29 de setembro de 2018

Capítulo 26

ALGUMAS HORAS ANTES DA ALVORADA, paramos de voar. Izz estava carregando nós quatro e precisava descansar. Estávamos no meio do caminho para o oásis. O deserto se estendia para todos os lados, embora eu pudesse ver as montanhas do vale de Dev no horizonte. Não desempacotamos os suprimentos nem montamos uma fogueira. Todos desabaram exatamente onde estavam. Izz se transformou em uma enorme besta felina que eu nunca tinha visto e caiu no sono. Shazad se apoiou nele. Seus olhos estavam vermelhos, embora eu não a tivesse visto chorar.
Jin sentou do meu lado sem dizer uma palavra. Tinha algo nas mãos. O sheema vermelho, percebi. Aquele que eu tinha jogado pela janela. Ele pegou meu braço direito, gentilmente, sem perguntar. Minha mão estava inchada e sensível, mas eu tinha quase esquecido a dor palpitante. Uma torção. Não estava quebrada. No lugar onde minhas costelas tinham colidido com o desfiladeiro também doía. Senti a ausência de Bahi como uma ferida aberta enquanto Jin enfaixava minha mão com o sheema, desajeitado de exaustão. Seus dedos deslizaram sobre o tecido antes de abaixar minha mão com cuidado.
— Você está bem? — ele perguntou.
— Vai melhorar.
Ambos sabíamos que ele não estava falando da mão, mas Jin deixou pra lá.
— Você consegue atirar com a mão esquerda?
— Se precisar — eu disse.
Jin me ofereceu sua arma. Observei-a em suas mãos, mas não a peguei com a mesma rapidez de antes. Do dia anterior.
— Você sabe o que aconteceu, não é?
— É por causa do ferro. — Peguei a arma pelo cabo de couro, com cuidado para não encostar no metal. Pensei em como Jin tinha pressionado a bala contra minha pele enquanto a areia se erguia. Bastou um toque e eu estava impotente por causa daquilo que havia moldado toda a minha vida, quisesse eu ou não. Era como os buraqis e as ferraduras: enquanto houvesse ferro na minha pele, eu não poderia evocar meus poderes de demdji. — Foi por isso que passei minha vida toda sem saber que eu era uma demdji. Porque sou da Vila da Poeira. — A garota que aprendeu sozinha a atirar. Até que pudesse derrubar uma fileira de latas como se elas não fossem nada, e a arma fosse tudo. — Porque eu sou a garota que está sempre armada.
E Noorsham era o garoto das minas de ferro. Ele disse que ficou doente. Doente o suficiente para deixar as minas e parar de inalar pó de ferro por algum tempo, talvez. Então, quando voltou ao trabalho, voltou como demdji.
— E veio de uma cidade onde até a água tinha gosto de ferro. — Jin abria e fechava a mão vazia. Suas articulações estavam machucadas, e o movimento só piorava as feridas. Aquilo devia doer.
— Aposto que você não esperava tanta complicação quando me raptou daquele lugar maldito.
— Eu não raptei você! — Pelo menos Jin tinha parado de se machucar. Ele então percebeu que eu só estava provocando e soltou os ombros.
— Você me raptou um pouquinho. — Era como se estivéssemos de volta à Joelho de Camelo, só que agora não havia mais segredos sobre quem eu era.
Eu não ia conjurar ilusões a partir do ar, confundir a mente das pessoas ou mudar de forma. Nas histórias, aqueles eram os poderes dos djinnis que enganavam mortais ou uns aos outros. Mas havia outras histórias. Massil e a areia que preencheu o mar num surto de raiva de um djinni. A cidade dourada de Habadden queimada pelo djinni por sua corrupção. Como Noorsham fez. Me perguntei se eu poderia enterrar o mar na areia também.
— Os olhos de Noorsham eram da mesma cor que os meus. — Não era possível que eu fosse a única a encaixar todas as peças. — Ele tem mais ou menos a minha idade. Nasceu numa cidade vizinha. — Não era possível que só eu estivesse pensando naquilo. — Da Vila da Poeira a Sazi são apenas algumas horas de cavalgada em um buraqi. Quanto tempo acha que demora com os passos de um djinni? Noorsham é meu irmão, não é?
— Não importa o que ele seja, não é parte da sua família. Família e laços de sangue não são a mesma coisa. — Mas Jin evitava meu olhar.
— Se isso é verdade, por que você não atirou em Naguib na Vila da Poeira? — A verdade apareceu no rosto dele, por tempo suficiente apenas para que eu pudesse lê-la. — Também não quero que meu irmão morra, Jin.
Nós entendíamos um ao outro. O irmão dele e o meu eram somente armas nas mãos do sultão.
— Amani. — Jin colocou as mãos no meu rosto. — Não precisamos fazer nada. Ele está indo atrás dos gallans. Você não precisa impedi-lo. — Eu estava tão acostumada à certeza inabalável de Jin. O tom de sua voz, a hesitação dos seus dedos deslizando pelas minhas bochechas, isso era terreno inexplorado. — Podemos recuar. Sobreviver para lutar outro dia.
— Estaríamos apenas sobrevivendo parar morrer outro dia. — Encostei a testa na dele. — Precisamos impedir Noorsham. Se o sultão tem uma arma como essa, é apenas questão de tempo até que termine com os estrangeiros e venha atrás de nós. Talvez a gente nunca tenha outra chance.
Eu não tinha nem certeza do que queria dizer com “impedir”. Matá-lo? Resgatá-lo? Salvá-lo?
— Eles estão indo para o acampamento Gallan — continuei, e no momento que disse soube que estava certa. — Vão matar a todos. Podemos chegar lá primeiro.
— Não estou muito a fim de salvar nenhum soldado gallan — Hala interrompeu. — Vivi como uma demdji num território ocupado por mais tempo que você. Todos eles merecem virar cinzas, na minha opinião. Vamos cuidar de nós mesmos.
— E Fahali? — Olhei em volta, para o grupo de rebeldes cansados e maltrapilhos. — E quanto a todo mundo lá? Eles estão voltando para incinerar os gallans, mas muitas pessoas do deserto vão ser fulminadas junto.
Ninguém me respondeu.
— Precisamos dormir. — Jin passou as mãos pelo rosto. Eu também estava exausta. Até o fundo da alma. — Ninguém toma decisões inteligentes no meio da noite. Vamos dormir e amanhã seguimos para o acampamento. Temos que contar a Ahmed sobre a arma. Aí decidimos o que fazer.
Amanhã seria tarde demais. Eu sentia aquilo dentro de mim, deitada entre o deserto e as estrelas, morta de cansaço, mas com a cabeça agitada demais para dormir.
Ninguém toma decisões inteligentes no meio da noite, Jin dissera. Foi no meio da noite que tomei a decisão tola de ir vestida de garoto para Tiroteio. E eu faria tudo de novo se precisasse. Não tinha sido uma decisão, na verdade. E aquela tampouco era.
Eu estava de pé antes de saber direito o que planejava fazer. À luz das brasas da fogueira, comecei a preparar os suprimentos. O bastante para uma caminhada de um dia pelo deserto.
— Fugindo como um ladrão no meio da noite?
Saquei a arma rapidamente. Shazad ainda estava deitada, encostada na fera azul peluda que era Izz, mas seus olhos estavam bem abertos, me observando. Eu não sabia por quanto tempo.
— Vai me impedir? — Nós duas sabíamos que ela poderia, se quisesse. Eu não atiraria nela. Ainda assim, não baixei a arma na hora, por mais desajeitada que ela ficasse na minha mão esquerda. — Ele é meu irmão, Shazad. É minha responsabilidade. E posso avisá-los. Mesmo se não puder fazer mais nada, posso avisá-los…
— Não estou tentando te impedir. — Shazad empurrou o chão com as mãos para sentar. — Só estou ofendida por não me chamar para ir junto.
— Essa é a coisa inteligente a fazer, general? — Eu podia sentir o fogo acendendo dentro de mim novamente. Aquele que tinha sido apagado pelo medo e pela perda de Bahi. E podia vê-lo em Shazad também.
— Não — ela admitiu, enquanto pegava suas armas e começava a prender as cimitarras nos ombros. — A coisa inteligente a fazer seria deixar o sultão gastar suas forças lutando contra seus antigos aliados e torcer para que eles o matem, deixando o trono vago para Ahmed. — Ela afivelou a segunda espada. — Mas Naguib me reconheceu. Então não tenho tempo para esperar por isso. Se não o impedirmos logo, ele vai enviar notícias para o sultão, e meu pai, minha mãe e meu irmão serão queimados como Bahi. E depois ele vai vir atrás de nós. Além disso… — Ela estendeu a mão para mim e eu a ajudei a ficar de pé. — É a coisa certa a fazer.
Eu podia estar envolvida com Jin. Mas com Shazad era mais simples. Estávamos conectadas.
Ela se voltou para ele, esparramado perto da fogueira, o chapéu cobrindo os olhos.
— Sei que está acordado. Você vem?
Ele suspirou, empurrando o chapéu para trás.
— Tá bom, tá bom. Eu só estava tentando cochilar um pouco antes de partir rumo a uma morte quase certa.
— Acho que ladrões na calada da noite deveriam ser mais silenciosos, sabiam? — Hala murmurou do seu lado da fogueira. — Qual é exatamente o plano para matar todos nós, general?
— Simples. Vamos fazer com que destruam uns aos outros. — Todos nós paramos para olhar para ela, esperando. Shazad levou um instante para perceber que estava alguns passos à nossa frente. — O sultão quer expulsar os gallans, mas não quer uma guerra aberta. É por isso que está tentando nos culpar pela destruição causada por Noorsham. Se os soldados gallans puderem ver Noorsham, ver que ele é a arma do sultão, e não nossa, então vai começar uma guerra de verdade, com o fim da aliança. E isso nos deixaria apenas com o sultão para derrubar, sem um exército estrangeiro inteiro atrás de nós também. Tudo o que precisamos fazer é matar Noorsham antes que ele mate os gallans.
— Ou mate a gente — Hala comentou. — Então são cinco de nós contra dois Exércitos e uma superarma demdji insana.
Olhei para o círculo de rostos na escuridão. Na Shihabian, dois dias antes — Deus, fazia apenas dois dias? —, eu tinha me sentido uma impostora. Uma peça que não se encaixava direito na rebelião, por mais que quisesse. A tola Bandida de Olhos Azuis do Jin que havia abandonado sua cidade sem saber por quê. A demdji sem poderes que não podia salvar ninguém. Mas, naquele momento, de pé naquele círculo, eu conseguia sentir o que fazia todos permanecerem unidos e arriscarem a vida pela causa. Eu era um elo na corrente.
— Acho que sim — eu disse.
— Tem uma expressão antiga que fala sobre combater fogo com fogo. — Shazad disse. Talvez ela preferisse não ser chamada de general, mas o título lhe caía como uma luva. Ela observou seu pequeno exército: um metamorfo, uma garota dourada, um príncipe forasteiro e uma bandida de olhos azuis. — Isso nunca fez muito sentido para mim. Mas combater o fogo com demdjis que não queimam tão fácil talvez funcione.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!