23 de setembro de 2018

Capítulo 25

MAGNUS
AURANOS

O templo estava diante de Magnus, totalmente restaurado à grandeza de antes. À exceção da gigantesca estátua da deusa Cleiona, que ainda estava despedaçada no alto dos trinta degraus esculpidos que levavam à entrada, o templo estava perfeito.
Labaredas de fogo saíam do chão e contornavam as paredes de mármore, iluminando uma área que, sem isso, seria escura.
No limite da floresta, com o templo bem à vista, Magnus e Ashur amarraram os cavalos que tinham pego dos estábulos do palácio. Eles cavalgaram tão rápido que não houve tempo para conversa.
Magnus estava prestes a dizer algo a Ashur, algum comentário sobre a magia da terra ter sido responsável pela aparência restaurada do templo, quando o kraeshiano lhe pediu silêncio.
— Veja — Ashur disse, indicando o templo com a cabeça.
Magnus espiou de trás do tronco de uma árvore e viu Kurtis sair. Ele ficou parado no alto da escadaria de mármore que levava ao santuário do templo por um momento, lançando um olhar irritado para trás antes de descer os degraus até o chão, onde um caminho de pedra longo e sinuoso passava por uma série de jardins abandonados, com diversas estátuas da deusa.
— Vou matá-lo — Magnus resmungou.
— É melhor não denunciar que estamos aqui ainda — Ashur respondeu. — Vamos apenas observar.
— Cleo está lá dentro.
— É bem provável. Assim como três deuses elementares capazes de nos matar com um único pensamento.
Magnus fechou bem os olhos, reunindo uma paciência que não tinha. Mas ele sabia que Ashur estava certo. Os dois precisavam observar, e depois, quando surgisse uma oportunidade, entrar em ação.
Kurtis acendeu uma cigarrilha e desapareceu do lado esquerdo do templo. Um instante depois, duas outras figuras apareceram.
Olivia e Taran.
Eles andavam lado a lado, despreocupados, como se não houvesse pressa, preocupações ou urgência.
Magnus sabia que não eram quem pareciam. Não eram Olivia, amiga de Jonas, que Magnus tinha achado que era uma bruxa até a chocante descoberta de que era muito mais do que isso, nem Taran, um jovem que, a princípio, desejava a morte de Magnus pelo assassinato de seu irmão gêmeo, pelo menos até chegarem a um acordo sobre erros passados e arrependimentos.
Olívia e Taran se foram. Seus corpos tinham sido roubados.
E Magnus jurou que faria tudo o que pudesse para recuperá-los, derrotando os demônios que tinham sequestrados seus corpos.
Ashur segurou o braço dele, tirando-o de seus pensamentos.
— É a Cleo.
Magnus voltou a olhar para o templo, e ficou surpreso ao ver o cabelo dourado de Cleo brilhando sob a luz do fogo que iluminava o caminho enquanto ela descia correndo as escadas do templo e entrava na floresta, a cem passos de distância.
Ele imediatamente começou a ir atrás dela, mas Ashur segurou seu braço com mais força.
— Não tente me impedir — Magnus vociferou.
Ashur fez uma careta.
— Tem certeza de que ainda é a princesa? Pode ser a deusa da água.
O sangue de Magnus congelou ao pensar naquela possibilidade.
— Vou atrás dela.
— Magnus…
— Vá — ele disse. — Invoque Valia de novo. Se ela puder nos ajudar de qualquer forma, eu imploro por seu perdão, por ter sido tão grosseiro. Me encontre na Sapo de Prata amanhã de manhã. Se eu não estiver lá… bem, você vai saber que Cleo se foi, e provavelmente eu também.
Magnus não esperou uma confirmação do príncipe kraeshiano. Ele deu meia-volta e correu na direção que Cleo tinha seguido, floresta adentro, na lateral direita do templo. Ele correu o mais rápido que conseguia na escuridão quase total, tentando não tropeçar e cair sobre as raízes das árvores.
Por um momento, Magnus temeu tê-la perdido, mas então viu um movimento à frente. Se for a deusa da água, pode estar tentando me atrair para a morte, ele pensou.
Não era um pensamento esperançoso. Nem um pouco útil.
Seria bom se sua mente ficasse em silêncio.
A floresta se abriu em uma pequena clareira às margens de um rio de seis metros de largura. Magnus parou de repente onde acabavam as árvores e viu Cleo parar também, olhando para a direita e para a esquerda, como se procurasse por uma ponte sob a escassa luz do luar.
Magnus saiu das sombras.
— Não sei se é o melhor momento para nadar — ele disse.
Os ombros de Cleo ficaram tensos.
Magnus estava preparado para qualquer coisa quando ela virou devagar para ele. Sob a luz da lua, os olhos dela brilharam, mas a cor se perdeu na escuridão — cinza e preto, sem nenhum traço de verde-azulado. As assustadoras linhas que envolviam seu pescoço, subindo pelo queixo até a têmpora esquerda, estavam quase pretas junto à pele pálida.
— Você me encontrou — ela disse em um sussurro.
— Claro que sim. — Magnus ficou com a garganta apertada, sem conseguir engolir. — É você mesma?
Ela o encarou.
— Quem mais seria?
Magnus deu uma gargalhada cortante e nervosa.
— Taran perdeu a batalha contra o deus do ar. E depois eles… levaram você. O que eu poderia pensar?
Um pequeno sorriso apareceu nos lábios dela.
— Ainda sou eu.
O peso no estômago dele aliviou um pouco.
— Ótimo. Você não vai se livrar de mim com tanta facilidade. Eu juro, Cleo, vou lutar por você até meu último…
Então algo o atingiu com força por trás.
Algo afiado e doloroso.
Cleo arregalou os olhos.
— Não! — ela gritou. — Magnus, não!
Ele se forçou a olhar para baixo.
A ponta ensanguentada de uma espada apareceu em seu peito.
Ele piscou e caiu de joelhos quando a arma foi arrancada de seu corpo.
Devagar, ele registrou que o chão estava frio e úmido. Tinha começado a chover muito, embora poucos minutos antes não houvesse nenhuma nuvem no céu.
— Não sei como você fez antes — a voz esganiçada de Kurtis chegou aos ouvidos de Magnus quando o grão-vassalo saiu de trás dele. — Tinha certeza de que a magia de sua irmãzinha o tinha ajudado a sair do túmulo, mas isso não explicaria o beco. Não importa… — Os dentes dele reluziram sob o luar quando sorriu. — Você está morto, Magnus. Finalmente.
A visão embaçada de Magnus encontrou Cleo ainda parada na beira da água, a pele pálida como a própria lua. O cabelo estava molhado pela torrente de chuva que caía. O solo ao redor dela agora estava coberto por uma camada de gelo.
— Vou matar você — Cleo rosnou.
— Sei que não tem controle consciente sobre isso. — Kurtis apontou para o gelo. — Então pare de atrapalhar e me deixe devolvê-la para sua nova família.
Magnus tentou falar, mas não conseguiu formar palavras.
— O que foi? — Kurtis encostou a mão no ouvido. — Sempre fico intrigado com as últimas palavras de meus inimigos. Mais alto, por favor!
— Você pensou… — Magnus conseguiu dizer — que seria… tão… fácil?
Kurtis revirou os olhos.
— Você pode morrer de uma vez?
Um instante depois, Magnus sentiu o ferimento fechar.
O olhar de choque no rosto do jovem lorde quando Magnus se levantou quase valeu a agonia que ele tinha acabado de sentir.
— Magnus… — Cleo exclamou, lágrimas caindo pelo rosto. — Mais uma vez achei que tinha perdido você. Do mesmo jeito que perdi… — A voz dela falhou.
Ela nem precisou concluir o pensamento.
Do mesmo jeito que perdi Theon.
— Eu sei — ele disse com amargura.
Kurtis não tentou fugir. Ele ficou parado ali, aturdido com o que estava vendo.
— Isso é magia negra.
— Ah, sim. — Magnus foi até ele com os punhos cerrados. — É a magia mais negra, mais escura e mais suja que existe. Se há alguma coisa oposta aos elementia, estou em poder dela.
Ele segurou Kurtis pelo pescoço e o bateu com força contra o tronco de uma árvore.
— Misericórdia! — Kurtis gritou. — Tenha misericórdia! Fui marcado pelo fogo de Kyan, não tenho escolha além de fazer o que ele manda!
— Você já conhecia Kyan quando mandou me enterrarem sete palmos abaixo da terra?
Kurtis fez uma careta.
— Imploro seu perdão por todas as ofensas que já cometi contra você. Por favor, tenha misericórdia!
— Você é um covarde, patético e chorão — Magnus disse.
A raiva absoluta que Magnus tinha por aquele pedaço de merda inútil que tinha ameaçado Cleo e tentado matá-lo em três ocasiões transbordou.
Ele nunca tinha desejado tanto matar alguém.
— Ouça — Kurtis resmungou. — Acho que serei muito útil se me deixar ir… — Ele respirava com dificuldade, e um som seco e distorcido saiu do fundo de sua garganta. — O que você… está fazendo… comigo?
Quanto mais Magnus apertava seu pescoço, mais Kurtis ficava cinza e pálido sob a luz da lua. Veias grossas e pretas subiram por seu pescoço e cobriram todo seu rosto em uma teia pavorosa. O cabelo preto ficou totalmente branco da raiz às pontas.
A vida se esvaiu de seus olhos.
Quando Magnus finalmente o soltou, o cadáver ressecado de Kurtis Cirillo desabou no chão, e os ossos frágeis estalaram como galhos secos.
Magnus o encarou, perplexo com o que tinha acabado de fazer.
— Magnus… — Cleo estava atrás dele, e sua voz não passava de um sussurro. — Como isso é possível?
— A pedra sanguínea — ele respondeu em voz baixa, passando a mão direita pelo anel no dedo médio esquerdo.
Cleo virou para ele com os olhos arregalados.
— Você sabia que ela podia fazer isso?
— Não fazia ideia. — Ele ficou esperando sentir horror pelo que havia feito, mas não aconteceu. — Só sei que o queria morto. E agora ele está morto. E me sinto… aliviado.
Cleo estendeu a mão trêmula na direção dele.
— Tome cuidado — ele disse. — Não quero machucar você.
Ela deu uma risada curta e nervosa.
— Imagino que não deseje a minha morte como desejou a de Kurtis.
— Claro que não.
— Ótimo — ela respondeu. — Porque preciso muito que me beije agora mesmo.
E então ele a beijou, respirando-a e a abraçando tão forte que os pés dela se levantaram do chão.
— Eu amo você — Magnus sussurrou junto aos lábios dela. — Tanto que chega a doer.
Cleo segurou o rosto dele com as duas mãos, encarando seus olhos.
— Também amo você.
Ela era sua deusa. Seu amor. Sua vida. E ele faria tudo para salvá-la.
Em seu dedo havia uma pedra de magia negra que já tinha salvado sua vida três vezes. Aquele que o criou, mil anos antes, sem dúvida tinha sido um deus da morte. Aquele anel pertencia a ele na época.
Mas no momento pertencia a Magnus. E ele não hesitaria em usar sua magia da morte horrível, aterrorizante e incrível contra quem se metesse em seu caminho.

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