29 de setembro de 2018

Capítulo 25

MEUS DEDOS AGARRARAM ALGUMA COISA. Senti a vertigem da queda enquanto me concentrava em fazer minha mão machucada continuar a segurar firme. Meu corpo balançou contra a parede do desfiladeiro e senti o impacto nas minhas costelas, junto ao som perturbador de ossos quebrando.
Gritei, a agonia tomando conta de mim. Por um instante, tudo o que podia fazer era segurar, de olhos fechados, resfolegante, dizendo a mim mesma para não olhar para baixo. Tentando manter a mão firme.
Só então me dei conta de que não sabia onde estava segurando.
Eu tremia tanto que mal conseguia me mexer. Pareceu levar uma eternidade até abrir os olhos.
Pendi a cabeça para trás devagar, como se qualquer movimento pudesse tirar meu equilíbrio e me arremessar ao fundo do abismo.
Eu estava me segurando na areia. Ou melhor, a areia estava me segurando. Um braço feito de areia tinha segurado meu pulso. Aquilo me mantinha viva.
Deixei a cabeça cair, fechando os olhos com força. Tentando lembrar como meus pulmões deveriam funcionar. A velocidade com que meu coração deveria bater.
Eu tinha visto dúzias de criaturas nascidas da areia e do vento e dos espíritos do deserto nos meus dezesseis anos. Tinha ouvido toda história possível sobre imortais e carniçais que vinham da areia.
Mas aquilo era algo novo. E parecia completamente estranho e familiar ao mesmo tempo.
Aquilo não era uma criatura das areias. Era eu.
Respirei fundo. A dor interminável nas minhas costelas se estendeu para todo o meu corpo. Joguei o outro braço para cima, o movimento me arrancando um grito de dor, e segurei o braço de areia pelo punho, tentando fingir que não sentia os grãos de areia escapando pelos dedos.
Devagar como o sol poente, o braço recuou, me arrastando para cima junto com ele. Minha mão começou a deslizar e um novo braço de areia surgiu e me agarrou. E então outro. Uma dúzia de mãos me segurava, me puxando pelas roupas, pelos braços. Puxando meu corpo de volta para o deserto.
E então eu estava segura, deitada de barriga no chão. Me arrastei para longe da beirada do penhasco, o corpo tremendo. Eu não sabia se era dor ou alguma coisa maior esperando para explodir dentro de mim. Algo que meu corpo descobriu antes da minha mente. Eu estava atônita. Observando sem entender. Ao meu redor, uma dúzia de braços de areia se desintegrou. Me encolhi.
Nada mais se movia. Nem mesmo eu. Então estendi o braço em direção à duna que tinha salvado minha vida. Eu não tinha nem encostado nela e a areia já se levantava em direção à minha mão, como uma cobra no cesto de um encantador de serpentes.
Então eu era esse tipo de demdji.
Uma arma disparou. A areia caiu quando me virei em direção ao som. O mundo voltou a entrar em foco ao meu redor. Havia corpos na areia. Naquele instante, vi Shazad dar uma cotovelada no pescoço de um homem, girando para cravar uma faca em suas entranhas. Um soldado avançou em sua direção pela direita.
— Não!
Eu já não me sentia vazia. Me sentia furiosa. A areia se ergueu violenta, explodindo entre eles, lançando ambos no chão. Corri para Shazad enquanto os grãos baixavam.
Ela tossia areia quando me ajoelhei perto dela. Quando me viu, começou a tossir de novo.
— Achei que você tivesse morrido! Vi você caindo — ela conseguiu dizer entre uma tossida e outra. — Vi você despencar.
À nossa direita uma arma foi erguida. Sem pensar, fiz um gesto com a mão, e uma onda de areia derrubou o soldado. E o enterrou. Sua arma caiu aos meus pés. Eu não a peguei. A energia fez eu me sentir tonta, bêbada e assustada ao mesmo tempo. Era como se tivesse um braço novo que ainda não sabia controlar direito.
Segurei a mão de Shazad, puxando-a para cima. Ainda tremia demais para conseguir falar. Quando me virei, a areia aos meus pés virou comigo — eu sabia sem nem precisar olhar. Eu sentia. Como sempre havia sentido sem me dar conta. O deserto ao meu redor, a areia como uma coisa viva, chamando meu nome, implorando para que eu a usasse. Para que fosse parte dela.
A luta havia parado, mas eu não conseguia parar.
— Amani. — A mão de Shazad escapou da minha. A areia se movia sob mim, formando um redemoinho, como uma minúscula tempestade de areia, e então começou a aumentar e subir até me cercar, puxando meu cabelo, minhas roupas, me chamando para dentro dela, para o deserto.
Para me afogar nele.
Não conseguia respirar. Não conseguia controlar a areia, era demais. Não conseguia respirar. Uma nova mão se fechou sobre a minha, e aquela era de carne e osso. Jin apareceu, seu sheema enrolado apertado no rosto. Tinha aberto caminho às cegas. Vi que segurava algo metálico um segundo antes de me abraçar e me puxar para seu peito. Disse alguma coisa que eu não conseguia entender no meio da tempestade. Tudo o que senti foi sua mão contra meu braço. Era uma bala, fria e dura, o ferro ardendo na minha pele.
O frio dela cortou o calor dentro de mim.
A areia parou, caindo em espirais até se acumular novamente aos meus pés e eu conseguir escutar a batida do coração de Jin sob minha testa, sentir a dor da bala pressionada com força demais na minha pele, ouvi-lo sussurrando meu nome várias vezes no meu ouvido até eu parar de tremer.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!