1 de setembro de 2018

Capítulo 27

MAGNUS
AURANOS

— O rei solicita sua presença.
Cronus estava parado na passagem arqueada da biblioteca do palácio como a sombra avultante de uma montanha. Magnus vasculhava as prateleiras em busca de mais informações sobre a Tétrade e, dadas as recentes alegações sobre sua mãe biológica, também pesquisava um pouco sobre bruxas.
— É mesmo? Imediatamente, ou quando eu quiser?
Cronus cruzou os braços.
— Imediatamente.
— Eu estava brincando, Cronus. — Magnus jogou o livro que estava folheando sobre uma grande pilha no centro de uma longa mesa de carvalho. A bibliotecária, uma mulher pequena e estranha com cabelos bem vermelhos e sobrancelhas arqueadas, os guardaria de volta no lugar certo.
— É claro. Podemos ir, vossa alteza?
— Ah, você foi oficialmente designado para me acompanhar até lá, não foi? Deve ser uma ocasião muito importante.
Cronus olhou para ele.
— Está com um humor peculiar hoje.
— Você acha? — Na verdade, Magnus estava apático. Fervera de raiva durante dois dias inteiros por ter ido até o templo e descoberto que o tesouro tinha sido roubado.
Agora estava tentando se concentrar no que podia controlar. Jurou que vigiaria Ioannes daquele dia em diante. Sabia que o vigilante exilado era responsável pelo cristal desaparecido — só podia ter sido dele. Quem mais poderia ser?
Talvez o rei ainda confiasse em Melenia e no garoto enviado em seu lugar, mas Magnus não. Nem por um único e solitário instante.
— Mostre o caminho — Magnus disse para o capitão da guarda.
Aquele poderia se tornar um bom dia: bastava convencer o rei a separar Ioannes e Lucia até segunda ordem. Mas sua satisfação duraria apenas até a noite, quando seria obrigado a ir com Cleo ao casamento da filha do lorde Gareth.
Se pudesse, ignoraria essa obrigação. Era outra “oportunidade” de socializar com centenas de convidados que provavelmente prefeririam estar em outro lugar. Pelo menos tinham isso em comum.
Quando o trono fosse seu, pensou, não aceitaria dar festas para as filhas de todos os nobres que pedissem com educação. Preferiria privacidade e solidão, uma vida em que discursos públicos fossem raros e anunciados com muita antecedência.
Eles levaram dez minutos para chegar à sala do trono pelos corredores labirínticos do palácio. Magnus nunca diria a ninguém, mas tinha se perdido muitas vezes naquele labirinto até finalmente resolver desenhar um mapa para ajudá-lo a encontrar o caminho.
Todos os corredores eram idênticos. Iluminados por lamparinas, com pisos de mármore ou mosaicos de ladrilho, pinturas e tapeçarias adornando as paredes.
Magnus se concentrou em seus passos, mantendo silêncio ao lado de Cronus até chegarem à sala do trono. Os guardas posicionados do lado de fora abriram as portas para os dois entrarem. Magnus se aproximou da plataforma com um passo rápido e confiante.
— Precisamos conversar sobre o tutor de Lucia — Magnus disparou antes que o rei pudesse dizer uma palavra.
Os guardas fecharam as portas, dando privacidade a eles. Cronus permaneceu na sala depois que o rei fez um sinal para não se retirar.
O rei Gaius olhava para ele com tranquilidade.
— Precisamos?
— Não confio nele.
O rei levantou e desceu os degraus para ficar de frente para Magnus.
— Não estou surpreso que não goste dele, considerando os sentimentos que tem por Lucia. Ele é muito bonito, e ela, apesar de seus poderes, não deixa de ser apenas uma bela jovem.
O peito de Magnus ficou apertado com a menção a seus sentimentos.
— Minha preocupação não tem nada a ver com isso.
— Já que está dizendo… Mas não quero falar sobre Ioannes agora. — O rei se serviu de uma bebida. — Mandei um espião a Kraeshia, que relatou que o imperador tem planos de mandar uma frota de navios para nossa costa. Ele pretende nos conquistar. Me conquistar.
Magnus ficou com a boca seca só de pensar naquilo. O imperador Cortas, com sua ampla armada, poderia acabar com Mítica em questão de dias, como já fizera com inúmeras outras terras nas duas décadas em que esteve no poder. O exército limeriano era habilidoso e obediente, mas não resistiria a um ataque colossal e organizado.
— Por que agora?
— Porque ele quer o que é meu, claro. — O rei parecia assustadoramente calmo em relação a isso, o que não tranquilizava Magnus nem um pouco. — O que é nosso.
— Como podemos derrotá-lo?
— Lucia vai ajudar, mas a magia de uma menina contra a força de milhares, dezenas de milhares? — As pontas de seus dedos ficaram esbranquiçadas quando ele apertou o cálice e tomou um gole de bebida. — Ela é mortal. Uma flecha bem atirada pode acabar com sua vida. Não posso depender apenas dela. E minha paciência está se esgotando no que diz respeito à Tétrade. Ioannes me garante que tudo está saindo conforme o planejado, mas não consigo deixar de me preocupar.
O rei tinha acabado de admitir que estava preocupado. Aquele estava se mostrando um dia realmente memorável.
Magnus lutou consigo mesmo para manter a expressão neutra.
— O que vamos fazer agora?
— Preciso elaborar outros planos, que envolvam mais do que a confiança em Lucia e na Tétrade. Já tenho outra coisa em mente, e quero sua opinião.
— O que é? — Embora tivesse inúmeras críticas ao pai, nisso estavam alinhados. Magnus faria qualquer coisa ao seu alcance para proteger Mítica de invasores.
— Os criados estão dizendo que a princesa Amara esteve em sua cama. É verdade?
Um silêncio desconfortável recaiu sobre eles.
Realmente não havia segredos no palácio. Magnus lançou um olhar para Cronus, cuja expressão permanecia neutra.
— É.
Não havia crítica no olhar do rei, apenas consideração.
— Se eu pudesse oferecer um compromisso entre você e a princesa Amara ao imperador, para convencer o pai dela de que unir nossos reinos através do casamento seria mais fácil do que tomar Mítica à força, ganharia mais tempo para encontrar a Tétrade e acabar com ele primeiro.
Magnus ficou sem expressão até processar a proposta de seu pai. Depois, começou a rir, incapaz de se conter.
O olhar do rei transformou-se em gelo num segundo.
— Está achando graça de alguma coisa?
— Outro noivado? — Magnus mal conseguia controlar o riso. — Não pode estar falando sério.
— Por acaso pareço não estar falando sério?
Magnus se conteve no mesmo instante, voltando a olhar para o silencioso Cronus, parado como uma estátua, com as mãos nas costas.
— Caso tenha se esquecido, já sou casado com a princesa Cleo. Por ordem sua.
— Esse arranjo pode ser desfeito quando eu quiser.
Magnus soltou um suspiro de frustração.
— Ainda assim, o imperador nunca concordaria com isso.
— A filha dele tem quase dezenove anos e não está casada. Você é filho de um rei e herdeiro do meu trono. Já compartilhou o corpo com ela. Não vejo nenhum motivo para uma recusa.
Como sempre acontecia ao lidar com aquele homem impossível, Magnus se esforçou para manter a compostura.
— Você precisa escutar o que estou dizendo, pai. Confie em mim: se eu acreditasse que esse é um plano sólido, o apoiaria. Mas não é, então não vou apoiar. É uma tentativa frágil de resolver um problema muito grave. Amara não é uma garota ingênua que desmaia ao ver um príncipe. O que tivemos não foi… Bem, acredite, não foi o tipo de conexão que a faria implorar ao pai para se casar comigo. Se o imperador quer Mítica, ele vai tomá-la. Um casamento, como o espetáculo que organizou para o lorde Gareth hoje, seria insignificante para ele. Vá em frente e apresente seu plano ao imperador se está tão determinado, mas não se surpreenda se ele também responder com risadas.
A raiva tomou conta dos olhos do rei, e Magnus achou que ele poderia agredi-lo por dizer o que pensava. Mas o rei Gaius manteve o punho abaixado.
Quase no mesmo instante, a raiva foi substituída por uma aparente contemplação. Seria possível que, pela primeira vez, ele de fato fosse escutar a voz da razão?
— Sei que deve haver uma solução — Magnus disse com calma, recusando-se a abrir mão do pouco terreno conquistado. — Mas não acredito que seja essa.
O rei colocou o cálice vazio sobre uma mesa e voltou aos degraus que levavam ao trono.
— Talvez você tenha razão.
Uma pequena vitória. Mas uma verdadeira surpresa.
— Além do mais — Magnus continuou, ganhando confiança —, o povo de Auranos acharia estranho se você anulasse meu casamento com a princesa logo após apresentarmos uma fachada tão agradável durante a excursão de casamento.
O rei ficou analisando o rosto de Magnus, fazendo-o sentir vergonha, como uma criança flagrada se comportando mal.
— Você desenvolveu sentimentos por Cleiona?
A pergunta era risível, principalmente considerando as brigas recentes e tão desagradáveis com a princesa.
— Ela não passa de um meio para atingir um fim. É tudo o que sempre será para você e para mim.
— Ela se tornou um problema.
— Quando ela não foi um problema?
— Um ex-lorde de Auranos, alegando lealdade absoluta a mim, se apresentou hoje mais cedo para me alertar que testemunhou um encontro da princesa Cleiona com Jonas Agallon duas semanas atrás em um templo local. O homem estava no templo para rezar para a deusa, quando viu o líder rebelde entrar, seguido pela princesa. Os dois conversaram em particular e saíram separados. Se a informação não fosse tão crucial, eu mandaria executá-lo na mesma hora por ter demorado tanto para relatar.
Uma crescente sensação de desconforto fechou a garganta de Magnus.
— E você acredita nesse lorde?
— Estou inclinado a considerar a possibilidade de que sua esposa esteja transmitindo informações daqui de dentro aos rebeldes, na tentativa de nos destruir.
— E que provas tem? A palavra de um homem que esperou duas semanas para abrir a boca?
— É o suficiente para me fazer duvidar da inocência dela.
Magnus não era cego em relação a Cleo. Era todo olhos e ouvidos em se tratando daquela garota calculista.
Jonas Agallon. Aquele nome, sempre aquele nome. Magnus devia tê-lo matado quando tivera a chance.
— Ela confessou alguma coisa? — ele perguntou.
— Ainda não foi interrogada. Na verdade, quero que você a interrogue, Magnus. Imediatamente.
O pedido era absurdo e fez o estômago de Magnus revirar.
— Quer que eu entre casualmente nos aposentos dela e mencione o rebelde enquanto tomamos chá? Ou talvez eu devesse esperar até a noite, durante o jantar de casamento da filha do lorde Gareth?
— Ela não vai ao casamento. No momento, está detida em uma cela privada no calabouço.
Magnus ficou em silêncio. É claro que ela estava presa. Uma traidora e espiã, mesmo que não comprovada, não poderia perambular livremente por aí. Ele não sabia por que aquilo o pegara de surpresa — nunca confiara na garota —, mas isso? Pensar que ela estava em contato com Jonas sem que ele desconfiasse de nada…
Ou talvez seu pai estivesse apenas sendo paranoico, procurando respostas e aceitando até as mais improváveis.
O rei levou a mão até a cicatriz no rosto do filho, olhando-o intensamente.
— Quero que me mostre sua força hoje, uma força que já sei que tem. Uma força que sei que é comum a nós dois. Estamos juntos nisso. Faça o que for preciso para arrancar as respostas de que preciso daquela língua mentirosa, mas no final das contas não vai importar muito se ela preferir ficar de boca fechada. Uma suspeita de inclinações rebeldes é suficiente para pena de norte. Dei ordens para Cronus executá-la imediatamente depois de seu interrogatório. Finalmente nos livraremos dela.
Um silêncio pesado recaiu sobre a sala. Magnus se esforçou para encontrar a voz.
— Executá-la? Isso é mesmo necessário?
— É, sim. Os cidadãos de Auranos ficarão de luto, mas vão entender que, em se tratando de traição, é a única decisão a tomar. — Ele deu um tapinha no braço de Magnus. — Vá com Cronus. Confio em suas habilidades e em sua força, meu filho. Seu futuro, o futuro de todos nós, está em jogo.
E com isso o rei deixou a sala do trono. Magnus ficou ali mais um tempo, refletindo sobre o que fora dito e o que estava sendo exigido dele.
— Alteza? — Cronus o chamou.
O rei tinha dado uma ordem. Não havia espaço para argumentação.
— É melhor não demorarmos. Podemos acabar com isso antes de os convidados do casamento chegarem.
Magnus nunca interrogara um prisioneiro, mas já tinha assistido a alguns interrogatórios. Havia testemunhado os efeitos da tortura. Na maioria das vezes, bastava muito pouco para fazer os prisioneiros revelarem todos os segredos. Para alguns, a simples ameaça de dor era suficiente para entregar a própria mãe, se isso os poupasse de qualquer sofrimento.
Outro guarda os interceptou a caminho do calabouço.
— Capitão — ele disse a Cronus, segurando um pedaço de pergaminho. — Uma criada encontrou isso. Achei que deveria ver imediatamente.
Cronus pegou o pergaminho e passou os olhos pela mensagem.
— Mais alguém viu isto?
— Não, senhor. Trouxe direto para cá.
— Vossa alteza — Cronus disse, virando-se para Magnus. — Precisa ler isto.
Magnus pegou o pedaço de papel da mão de Cronus e começou a ler. Seus batimentos cardíacos dispararam, e o estômago se revirava mais a cada palavra.

Ioannes e eu estamos fugindo juntos. Por favor, saibam que estou bem, mas não tentem me encontrar. Está tudo bem. Tudo ótimo. Estou mais feliz do que nunca, então, por favor, não fiquem zangados comigo. Amo Ioannes mais do que qualquer coisa neste mundo, e estávamos destinados a isso. Prometo voltar assim que puder.
Lucia

Magnus rasgou o papel ao meio, as mãos trêmulas de raiva. Sabia que alguma coisa estava acontecendo entre os dois, mas não imaginava que avançaria tão rápido a esse ponto inconcebível…
— Mande o maior número de guardas que puder. Vasculhem a cidade e encontrem os dois — ele vociferou. — E, quando encontrarem, façam o favor de me avisar imediatamente, para que eu possa matar o desgraçado.
— Sim, alteza — Cronus disse.
— Não contem ao rei ainda. Esperem até ele fazer o discurso do casamento. Não quero que a decisão imprudente de minha irmã o perturbe até que seja absolutamente necessário.
Cronus fez um sinal para o outro guarda, que logo se apressou para organizar uma equipe de busca.
Magnus amassou o pergaminho e praguejou baixinho.
— Eu iria com eles, mas tenho outras questões importantes para resolver, não é mesmo?
O tom de voz de Cronus foi enfático:
— Sobre a tarefa em questão, preciso que aceite que o rei deu uma ordem, e farei o que ele mandou. Só existe um fim possível para isso, vossa alteza.
Magnus concordou com um meneio firme de cabeça.
— Não esperava nada diferente de você além de cumprir o que o rei ordenou. Meu pai é muito sortudo de ter um guarda tão leal durante todos esses anos, mesmo que nunca tenha dito isso a você. Agora, não vamos deixar a princesa esperando.


Magnus já tinha ido ao calabouço antes e dado uma boa olhada nos rebeldes presos e em outros ladrões, assassinos e vagabundos que ocupavam as celas daquele buraco fedorento. Mas dessa vez foi conduzido a uma outra área, no fim de um corredor escuro, atrás de uma pesada porta de madeira. O guarda que estava do lado de fora acenou com a cabeça para Cronus e para o príncipe e abriu a porta.
O resto do calabouço cheirava a fossa, mas aquela parte, reservada a prisioneiros de classe superior, tinha apenas o cheiro da serragem espalhada no chão.
A sala circular era surpreendentemente ampla, com cerca de quinze metros de diâmetro. Correntes e outros instrumentos de contenção estavam dispostos ao longo da circunferência. Nas paredes de pedra, havia tochas e lamparinas que lançavam uma luz imprecisa sobre todo o resto.
E lá estava ela. Bem no centro da sala, com as mãos acima da cabeça, os pulsos amarrados por uma corda e presos em um gancho pendurado no teto.
Magnus se aproximou, e Cleo levantou o queixo ao vê-lo chegar.
Ele viu sangue no canto da boca da princesa, escorrendo pelo queixo e chegando a manchar o vestido azul-turquesa. Ao caminhar devagar ao redor dela, notou com desagrado que seus cabelos claros também estavam manchados de sangue.
Alguém tinha batido nela com muita força.
— Ela deu muito trabalho quando a trouxeram para cá? — Magnus perguntou ao guarda ao lado dela.
— Sim, alteza. Estou com um ferimento no braço, onde ela me mordeu. Seus dentes são muito afiados.
Magnus não ficou surpreso. A garota lutaria até o fim da vida. Não podia deixar de admirá-la por isso.
— Sem dúvida são.
Cleo continuou olhando para ele, observando-o em silêncio enquanto se movimentava. Magnus se obrigou a olhar para ela não como uma menina — sua esposa — com sangue no rosto, mas como sua inimiga. Inimiga do trono de seu pai. De seu trono.
Se dependesse dela, todos estariam mortos a essa altura.
— Então, cá estamos. Tem algo a dizer em sua defesa, princesa?
— Exijo ser libertada imediatamente e receber mil pedidos de desculpa — ela disse, de maneira concisa. — Mas duvido que vá fazer isso.
Esse costumava ser o momento em que o prisioneiro começava a implorar por misericórdia. Mas não Cleo.
— E pensar que algumas pessoas dizem que você não é esperta. — Ele tentou ignorar o sangue no rosto dela. — Podemos ir direto ao ponto?
— Seria ótimo.
— Está ajudando os rebeldes?
Cleo olhou feio para ele.
— Seu pai mandou você vir até aqui me interrogar? E você aceitou imediatamente, sabendo que teria a oportunidade de me maltratar?
— Não maltratei você.
— Olhe para mim — ela berrou. — Pode ver com os próprios olhos que os guardas de seu pai estão me tratando com crueldade sem motivo. Tudo o que fiz desde que sua família roubou o trono do meu pai foi tentar me entender com vocês. Fiz o que vocês pediram, para que o povo auraniano não se rebelasse contra vocês, e é assim que me agradecem?
Magnus se perguntou como ela estaria reagindo naquele momento se o rei estivesse ali, e não seu filho.
— Acho que não respondeu minha pergunta, princesa.
— Para que se preocupar com títulos, Magnus? Aqui, neste lugar horrível onde vocês me amarraram para eu não poder mais me defender, de que adianta fingir que é civilizado?
— Muito bem, Cleo — ele se corrigiu. — Mas está errada sobre seu comportamento inocente. Você tem sido um problema desde o princípio. Meu pai deveria ter se livrado de você há meses, e mesmo assim ainda está aqui. Todos os momentos que passou acordada foram dedicados a encontrar uma forma de destruir minha família.
— Nem todos vocês. Eu considerava sua irmã uma amiga até hoje cedo, quando ela tentou me matar.
A menção a Lucia o atingiu como um golpe.
— O que sabe a respeito do que minha irmã fez hoje?
Os olhos dela brilharam.
— Ela é maluca. A magia a deixou louca e paranoica, e Lucia só está procurando uma desculpa para ser violenta com aqueles que se importam com ela.
Incrível. A fachada de amizade continuava.
— Você se considera uma dessas pessoas, não é?
— Eu me considerava, até ela quase me matar enforcada com aquela magia, enquanto seu tutor estava reunido com o rei.
O quê? Cleo devia ter estado com Lucia pouco antes da fuga com Ioannes. A ideia da irmã fugindo com aquele vigilante exilado despertava sua fúria como nunca.
— O que você disse hoje para jogá-la tão completamente nos braços dele?
Cleo parecia surpresa.
— Nos braços de Ioannes? Do que está falando? — Então estreitou os olhos como se estivesse compreendendo. — Você fica atormentado por Lucia estar apaixonada por ele e não por você, não é? Que triste.
Ele cerrou a mão direita em punho, com tanta força que suas unhas curtas afundavam dolorosamente na pele.
— Vamos voltar ao assunto em questão. O que você disse aos rebeldes?
— Nada — ela disse. — Não me encontrei com rebelde nenhum. Sou prisioneira neste palácio, tenho sido há meses.
— Errado. Você recebeu permissão para ir ao templo, e lá foi vista com Jonas Agallon, duas semanas atrás.
Ela manteve a expressão firme e determinada, sem tirar os olhos dele nem hesitar.
— É mentira. Quem me viu? Você? O rei? Um guarda?
— Não importa quem a viu.
— É claro que importa. Se alguém está me acusando de algo tão sério, mereço saber seu nome.
Cronus e o outro guarda ficaram em silêncio, observando Magnus se aproximar de Cleo e sussurrar em seu ouvido, alto o bastante apenas para ela escutar.
— Você contou ao rebelde sobre o cristal da terra? Foi por isso que ele não estava lá quando chegamos?
— A última vez que vi Jonas Agallon foi quando fugi de seu acampamento rebelde nas Terras Selvagens, onde ele me manteve prisioneira depois de me sequestrar.
Cleo era muito convincente. Uma mentirosa qualificada. Ele ficou imaginando se fora sempre assim, mesmo antes de seu trono ter sido roubado, ou se era uma habilidade recém-desenvolvida.
Ou talvez estivesse dizendo a verdade, e o rei era o paranoico nessa história, procurando uma desculpa perfeita para se livrar dela de uma vez por todas.
— Você disse que Lucia tentou matar você hoje.
— Ela tentou.
— Por que faria algo assim? Por suspeitar que você estava mais para traidora do que para amiga?
— Lucia fez isso porque não consegue controlar sua magia com ele por perto. — Uma nova emoção passou pelos olhos dela com uma intensidade que o surpreendeu. — Mesmo com o anel, ela luta contra a obscuridade dos elementia. E eu vejo nos olhos dele, Ioannes gosta dessa luta. E quer que ela perca o controle.
— Você não confia nele.
— Nem por um segundo.
— Ioannes e Lucia fugiram juntos hoje. Imagino que ele a tenha convencido — Magnus afirmou.
Cleo arregalou os olhos.
— O quê? Não, ele não quer se casar com ela. Ele… ele a está usando para encontrar o resto da Tétrade. Você é irmão dela. Precisa ajudá-la!
— Não sou irmão dela. Não de verdade. E ela deixou bem claro que não quer nada comigo. — Magnus olhou para trás, para os guardas, depois voltou-se para a princesa imobilizada. — Acho que terminamos nossa conversa. Você não vai me dizer mais nada do que preciso saber.
— Eu sei para onde eles foram — Cleo disse, levantando o queixo. — E não estão aqui na cidade palaciana, nem em nenhuma cidade de Auranos. Me liberte deste lugar e prometo contar.
Ele ficou em silêncio, alternando o olhar entre a serragem a seus pés e a princesa, pesando as opções. Eram poucas e bem distintas.
— Terminou o interrogatório, vossa alteza? — Cronus perguntou, revelando a espada na entrada.
Magnus olhou para Cleo. Os olhos dela foram tomados pelo medo quando se deu conta de como aquilo ia terminar.
— É isso mesmo — ele disse com calma. — Você foi sentenciada à morte pelo rei por suspeita de auxiliar um rebelde. Vamos prosseguir com a execução imediatamente.
Cleo começou a tremer.
— Não, não faça isso. Você é melhor do que isso, Magnus. Não é como seu pai. É capaz de fazer o bem, eu vi em seus olhos. Eu sei, do fundo do coração!
— Do fundo do coração? — Ele riu, e o som seco e quebradiço feriu sua garganta. — São palavras um tanto quanto floreadas para um momento como este, mas devia poupar seu fôlego. Chegou a hora disso tudo acabar.
Assim que as palavras foram ditas, a expressão de Cronus assumiu uma máscara de batalha: seus olhos ficaram frios, viperinos e destituídos de emoção, como no dia da execução de Gregor. Mesmo recebendo ordens para executar uma garota indefesa, de dezesseis anos de idade, ele não hesitou.
O futuro de Mítica, do rei e do próprio Magnus dependia da morte de Cleo, naquele exato momento.
Ela se debatia com os pulsos presos pela corda enquanto Cronus se aproximava, como se tivesse alguma esperança de se libertar. Mas mesmo diante da morte iminente, ela não gritou. Não berrou, não implorou.
Cronus ergueu a espada, preparando-se para cravá-la na fina seda de seu corpete. Seria uma morte rápida, sem muita dor nem sofrimento — finalizada sem demora, em um piscar de olhos, com apenas um instante de dor para suportar.
Mas antes que Cronus pudesse enfiar a lâmina no peito de Cleo, parou por uma mísera fração de segundo.
Porque outra lâmina atingiu seu coração primeiro.
Cronus ficou ofegante, olhando para a ponta da espada que o empalava por trás. Ele largou a própria espada e caiu de joelhos no chão da cela do calabouço.
Magnus retirou a arma, deixando Cronus desabar totalmente enquanto soltava seu último suspiro.
O segundo guarda pegou a arma, mas Magnus chegou até ele primeiro. Sua espada ensanguentada não passou de um lampejo de metal sob a pouca luz da tocha quando o atingiu. O guarda, confuso, caiu em silêncio e estava morto antes mesmo de chegar ao chão.
Magnus, com os músculos tensos e sangue escorrendo da lâmina, analisou o corpo por um instante. Devagar, ele virou e encarou a princesa, que olhava para ele em choque. Um som agudo finalmente escapou de sua garganta quando ele levantou a espada e cortou as cordas sobre a cabeça dela.
Ele agarrou o braço de Cleo e a puxou pela sala, chutando a porta.
— O que você…?
— Cale a boca — ele sussurrou. — Não diga nada.
— Você matou aqueles dois!
Era preciso fazer isso. Aquele dia não teria acabado de outro modo. Ele não tinha escolha. Tinha desobedecido ordens diretas do pai e assassinado o guarda em que o rei mais confiava, que Magnus conhecia desde criança.
A falta de Cronus seria sentida, mas ele tinha que morrer. Não teria obedecido o comando de Magnus de não seguir as ordens do rei para executar Cleo.
Ele fechou a porta para esconder a carnificina que havia lá dentro, e os dois se apressaram pelo corredor estreito e úmido do calabouço.
Poucas pessoas no palácio sabiam quem estava naquela cela privada. Com o casamento prestes a começar, e os criados e guardas correndo para fazer os arranjos de última hora, Magnus imaginou que talvez horas se passariam até que alguém descobrisse a verdade.
Tinha algum tempo. Não muito, mas esperava que fosse suficiente.
Os dois finalmente saíram do calabouço e chegaram do lado de fora. Magnus se virou para Cleo, que olhava para o céu brilhante de fim de tarde como se não esperasse vê-lo de novo.
— Você disse que sabe aonde Lucia e Ioannes foram.
Ela assentiu.
— Devo confessar que é apenas um palpite. Mas tenho certeza de que é certeiro.
— Onde? — Quando ela não respondeu de imediato, ele a segurou pelos braços e quase gritou. — Onde?
— Limeros — ela finalmente respondeu.
Limeros? Sua terra natal era longe; de navio, seriam dias de viagem.
— Por que Limeros?
Em vez de demonstrar gratidão por salvar sua vida, Cleo fez uma careta para Magnus, com a mesma expressão de desacato de sempre.
— Porque o cristal da água pode ser invocado no Templo de Valoria. Lucia me contou hoje, pouco antes de os guardas me levarem. Se eu estiver certa, e se Ioannes tiver outro interesse em Lucia além de se casar com ela, então devem ter ido para lá. Existe uma maneira melhor de afastá-la da família do que a promessa de fuga para a terra de que ela sente saudades há meses?
Outro cristal descoberto e pronto para ser reivindicado. O instinto de Magnus dizia que Cleo estava certa sobre tudo.
— Então é para lá que nós vamos — ele disse com firmeza. — Para Limeros.
Ela ficou boquiaberta.
— Nós?
— Sim, princesa. Nós.

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