1 de setembro de 2018

Capítulo 26

LUCIA
AURANOS

Quando Cleo saiu correndo, Lucia caiu no chão, apoiando-se com as mãos enquanto a frieza que havia dentro dela desaparecia, restando apenas o calor da fúria. Mesmo com o anel, seus elementia queimavam no interior de seu corpo. E quanto mais ela resistia, mais doía.
Você podia tê-la matado, a magia sussurrou na voz de sua mãe morta.
Não. Ela não podia matar mais ninguém.
Ela mereceEla mentiu para você. Todos eles mentem para você e a usam. Não se importam com você. Querem apenas a Tétrade. E você é apenas um meio para conseguirem.
O rei vai pegar o que entregar a ele e se livrar de você depois, sem hesitar. Para eles — o rei, Cleo, Magnus — você não passa de uma ferramenta para conseguirem sua magia.
Cada um desses terríveis pensamentos era como uma adaga em seu coração, porque ela sabia que eram verdade.
E quanto mais se dava conta disso, mais zangada ficava. Ela se levantou e olhou para si mesma, percebendo que estava coberta de fogo, dos pés à cabeça: uma chama azul que, de algum modo, não consumia seu vestido, seus sapatos nem sua pele. Ela olhou para as mãos, em parte fascinada, em parte horrorizada.
Foi até a janela e olhou para o dia perfeito. Concentrou-se até nuvens escuras se acumularem no céu, até então azul — um casamento entre magia de água e ar. Quando veio a tempestade, ela foi até a varanda, apertou bem os olhos e deixou a chuva encharcá-la. Isso extinguiu as chamas, mas não fez nada para afastar a escuridão que se formava dentro dela.
Aquela escuridão que havia começado a consumi-la.
Devia matar todos eles pelo que fizeram com você.
Lucia abriu bem os olhos. Por um instante, imaginou-se fazendo exatamente aquilo: utilizando sua magia para destruir as pessoas que diziam amá-la, mas que estavam apenas se aproveitando dela. Por um instante, o pensamento foi reconfortante.
Mas logo ela percebeu o horror que havia nele.
Com os cabelos e o vestido encharcados, ela se afastou da mureta da varanda e saiu correndo pelo quarto, espalhando as flores usadas na aula daquele dia. Atordoada, saiu do quarto e foi tropeçando pelo corredor, sem se preocupar em ver quem poderia estar por perto. Tinha certeza de que as pessoas estavam estranhando sua desorientação, já que pingava água pelo caminho, mas não se importava.
— Princesa, está tudo bem? — um guarda perguntou quando ela passou por ele.
— Não — ela sussurrou. O homem foi atrás dela para oferecer alguma assistência, mas ela invocou magia do ar e o pressionou contra a parede, o que lhe permitiu escapar sem resistência.
Lucia não sabia ao certo aonde estava indo até chegar ao quarto que tinha sido oferecido a Ioannes, na ala dos empregados. Ela protestara diante da decisão de deixá-lo nos alojamentos dos criados, e não nos aposentos mais suntuosos reservados aos hóspedes, mas ele disse que não se importava. Disse que compreendia e gostava de ficar lá.
Lucia abriu a porta e entrou, tremendo tanto pela água fria que escorria por seu corpo quanto pela magia que fluía logo abaixo de sua pele.
Ela esperou no quarto escuro e tentou não perder o controle, tentou não mergulhar mais em seus poderes por medo do que aconteceria depois.
Finalmente, um feixe de luz das tochas do corredor iluminou o quarto quando Ioannes abriu a porta.
— Lucia, o que está fazendo aqui?
Vê-lo não trouxe o alívio que ela esperava, apenas intensificou a dor que sentia diante do que quase tinha feito.
— Não sei o que há de errado comigo.
As tochas nas paredes começaram a brilhar, distraindo-a por um instante. Ela não havia feito aquilo; Ioannes as acendera com sua magia.
De repente, ele a estava pegando nos braços, com uma máscara de preocupação sobre o belo rosto.
— O que aconteceu?
— Eu quase a matei.
— Quem?
— Cleo. Ela estava mentindo para mim, esse tempo todo. Ela nos traiu. Acreditei de verdade que pudesse ser minha amiga. — Ela respirava com dificuldade, sentindo-se mais magoada do que achou que ficaria com aquela garota falsa. — Mas fui burra demais. Burra demais de confiar nela, mesmo por um instante. Não posso confiar em ninguém!
— Lucia. Olhe para mim. Por favor, tente respirar.
— Eu queria que ela morresse. Queria fazê-la gritar de dor pelo que fez. Sei que é errado, que é horrível. Tão horrível.
— Não — ele disse, sacudindo a cabeça. — Não é errado.
— Como pode dizer isso? Eu estava começando a acreditar que minha magia era boa, mas se ela pode me fazer sentir essa… essa escuridão que mal consigo controlar, mesmo com o anel… como pode estar certo?
— Você precisa parar de duvidar de si mesma. Existem trevas no mundo, é claro, mas há sempre um equilíbrio. Você é uma prova viva desse equilíbrio. Para aceitar o bem, você também tem que aceitar o mal. Se continuar combatendo essa verdade, ela vai acabar com você. — Ele pareceu angustiado. — Droga. Não quero perder você. Não quero perder você nunca. Entendeu?
— Mas, Ioannes…
Ele a puxou para mais perto, segurando o rosto dela com as duas mãos, e a beijou com vontade. Ela ficou sem fôlego, surpresa, depois suspirou aliviada. Era disso que precisava — de seu toque, sua garantia de que tudo estava bem. Sua boca junto à dela em um beijo que nunca terminava, apenas se intensificava cada vez mais.
Era um beijo diferente de qualquer outro entre eles, comparável apenas ao primeiro, nos sonhos dela, que fragmentara todo o mundo inconsciente ao seu redor.
O beijo carregava a mesma paixão do anterior, mas era real, em carne e osso. Dessa vez, dava a sensação de que seu mundo inteiro estava se despedaçando, deixando para trás nada além de Ioannes.
— Por favor — ele sussurrou junto aos lábios dela —, nunca mais duvide de si mesma. Você é perfeita para mim em todos os aspectos. Eu amo você, Lucia. Eu amo muito você.
Ele a beijou de novo, e ela retribuiu completamente dessa vez, abrindo-se para o brilho forte que havia bem no fundo de si e a ajudava a espantar o resto da escuridão que ainda havia em seu coração.
A sensação era tão boa. Ela queria mais.
Lucia tentou encontrar as amarras da camisa dele, desatando-as para revelar a espiral dourada em seu peito. Estava mais escura do que quando a vira pela primeira vez em sonhos, e depois na sala do trono, parecendo mais uma tatuagem do que a evidência física de sua origem de vigilante. Ela roçou os lábios sobre o símbolo, sentindo a velocidade das batidas de seu coração.
Ioannes respirou fundo, segurando os braços dela, contendo-a.
— Princesa…
Lucia olhou para ele com uma dúvida repentina.
— Quer que eu saia?
Ele soltou uma risada leve.
— Não, não quero que você saia.
— Então quer que eu fique.
— Quero.
Aquela única palavra a satisfez profundamente.
— Por quanto tempo?
Uma sombra tomou conta do rosto dele.
— Aqui neste quarto, sozinha comigo?
Ela confirmou.
— Se dependesse de mim, não queria que fosse embora nunca — ele sussurrou. — Nunca.
Lucia sorriu para ele. Aquelas palavras eram um bálsamo para suas feridas invisíveis, curando-a e renovando sua alegria e esperança.
— Ótimo — ela sussurrou.
Havia confusão e dor no olhar dele, um sofrimento muito grande que ela queria apaziguar. Mas, além do sofrimento, Lucia também via algo mais profundo e infinito, direcionado apenas para ela.
— Tem certeza de que quer isso? — ele perguntou, a voz abafada enquanto Lucia tirava a camisa dele, deixando-a cair no chão. — Você estava tão chateada agora há pouco; não quero que faça nada se não se sente pronta.
— Tenho certeza — ela disse, mais confiante do que já tinha se sentido em relação a qualquer coisa. — E estou pronta.
— Você é tão jovem…
— Sou feita de minha magia, e minha magia é mais antiga que as estrelas. — Ela sorriu, nem um pouco disposta a desistir. — E já esperei o bastante. Eu amo você. Faça amor comigo, Ioannes.
Lucia achou que ele pudesse hesitar mais uma vez, olhar para ela com dúvida ou tentar argumentar mais um pouco. Mas seus olhos prateados apenas se encheram de um desejo infinito quando segurou o rosto dela entre as mãos.
— Como quiser, princesa.
Quando a beijou de novo, não houve comedimento. Assim como os céus se abriram ao comando dela e trouxeram uma tempestade para a temperada Auranos, aquele beijo abriu um portal para uma parte mais profunda, mais lindamente caótica de sua alma.
Ao seu comando, Ioannes era dela… de corpo e alma.
Lucia não podia mentir sobre isso nem para si mesma. Já tinha imaginado como seria estar com Ioannes, mas a imaginação não chegava nem aos pés daquilo.
Sua mãe a alertava com frequência sobre como seria compartilhar o corpo pela primeira vez. Alertara sobre as coisas terríveis que os homens gostavam de fazer com as meninas, com ou sem permissão. Falava sobre como a castidade tinha que ser protegida a todo custo — em especial a castidade de uma princesa.
Que bando de mentiras eram aqueles alertas. O amor fazia toda a diferença — sempre fizera. Não havia nada sujo nem errado no que ela e Ioannes compartilhavam.
Estar com ele por completo, ali, naquele instante, em seu pequeno quarto, no pequeno leito com seu belo corpo dourado cobrindo o dela… tinha sido a perfeição.
Um arrepio agradável percorreu seu corpo quando Ioannes passou o dedo devagar na linha de seu ombro nu. Lucia chegou bem perto dele, a mão sobre seu peito. O toque dele a impedia de se concentrar.
— Fuja comigo — ele sussurrou.
— E para onde iríamos? — ela perguntou, chegando ainda mais perto e roçando o nariz no pescoço dele, passando os lábios por seu pescoço.
— Para onde você quiser.
Ioannes oferecia possibilidades tão incríveis, uma seleção interminável e empolgante delas.
— Meu pai ficaria louco se eu fugisse de casa.
— Sem dúvida.
— Mas também ficaria louco se soubesse que estive aqui com você, assim.
Ele acomodou a mão na curva da cintura dela.
— Acho que a cabeça dele explodiria, na verdade.
Lucia sorriu só de imaginar.
— Cleo quase foi banida por ter feito uma escolha parecida, embora culpe o vinho por ter perdido a castidade. Eu não tenho essa desculpa, não é?
Ele acariciou seus longos cabelos pretos, enrolando um cacho grosso nos dedos e o analisando como se o fascinasse. Mas logo franziu a testa e olhou de novo nos olhos dela.
— Você se arrepende?
Ela o puxou para mais perto, beijando-o mais uma vez.
— Só me arrependo de termos esperado tanto tempo. Faz quase duas semanas que você está aqui. Tanto tempo perdido.
Ele soltou um gemido grave.
— Você é perigosa, princesa. Mas isso tem pouco a ver com sua magia.
Ela riu, sentindo-se ao mesmo tempo perversa e feliz. Quem diria que era possível sentir as duas coisas ao mesmo tempo?
— Posso aceitar esse tipo de perigo.
Um cacho cor de bronze caiu sobre a testa dele.
— Preciso lembrá-la de que agora sou mortal. Posso ser assassinado por reis furiosos que encontrarem suas filhas inocentes na cama com o tutor.
Lucia ergueu uma sobrancelha, abrindo mais o sorriso.
— Precisamos garantir que ele nunca descubra.
Ioannes a deitou de costas, segurando seus braços ao lado do corpo.
— Case comigo.
Ela ficou sem fôlego.
— O quê?
— Você ouviu. Se fugirmos e nos casarmos, o rei não poderá dizer muita coisa além de nos parabenizar.
Ioannes não tinha ideia do que — e do quanto — estava pedindo, principalmente considerando como afetaria sua família.
— Meu pai pode matá-lo mesmo assim.
— É um risco que estou disposto a correr. — Ele riu diante da expressão surpresa dela. — O que foi? Você disse que me amava. Acabou de compartilhar seu próprio ser comigo da maneira mais íntima possível, incondicionalmente e sem arrependimentos.
Lucia balançou a cabeça antes que ele entendesse mal sua apreensão.
— Você está certo. Eu amo você… amo mesmo. É que… Tem tanta coisa acontecendo agora… — A cabeça dela flutuava com todos os problemas, todas as dúvidas. — Não consigo esquecer o que aconteceu com Cleo. Eu… eu estou melhor agora, estou, sim. Sei que exagerei. — Uma sombra pairou sobre ela quando Ioannes tocou seu rosto, acariciando-o até o queixo. — Mas ainda não confio em nenhum deles. Sei que querem me usar. Nunca me deixarão ir.
Um vislumbre de preocupação tomou conta do olhar dele.
— Acho que está certa. Existe muita gente capaz de se aproveitar de alguém com suas habilidades, sua profecia. Você precisa ter cuidado.
A confirmação a surpreendeu.
— Ioannes, eu já devia ter contado, mas fiz o feitiço de novo, sozinha, para despertar o último cristal.
Ele ficou muito quieto, e então disse:
— O quê?
— Sei que queria estar lá, mas consegui fazer sozinha. Sem nenhum problema. — Ela mentiu.
Ele ficou sério.
— Eu pedi para você esperar, princesa.
— Sei que pediu. Mas está tudo bem. O feitiço funcionou perfeitamente. O cristal da água está aguardando para ser invocado neste momento.
Ele soltou um longo suspiro, ainda com traços severos no rosto.
— Muito bem, está feito. Me diga onde despertou o cristal.
— No Templo de Valoria. — Ela não viu nenhuma surpresa nos olhos dele, o que confirmou sua certeza. O templo era, sem dúvida, o quarto local de poder de Melenia.
Tudo fazia sentido. Nos mapas que vira seu pai analisar, a Estrada Imperial terminava perto do templo.
— Não houve nenhum desastre lá — Ioannes disse. — Nenhum sangue foi derramado. Mas, mesmo assim, acredita que é esse o lugar.
— Tenho certeza — ela respondeu. Mas logo uma sombra de preocupação se abateu sobre sua confiança. — Compartilhei essa informação com Cleo, para ver a reação dela. Para ver nos olhos dela a prova de que estava nos traindo.
— E se ela estiver, e seu amigo rebelde, Jonas, reivindicar o cristal?
— Vou roubá-lo de volta. — Assim que disse isso, ela sentiu a verdade de sua convicção. Suas dúvidas desapareceram mais uma vez.
— Ótimo. — Um sorriso apareceu nos lábios dele, antes de ficar pensativo. — O Templo de Valoria é um local excelente para outros acontecimentos importantes, acho.
— Do que está falando?
— É o lugar perfeito para nos casarmos.
Ela não conseguiu deixar de rir de sua persistência.
— Você está falando sério, não está?
— É claro que estou. A menos que esteja esperando um noivado oficial com um lorde. Não sei se um reles tutor pode competir com isso.
Ela queria Ioannes mais do que qualquer lorde que pudesse existir.
— Você é impossível.
Ele segurou o rosto dela entre as mãos de novo.
— Diga. Diga que podemos fugir para Limeros hoje para nos casarmos e invocarmos o último cristal. Ninguém precisará ficar sabendo tão cedo.
Hoje? Lucia ficou olhando para ele, com um milhão de pensamentos rondando sua cabeça. Um milhão de dúvidas, um milhão de perguntas, tudo girando em uma tempestade confusa.
Mas de uma coisa não tinha dúvida.
— Sim. Eu me caso com você, Ioannes.

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