16 de setembro de 2018

Capítulo 27

AMARA
PAELSIA

— Cinquenta e três morreram no ataque dos rebeldes, imperatriz, muitos deles pisoteados pela multidão.
— Que pena. — Amara tomou um gole de vinho enquanto Kurtis lhe dava as notícias do dia. — Eles me odeiam? Esses pobres violentos?
— Não. A simpatia entre os paelsianos por você continua alta.
— Ótimo.
— Quer que executemos os prisioneiros? — Kurtis perguntou enquanto cutucava o curativo. — Eu sugiro uma decapitação rápida em público, e também fincarmos a cabeça dos outros rebeldes mortos em lanças, para mostrar a todo mundo que crimes assim não serão tolerados.
Amara arqueou uma sobrancelha enquanto pensava na sugestão.
— É assim que as execuções públicas são feitas aqui?
Ele confirmou.
— Em Limeros, sim, imperatriz.
— Em Kraeshia, meu pai gostava de amarrar os prisioneiros em postes, arrancar a pele deles vivos e os deixar ali até pararem de gritar. Não costumava demorar muito. Testemunhei muitas dessas execuções em minha vida.
Kurtis empalideceu.
— Isso pode ser feito se a imperatriz desejar.
Ela o encarou.
— Não, não é o que a imperatriz deseja.
A única coisa que a imperatriz desejava era que Kyan finalmente voltasse de suas viagens e lhe desse mais informações sobre como liberar o ser poderoso dentro de seu cristal da água.
Apesar de ser uma pena, no fim das contas a vida de alguns paelsianos não importava. E uma tentativa fracassada de assassinato cometida por um ex-amante também não importava. Só a magia importava.
Em silêncio, Nerissa encheu a taça de vinho de Amara.
— Sem execução — Amara disse a Kurtis, correndo o dedo pela borda da taça. — Eles podem ficar no buraco até eu decidir o que fazer com eles.
Chefe Basilius tinha sido gentil o bastante em deixar uma prisão engenhosa. No centro de seu complexo cercado por muros, havia um grande fosso de nove metros de profundidade, com paredes de arenito. Não havia como escapar dali, mas Amara tinha pedido a dez guardas para vigiar Felix e Taran caso conseguissem criar asas e voar.
— Perdoe-me por dizer isso, imperatriz — Kurtis continuou —, mas devo expressar minha preocupação mais uma vez a respeito de permanecer em Paelsia por muito mais tempo. Como pôde testemunhar, apesar de ter ganhado o povo com as promessas que fez, os paelsianos são muito perigosos e partem para a violência depressa, como animais encurralados e feridos. E se houver mais facções rebeldes aqui em Mítica… sem falar das que podem chegar de fora… — Ele estremeceu. — Este lugar é perigoso demais.
Amara fechou os olhos com força quando sua cabeça começou a latejar por causa do som agudo da voz dele.
— E o que sugeriria, lorde Kurtis?
— Sugiro seguir até Auranos, para a Cidade de Ouro e o palácio real de lá. Garanto que seria muito mais adequado para vossa grandeza.
— Sei que o palácio é lindo, lorde Kurtis. Já estive lá.
— Já escrevi a meu pai a respeito dessa possibilidade, e ele a aprova com entusiasmo. Haverá um grande banquete em sua homenagem, e o maior alfaiate do Pico do Falcão, Lorenzo Tavera, será contratado para criar uma roupa esplendorosa para que receba seus súditos auranianos.
Amara olhou para Kurtis com tanta intensidade que ele deu um passo para trás, hesitante.
— Não sei — ela disse em voz baixa, ainda passando o dedo devagar pela borda da taça. — O que acha, Nerissa?
Nerissa demorou um pouco para responder.
— Acho que o lorde Kurtis tem razão quando diz que Lorenzo Tavera criaria uma roupa magnífica. Foi ele quem fez o vestido de noiva da princesa Cleiona.
— Mas e a mudança para lá?
— Acho que isso depende da senhora, vossa graça.
— Lorde Kurtis. — Amara inclinou para a frente para observar o grão-vassalo, agarrando-se ao resto de paciência que ainda tinha dentro de si. — Acho uma ótima ideia. No entanto, não estou pronta para sair de Paelsia ainda. Você pode ir em meu lugar para supervisionar pessoalmente a criação desse vestido e a preparação do banquete. E vá agora.
— O quê? — Kurtis franziu a testa. — Eu… eu quis dizer que todos nós deveríamos ir. Sou seu conselheiro real e…
— E é exatamente por isso que é tão importante que seja a pessoa que vai me representar lá.
— Mas eu esperava estar presente quando o príncipe Magnus finalmente fosse preso.
— Imagino. Mas como você disse de modo tão gracioso, outros assuntos são muito mais importantes para mim, como vestidos e banquetes em Auranos. — Amara balançou a mão para afastá-lo. — Você deve deixar o complexo ao anoitecer. É uma ordem, lorde Kurtis.
Ele contraiu o maxilar, e por um momento, Amara achou que fosse contra-argumentar. Esperou, considerando tirar a outra mão dele como castigo pela insubordinação.
Mas o grão-vassalo assentiu com firmeza.
— Sim, imperatriz. Como quiser.
Kurtis saiu da sala.
Amara fez um gesto para um guarda perto da porta.
— Cuide para que ele faça exatamente o que ordenei.
O guarda fez uma reverência e seguiu Kurtis.
— Bem, pequena imperatriz, parece mesmo que você tem tudo sob controle por aqui.
Amara segurou com força a taça dourada ao ouvir a voz de Kyan, algo inesperado depois de três dias de silêncio.
— Você também pode sair, Nerissa — disse Amara.
— Sim, imperatriz. — Nerissa fez uma reverência e obedeceu.
Se todo mundo fosse tão obediente e tão disposto como Nerissa Florens, a vida seria muito mais tranquila e simples, Amara pensou enquanto observava a adorável criada sair da sala e fechar a porta.
— Quando realizaremos o ritual? — ela perguntou.
— É com essas palavras que você me recebe depois de minhas andanças? Devo dizer que estou decepcionado, pequena imperatriz.
— Não sou uma pequena imperatriz — ela falou mais alto. — Sou imperatriz.
— Você está incomodada. Comigo ou com o mundo em geral?
— Quase morri enquanto você estava longe. Rebeldes tentaram me assassinar aqui, para onde você me disse para vir. O lugar onde você prometeu que eu me tornaria mais poderosa do que qualquer um.
— Mas você está viva e parece muito bem. Obviamente, fracassaram.
— Não graças a você. — Ela parecia não conseguir controlar a impaciência naquele dia, nem mesmo na presença de um deus.
— E o que gostaria que eu fizesse se estivesse a seu lado? Você tinha uma tocha que eu poderia ter acendido para afastar os rebeldes? Já expliquei que o poder total do que sou está reprimido nessa forma incorpórea.
— Sim, você explicou. — Ela levantou para olhar pela janela para a arena onde cinquenta e três pessoas, incluindo Nic, o amigo de Cleo, tinham sido mortas. Havia manchas de sangue no chão. — Na verdade, além do fogo mais forte em minha lareira em Limeros e algumas velas acesas, não vi sinais de sua magia. Ouvi falar tanto a respeito da magia da Tétrade que devo confessar que estou decepcionada.
— Compreendo sua impaciência, pequena imperatriz, já que a vida de um mortal é curta, mas faço um alerta para que não fale com tanto desrespeito comigo.
Amara se esforçou para controlar a raiva que só aumentava.
— Preciso voltar para Kraeshia e para a minha avó para ajudá-la a lidar com os últimos vestígios da revolução lá. Ela está velha… não deveria ter que assumir tanta responsabilidade com a idade que tem.
— O ritual está mais próximo do que você pensa. Consegui reunir as peças de que vamos precisar. Mas precisaremos de sacrifícios. O sangue será necessário para fortalecer essa magia, já que ela não vem da própria feiticeira.
— Há possíveis sacrifícios esperando. — Ela detestava ficar esperançosa, mas as palavras dele apertaram seu coração. — Quando começamos?
— Quando a tempestade vier, tudo será revelado.
Amara estava prestes a falar mais, talvez jogar a taça do outro lado da sala, frustrada, e exigir uma explicação mais clara, mas uma batida à porta interrompeu seus pensamentos.
— O quê? — ela perguntou.
Um guarda abriu a porta e fez uma reverência para ela.
— Imperatriz, a princesa Cleiona de Auranos está nos portões do complexo e pediu para vê-la. Deseja recebê-la ou devemos jogá-la no fosso com os outros?
Amara encarou o homem, sem saber se tinha ouvido direito.
— Ela está sozinha?
— Trouxe um guarda limeriano.
— Mais ninguém?
— Mais ninguém, imperatriz.
— Quero vê-la. Pode trazê-la agora mesmo.
— Sim, imperatriz.
— Então, parece que ela sobreviveu… — Amara disse bem baixo. — E depois de tudo, vem a mim?
O que aquilo significava? Cleo devia saber que Amara a queria morta pelo que tinha acontecido entre as duas.
— Princesa Cleiona — Kyan disse. — Conheço esse nome. Eu já a vi. A feiticeira a detesta.
— Tenho certeza de que muitas pessoas detestam Cleo.
— Você acredita que a chegada dela seja algum truque?
— O que você acha?
— Quero saber o que você acha.
Amara lançou um olhar sério na direção de onde vinha a voz sem corpo.
— Estou começando a achar que Cleo pode ser mais útil do que você. Quando essa tempestade misteriosa de que você fala vier, me avise, por favor.
Amara esperou a resposta dele, mas não recebeu. E se amaldiçoou por ter sido sincera com uma criatura tão imprevisível.
Não importava. Ainda que ela o tivesse desagradado de alguma forma, Kyan logo lembraria que, se quisesse completar o ritual sanguinário ali, precisava da ajuda dela tanto quanto ela precisava da dele.
Não demorou muito para Cleo entrar na sala, acompanhada dos guardas de Amara. Seu rosto estava vermelho; o olhar, furioso. O vestido que usava estava rasgado e havia manchas de sujeira em seu rosto e nos braços nus.
— Você lutou contra meus guardas? — Amara perguntou, erguendo uma sobrancelha.
— Tratada com tamanho desrespeito, eu lutaria com qualquer um — Cleo respondeu com seriedade.
Amara olhou para o guarda.
— Onde está o subordinado dela?
— Está sendo mantido em uma sala de interrogatório — o guarda respondeu.
— Não precisa fazer isso. Deixem-no com os outros prisioneiros, mas não o machuquem. Ainda não.
— Sim, imperatriz.
— Deixem-nos a sós. E fechem a porta.
Os guardas se entreolharam, e Amara percebeu que os dois tinham arranhões recentes no rosto.
— Tem certeza de que não quer proteção? — um deles perguntou.
— Façam o que mandei — Amara disse entredentes.
— Sim, imperatriz.
Eles saíram e fecharam a porta.
Amara sentou e encheu mais uma taça de vinho.
— Eu ofereceria um pouco a você, Cleo, mas receio que tente quebrar essa garrafa na minha cabeça de novo. — Ela fez uma pausa para tomar um gole da taça de vinho doce. — Você veio aqui para pedir desculpas e para implorar minha misericórdia?
— Não — Cleo respondeu apenas.
— Pensei que estivesse morta, enterrada sob a neve perto da quinta do lorde Gareth.
— Como pode ver, estou muito viva.
— Com certeza está. — Amara a observou por cima da borda da taça. — Muitos de meus soldados foram mortos na noite da sua fuga. Foi você quem fez isso?
— Se eu responder a essa pergunta com sinceridade, vou ganhar seu respeito ou você vai me jogar em sua masmorra?
— É um fosso, na verdade. Bem eficiente. E isso depende da resposta.
— Ótimo. — Cleo assentiu. — Eu precisava me defender. Então, sim, eu os matei.
— Com arco e flecha.
— Só a flecha. Admito que ainda preciso dominar a arte do arco e flecha.
— Como conseguiu matar homens com o dobro do seu tamanho só com uma flecha?
— Minha aparência faz os homens pensarem que sou inofensiva.
— Mas está longe disso, não é? — Amara não conseguiu deixar de sorrir quando recostou na cadeira, tomou mais um gole da taça e observou a moça à sua frente, que a havia surpreendido com sua sede por sobrevivência a qualquer custo. — Você não parece mais da realeza. Seu vestido está rasgado, o cabelo está despenteado. Você parece mais uma camponesa.
— Para parecer membros da realeza, precisamos de tempo e criados. Ultimamente, tenho apenas tentado sobreviver para ver o sol nascer no dia seguinte e, claro, lutado contra seus guardas quando tentam me arrastar por aí como se eu fosse uma boneca de pano.
Algo naquela reunião, na coragem de Cleo ao visitar uma inimiga sem qualquer vestígio de medo nos olhos, conquistou o respeito de Amara.
— Ofereci uma aliança quando conversamos pela última vez. Acredito que você já me deu sua resposta. — Ela esfregou a nuca depressa, que tinha cicatrizado, restando só a lembrança do ferimento. — Fiquei muito irritada com sua escolha, já que achava que poderíamos ser uma boa equipe.
— Ainda podemos — Cleo respondeu de imediato.
Não surpreendia que a garota tivesse mudado de ideia depois de perder tudo o que valorizava.
— Peço desculpas — Cleo disse um momento depois —, mas estou viajando há tanto tempo que tenho a sensação de que meus pés cairão se eu não sentar agora mesmo.
Amara indicou uma cadeira próxima.
— Por favor.
Cleo sentou largando o peso do corpo sobre a cadeira.
— Não estou aqui para perder mais tempo. Suas palavras podem ter sido incentivadoras da última vez em que conversamos, mas suas atitudes nunca me deram muita esperança de uma aliança entre nós. Você me culpa de verdade pelo modo como reagi, independentemente do que me prometeram?
— Agradeço sua sinceridade. Não, acho que quanto mais penso nisso, menos culpo você por quase ter estourado minha cabeça. — Ela forçou um sorriso. — Acredito que eu teria feito a mesma coisa se estivesse no seu lugar.
— Não sei se você teria feito.
Amara balançou o vinho na taça meio distraída, observando o líquido.
— Nunca fui sua inimiga, Cleo.
— Você queria a Tétrade e estava disposta a fazer o que fosse preciso para tê-la.
— Verdade. — Amara olhou para ela por um momento. — Você proclamou Magnus como rei durante seu discurso aos paelsianos, apesar de a família dele ter roubado seu trono. Por quê?
A expressão de Cleo ficou séria.
— Porque odiei o pai dele por ter entregado Mítica a você com tanta facilidade. O povo limeriano não estava pronto para me aceitar como rainha, por isso mostrei a eles um rei um pouco menos repugnante do que o pai de Magnus.
— Então não foi porque você se apaixonou por ele.
— Amara, quer que eu seja direta? Serei. Política e amor não deveriam se misturar. Você discorda?
— Não discordo. — Ela observou a garota loira por um momento, em silêncio. — Por que está aqui, Cleo?
— Porque soube que você não confia nos homens… em nenhum homem. Mas parece que está cercada por eles. Poucas mulheres têm posições importantes neste mundo, além de serem esposas ou mães de homens importantes. Acho que isso deveria mudar. Você controla um terço do mundo todo aqui, uma parte que sem dúvida crescerá nos anos que virão. Acho que você vai precisar de ajuda.
— E está me oferecendo essa ajuda.
Cleo levantou o queixo.
— Isso mesmo.
— Ou… talvez seja apenas uma artimanha para me distrair.
— Distrair você do quê? — Cleo disse sem alterar a voz.
— De exigir sua cabeça. Você entra aqui como se tivesse o direito de estar a poucos metros de mim. Está tão desesperada a ponto de arriscar tanto vindo aqui e esperando que eu seja gentil?
— Gentileza não é uma coisa que espero de você, Amara. E se você falasse comigo com gentileza hoje, eu pensaria que está mentindo. Muito bem, o que posso fazer para provar meu valor?
Amara a analisou com cuidado.
— Informação. Diga alguma coisa que eu ainda não saiba e que possa afetar meu reinado como imperatriz.
Cleo mordeu o lábio enquanto Amara esperava com o máximo de paciência. Então, os olhos azul-claros da moça se fixaram nos dela.
— Seu irmão Ashur está vivo. — Cleo observou a expressão de choque de Amara. — Imagino que ainda não tenha chegado.
Amara sentiu um aperto no peito diante da possibilidade, mas estreitou os olhos para a princesa.
— Impossível. De todas as mentiras que podia me contar, essa não é uma que vai servir. Minha paciência com você acabou. Guarda!
A porta se abriu, e Amara ficou surpresa ao ver Carlos, não um outro guarda.
— Imperatriz, estou aqui para anunciar que mais uma pessoa chegou — ele informou.
Ela franziu a testa.
— Mande essa pessoa embora. Não quero mais nenhuma visita inesperada. E leve esta criatura odiosa daqui. Deixe-a com os outros enquanto decido como quero que ela morra.
— Como desejar, vossa graça. — Carlos hesitou, mas só por um momento. — Mas acho que deveria receber o visitante.
— Quem quer que seja, pode esperar.
— Não vai esperar, vossa graça. — Carlos olhou para a esquerda antes de cair de joelhos, abaixando a cabeça.
E então, Amara viu, sem acreditar, seu irmão morto entrando na sala.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!