. Era como o frio no ar que tinha sentido nas Montanhas Proibidas, pouco antes de chegarem ao monólito de cristal. Apesar de toda sua beleza intensa e mística, a cidade passava uma sensação de…
Morte, ele pensou.
Lucia concordou.
— Também estou sentindo. Onde está todo mundo? Isso não está certo.
— Será que estão preocupados por duas pessoas terem passado pelos portões da cidade inesperadamente? — ele perguntou.
— Não me notaram da última vez, não de imediato. Mas então conheci Mia, a garota da taverna.
— Aquela que não se lembra de nada.
Lucia assentiu, muito séria.
Então, de canto de olho, Jonas viu algo cintilar na parede de uma das torres. Claro e escuro, claro e escuro, como um piscar de olhos rápido.
Estava mudando de cor, de um prateado brilhante para…
A imagem de um senhor.
Lucia ficou boquiaberta.
— Timotheus?
Jonas se virou para o que, de fato, parecia um Timotheus muito velho, de cabelo branco e rosto enrugado.
— Sim, sou eu — disse a imagem. — Seus olhos não os estão enganando.
Jonas percebeu que não era apenas uma imagem — era Timotheus, aparecendo de algum modo na lateral daquela torre e observando-os no meio daquela gigantesca praça vazia.
— O que aconteceu? — Lucia perguntou com os olhos arregalados. — Por que você está assim?
— Porque estou morrendo — Timotheus respondeu em voz baixa e distante.
— Como assim, morrendo? — Jonas questionou. — Você é imortal. Não pode morrer!
— É claro que imortais podem morrer — ele respondeu. — Só demoramos muito mais que os mortais.
— Timotheus… — Lucia deu um passo à frente, os ombros tensos. — Preciso urgentemente falar com você.
Timotheus balançou a cabeça.
— Você não devia estar aqui. Tive uma visão de que ambos viriam, mas tive esperanças de que mudassem de ideia. Infelizmente, não mudaram. Mas precisam ir embora agora mesmo.
Lucia cerrou os punhos.
— Não posso ir embora! Kyan pegou minha filha, e minha magia… está fraca. Não sei se consigo aprisioná-lo e os outros. — A voz dela estava tremendo. — Preciso salvar minha filha, e não sei como. Vim pedir sua ajuda.
— Não posso ajudá-la — ele respondeu com seriedade. — Não mais.
— Mas você precisa — Jonas disse, dando um passo para a frente. — Precisamos de respostas. Viemos até aqui. Nem sei como é possível eu estar aqui.
— Não sabe? — Timotheus riu. — Meu jovem, você tem tanta magia neste momento que estou surpreso por não estar transbordando por sua pele.
Ele era capaz de sentir aquilo? Jonas não se sentia diferente de antes.
— Como sabe disso?
— Porque eu mesmo coloquei uma boa quantidade de magia dentro de você.
Jonas ficou surpreso.
— Você o quê?
— Alguns mortais, no decorrer dos séculos, se revelaram excelentes portadores de magia. Você é um deles.
Lucia alternou o olhar entre eles.
— Ele é um portador de magia? Como assim?
— Assim como um mortal rico usa um banco para armazenar ouro, e o mesmo banco para pedir empréstimos — Timotheus explicou. — Esse é o propósito de Jonas e parte de seu destino. Achei que ele seria muito útil, e está sendo.
— Espere — Jonas disse. — O que está dizendo? Você colocou a maior parte dessa magia em mim? Como fez isso?
Timotheus olhou para ele pacientemente.
— Você não entenderia nem se eu explicasse. E não há tempo para explicações.
— Arrume tempo — ele resmungou. — Já sei que a magia dentro de mim veio de Phaedra, quando ela morreu depois de salvar minha vida, e de Olivia, da magia que usou para me curar…
— Sim. E foi como eu soube que você era um veículo. Eu lhe dei mais magia no último sonho que lhe visitei, o máximo que pude. Você já sabe que o que é compartilhado em sua mente inconsciente pode virar realidade.
A adaga dourada. Então Timotheus tinha transferido magia para Jonas, assim como tinha lhe dado a adaga, que havia viajado de um mundo a outro.
Ele ficou observando, perplexo, a gigantesca forma de Timotheus na lateral da torre. O imortal parecia um homem, andava e falava como um homem.
Mas não era um homem. Era um deus.
Todos os imortais eram deuses.
Para alguém que nunca tinha acreditado em ninguém nem nada… aquela era uma revelação impressionante.
— Por que colocou sua magia dentro de mim? — Jonas perguntou, agora mais hesitante. — Porque sabia que ficaria fraco desse jeito?
— Em parte — Timotheus reconheceu.
— E agora? Você a pega de volta, se recarrega, e se recupera?
Timotheus encarou os dois por um instante, os lábios franzidos, pensativo.
— Não.
— Não? — Lucia perguntou, aturdida. — Como assim, não? Eu preciso de você, Timotheus. Ninguém mais pode me ajudar. Kyan sequestrou minha filha e tenho medo de não poder salvá-la!
— Eu vi seu futuro, Lucia Damora — Timotheus disse com calma. — Eu a vi ao lado do deus do fogo, com as esferas de cristal, movendo os lábios para completar o ritual que dará poder a ele e aos outros três. Mais poder do que já tiveram. E você o faz de livre e espontânea vontade, assim como ficou ao lado do penhasco naquela noite fatídica, pronta para ajudá-lo a destruir o mundo. Você está aliada a Kyan, e qualquer desculpa relacionada a Lyssa é apenas isto: uma desculpa.
O rosto de Lucia ficou vermelho, os olhos repletos de fúria.
— Como ousa me dizer uma coisa dessas? Não estou aliada a Kyan, eu o odeio!
Timotheus deu de ombros.
— Nós não mudamos. Somos quem somos durante a vida toda. Podemos experimentar outros caminhos, mas nunca funciona. Eu não sou diferente. Fui criado para ser guardião deste lugar — ele moveu a mão enrugada na direção do terreno que ficava além dos portões da cidade — e do mundo mortal. Eu tentei, realmente tentei. E ainda estou tentando neste exato momento, mas estou fracassando, e todos os outros iguais a mim fracassaram. Acabou, Lucia. A luta terminou e nós perdemos. A intenção nunca foi que vencêssemos.
Jonas estava ouvindo em silêncio o que o imortal dizia e prestando atenção na reação de Lucia, compartilhando sua indignação.
— É isso? Você está desistindo? Simples assim?
— Você não sabe por quanto tempo e com tanto afinco eu lutei para chegar a este ponto — Timotheus respondeu, exausto. — Achei que existia uma chance, e fiz o que pude para ajudar. Mas, no final, nada importa. O que tiver que acontecer vai acontecer. E precisamos aceitar.
A fúria de Jonas começou a fervilhar. Ele se aproximou mais da torre como se pudesse alcançar a imagem e puxar Timotheus para fora dela.
— Isso é muito típico de você, falar em enigmas, mesmo agora. Lucia precisa de sua maldita ajuda para consertar essa bagunça, e você está aí em cima com sua… sei lá que magia está usando agora, olhando para nós. Afastado de tudo, são e salvo em sua torre gigantesca, enquanto estamos aqui fora, lutando, sangrando e morrendo.
— Lutando, sangrando, morrendo… — Timotheus balançou a cabeça. — É isso que fazem os mortais. Passado, presente e futuro. O pouco futuro que resta, de qualquer modo. Tudo termina. Nada é de fato imortal.
— Timotheus… — O tom de voz de Lucia tinha se acalmado. Ela entrelaçou as mãos diante do corpo e olhou para a imagem na lateral da torre. — Onde estão os outros para ajudar você?
— Os outros se foram — ele respondeu sem rodeios.
— Eu… eu vi Mia. Eu a vi em um vilarejo paelsiano, não muito longe do monólito. — Ela balançou a cabeça. — Não conseguia se lembrar de nada, nem de ser imortal, nem do Santuário, nem de já ter me conhecido.
— Você fez isso com ela — Jonas disse, preenchendo as lacunas sozinho. — Você a machucou, roubou sua memória. E a dos outros também.
— Tirando conclusões precipitadas, como sempre — Timotheus respondeu. — Apressado em suas decisões, precipitado, ousado e, com frequência, errado.
— Então o que aconteceu de verdade? — Lucia perguntou.
Jonas não queria ouvir mais nenhuma mentira. Tinha sido uma perda de tempo ir até lá. Ele estava prestes a dizer aquilo quando Timotheus finalmente respondeu:
— Cobrei um favor de uma velha amiga — ela disse. — Com recursos e magia para apagar memórias. Restaram tão poucos de nós, e ninguém além de mim sabia a verdade sobre o que esse lugar tinha se tornado. Eles só achavam que era uma bela prisão, de onde podiam sair em forma de falcão para observar a vida dos mortais. No decorrer dos séculos, alguns escolheram ficar em seu mundo como exilados, e sua magia foi desaparecendo durante suas limitadas vidas. Descobri que exilados costumam ficar felizes com sua decisão de partir e viver a vida de um mortal, imperfeita, curta e repleta de belas falhas.
— Então deu essa chance a eles — Lucia disse quase num sussurro. — A todos que restaram. Você os exilou e mandou apagar suas memórias para que pudessem viver uma vida mortal sem laços com o Santuário.
Timotheus assentiu.
Jonas queria odiá-lo. Queria puxar a adaga dourada que, de algum modo, Timotheus tinha lhe dado por meio do sonho, e arremessá-la na torre, bem ali, naquele exato momento.
Mas não o fez.
Ele observou o rosto velho e cansado do imortal, que tinha vivido incontáveis séculos, com uma pergunta que precisava fazer desesperadamente.
— Por que não fez o mesmo com você? — Jonas questionou. — Se o que diz é verdade, por que não optou por viver uma vida repleta de belas falhas como um mortal?
— Porque — Timotheus disse com tristeza — eu precisava aguentar um pouco mais. Precisava ter a esperança de que, nos últimos momentos, alguém pudesse me surpreender.
— Surpreendê-lo como? — Lucia perguntou.
— Provando que estou errado.
— Desça até aqui — Lucia lhe pediu. — Me ajude a aprisionar a Tétrade. Tudo vai voltar ao normal, aqui e no mundo mortal. Você vai se recuperar do que aconteceu e… e depois vai poder ser o que quiser, onde quiser.
— Eu tinha esperança de que isso fosse possível, mas é tarde demais. — Ele olhou para baixo, balançando a cabeça. — O fim chegou. Finalmente, depois de todos esses anos. E agora, se tiverem alguma esperança de sobreviver, vocês devem…
Ele hesitou, como se uma onda de dor o tivesse atingido. Quando voltou a encarar os dois, seus olhos brilhavam com uma estranha luz branca quase ofuscante.
— O que foi? — Jonas perguntou quando Lucia agarrou seu braço. — O que devemos fazer?
— Vocês devem correr — Timotheus disse. E depois gritou: — CORRAM!
O brilho em seus olhos era tão forte que a imagem inteira de Timotheus ficou branca, e então ele desapareceu por completo.
Um feixe de luz penetrante explodiu na torre estreita, junto com um som agudo e atormentador. Jonas cambaleou para trás, afastando-se da torre, e tapou os ouvidos com as mãos, encarando os olhos arregalados de Lucia.
Quando o som parou, Lucia virou para a torre.
— Ele está morto. Timotheus está morto!
Jonas a encarou, chocado.
— Morto? Como pode ter certeza disso?
Ela observou desesperada os arredores, como se procurasse algo específico.
— A magia dele se foi. Era a única coisa que impedia que este mundo se destruísse por completo. Por isso ele ficou aqui. Por isso nunca deixava o lugar em sua forma física.
E então Jonas ouviu um som de rachadura ao longe que parecia um trovão durante uma forte tempestade paelsiana. Mas muito mais alto. Muito maior. Quando olhou para a grande torre prateada, o novo reflexo na superfície fez seu sangue congelar.
Além das muralhas da cidade, o mundo estava desabando. Literalmente desabando. Grandes pedaços de terra desmoronavam da lateral de uma colina. O céu azul e sem nuvens se estilhaçava como vidro e caía, revelando uma noite muito escura. Colinas verdes e campos caíam em um abismo negro sem fim.
Jonas ficou paralisado ao testemunhar todo aquele horror — um pesadelo tornando-se realidade.
— Jonas! — ela gritou. — Jonas!
Ele finalmente olhou para Lucia quando a primeira torre de cristal caiu, despedaçando-se dentro de uma fenda.
— Eu me recuso a morrer aqui — ela disse, agarrando-o pelo punho. — Ainda temos muito a fazer. Vamos!
Ele não discutiu. Só correu ao lado dela na direção da torre. Lucia procurava desesperadamente uma porta, até que uma se abriu, como que do nada.
— Aonde estamos indo? — ele perguntou.
— Tem outro monólito aqui. Foi como Timotheus me mandou de volta para o mundo mortal da última vez.
Os dois percorreram um longo corredor até chegarem a uma pesada porta de metal. Lucia pressionou a palma da mão nela.
Nada aconteceu.
— Vamos! — ela gritou para a porta, tentando de novo, dessa vez pressionando as duas mãos contra o metal frio.
A porta finamente abriu.
— Podemos usar o monólito para escapar? — Jonas perguntou.
— Para ser sincera, não tenho certeza se vai funcionar. Então, se acreditar em algum deus ou deusa que já existiu, é hora de começar a rezar.
Ele quase gargalhou.
— E se eu simplesmente acreditar em você?
Lucia o encarou nos olhos por um instante e logo o puxou para o cômodo seguinte. Lá dentro havia um monólito violeta brilhante — uma versão menor do que estava nas montanhas.
— Ele sabia — Lucia disse, e Jonas mal conseguiu ouvi-la por causa do barulho da destruição do Santuário. — Timotheus garantiu que tivéssemos como sair antes de morrer.
O chão tremeu, e, a cada passo, pedaços do lugar começavam a se desfazer.
— Feche os olhos — Lucia gritou, agarrando a mão de Jonas e tentando encostar na superfície do cristal.
Com o contato, ele começou a brilhar cada vez mais. O barulho que emitia era ensurdecedor, como uma série de trovões.
Jonas sentiu Lucia apertar sua mão com mais força.
Aquele mundo estava acabando, e os estava levando junto…
Mas então o monólito desapareceu. O cômodo desapareceu.
E os dois estavam no meio de outro campo, próximo à roda antiga e desgastada que se projetava do chão.
Jonas observou ao redor, quase sem acreditar no que tinha acabado de acontecer.
— Conseguimos. Nós conseguimos! Você, Lucia Damora, é absolutamente incrível!
— Funcionou — ela disse, exausta. — Não acredito que realmente…
Jonas segurou o rosto de Lucia com as duas mãos e encostou os lábios nos dela, num beijo demorado e intenso. Quando finalmente se afastou, ele cambaleou para trás, aturdido.
Ela vai me matar por isso, pensou.
Lucia o encarou com olhos arregalados e dedos pressionados nos lábios.
— Por que você diria uma coisa dessas?
— O quê? — ele perguntou.
— Que eu mataria você.
Jonas ficou olhando para ela, confuso.
— Eu não disse nada. Eu… eu só pensei.
— Você pensou? — Ela o analisou com atenção. — Está ouvindo isso?
Os lábios de Lucia não se moveram, mas, ainda assim, ele ouviu claramente sua voz. Cada palavra.
O coração de Jonas disparou.
— Posso ouvir seus pensamentos. Como isso é possível?
— Você tem a magia de Timotheus dentro de si. Deve ser por isso que conseguiu entrar no meu sonho.
— Ele sabia que isso ia acontecer? — Jonas pensou, perturbado e intrigado com as possibilidades ao mesmo tempo.
Então Lucia falou em voz alta.
— Não posso lidar com isso agora. Preciso me concentrar em Lyssa e…
Ela soltou um grito e sucumbiu no chão. Jonas estava ao lado dela em um segundo, ajoelhando-se sobre a grama alta.
— O que foi? — ele perguntou, afastando o cabelo escuro do rosto dela.
— É Kyan… — ela respondeu com um sussurro aflito. — Eu o senti agora mesmo, dentro da minha cabeça.
— O quê? Como?
— Eu não sabia que isso era possível. Eu… eu tentei invocá-lo no palácio, depois que Lyssa foi levada, mas não consegui. Agora acho que ele está… me invocando.
Jonas praguejou em voz baixa, depois a ajudou a se levantar.
— O que quer que ele esteja fazendo nesse momento, ignore. Ele não tem poder sobre você.
— Ele está com Lyssa. — A voz dela falhou.
Jonas observou ao redor, avistando a silhueta de uma cidade familiar à distância.
— Acho que estamos em Auranos. Ali está… É Pico do Falcão. Significa que estamos a poucas horas do palácio.
O rosto de Lucia empalideceu, e seus olhos pareceram assombrados.
— É onde ele está.
— O quê?
— Na Cidade de Ouro — ela sussurrou. — Ele está na Cidade de Ouro neste instante. E quer que eu vá até ele. Ele está mais forte… muito mais forte do que antes. — Ela soltou um suspiro trêmulo. — Ah, Jonas… eu sinto muito.
Ele franziu a testa.
— Por quê?
Lucia tocou o rosto dele, encostando as palmas junto às bochechas e puxando-o para perto. Ele não resistiu. Por um instante, um segundo, teve certeza de que ela o beijaria de novo.
Lucia o encarou profundamente.
— Preciso tomar tudo desta vez. Timotheus devia saber que eu precisaria disso. Que eu faria isso. Ele sabia de tudo.
— O quê…?
Então Jonas sentiu uma sensação dolorosa de esvaziamento, como havia sentido na noite da tempestade, na noite em que tinha dado parte de sua magia a Lucia para que sobrevivesse ao parto de Lyssa. Mas era pior — mais profundo, de certa forma, como se a feiticeira estivesse roubando não apenas a magia, mas a própria vida dele, como se o tivesse apunhalado, e seu sangue se esvaísse, não lentamente, mas em um fluxo repentino e volumoso.
Antes que conseguisse processar o que aquilo significava, um frio recaiu sobre ele como um cobertor pesado. Jonas tentou se mexer, tentou se afastar, mas era impossível. Ele caiu em uma escuridão sem fim, da qual não sabia se retornaria.


Mas retornou.
Jonas acordou devagar, sem saber quanto tempo havia se passado. Ainda estava claro, e ele estava deitado ao lado da roda de pedra.
Lucia tinha ido embora.
Ele se levantou com dificuldade, depois abriu a parte da frente da camisa. Restava apenas um pequeno rastro da marca em espiral em seu peito.
Lucia tinha roubado sua magia e, ele sabia, sem sombra de dúvida, que quase tinha levado sua vida no processo.
Jonas tateou o cinto em busca da adaga, a arma que lhe foi dada para supostamente destruir a magia e matar a feiticeira se não houvesse outra opção.
Lucia passou para o lado de Kyan no momento em que ele a invocara. Não importava se havia feito aquilo para salvar a vida da filha. Deviam existir outras soluções, outras opções. Jonas teria ajudado, bastava que ela pedisse.
Mas ela não tinha mudado, afinal.
Timotheus acreditava que o destino de Lucia era ajudar a Tétrade a destruir o mundo. E Jonas sabia que o seu destino era impedi-la.

Um comentário:

  1. Aaaah que ódio da Lucia! Traira, como pôde fazer isso com o Jonas, depois de tudo que ele fez por ela!

    Espero que Lucia morra no final, nunca fiu muito com a cara dela

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Boa leitura, E SEM SPOILER!