16 de setembro de 2018

Capítulo 25

MAGNUS
PAELSIA

Ele tinha secado as duas garrafas de vinho que o dono da hospedaria tinha. Estranho, mas o vinho não era de uma vinícola paelsiana. Era amargo, seco e deixou um gosto ruim na boca de Magnus, mas foi tão eficiente quanto o vinho paelsiano para debilitar sua mente e ajudá-lo a adormecer.
Mas não a continuar dormindo. O barulho da porta abrindo com um rangido o fez acordar. Tinha certeza de que a tinha trancado. Seu corpo estava pesado e cansado demais para se mexer, e a mente estava muito confusa para que ele se importasse em saber quem tinha entrado.
— Sou eu — Cleo sussurrou.
Magnus estava de costas para a porta e seus olhos se arregalaram ao ouvir a voz dela.
— O que você quer? — ele perguntou hesitante, sem se virar para ela.
— Precisava ver você.
— Não pode esperar até amanhã cedo?
— Você está bêbado.
— Você é observadora.
— Quer que eu saia?
— Não.
A cama rangeu quando ela deitou ao lado dele.
Magnus ficou paralisado ao sentir a mão dela deslizar pela lateral de seu peito.
— Cleo…
— Não quero brigar com você — ela murmurou no ouvido dele. — Não quero deixar você. Te amo, Magnus. Muito.
Ele sentiu um aperto no coração.
— Você disse que o amor não bastava para resolver nossas questões.
— Eu estava brava. Todo mundo diz coisas horríveis quando está bravo.
— Mas Nic…
— Preciso ter esperança de que ele está vivo. Tem que estar. Ele sabe que eu ficaria furiosa se ele morresse. Agora, olhe para mim, Magnus.
Ele finalmente virou e a viu ao seu lado, o lindo rosto iluminado pelo luar que entrava pela janela, o cabelo loiro como ouro, os olhos escuros e profundos.
— Preciso que você faça algo muito importante por mim — ela disse.
— O quê?
— Me beije.
Ele quase riu.
— Se eu beijar você agora, garanto que não vou conseguir parar.
— Não quero que pare. Não quero que pare nunca. Não importa o que acontecer, Magnus. Estamos juntos nisso. Eu escolhi você. E preciso de você. A menos… — ela levantou uma sobrancelha — que você esteja bêbado demais e prefira que eu saia.
Seu olhar se tornou mais intenso.
— Não, mas a maldição…
— A maldição é uma fantasia, nada mais. Tire isso da cabeça.
— Não sei se consigo.
— Parece que vou ter que dar o primeiro passo hoje… — Cleo passou os lábios pela cicatriz dele, do rosto aos lábios. — Assim.
— Cleo… — ele conseguiu dizer quando a abraçou, mas de repente não estava abraçando Cleo. Não havia nada ali além do ar e dos cobertores.
Percebeu, desanimado, que ela nunca esteve ali. Tinha sido apenas um sonho.
Mas não precisava ser.
Magnus precisava conversar com ela, fazê-la ouvir a voz da razão. Cleo era capaz disso, ele sabia. E juntos eles descobririam a verdade sobre Nic.
Magnus levantou, determinado a tornar o presente melhor do que o dia anterior, mas sua cabeça parecia prestes a explodir. Ele gemeu e levou as mãos às têmporas, inclinando-se para a frente de dor.
O vinho. O vinho paelsiano não dava ressaca. Mas as outras bebidas inebriantes… Os outros aceitavam sofrer uma dor assim para se esquecer dos problemas por uma noite?
Magnus estava furioso consigo por ter cedido a algo que o tinha enfraquecido daquele modo, mas precisava superar. Tinha que se concentrar em seus objetivos.
Ele próprio iria atrás de Ashur. Os cristais da Tétrade precisavam ser recuperados — por ele, por Cleo, por Mítica. E como estava se sentindo, quem quer que cruzasse seu caminho teria uma morte muito dolorosa.
A hospedaria parecia estranhamente vazia naquela manhã. O quarto da princesa estava vazio, a porta estava aberta. A avó de Magnus não estava ali em nenhum lugar, nem no pátio nem na sala de convivência.
O rei, no entanto, esperava por ele à mesa da sala de jantar com um café da manhã completo a sua frente. A esposa do dono da hospedaria — Magnus não tinha se preocupado em guardar o nome dela — observou-o nervosa quando ele entrou e sentou.
— Coma alguma coisa — o rei disse.
Magnus observou enojado os pratos com frutas secas, queijo de cabra e pão fresco. O cheiro o deixou com vontade de vomitar.
Pensar em comida o deixava nauseado.
— Não quero — Magnus respondeu. — Você parece… bem.
— Me sinto bem. — O rei usava o anel dourado de Xanthus no indicador esquerdo. Levantou a mão e a observou. — Difícil acreditar que haja tanta magia nessa pequena peça, suficiente para me fazer voltar a ser como antes tão depressa.
— Quanto tempo vai durar?
— Ah, essa é a dúvida, não é?
— Selia não disse?
— Não perguntei.
— Onde ela está?
— Foi embora.
Magnus franziu a testa e sentiu uma pontada de dor na cabeça.
— Para onde?
O rei pegou um pedaço de pão, mergulhou-o em uma tigela de manteiga derretida e mordeu, ponderando.
— A comida tem um gosto ainda melhor agora. É como se um véu de apatia tivesse sido retirado de meus sentidos.
— Que maravilhoso para você. Pergunto de novo, onde está minha avó?
— Eu a mandei embora.
Magnus hesitou.
— Você a mandou embora.
— Foi o que eu disse.
— Por quê?
O rei pousou o garfo sobre a mesa e virou para Magnus.
— Porque ela não merece respirar o mesmo ar que nós.
Magnus balançou a cabeça, tentando entender.
— Ela salvou sua vida.
O rei riu.
— Sim, acho que salvou.
— Você está falando, mas não diz coisa com coisa. A pedra sanguínea roubou sua sanidade ao devolver sua saúde?
— Nunca me senti tão são quanto agora. — Ele olhou para a porta onde Milo estava. — Milo, meu bom homem, venha tomar café da manhã. Magnus não quer comer, mas não podemos desperdiçar boa comida.
— Obrigado, vossa alteza — Milo disse. — É verdade o que eu ouvi? Que Nicolo Cassian morreu?
O rei arqueou as sobrancelhas.
— É possível que sim — Magnus disse.
Milo sorriu.
— Isso é decepcionante. Perdoe-me por dizer isso, mas sempre quis matá-lo.
Magnus se pegou concordando.
— Ele despertava essa vontade nas pessoas.
— Onde está Enzo? — o rei perguntou. — Tem muita comida aqui para ele também.
— Enzo saiu, vossa majestade — Milo respondeu um tanto relutante.
O rei pousou o pão na mesa e olhou para o guarda.
— Para onde ele foi?
— Foi com a princesa.
A maneira hesitante como ele disse aquilo fez o estômago de Magnus revirar.
— Por favor, faça a gentileza de me dizer que a princesa foi fazer compras na cidade e voltará mais tarde.
— Desculpe, mas não sei aonde foram, só que partiram ao amanhecer.
O coração de Magnus começou a bater mais forte, e ele lançou um olhar de acusação ao pai.
— O que você fez agora?
O rei deu de ombros, a expressão inescrutável.
— Não vou discutir com você hoje, meu filho. Sua avó se foi. E a princesa também. Nenhuma delas vai voltar aqui.
Magnus levantou tão depressa que a cadeira caiu para trás.
— Preciso encontrá-la.
— Sente — o rei sibilou.
— Você a ameaçou, não? Ela e Selia. Você mandou as duas embora.
— Sim, acho que sim. Enquanto você dormia embriagado até meio-dia. Você precisa começar a pensar claramente como eu, Magnus. Agora que me recuperei, está na hora de entrarmos em ação.
— É mesmo? — Magnus percebeu a voz ficando cada vez mais alta. — Precisamos de ação. Vejamos… no momento somos você, eu e Milo representando a um dia grandiosa Limeros. Somos três contra o exército de Amara. E não temos Lucia ao nosso lado, já que você mandou embora a pessoa que poderia encontrar minha irmã! — Ele xingou em voz baixa. — Preciso encontrar Cleo.
— Você não precisa fazer isso. Aquela garota tem sido um problema para nós desde que entrou em nossa vida.
— Nós? Não existe nós, pai. Você acha que alguma coisa mudou? Algumas palavras de incentivo e olhares sofridos não consertam as coisas. Você pode tentar me impedir de sair, mas juro que vai fracassar.
Magnus foi direto para a porta da hospedaria, a mente confusa. Cleo deve ter ido para Auranos, ele pensou. Começaria por lá. Alguém saberia onde encontrá-la. Graças à deusa ela tinha sido inteligente o bastante para levar Enzo junto.
Mas só um guarda para protegê-la da presença de Amara não era suficiente.
— Magnus, não vá — o rei disse. — Precisamos discutir uma estratégia.
— Discuta uma estratégia com Milo — ele rebateu. — O que você tem a dizer é totalmente irrelevante para mim.
Magnus abriu a porta com tudo, pronto para sair da sala, mas três homens estavam ali, bloqueando a passagem.
— Príncipe Magnus Damora — um deles disse, meneando a cabeça. Ele olhou para os companheiros. — Viram? Eu disse que era ele. O príncipe de Limeros no meio de Basilia. Quem acreditaria? Lembro de você em sua lua de mel. Trouxe minha esposa e meus filhos para verem alguns membros da realeza com suas roupas perfeitas e brilhantes, para mostrar a eles o que nunca poderíamos ter por sermos paelsianos inferiores, como vocês sempre nos viram. E aqui está você, vestido como um de nós.
— Muito prazer em conhecê-lo, seja quem for. — Magnus semicerrou os olhos. — Agora sugiro que saia da minha frente.
— Sua cabeça e a de seu pai valem uma recompensa.
— Valem? — Magnus abriu um pequeno sorriso para ele. — E qual é a recompensa pela cabeça de cada um de vocês se eu cortá-las fora?
O desconhecido e o amigo riram da resposta como se fosse a coisa mais hilária que já tinham ouvido.
— Todos nós? Nem mesmo o Príncipe Sanguinário poderia derrubar todos nós.
— Não tenha tanta certeza.
— Mate-os — o rei sugeriu. — Não temos tempo para besteiras hoje.
— Essa é a primeira boa ideia que você teve — Magnus respondeu em voz baixa.
Mas antes que pudesse se mover para pegar uma arma ou dizer outra palavra, três lanças chegaram voando, acertando os homens por trás.
Os três caíram aos pés de Magnus.
Magnus olhou para a frente. Atrás deles, havia um verdadeiro exército de soldados com uniformes verdes.
O exército de Amara.
Magnus bateu a porta e entrou na hospedaria de novo.
— Temos um problema.
— Sim, percebi — o rei respondeu.
— Imagino que Amara não esteja mais acreditando na história que você contou, uma vez que mandou seu exército atrás de você.
— Imaginei que seria apenas uma questão de tempo.
Magnus olhou para ele.
— Como pode falar com tanta calma?
Alguém bateu à porta.
— Abra a pedido de Amara Cortas, a imperatriz de Kraeshia!
Milo estava na frente deles, espada em punho, quando a porta da frente foi arrombada e os guardas de Amara entraram na hospedaria. Magnus estava com a espada pronta, mas só conseguiu observar Milo — o guarda por quem ainda sentia profunda gratidão por intervir quando ele e Cleo foram ameaçados de morte no penhasco — cair depois de atingir apenas dois guardas.
Com um rugido de raiva, Magnus avançou, levantando a arma.
O rei pôs a mão sobre o ombro de Magnus para impedi-lo.
— Não faça isso — ele disse.
Um soldado alto, musculoso e uniformizado deu um passo para a frente, e os outros abriram espaço.
— Largue sua arma. Entregue-se ou morra aqui e agora.
Magnus, rangendo os dentes, olhou para Milo, para o sangue empoçado ao lado do corpo. Milo tentou lutar, tentou matar o máximo de kraeshianos que podia em nome do rei e de Limeros. Mas não podia matar todos eles. Nem Magnus poderia.
A briga terminou antes mesmo de começar. Amara tinha vencido.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!