16 de setembro de 2018

Capítulo 26

LUCIA
PAELSIA

— Juro pela deusa — Lucia disse, com a mão na barriga — que essa criança vai me matar.
Ela nunca pensou que uma gravidez seria simples. Já tinha visto mulheres grávidas que reclamavam de dor nas costas, tornozelos inchados e náusea constante. Mas sabia que aquele caso era diferente.
O caminho que Jonas prometeu conduzir à família dela era longo e tortuoso. Sempre que a carroça mudava de direção muito depressa ou passava um obstáculo, Lucia sentia vontade de gritar de dor.
— Quer que eu peça ao condutor para parar de novo? — Jonas perguntou.
— Não. Já perdemos muito tempo.
O rebelde estava calado durante a viagem que, devido a várias paradas, tinha demorado quase um dia inteiro desde a partida da casa da irmã dele.
Lucia teve que perguntar.
— Sua irmã odeia você por causa de quem eu sou? Por você ter me levado à casa dela?
— Seria mais do que suficiente, acho. Eu errei ao levar você lá pensando que ela estaria disposta a ajudar. Mas minha irmã me odeia por outros motivos. Motivos válidos. Não posso negar que abandonei minha família. Apesar de achar que eu os estava protegendo ao ficar longe, agora vejo que foi a decisão errada. Eu deveria estar lá quando meu pai morreu.
— Sinto muito — ela disse.
Jonas olhou para ela.
— Sente?
— Apesar do que você pensa de mim, não sou uma pessoa sem coração.
— Se está dizendo…
Lucia resmungou.
— Por favor, continue falando, mesmo que seja só para me ofender. Quando você fala, a dor parece diminuir um pouco. — Ela observava o que podia da paisagem, que tinha deixado de ser rural e se tornado mais movimentada, com construções mais próximas e estradas menos acidentadas e muito percorridas. — Ainda estamos longe?
— Não muito. Vou continuar falando para aliviar sua dor durante o resto do caminho. Da última vez em que vi meu pai, decidi que nunca seria como ele. Mas, ainda assim, deveria estar presente quando ele morreu. Como muitos paelsianos, meu pai aceitou a vida que foi apresentada para ele e nunca se esforçou para mudá-la. Ele acreditava cegamente no chefe Basilius. Acho que também acreditei, por um tempo. Pelo menos até ver com meus próprios olhos que o chefe não tinha a magia que afirmava ter e que deixava paelsianos morrerem de fome enquanto vivia como rei em seu complexo, graças aos altos impostos que cobrava sobre a produção do vinho paelsiano. Ele me fez muitas promessas de um futuro melhor, chegou até a querer que eu casasse com a filha dele.
Era esquisito, mas a voz do rebelde realmente parecia acalmá-la. Pelo menos até ele dizer aquele nome.
— O chefe Basilius queria que você casasse com a filha dele? Qual delas?
— Laelia. — Ele a observou. — Por que parece tão surpresa? Porque a filha de alguém como Basilius não teria nada a ver com o filho de um vendedor de vinhos?
— Não é por isso.
— Olha só, ela não achou ruim.
— Minha nossa, rebelde! Seu antigo noivado é um assunto delicado para você?
— Não. Mal penso nisso ou nela. Não tenho interesse em casar. — Ele contraiu o maxilar e continuou resmungando, como se falasse sozinho. — Casamento traz filhos, e filhos… não me vejo criando um filho, por mais importante que isso possa ser.
Lucia franziu a testa para ele.
— Claro que não. Você ainda é jovem.
— Você também é.
— Não escolhi isso.
Ele continuou sério.
— Fico pensando quantos de nós conseguem escolher o futuro, ou se o destino já está traçado e somos fadados a simplesmente acreditar que temos controle sobre a vida.
— Que filosófico. Para sua informação, fiquei surpresa ao saber de seu noivado com Laelia porque descobri recentemente que Gaius Damora não é meu pai de verdade. Ele me sequestrou por causa da profecia. Meu pai verdadeiro era o chefe Basilius. Laelia é minha irmã.
Jonas hesitou.
— Fico surpreso por me contar isso.
— Por quê? Estamos conversando, e esse segredo não importa mais.
Ele franziu a testa.
— Então você é paelsiana.
Lucia riu sem graça.
— É só o que você conclui dessa revelação?
Jonas praguejou em voz baixa enquanto observava o rosto dela.
— Você parece com ela, agora que estou prestando atenção. Com Laelia. Os mesmos olhos azuis, a mesma cor de cabelo. Mas sem a cobra. E você está muito pálida agora. Não está se sentindo bem mesmo, não é?
— Nem um pouco.
— Então essa gravidez rápida é coisa de feiticeira? Devido a todos os seus elementia?
— Acho que tem mais a ver com minha visita ao Santuário. A rapidez só aconteceu depois que voltei para Paelsia.
Jonas a encarou chocado.
— Você esteve no Santuário? O Santuário de verdade, onde os imortais vivem?
Ela assentiu.
— Durante um tempo. Um Vigilante chamado Timotheus tem tolerado minha existência por causa da profecia. Às vezes ele aparece em meus sonhos. Eu sabia que precisava vê-lo e pedir sua ajuda. Para ser sincera, ele não foi tão solícito assim. — Os ombros de Jonas ficaram tensos quando disse aquele nome. — O que foi?
— Nada. Você disse Timotheus?
— Ele tem visões… sobre mim, sobre este mundo e sobre o mundo dele. Mas guarda segredo sobre as visões que me envolvem.
— Imagino que sim. — A expressão de Jonas era inescrutável. Ela não sabia bem se Jonas estava fascinado com o que ela estava dizendo ou entediado.
— Bom… — Lucia observou o grande vilarejo ao redor no qual a carroça adentrava, torcendo para a viagem terminar logo. — Ele não apareceu em meus sonhos nenhuma vez desde que voltei para cá. Ou não pode mais fazer isso ou está me deixando em paz para que eu descubra meu destino sozinha. Como você disse, pode ser que seja decidido sem qualquer intervenção minha.
Jonas não respondeu e demorou um pouco para dizer alguma coisa.
— O pai de seu filho… era bom ou mau?
Ela estava prestes a dizer que aquela pergunta era esquisita, mas como já sabia que Jonas a considerava má, concluiu que era válida.
— Acredito que Ioannes era bom, mas foi manipulado por outros para fazer o mal. Ele tinha ordens de me matar e, quando o momento chegou, se recusou e se matou.
— Ele se sacrificou por você.
Ao se lembrar de Ioannes, a dor que sentia na barriga foi para o coração. Tentava pensar nele o mínimo possível para evitar remorso ou pesar em relação ao imortal.
— Ele lutou contra a magia que o forçava a me levar de um lugar ao outro como se eu fosse uma peça de um jogo de tabuleiro. Ele me ensinou mais sobre minha própria magia. Ele até me ensinou a roubar a magia dos outros para enfraquecê-los. Eu não sabia por que fazia isso na época, mas no fim… entendi. Ele estava me ensinando a matar um imortal.
— Você matou um imortal roubando toda a magia dele?
— Não, matei uma imortal roubando toda a magia dela.
Distraidamente, Jonas esfregou o peito.
— Você acha que posso aprender a fazer isso? Roubar magia?
— Não acho que eu deveria ensinar algo assim a alguém que me odeia. Além disso, até onde sei, a marca que você me mostrou foi feita com tinta.
— Não foi. — Ele olhou para as próprias mãos. — Não sei… no navio, consegui usar um pouco da magia que há em mim. Não muito, mas ainda sinto a pressão dentro de mim para sair. É como se estivesse tentando sair, mas não sei como liberá-la, nem se quero que isso aconteça.
— Minha própria magia foi difícil de compreender depois que despertou dentro de mim. Talvez você simplesmente precise ser paciente.
— Sim, claro, porque tenho muito tempo para ser paciente com uma imperatriz e um deus de fogo que preciso enfrentar. Sugestão incrível, princesa. — Ele levantou quando a carroça parou. — Chegamos.
Lucia desviou o olhar do rebelde e percebeu que reconhecia a cidade onde tinham entrado: Basilia. Ela observou as ruas movimentadas e sentiu o fedor do Porto do Comércio dali.
— Meu irmão e meu pai estão aqui?
— Estavam da última vez em que os vi. — Jonas desceu da carroça num salto e ofereceu a mão a Lucia, que pareceu em dúvida. — Vamos, princesa. Não trouxe você até aqui para deixá-la cair da carroça, muito menos em seu estado delicado.
— Não sou delicada.
— Se está dizendo… — Ele deu de ombros, mas não recolheu a mão.
Resmungando, Lucia segurou a mão dele e o deixou ajudá-la a descer da carroça.
— Você precisa comer? — ele perguntou. — Tem uma taverna aqui perto onde pode encontrar sua irmã de sangue. Acho que você não comeu hoje.
Pensar em Laelia só trazia lembranças desagradáveis.
— Eu já a vi e não tenho tempo para comer. Quero ver minha família.
— Tudo bem. — Ele franziu a testa. — Você não me disse que conhecia Laelia.
— Como acha que eu soube quem sou?
— Não sei… Pela magia?
— Os elementia não podem resolver todos os problemas, infelizmente. Fui em busca da verdade, e essa busca me levou a Laelia. Quando soube quem eu era, ela pediu dinheiro… muito dinheiro para ajudá-la agora que seu pai está morto e ela teme que alguém a reconheça. Por mim, tudo bem se eu nunca mais a vir.
— Basilius também era seu pai.
— Nunca vou dizer que o chefe era meu pai.
— Mas gosta de dizer que o Rei Sanguinário é sua família.
— Apesar do que você pensa, Gaius Damora foi bom para mim. Ele me manteve segura e protegida até que fui tola o suficiente para fugir, pensando que estava apaixonada por um rapaz que conhecia fazia poucos dias. Gaius me roubou do berço por causa da minha profecia. Ele poderia ter me mantido trancada. Mas em vez disso, me criou como sua filha, como uma princesa. Recebi educação e uma vida maravilhosa em um lar que eu adorava.
Jonas balançou a cabeça.
— Hum, bom, acho que tive uma ideia errada dele desde sempre. De fato o rei Gaius é uma pessoa gentil e maravilhosa.
— Certo, vou guardar saliva para uma conversa mais útil, com meu pai, por exemplo.
— Tudo bem. Vou levá-la a sua família perfeita e amorosa e acabar com isso de uma vez. Preciso voltar ao complexo da imperatriz à procura de meus amigos idiotas que atraem problemas em um piscar de olhos.
Lucia seguiu Jonas pela estrada. Ela sentiu uma pontada pelas palavras grosseiras que havia dito. O rebelde a tinha ajudado muito.
— Quero que saiba que agradeço por isso. O que você fez, me trazer aqui… Cuidarei para que nada de mal lhe aconteça, apesar de todos os seus crimes horrorosos.
— Ah, que ótimo. Obrigado, princesa. Você é um doce.
Ela ficou tensa.
— Ou talvez não faça isso. — Quando ela começava a tratar o rebelde de modo menos rígido, ele a provocava. Lucia estava prestes a dispensá-lo por completo quando uma onda de dor fez seus joelhos fraquejarem.
Jonas segurou seu braço.
— Princesa?
— Estou bem — ela disse, rangendo os dentes. — Tire a mão de mim.
— Não. — Quando Jonas a pegou no colo, ela estava fraca demais para impedi-lo. — Você é um problema, não?
— Mostre onde minha família está.
— Não vai me agradecer por eu ter impedido que você caísse como um saco de batata no meio da rua? Tudo bem, então. Eles estão na hospedaria da esquina. Levo você até lá. O que acha de poupar sua energia e meus ouvidos ficando quieta?
De todo modo, Lucia não conseguia falar. A dor era muito intensa. Ela semicerrou os olhos, respirando fundo, trêmula. Podia aguentar, tinha que aguentar. Contanto que seu filho estivesse seguro, podia aguentar qualquer coisa.
Jonas se movia bem depressa para alguém carregando uma grávida. Lucia teve que segurar nos ombros dele para se sentir segura quando ele entrou na hospedaria.
A poucos metros da porta, havia uma mulher abaixada esfregando o chão. Ela devia ter acabado de começar, já que havia sangue por todo lado.
— Me ponha no chão — Lucia pediu a Jonas, assustada com a cena inesperada.
Ele obedeceu.
— O que aconteceu aqui? — ela perguntou.
A mulher levantou a cabeça, os olhos vermelhos e cansados.
— Não estamos aceitando hóspedes hoje. Desculpem, mas há muitas hospedarias descendo a rua.
— De quem é esse sangue?
A mulher só balançou a cabeça e se concentrou em sua tarefa.
— Maria — Jonas chamou, agachando-se ao lado dela. Ela o encarou, e seu olhar revelou que o reconhecia.
— Jonas, você voltou. — Ela sorriu sem vontade. — Acho que você foi o único que se deu ao trabalho de guardar meu nome.
— Como eu poderia esquecer o nome da mulher que faz os melhores bolinhos de figo que já comi?
Lágrimas escorreram pelo rosto de Maria.
— Foi horrível.
— O que aconteceu? — Lucia quis saber, punhos cerrados. — Diga ou…
Jonas a encarou com os olhos arregalados.
— Você não vai fazer nada com essa mulher. Não se aproxime nem mais um passo.
— Ela é sua esposa, Jonas? — Maria perguntou, assustada.
— Minha…? — Jonas riu baixinho. — Não, com certeza ela não é minha esposa.
Como aquela mulher pobre podia ousar pensar que ela se envolveria amorosamente com alguém como aquele rebelde cruel e grosseiro?
— Sou Lucia Eva Damora, e juro pela deusa que se não me contar o que aconteceu aqui e onde minha família está, vai se arrepender profundamente. — Lucia se arrependeu das palavras assim que as disse, e Jonas a olhou furioso.
— Lucia Damora… — Maria sussurrou, soltando o pano ensanguentado. — A feiticeira. Você está aqui. Poupe meu marido, por favor. Eu imploro.
— Ignore Lucia — Jonas resmungou. — Conte o que aconteceu, Maria. Não vou deixar a princesa machucar você nem sua família, de jeito nenhum. Eu juro.
— Soldados kraeshianos… entraram aqui, em número maior do que o dos homens que chegaram a Basilia. Houve uma briga… breve. O rei e o príncipe… — Ela balançou a cabeça. — É difícil demais.
Jonas assentiu, olhando para baixo.
— Alguém foi morto?
— Um jovem de cabelo escuro. Ele não me dava muita atenção enquanto vocês estavam aqui. Ele tentou defender os limerianos, mas foi morto rápido. Acho que o nome dele era Milo.
— E meu pai e meu irmão? — A ira de Lucia tinha sido substituída pelo medo. Ela levou uma mão trêmula à barriga.
— Eles se foram — Maria sussurrou. — Os soldados os levaram. Não sei para onde. A cidade está descontrolada. Muitos homens foram assassinados nas ruas nas últimas noites, a garganta cortada, os corpos apodrecendo abandonados. Algumas pessoas acham que são ordens da imperatriz, caso a desagrademos.
— E a princesa Cleiona? — Jonas perguntou. Sua voz estava tomada de preocupação. — Onde ela está?
— Saiu cedo hoje. Ouvi ela e o rei discutindo feio. Ele a mandou embora. O príncipe não gostou.
— Imagino que não — Jonas murmurou.
— Cleo estava aqui? — Lucia perguntou, atônita.
— Onde mais poderia estar?
— Morta, eu esperava.
Jonas a encarou sério.
— Quando estava começando a achar que você não era tão má e repugnante quanto pensei, você diz algo assim.
Ela revirou os olhos.
— Ah, por favor, não me diga que você é outro dos homens que Cleo conseguiu seduzir com o lindo cabelo e a atitude indefesa. Isso o faria cair ainda mais no meu conceito.
— Não dou a mínima para o que pensa de mim. — Ele a segurou com força pelo ombro. — Vamos embora. Conseguimos toda a informação que queríamos aqui. Muito obrigada, Maria. Fique protegida aqui dentro até tudo terminar.
— E quando vai terminar? — a mulher perguntou.
Ele balançou a cabeça.
— Gostaria de saber com certeza.
Do lado de fora, Jonas caminhou depressa, quase arrastando Lucia.
— Vamos à taverna — ele disse. — Vamos conseguir mais informações lá.
— E se alguém me reconhecer e tiver a mesma reação que aquela mulher?
— Sugiro que você não faça a besteira de se apresentar em voz alta, assim talvez consiga evitar isso.
— Ela me odeia.
— Pensei que você já estivesse acostumada com isso.
— Estou, mas… — De repente, ficou difícil respirar, o ar estava tão quente que Lucia começou a transpirar. — Preciso parar um pouco. Acho que vou desmaiar.
Jonas resmungou irritado.
— Não temos tempo para mais drama.
— Não estou sendo dramática. Está muito quente aqui fora.
— Não está nem um pouco quente hoje.
— Você acha que está quente, pequena feiticeira? — Uma voz familiar disse no ouvido dela. — Que estranho… Paelsia costuma ter temperaturas bem amenas nessa época do ano na costa oeste.
Lucia ficou paralisada.
— Kyan — ela sussurrou.
Jonas virou e olhou para ela.
— Onde?
— Não sei… Não consigo vê-lo. Você também consegue ouvi-lo?
— Ouvi-lo? Não. Você consegue?
— Sim. — A voz era a mesma, mas parecia vir de dentro da cabeça dela.
Ele não tinha uma forma que Lucia pudesse ver, apenas a sensação de calor que a envolvia. Ele conseguia ficar invisível?
— Esse é seu novo companheiro de viagem? Ele parece… inadequado. Jovem demais, inexperiente demais. Pena eu e você não termos nos entendido.
O coração dela disparou.
— Você tentou me matar.
— Você prometeu me ajudar e, na hora, se recusou.
— Não vou participar de seu plano maligno.
— Onde ele está? — Jonas girou com a espada empunhada.
— O garoto é um tolo, não? Acha que aquela arma mortal vai ter algum efeito em mim?
Lucia mal conseguia respirar. Durante todo aquele tempo, ficou sem saber o que tinha acontecido com Kyan, apesar de ter pesadelos com ele quase toda noite.
Ela precisava se acalmar. Não podia deixá-lo perceber que estava aterrorizara.
— O que você quer? — ela perguntou.
— Onde ele está? — Jonas perguntou de novo.
Lucia arregalou os olhos para o rebelde.
— Ele não passa de uma voz no momento. Abaixe a espada. Você está ridículo brandindo isso para ninguém.
Jonas guardou a espada na bainha.
— Será que você está imaginando coisas? Pode ser que esteja delirando de dor. Ou está tentando me enganar?
— Não para as duas perguntas. — Ela tentou ignorar Jonas, mas ele não estava facilitando as coisas.
O rebelde cerrou os punhos como se estivesse pronto para lutar contra o ar.
— Kyan, se pode me ouvir, se realmente estiver aqui, juro que vou acabar com você pelo que fez com Lysandra.
Lucia sentiu uma baforada quente quando Kyan riu.
— Quase me esqueci disso. Diga a ele que a culpa foi dela, não minha. Ela estava ansiosa demais para conhecer minha magia naquele dia.
— Você matou a amiga dele — ela disse. — Concordo que Jonas mereça se vingar por isso.
— Mortais e sua necessidade idiota de vingança… A morte faz parte da vida de vocês. Nada vai mudar isso. Ainda assim, ofereci imortalidade a você, pequena feiticeira, como recompensa por me ajudar.
— Ajudá-lo a destruir o mundo, é o que quer dizer.
— Este mundo merece ser destruído.
— Discordo.
— Não importa o que acha. Estou tão perto disso agora, pequena feiticeira… Você não faz ideia. Não preciso de sua ajuda para nada. Já dei outro jeito. Tudo está se alinhando perfeitamente. Está acontecendo como se já estivesse escrito.
Pensar que Kyan tinha encontrado outro jeito de levar adiante sua missão de destruir o mundo a deixou enojada. Mas talvez ele estivesse apenas blefando.
— Então essa é só uma visita de velhos amigos? — ela perguntou.
— Talvez. — A voz se movimentava ao redor dela, e Lucia girava para manter o som à sua frente. Não gostava de imaginar que havia um deus de fogo atrás de si. — Você está grávida. De Ioannes, não é?
Lucia não disse nada. Esperava que sua barriga ficasse escondida pelo manto.
— Dizem que as mães são guerreiras na hora de proteger os filhos. Vou lhe dar mais uma chance, pequena feiticeira. Ofereço imortalidade para você e seu filho. Vocês vão sobreviver e ajudar a construir o próximo mundo ao meu lado.
— Você não tinha dito que podia fazer o mal sem mim?
— Não é o mal. É o destino.
— Destino… — ela murmurou. — Sim, acredito no destino, Kyan. Acredito que era meu destino possuir isto.
Lucia pegou a esfera de âmbar de dentro do bolso e a segurou na palma da mão. Concentrou-se e respirou devagar. Seus elementia eram mais fáceis de acessar quando suas emoções estavam elevadas — o ódio e o medo eram as mais úteis para liberar sua magia.
Mas naquele momento, mesmo enfraquecida, com o anel de Eva no dedo, ela poderia tirar a fera da jaula.
Os pelos finos de seu braço se eriçaram, e Lucia sentiu a combinação de ar, terra, água e fogo dentro dela subir para a superfície da pele — uma pressão nas veias que insistia em se libertar.
Naquele dia, ela não queria soltá-la no mundo à sua volta — queria alimentá-la.
Ela desejava roubar magia.
Assim como tinha feito com Melenia, concentrou-se na magia que existia no ar à sua frente, enxergando-a com uma visão que ia muito além do comum. Era um brilho vermelho girando ao redor dela, incorpóreo, etéreo. E ela sentia, sem dúvida, que estava vulnerável naquele momento.
A própria essência de Kyan. Fogo.
A esfera começou a brilhar e Kyan emitiu um som abafado de dor.
— O que você está fazendo?
— Parece que Timotheus não é o único que você deve temer, não é? — ela comentou.
O fogo surgiu em um círculo ao redor de Lucia e de Jonas. Estava tão quente e forte que ela perdeu a concentração, e a chama pegou na manga de seu manto.
Aquela era a magia de Kyan ou dela mesma?
Jonas apagou a chama com o próprio manto, o mais rápido que conseguiu. Ela sumiu tão depressa quanto aparecera, deixando um círculo preto ao redor deles.
— Deu certo? — ele perguntou. — Você tentou prendê-lo, não tentou?
Lucia confirmou e observou a esfera de âmbar.
— Não sei.
Jonas olhou para o cristal.
— Não consigo ver a coisa preta girando.
— Seu companheiro fala demais, pequena feiticeira — Kyan sibilou. — Sua magia continua formidável, mas você falhou.
— Então vou tentar de novo. — Lucia pegou a esfera e tentou acessar sua magia, mas já tinha enfraquecido muito. — Droga!
— Minha pequena feiticeira, você sem dúvida não é a garota inocente e sofrida que conheci em seu pior momento, não é?
— Não, sou a feiticeira que vai acabar com você.
— Veremos. Você está procurando seu pai e seu irmão? Sugiro que se apresse para encontrá-los antes que a imperatriz arranque o coração dos dois.

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