3 de setembro de 2018

Capítulo 25

LUCIA
PAELSIA

Os eventos fatais que aconteceram no mercado paelsiano não tinham saído da cabeça de Lucia, atormentando seus pensamentos durante o dia e lhe roubando o sono à noite.
Kyan estava ficando cada vez mais furioso, e sua violência era mais facilmente suscitada. Os momentos de calma e introspecção eram poucos e espaçados, enquanto continuavam procurando uma forma de tirar Timotheus do Santuário.
Aquela busca os tinha levado a duas vilas paelsianas próximas, a oito quilômetros de distância uma da outra.
Kyan já tinha transformado uma daquelas vilas em cinzas.
Lucia ficou com Kyan no meio das chamas que continuavam a queimar. Diante deles, estava uma velha bruxa que Kyan tinha interrogado por acreditar que ela sabia mais do que estava revelando.
— Você é diabólico — a bruxa vociferou. — E precisa ser destruído. Vocês dois estão destinados às terras sombrias!
Kyan olhou para ela com desdém.
— Se não fossem pelos desejos inapropriados dos imortais, vocês bruxas, com sua magia fraca e corrompida, nem mesmo existiriam.
— Basta — Lucia resmungou. — Ela não sabe de nada que possa nos ajudar.
O dia tinha sido longo e decepcionante, e tudo o que ela queria era tentar dormir um pouco.
— Faça-a falar, pequena feiticeira — Kyan disse. — Ou ela vai morrer.
Lucia estava cansada de testemunhar tanto sofrimento. Não queria que ninguém mais morresse aquela noite; o mero pensamento já a afligia. Então ela fez o que Kyan pediu.
— Olhe para mim — Lucia ordenou com as forças que conseguiu juntar.
Quando a bruxa finalmente a encarou nos olhos, Lucia concentrou toda sua magia para fazê-la dizer a verdade.
— Onde está a roda de pedra que ainda tem um elo mágico com o Santuário?
Diferente de todos os outros que tinham caído no encanto de Lucia, a bruxa não se encolheu nem ficou ofegante. Em vez disso, levantou o queixo e cerrou os olhos.
— Eu já disse, garota. Não sei. E se soubesse, não diria.
Lucia bufou e tentou mais uma vez, agora com os punhos cerrados.
E, mais uma vez, a bruxa se esquivou das perguntas com facilidade, como se Lucia falasse uma língua incompreensível.
A magia dela não estava funcionando — apenas mais uma prova de que precisava descansar.
— Tente uma pergunta mais simples — Kyan disse.
Lucia assentiu. Quanto mais rápido conseguisse uma resposta satisfatória, mais rápido poderiam ir embora daquele lugar horrível.
— Qual o seu nome, bruxa?
A bruxa cuspiu bem no rosto de Lucia.
— Meu nome morrerá comigo antes de sair de meus lábios.
Lucia sentiu o calor do fogo de Kyan. Ela se virou, furiosa, enquanto as chamas desciam pelos braços dele.
— Não há motivo para matá-la.
Ele extinguiu as chamas, e então mostrou que seus punhos estavam fechados.
— Ela é inútil!
— Então vamos achar outra pessoa. Amanhã, no dia seguinte. Que importa?
— Importa mais do que você pensa — Kyan rosnou para ela, depois se virou e se afastou a passos largos, deixando uma trilha de fogo por onde passava.
Lucia respirou, trêmula, e então se voltou para a mulher.
— Não queria que isso acontecesse esta noite. Sua vila...
— Vá embora — a bruxa disse, rangendo os dentes. — E não volte nunca mais.
Lucia endireitou os ombros.
— Poupei sua vida.
— Acha de verdade que vai ser perdoada pela morte e devastação que causou aqui hoje?
— Eu nunca pediria...
— Vá — a mulher bradou, com os olhos se enchendo de lágrimas.
Encolhendo-se, Lucia por fim virou as costas para a mulher e se arrastou para longe, deixando para trás as chamas e a destruição que Kyan havia causado.
Ele a esperava no alto de uma colina próxima, olhando para baixo, para a vila que tinha destruído com tanta facilidade, como se fosse um formigueiro em que tinha decidido pisar.
Ele lançou um olhar para ela, com uma expressão severa e hostil.
— Estou decepcionado com você — ele disse.
— Está?
— Sim. Achei que fosse a feiticeira renascida.
O maxilar dela se contraiu.
— É exatamente o que sou.
— Talvez minha lembrança de Eva tenha se obscurecido depois de todo esse tempo. Mas esta noite você... você mostrou que não é nada em comparação a ela. Se ela ainda estivesse aqui, se ainda estivesse viva, Timotheus já estaria morto.
Era raro Kyan voltar sua fúria contra ela, e, quando acontecia, ela não gostava nem um pouco. Lucia o encarou, desafiadora.
— Você mesmo disse que só tive acesso a uma pequena parte de minha magia até agora.
— Talvez eu estivesse errado. É claro que estava... Como um mero mortal seria capaz de me ajudar?
A indignação de Lucia crescia a cada palavra, mas ela tentava ao máximo se acalmar. Um dos dois tinha que ser racional. Ela respirou fundo.
— Precisamos fazer uma pausa — ela disse. — Vamos procurar uma hospedaria na outra cidade e descansar, comer. E vamos encontrar uma roda, Kyan. Prometi que o ajudaria, e estava falando sério. Ainda estou. Mas você precisa se controlar. Isso — ela disse, apontando para a vila que ainda queimava — está se tornando um problema.
Os olhos de Kyan brilharam ferozes, e Lucia se preparou para suas palavras.
— Isso, Lucia, são mais mortais inúteis e decepcionantes transformados em pó. Não vejo nenhum problema nisso.
Sem querer, Lucia o censurou.
— Eu vejo.
— Mais uma prova de que se tornou inútil para mim.
Aquelas palavras a magoaram, mas ela se recusou a demonstrar. Lucia se obrigou a respirar fundo mais uma vez para não perder a calma ou, pior, começar a chorar.
— No momento em que matei Melenia, tudo a respeito de minha vida, de minha jornada, se tornou muito claro para mim. Queria destruir tudo e a todos.
— E agora?
— Agora não tenho mais certeza. Mas é o que você quer, não é? Quer pôr este reino inteiro abaixo. Então vá em frente. — Ela esperou uma reação dele, mas não obteve nenhuma. — Não? Acho que estou começando a entender. Pode estar livre daquele cristal, mas continuará aprisionado até Timotheus estar morto e seus irmãos serem libertados, não é? O que significa que precisa mesmo de mim, muito mais do que eu preciso de você. O que significa que é melhor começar a se comportar.
Uma sombra escura e gélida surgiu em seus olhos cor de âmbar.
— Você não me conhece tão bem quanto pensa, pequena feiticeira.
— Se está dizendo... Agora, vou continuar minha jornada sozinha até a outra vila, para encontrar uma hospedaria e dormir um pouco. Não me perturbe até amanhã de manhã.
Ela virou as costas e foi embora.


Lucia ficou uma eternidade se revirando na cama, imersa em pensamentos tumultuados. Era como se as lembranças de tudo o que havia testemunhado e de que havia participado com Kyan nas semanas anteriores não pudessem sair de sua mente.
Apesar de ter gastado quase toda sua energia tentando não pensar em Ioannes, a imagem de seu rosto apareceu naquele instante, acompanhada de suas palavras de amor, suas promessas para o futuro. Eram como adagas ferindo o coração dela.
Ela pensou em Magnus, seu melhor amigo e irmão, estendendo-lhe a mão, oferecendo ajuda apesar de tudo o que ela havia feito para macular aquele relacionamento durante o ano anterior.
Pensou em seu pai, que, apesar da crueldade com os outros, sempre fora gentil e compreensivo com ela — mesmo antes de ter certeza de que Lucia era a feiticeira que ele pensava ser.
E pensou em Cleo, em como havia, com relutância, se tornado sua amiga, e, por um momento, sentido que tinha encontrado alguém a quem poderia confiar seus segredos mais profundos e sombrios.
E então em Jonas, um rapaz que conhecia apenas pela reputação até aquele dia no mercado, quando tinha sido testemunha de sua desolação consternada depois que Kyan matara sua amiga — uma garota valente que só estava tentando protegê-lo.
Aonde quer que Lucia fosse, levava a dor consigo. Houve um tempo, não muito distante, em que talvez não se importasse com isso, mas agora... Ela se perguntava a mesma coisa que todos sempre perguntavam a Kyan.
Quem sou eu? O que sou eu?
Sinceramente, ela não sabia mais. Só tinha certeza de que não havia como voltar atrás.
Demorou uma pequena eternidade até a escuridão do sono finalmente encontrá-la.
Mas logo a escuridão se iluminou, transformando-se em um campo familiar. De pé à sua frente havia um belo jovem vestindo um manto branco reluzente.
Não, hoje não, ela pensou. Não suportaria encará-lo aquela noite.
Lucia rapidamente deu a volta, procurando sem parar uma saída, mas sabendo que estava presa ali.
— Já faz um tempo, Lucia — Timotheus disse. — Como tem passado?
— Vá embora. Me deixe acordar.
— O deus do fogo tem se comportado bem?
Ela se perguntou o que Timotheus sabia, o que tinha visto, o que seria capaz de ler em sua mente adormecida. Sua postura confiante ali, naquele lugar onde tinha controle total, fazia Lucia se sentir intimidada.
Ela forçou um sorriso, mas não tentou fazê-lo parecer amigável.
— Kyan é maravilhoso, obrigada por perguntar.
Os lábios dele se esticaram, formando um leve sorriso.
— Tenho certeza disso.
Ela suspirou de frustração.
— Este é o segundo sonho para o qual me arrasta. Qual é seu objetivo hoje? Além de tentar me irritar.
— Já perdoou Ioannes por tê-la enganado?
Mais uma vez, o som do nome dele foi como um tapa.
— Nunca vou perdoar.
— Ele merece destino melhor do que ser odiado pelas escolhas que Melenia fez.
Lágrimas começaram a despontar dos olhos dela, o que apenas aumentou sua fúria.
— É questão de opinião.
— Um dia vai perdoá-lo por deixá-la tomar decisões estúpidas e egoístas sozinha.
— Ah, Timotheus, esses insultos só me fazem odiá-lo mais.
— Não tem motivo para me odiar.
— Kyan tem.
— Talvez. Mas você não é Kyan — Timotheus encostou na macieira e examinou Lucia com seus olhos dourados ancestrais. — Então... está se perguntando por que a trouxe para outro sonho? Especialmente depois de me deixar com uma má impressão da primeira vez?
— Não fui a única a deixar uma má impressão.
Timotheus ignorou a provocação e continuou.
— Eu a trouxe aqui porque acredito que Ioannes a amou de verdade, mesmo antes de saber que era a feiticeira da profecia. Eu conhecia Ioannes melhor do que qualquer outra pessoa, e ele não daria seu amor a ninguém que não fosse verdadeiramente digna. Ele morreu para salvar sua vida.
As palavras inesperadas de Timotheus a atingiram como se uma mão entrasse em seu peito e arrancasse seu coração.
Lucia abriu a boca para retrucar, mas se descobriu incapaz de encontrar as palavras certas. Em vez disso, a sensação de ardência em seus olhos aumentou.
— Me diga, Lucia. Está se divertindo com a morte e a destruição que estão deixando pelo caminho? Os gritos dos inocentes que Kyan mata aliviam seu coração? Dão forças a você? Fazem com que se sinta poderosa?
Aquelas palavras duras, que ecoavam com tanta potência nas dúvidas que levava em seu coração, causaram um nó na garganta. Mas ela não deixaria que Timotheus a abalasse. Se não continuasse firme, sabia que perderia todo o controle que restava sobre si mesma.
— Me diga, Timotheus — ela disse. — Sente-se intimidado por mim?
Ele levantou uma sobrancelha.
— Eu? Intimidado?
— A ideia do que fiz com Melenia o mantém acordado à noite, sabendo que posso estar no escuro, esperando para dar um fim à sua existência demasiadamente longa?
— Não tanto quanto você gostaria. — Timotheus a observou por bastante tempo, encarando seus olhos. — Você devia saber que mesmo nos momentos mais fracos de Eva, ela nunca perdeu a fé em nossa missão de proteger o mundo. Ela foi a única de nós em quem confiei totalmente. Mesmo depois que se apaixonou por um mortal.
O conhecimento de que a magia de Eva havia se esgotado vinha atormentando Lucia desde quando Timotheus fez tal revelação.
— Não entendo — ela disse. — Se Eva foi a primeira e mais poderosa feiticeira, como pôde ter sido derrotada e ter sua magia drenada?
Nesse momento, o olhar de Timotheus ficou distante.
— A magia de Eva foi enfraquecida pela criança mortal mestiça que carregava no útero. Um segredo que tentou esconder de todos, inclusive de mim. Quando Melenia soube da gravidez, viu a oportunidade de ganhar poder assassinando sua anciã, e Eva não conseguiu se defender de maneira adequada.
— Então Eva não teve uma visão de seu próprio futuro.
— Nem eu tenho do meu. Mas vi muitas versões do seu. E a aconselho a escolher seu caminho com sabedoria.
— Me conte sobre esses futuros e talvez eu o compreenda melhor. — As palavras saltaram de sua garganta. — Se quer tão desesperadamente que eu faça o que é certo a ponto de insistir em me trazer para estes sonhos, então me conte quais são as consequências.
Mas Timotheus não respondeu. Em vez disso, o campo desapareceu na escuridão.
Lucia abriu os olhos e se viu deitada na cama da hospedaria.
— Muitas versões do meu futuro... — ela sussurrou.
De repente, foi acometida por uma náusea violenta. Ela correu para o penico, e quase não chegou a tempo para vomitar. Era a terceira manhã seguida que aquilo acontecia, e ela sabia que a doença provavelmente estava contribuindo para enfraquecer sua magia.
Ela não se sentia mal assim desde... bem, ela nunca tinha se sentido assim.
E odiava se sentir fraca.
— Timotheus estúpido. — Lucia sentou ali, no chão de seu pequeno quarto, puxou os joelhos junto ao peito e se balançou para a frente e para trás. Enquanto esperava ser atingida pela próxima onda de enjoo, lembrou-se do que o imortal tinha contado sobre a feiticeira original.
Apesar de seu vasto poder, apesar de sua imortalidade, a magia de Eva tinha diminuído quando uma criança metade mortal estava crescendo dentro dela.
Lucia pensou que sua magia também parecia diminuir.
Ela respirou fundo e prendeu a respiração por tanto tempo que começou a ficar tonta.
— Ah, deusa... — ela sussurrou. — Estou grávida.

3 comentários:

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!