3 de setembro de 2018

Capítulo 26

CLEO
LIMEROS

Desde que Jonas e Nic partiram para Kraeshia, Cleo estava dando atenção extra às aulas de arqueirismo. Mas, ainda assim, não conseguia aprimorar suas habilidades.
Entre a decepção consigo mesma e a necessidade cada vez mais insuportável e constante de lorde Kurtis maldizer Magnus e o triste estado de Limeros agora que não estava mais no comando, sua paciência finalmente tinha se esgotado.
Então, naquela manhã, depois de uma hora particularmente frustrante errando alvos e ouvindo reclamações de lorde Kurtis, ela desistiu. Cleo voltou a seus aposentos, tirou as luvas e o manto, e sentou na beirada da cama. Dali, podia se ver no espelho da penteadeira.
— O que ainda estou fazendo aqui? — ela perguntou ao próprio reflexo.
Nerissa tinha feito a mesma pergunta com cuidado no dia anterior. Ela não tinha nenhuma resposta aceitável, e descobriu que continuava não tendo, nem para si mesma. Qual era seu objetivo naquele palácio frio e austero? Ela não perderia seu posto na realeza se partisse. Só estava perdendo tempo, esperando e esperando...
Chega de esperar.
Ela havia ficado profundamente triste ao saber que Eirene, a Vigilante exilada, estava morta, mas a notícia não lhe causara muita surpresa — Eirene já era bem velha quando Cleo a viu pela última vez.
E isso só significava que agora Cleo teria que encontrar outro Vigilante exilado e conseguir as respostas por conta própria.
Ela foi até a janela e levantou uma pedra solta no peitoril, sob a qual havia escondido a esfera de obsidiana.
Mas o esconderijo estava vazio.
Ela piscou, ainda não registrando totalmente o buraco escuro. É claro que o cristal tinha que estar lá; ela não o tinha tirado do lugar. Andou em círculos, passando os olhos por todo o quarto, tentando ver se alguma coisa tinha mudado.
— Não. Estava ali. — Ela olhou sob o peitoril mais uma vez, mas não encontrou nenhuma esfera preta.
Seu coração começou a ficar acelerado.
O cristal tinha desaparecido.
Alguém o tinha roubado.
Mas quem?
Com certeza não tinha sido Nerissa, a única pessoa que sabia do esconderijo. Cleo confiava totalmente em Nerissa e se recusava a duvidar dela. Talvez uma arrumadeira ou criada tivesse encontrado por acidente enquanto limpava o quarto? Mas, se fosse o caso, por que roubaria uma coisa como aquela? Para uma pessoa desinformada, o cristal não parecia nada além de uma enorme bola de gude.
— Quem poderia ter feito isso? — ela sussurrou. Quem mais sabia sobre a Tétrade e arriscaria a vida vasculhando seus aposentos privados para encontrar o cristal?
Então, em um vislumbre gélido, a resposta chegou até ela.


Ela se aproximou da sala do trono com passos rápidos, e os guardas abriram as portas antes que precisasse pedir. Magnus estava lá, esperando por ela, sentado no trono de ferro de seu pai.
O príncipe vestia preto da cabeça aos pés, como sempre, como se tentasse se camuflar no trono, à sala, no palácio todo. Mas, apesar de tanta escuridão, ela avistou o cristal da terra de imediato. Magnus o segurava na mão direita.
— Veja o que encontrei — ele disse, jogando-o para cima e para baixo enquanto Cleo se aproximava do trono. — Surpreendentemente, estava em seus aposentos. Fazia ideia de que estava escondida lá?
— Isso me pertence — ela resmungou.
— Na verdade, princesa, estava em meu palácio, então significa que me pertence. — Ele levantou a esfera na frente do rosto e a observou. — A obsidiana tem uma cor tão bonita, não tem? Imagino que Agallon tenha trazido para você.
Ela se manteve em silêncio, resoluta, cerrando os dentes e de braços cruzados.
— Ah, princesa, o silêncio não vai ajudá-la hoje.
— Tenho muito pouco a dizer sobre esse assunto.
— Não tem problema. Tenho muito a dizer; posso falar por nós dois. O que tenho nas mãos é uma prova consistente de que você é uma mentirosa implacável, que ainda está aliada com os rebeldes, e que continua a esconder informações essenciais de mim. Você sabia exatamente por que esta esfera da Tétrade não estava no Templo de Cleiona quando chegamos para invocá-la. Por que não me contou?
Uma risada desprovida de humor escapou da garganta de Cleo.
— Por que contaria? Apesar das belas promessas que me fez e do acordo verbal com Jonas, sempre deixou muito claro que somos inimigos... hoje, amanhã e sempre.
— E como, precisamente, deixei isso claro? Foi quando poupei seu amiguinho rebelde da execução? Ou quando me ofereci para devolver seu reino? Devo continuar?
— Magnus, não pode esperar que eu realmente acredite em suas promessas. Devolver meu reino? Depois de todas as mentiras que contou no passado? Depois de todas as traições?
O olhar dele ficou mais frio.
— Pretendo cumprir cada palavra daquela oferta. E se tem alguém que sabe que posso ser um homem de palavra, essa pessoa é você. Mas agora? — Ele apontou para a esfera. — Mudei de ideia. Mítica, toda ela, será minha. Toda minha. Sim, parece bem melhor assim. Nunca gostei mesmo de dividir meus brinquedos.
Cleo deu alguns passos na direção da plataforma e o encarou, franzindo a testa.
— Você tem razão — ela disse. — Talvez eu devesse me desculpar.
Ele piscou.
— O quê?
— Está claro para mim que o magoei.
Ele achou graça.
— Você nunca poderia me magoar, princesa.
Cleo balançou a cabeça.
— Acho que você foi magoado por todo mundo. É por isso que age dessa forma. Tenta ser o mais cruel, frio e repulsivo possível para que ninguém chegue perto de você. Porque quando chegam, quando deixa as pessoas se aproximarem, sempre é magoado.
Magnus soltou uma risada fria e seca.
— Muito obrigado por suas opiniões, princesa, mas está errada.
— Não sou cega, Magnus. Vi o que aconteceu entre você e Lucia quando ela esteve aqui. Você ficou de coração partido ao ver sua irmã daquele jeito, quando só queria ajudá-la.
— Lucia é diferente. Independentemente do que faça, ela é minha família. Mas deixou claro que não quer minha ajuda nem precisa dela, e nunca mais cometerei aquele erro de novo.
— Isso não muda o que sente de fato.
Magnus levantou e desceu os degraus.
— Estou entediado com essa conversa. Você pode tentar me manipular o quanto quiser, mas os fatos dessa situação continuam iguais. Você é uma garotinha falsa, e o cristal da terra agora é meu.
— Muito bem. Desejo toda a sorte do mundo a você para acessar a magia. É impossível. Já tentei de tudo.
— Eu já imaginava. Ou já estaria morto e enterrado a esta altura, não é?
— Acha que desejo sua morte? Mesmo agora?
Magnus suspirou.
— Você precisa tomar uma decisão quanto a isso, princesa. Sua hipocrisia está me dando vertigens.
— Certo. Sim. Mantive o cristal em segredo. Eu pretendia, e ainda pretendo, usar sua magia para reconquistar meu reino. Pronto. Essa é a verdade. Cansei de mentir. Que bem me fizeram as mentiras? Então, agora que sabe, por que não me joga no calabouço? Ordena que cortem minha cabeça?
— Você adora testar minha paciência — ele resmungou.
— Você não vai mandar me matar por isso. Porque, apesar de todas as nossas diferenças, nós somos aliados. E talvez esteja na hora de começarmos a confiar um no outro.
Quanto mais ela falava, mais se dava conta de que estava realmente dizendo a verdade. Magnus não era perverso como o pai. Nunca tinha sido. Ela o tinha ouvido tentar argumentar racionalmente com o conselho. Tinha visto o quanto ele se importava com o reino. E tinha certeza de que ele nunca tentaria machucá-la, independentemente do que ela dissesse ou fizesse. Tudo aquilo, aquela fachada fria e de aparência impenetrável, não passava disso: uma fina carapaça que protegia a alma genuína que existia por baixo.
— É curioso que você tenha chegado a essa conclusão monumental apenas depois que encontrei o cristal.
Mas ele era mesmo irritante às vezes.
— Kurtis veio falar comigo mais cedo — Magnus disse antes que Cleo pudesse responder. — Sabe por quê?
— Para dizer que desisti das aulas de arco e flecha?
— Não, mas é adorável que pense que eu me importaria com algo tão trivial. Kurtis me procurou porque queria que eu soubesse que ele andava discutindo política com você. Contou todas as questões sobre as quais vocês dois parecem concordar, sendo uma delas minha falta de aptidão para governar Limeros.
Cleo acenou a mão com descaso.
— Ele exagerou.
— É mesmo? Ou se trata de mais uma pequena parceria que escondeu de mim?
— Não consegue ver que estou aqui tentando acertar as coisas entre nós, Magnus? — ela perguntou, começando a perder a paciência. — Mas você se recusa a aceitar.
— Se eu lhe contasse sobre as coisas que Kurtis fazia no passado, você não ia querer nem chegar perto dele.
Se Magnus se recusava a ser agradável, ela também não seria.
— Suponho que seja algo que vocês dois têm em comum.
Magnus franziu a testa, como se estivesse confuso.
— Quando éramos crianças, Kurtis costumava gostar de torturar animais e ficar observando seu sofrimento.
A ideia de ter passado tanto tempo com um jovem perturbado lhe causava náuseas. Mas Magnus não podia estar falando a verdade. Ela decidiu atingi-lo com um golpe.
— E você, por outro lado, gosta de matar pessoas que eu amo. Qual passatempo é pior?
Magnus olhou para ela com uma fúria repentina.
— Você alega me conhecer? Dispara venenos e logo depois de tentar ganhar minha confiança. Isso só mostra que não me conhece nem um pouco. Quer muito esse cristal, não quer? Talvez possamos dividi-lo.
Ele virou, ainda com um olhar de raiva, e jogou o cristal da terra contra a parede de pedra. Tudo ficou em silêncio enquanto Magnus olhava para a mão vazia, em choque.
Um momento depois, o chão começou a tremer sob seus pés.
— Não... — ele sussurrou.
O coração de Cleo quase saiu pela garganta. Ela se lembrou do dia de seu casamento e do terremoto elementar que destruiu o Templo de Cleiona, matando muitas pessoas.
Paralisada de medo, ela observou uma rachadura serpentear pelo chão, criando uma profunda fenda na pedra que a separava de Magnus, seguindo até o ponto da parede que havia entrado em contato com a esfera.
Então, com a mesma rapidez que o terremoto teve início, a terra parou de tremer.
Cleo cobriu a boca enquanto o alívio tomava conta de seu corpo.
Magnus correu na direção da esfera e a recolheu do chão, inspecionando-a com cuidado.
— Não está nem um pouco danificada.
Cleo se aproximou para ver com os próprios olhos. Ele estava certo; embora a sala estivesse em ruínas, o cristal tinha se mantido totalmente intacto. O fio de magia em seu interior girava mais rápido do que ela já tinha visto.
— Acho que você enfureceu o cristal — ela disse, ofegante.
— Por um instante, eu pensei... — Magnus a encarou e franziu a testa. — Cleo...
Um grasnado alto os assustou.
Eles se viraram e viram um falcão pousar sobre o parapeito de uma janela. O animal ficou olhando para os dois com a cabeça inclinada, depois bateu as asas e levantou voo, entrando pela janela e lançando-se sobre eles, tão perto que ambos tiveram de abaixar. O falcão soltou alguma coisa sobre a mesa do conselho e então, depois de um último grito, saiu voando pela janela.
Magnus ficou observando a ave de queixo caído.
— Isso nunca aconteceu antes. — Ele pegou o pedaço de pergaminho que o falcão tinha deixado ali, desenrolou e leu a mensagem. Quando terminou, praguejou em voz alta e empurrou a mensagem para Cleo.

Príncipe Magnus,
Escrevo para alertá-lo de que o rei chegará à costa de Mítica em breve, seguido por uma armada kraeshiana de vinte navios. Seu pai acredita que entrou em um acordo que transformará Mítica em parte do Império Kraeshiano, e que terá domínio sobre tudo. Mas está enganado. Amara envenenou a própria família — o imperador e seus irmãos — e agora é Imperatriz de Kraeshia. Está interessada em Mítica apenas por sua magia. Nada a impedirá de possuí-la. O rei chegará a Mítica com notícias de uma ocupação pacífica, mas, por causa de Amara, acreditamos que não será bem assim.
Retornaremos assim que possível.
Jonas

As mãos de Cleo tremiam quando recolocou a mensagem de Jonas sobre a mesa.
— Eu não fazia ideia de que meu pai era tão burro — Magnus afirmou.
— Temos que avisar a todos que podemos sofrer um ataque em breve — Cleo disse.
— Concordo com Agallon que meu pai não fez nada para merecer uma reputação de governante pacífico, mas não acredito que ele apenas ficaria de lado e deixaria Amara fazer o que quisesse com Mítica. Talvez tenha concordado com isso sob pressão. Talvez tenha outro plano e virá nos contar assim que chegar.
— Não, Magnus. Sinto muito, mas acho que Jonas tem razão. O rei está pensando apenas nele mesmo; é compelido apenas pela própria ganância. Eu e você sabemos como Amara pode ser perigosa, mas ele provavelmente a vê apenas como uma garota jovem e fraca que pode manipular e controlar.
— Uma garota jovem e fraca que pelo jeito assassinou a família a sangue-frio para tomar todo o poder para si. Nós a vimos matar o príncipe Ashur bem na nossa frente, deveríamos saber que algo assim aconteceria em seguida. Fico imaginando há quanto tempo planejou isso.
Cleo apertou as mãos.
— O que vamos fazer?
Ele começou a andar de um lado para o outro ao lado da mesa.
— Cronus sempre foi o especialista em estratégia de defesa — ele afirmou. Um tom pesaroso tomou conta de sua voz ao mencionar o nome do capitão da guarda responsável por vigiar Cleo enquanto ela esperava no calabouço para ser executada.
— Que pena que você o matou, então — Cleo disse de forma ofensiva.
— É, foi uma pena. Foi um erro do qual me arrependo cada vez mais a cada dia que passa.
Ela ficou sem fôlego.
— Está dizendo que se arrepende de ter salvado minha vida?
— Aquela escolha imprudente marca o momento em que destruí toda a minha vida. Essa mensagem — ele apontou para o bilhete — é a prova final disso.
Mesmo nos momentos de maior grosseira de Magnus, mesmo quando estava sendo insuportavelmente odioso, Cleo pelo menos conseguia se apegar à lembrança daquele dia em que ele tinha escolhido salvar sua vida.
Independentemente das motivações que alegava estar seguindo aquele dia — estava preocupado com Lucia, estava zangado com seu pai, não tinha nada a ver com Cleo exatamente — o resultado final era o que permanecia. Ele, sozinho, tinha salvado sua vida. Ele, sozinho, tinha desafiado o rei e agido com bondade.
Mas se realmente estava arrependido, então aquela esperança, aquela crença de que ele tinha um bom coração... tudo foi apagado.
Uma mistura tempestuosa de raiva e dor serpeava dentro dela.
— Como ousa me dizer isso?!
Ele esfregou a testa e soltou uma risada.
— Não percebe? Quando se trata de você, só tomo decisões tolas que colocam todos à minha volta em perigo. Não acredito que fui tão idiota para não enxergar isso antes. Se eu tivesse sido forte o bastante para deixá-la morrer, nada disso estaria acontecendo. Qual é meu problema? Por que optaria por proteger uma mentirosa, uma traidora que tenta me destruir sempre que pode?
A garganta dela ficou apertada, assim como seus punhos.
— O fato de você me odiar ou não me odiar não muda nada. Acredita que sou uma mentirosa inútil que estaria melhor morta? Ótimo. Mas não me faça perder meu tempo chorando sobre suas decisões agora. Amara está vindo e vai matar qualquer um que ficar em seu caminho na busca por todos os cristais da Tétrade.
— Todos os cristais. Talvez você esteja com os outros escondidos em algum lugar também. Até onde sei, você pode ter conspirado com Amara.
— Não vai acreditar em mim, não importa o que eu diga. Está claro que não há nada que eu possa fazer ou dizer para mudar sua opinião sobre mim.
— Você quer tudo, se apropria de tudo o que puder pegar, mas não dá nada em troca — Magnus resmungou por entre os dentes. — Me deixe sozinho.
Cleo balançou a cabeça.
— Mas o rei... Amara...
Magnus foi na direção dela com um olhar ameaçador no rosto, forçando-a a recuar até o lado de fora da sala do trono.
— Vou lidar com o rei e com a princesa quando chegarem. Se isso significa que vou morrer, será uma morte merecida devido às coisas que fiz envolvendo você. Se nunca voltar a vê-la, será uma bênção.
Com isso, Magnus bateu as portas na cara dela.

3 comentários:

  1. Até que demorou pra eles brigarem feio, tava na hora mesmo kkkkkk

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  2. O Magnus não ajuda, mas a Cleo também dificulta né gente, conspirou contra o menino até onde pode, e agora que ele pegou o cristal quer se fazer de vitima e dizer que ele não confia nela, fala sério!

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    Respostas
    1. Concordo! Especialista em conspirar e se fazer de vítima depois... que grande personalidade hipócrita a dessa protagonista...
      O Magnus é provavelmente o único que está tentando confiar em alguém aí...
      Ela confia mais no Jonas que agrediu ela do que no Magnus que está sempre protegendo ela... que garota lerda...

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