1 de setembro de 2018

Capítulo 25


CLEO
AURANOS

O plano de Cleo tinha funcionado à perfeição.
Seu futuro parecia mais promissor do que nunca e, se conseguisse dar um jeito, esse futuro incluiria Lucia. Ela tentara evitar — o plano era apenas fingir —, mas gostava dela. Gostava dela genuinamente e valorizava sua amizade. Nas veias de Lucia não corria o gélido sangue dos Damora, então essa surpreendente consequência era perfeitamente aceitável para Cleo. Parte dela se sentia mal quando precisava mentir para Lucia, mas era um mal necessário.
O Templo de Valoria. Lar do cristal da água — quarto e último da Tétrade.
Lucia o despertara, e logo ele pertenceria a Cleo.
Ela esperaria até ter notícias de Jonas para mandar Nerissa entregar um bilhete com a novidade. Um pensamento não parava de perturbá-la. Por que ele ainda não tinha mandado notícias sobre seu sucesso no Templo de Cleiona?
Vai levar tempo, ela lembrou a si mesma. Revelara os três locais na última mensagem ao rebelde, e Nic ficou chocado quando confessou o que tinha feito.
— Você confia mesmo nele — ele comentara.
— Confio, sim. — Confiar algo tão importante quanto isso a Jonas era um risco que estava disposta a correr. Era um salto de um penhasco alto, e Cleo tinha muita esperança de que a queda fosse suave.
— É incrível — ela agora dizia a Lucia, sacudindo a cabeça. — Seus elementia… me deixam impressionada.
— Seu anel faz maravilhas para o meu controle. — Lucia baixou os olhos e ficou observando a ametista, e Cleo sentiu uma profunda pontada de inveja. Não se tratava apenas de um objeto mágico ligado à Tétrade. O anel pertencera à sua mãe, e seu pai entregara a ela nos últimos momentos de sua vida.
Seu coração doía, mas ela sabia que o anel era apenas mais uma perda que sofreria.
— Fico feliz — ela disse, forçando um sorriso.
Lucia franziu o cenho.
— Você conhecia o poder deste anel antes de Ioannes contar.
Um pesado momento de silêncio criou-se entre as duas princesas enquanto Cleo tentava entender exatamente o que Lucia estava sugerindo. Suas palavras não tinham entonação de pergunta. Eram uma afirmação.
— Claro que não.
— Não minta, Cleo. É muita coincidência para eu acreditar.
Uma rápida sensação de alarme percorreu seu corpo.
— Não estou mentindo.
— Você tem esse anel faz o quê? Alguns meses? O segredo dele a levou a se aproximar de mim com propostas de amizade. Foi assim que soube, antes mesmo de ver com os próprios olhos, que sua presença me traria paz. E utilizou esse conhecimento para me manipular.
O estômago de Cleo revirava ao mesmo tempo que sua mente trabalhava sem parar para encontrar uma forma de escapar daquela situação, apaziguar as preocupações de Lucia. A princesa estava apenas sendo paranoica, o que não era novidade.
Ainda não era o momento de entrar em pânico.
— Lucia — Cleo abriu um grande sorriso. — Como eu poderia saber que possuía um anel mágico? Ele não me fornecia nenhuma magia. E, caso não tenha percebido, tenho apenas dezesseis anos. Não conheci Eva pessoalmente, como seu namorado. E por acaso preciso lembrar que dei o anel a você de livre e espontânea vontade assim que soube que poderia ajudar? Agora deixe de ser boba.
— Boba? — A expressão de Lucia ficou sombria. — Garanto que boba é a última coisa que estou sendo agora.
Talvez a hora de entrar em pânico estivesse chegando.
— Vou deixá-la com seus estudos. Certamente está de péssimo humor hoje, e não quero piorar as coisas, especialmente com o casamento hoje à noite. — Ela se virou e abriu a porta.
Mas a porta bateu antes que Cleo pudesse sair.
Devagar, ela se virou para a feiticeira, com o coração batendo com tanta força que dava para ouvir.
— Contei sobre o cristal da água porque queria ver sua reação — Lucia disse com toda a calma. — Achei que pudesse estar errada, mas está em seus olhos. Vejo o quanto quer a Tétrade.
— Não sei do que está falando. Agora, me deixe sair.
— Por quê? Para você alertar Jonas Agallon e mandá-lo para Limeros? Sugiro que ele vista uma pele. Lá é muito frio, mesmo no verão.
Cleo de repente esqueceu como respirar. Lutou para encontrar a voz ou uma desculpa que satisfizesse a garota parada diante dela com os punhos cerrados.
— Você me acusa mas não tem certeza de nada. — Cleo disse em um tom agudo o bastante para quebrar vidro. — E o seu namorado? Nenhuma dúvida foi levantada em relação a ele? Apenas sobre mim? Talvez, em se tratando dele, você seja cega. Ele é muito antigo, não é? Por que daria atenção a uma adolescente, se não fosse para manipular seus poderes para encontrar a Tétrade em benefício próprio?
O ar começou a estalar e tremeluzir ao redor delas, e o anel no dedo de Lucia brilhava com uma forte luz violeta.
Cleo tinha falado demais.
— Lucia — ela disse, segurando as mãos da garota. — Não… — Lucia levantou a mão, lançando-a contra a parede. O golpe arrancou o ar de seus pulmões. Cleo arfava, mas não conseguia encontrar ar suficiente para respirar. Era o próprio ar, pura magia do ar, que Lucia utilizava para imobilizá-la contra a parede, para envolver uma mão invisível em sua garganta e sufocá-la.
Os pés de Cleo saíram do chão enquanto a magia a erguia.
— Odeio mentirosos — Lucia disse. — E isso é tudo o que você faz. Mentir.
O anel resplandecia. Ele deveria ajudar Lucia a controlar sua magia, mas talvez já estivesse sob controle. O caos controlado de uma feiticeira.
— Não, por favor! — Cleo suplicou. — Somos amigas! Eu me preocupo com você, Lucia. De verdade!
O vento serpeou violentamente pelo quarto, derrubando tudo em seu caminho. Lucia parou diante dela, com os longos cabelos escuros esvoaçando. Era um pesadelo ganhando vida — um demônio surgido das terras sombrias para destruir tudo em seu caminho.
— Magnus era meu único amigo neste mundo — Lucia disse. — E agora ele também mente para mim, como meu pai. Como todo mundo.
— Eu não menti para você! Não fiz nada de errado. Nada!
Cleo negaria até o último suspiro. Mesmo que Lucia soubesse que o cristal estava com Jonas, não havia como ter certeza de que Cleo contara a ele. Era apenas um jogo de adivinhação, e Cleo se recusava a participar.
Mas também faria seu próprio jogo.
Não importava o que estivesse passando pela cabeça de Lucia naquele momento, nem o que houvesse suscitado esse ato de violência — nada importava. As duas tinham compartilhado momentos de amizade verdadeira, e Cleo sabia que o coração de Lucia não era frio e escuro como o de seu pai. Havia bondade dentro dela.
— Seu pai destruiu minha vida e acabou com a minha família, mas ofereci minha amizade a você mesmo assim. Dei o anel da minha mãe sem esperar nada em troca. Você está errada ao meu respeito. Fui leal a você e juro pela deusa que não contei a ninguém o que fiquei sabendo aqui. Mas se quiser me matar mesmo assim, faça de uma vez.
De repente, o vento desapareceu, e Cleo caiu da parede como uma pedra, machucando os joelhos no chão de mármore. Ela ficou ali, encolhida como uma bola, olhando para a feiticeira com medo.
Não havia piedade nem compreensão no rosto de Lucia. Apenas ódio.
— Saia daqui, sua vadia mentirosa — Lucia disse. Seus punhos começaram a arder com fogo. — Não quero ver seu rosto nunca mais.
Cleo saiu correndo o mais rápido que pôde, tropeçando no corredor na pressa para fugir. Tinha que encontrar Nic e contar a ele sobre a mudança de planos. Precisava entrar em contato com Jonas assim que possível para pegar os outros cristais. E, nesse meio-tempo, esperava que os kraeshianos ainda estivessem interessados em uma aliança.
Cleo secava as lágrimas na velocidade em que escorriam.
— Está tudo bem, princesa? — um guarda perguntou. Ele e outro guarda tinham deixado o posto ao lado dos aposentos de Lucia para acompanhá-la pelo longo corredor.
— Está tudo bem. Muito bem. — Ela olhou para eles com cautela. — Voltem aos seus postos. Não preciso de ajuda.
— Receio que esteja enganada. — O guarda pegou o braço dela. — Você vem conosco.
— O quê? — Ela tentou se soltar. — Tire as mãos de mim agora mesmo!
— Acabou, princesa. — Ele olhou para ela com frieza. — Não vamos mais acatar suas ordens. Não que algum dia tenhamos acatado.
— Me soltem! — Cleo gritou, chutando e se debatendo, lutando para se libertar. Passou os olhos pelo corredor em busca de ajuda, mas não encontrou ninguém. — Seus brutos! Vou contar ao rei sobre esse comportamento!
— Estamos cumprindo ordens do rei.
Ela os encarou, horrorizada, então abaixou a cabeça e fincou os dentes no braço de um guarda até sentir gosto de sangue e ouvir um grito de dor. Cleo se virou e correu, mas o outro guarda a agarrou antes que conseguisse ir muito longe.
— Você teve a chance de nos acompanhar sem resistência — ele disse. — Não diga que não teve.
Segurando a cabeça de Cleo, ele a bateu contra a parede de pedra, e a escuridão recaiu imediatamente sobre ela.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!