29 de setembro de 2018

Capítulo 24

O CALOR DESAPARECEU. Me sentia febril. Meus pulmões ardiam.
Estava de quatro, ofegando sem ar, meu coração tão acelerado quanto as sacudidas do trem. Bahi estava morto. Morrera gritando, como eu tinha dito que o comandante Naguib morreria. Eu havia torcido o universo e desviado o mal direto para Bahi. Tudo no vagão estava quieto, exceto pelo lustre acima de nós, ligeiramente chamuscado, balançando frenético de um lado para o outro com o movimento do trem.
Jin tentou correr. Um dos soldados que o segurava deu uma joelhada no meio das suas costas, forçando-o a ficar no chão.
— Prendam ele. — Naguib se esforçava para parecer entediado, mas sua voz tinha um quê de hesitação. Seu cabelo estava grudado na pele devido ao suor. Hala deixou escapar um pequeno soluço sem se mover. — Posso sugerir que meu estimado irmão forasteiro seja o próximo?
Noorsham ignorou seu comandante.
— Amani. — Toda sua atenção estava direcionada para mim. — Você ainda está viva.
Não entendi de início, e então percebi que minhas roupas estavam chamuscadas, pretas e desintegradas em alguns lugares. Mas eu não. Minha pele era de demdji. Filhas de criaturas imortais não queimavam tão fácil.
— Cresci no deserto. — Minha voz tremia. — Estou acostumada com o calor.
— Não. — Ele estendeu a mão de metal, como se pretendesse encostar no meu rosto. Eu podia sentir o calor irradiando dela. — Você é especial, como eu.
E era verdade, até no sotaque e olhos azuis. Eu não conseguia dizer que era mentira. Éramos demdjis, não podíamos mentir.
— Quero falar sozinho com ela — Noorsham disse mais alto, para que Naguib pudesse ouvir.
— De jeito nenhum. — Shazad estava desabada no chão do vagão, mas com essas três palavras eu sabia que ela ainda tinha forças para lutar.
— Não mesmo — confirmou Jin, esforçando-se para ficar de joelhos. Naguib o chutou de novo.
— Ninguém machuca eles. — Levantei a voz quando Naguib ergueu o pé novamente. Ele parou, a bota flutuando acima das costelas do irmão. Naquele momento, não era um comandante com um prisioneiro. Era o filho que não podia competir pelo respeito do pai nos jogos do sultim. Aquele incapaz de conquistar o respeito dos soldados, ouvindo pelas costas que o irmão rebelde era mais homem do que ele. E estava descontando tudo em Jin. — Eu vou com você. Mas enquanto estiver fora, ninguém machuca eles. — Voltei meu olhar para aquele outro par de olhos azuis, no fundo da face de metal. Será que os meus também eram tão perturbadores? — Temos um trato?
Os olhos de Noorsham expressaram um sorriso, mas a boca de metal não se moveu. Me perguntei se ele tinha crescido estupidamente ignorante do que era, como eu.
— Você tem minha palavra: ninguém vai machucá-los enquanto você estiver fora.
Ele estendeu a mão novamente. Mesmo sendo filha de um djinni, sua luva de metal ainda fez bolhas na palma da minha mão quando a segurei.
Eles me revistaram duas vezes antes de me deixar sozinha com Noorsham, mas fizeram isso às pressas. Eu tinha a sensação de que até os soldados queriam ficar longe de sua arma demdji. De repente estávamos sozinhos no carro seguinte, um grande vagão-restaurante. Parecia igual àquele onde eu havia comido no trem que partira de Juniper. Cada balanço fazia os copos tilintarem como um coro insano de sinos. Noorsham sentou numa cadeira de um vermelho intenso, enquanto eu me inclinava contra a porta, o mais longe dele possível.
— Você não voltou — ele disse, finalmente. — Em Fahali. Você não voltou por mim. — Ele parecia mais novo do que na frente de Naguib. Por um instante, a imagem da armadura de bronze aterrorizante se confundiu com a do soldado jovem e magricela no chão da prisão.
— Eu queria. Eu tentei, mas… — Eram desculpas. Um monte de desculpas para uma promessa quebrada, que eu tinha feito quando acreditava que éramos apenas filhos de estrangeiros. Não uma demdji sem talentos e uma arma poderosa. — É verdade — eu disse, enfim. — Sinto muito. Por que você estava preso lá? — perguntei.
— Desobedeci às ordens do comandante.
— A casa de oração — eu me dei conta. — Você não quis queimar a casa de oração em Dassama. — Ele inclinou a cabeça devagar. — Por quê? — Lembrei de como parecia enojado com Bahi. — Achava que nenhum rebelde seria religioso o suficiente para estar lá?
— Não. Mas eu sabia que não haveria gallans lá dentro — ele disse.
— Gallans? — Balancei a cabeça, confusa. — Por que… — Dassama não era apenas aliada a Ahmed: tinha sido uma base importante para o Exército gallan. O sultão não estava tentando incendiar a rebelião para ajudar os gallans. Ele não tinha usado a cidade como local de teste porque o apoio a Ahmed estava aumentando ali. Ele estava limpando o deserto dos forasteiros. — Você não está atrás da gente. Está atrás deles.
— O sultão me disse que Deus estava com raiva por termos deixado potências estrangeiras heréticas entrarem no deserto. Ele disse que precisava de mim para devolver nossa terra ao nosso povo. Meu fogo varreria os Exércitos estrangeiros, aqueles que querem nos causar mal, nos controlar, tirar de nós o que nos pertence. Aqueles que marchavam com uniformes azuis e tomavam mulheres e armas do deserto.
Lembrei de mim mesma na tenda com Ahmed, assustada porque seu pai estava vindo atrás de nós. Como tinha sido ingênua. O sultão não dava a mínima para um punhado de rebeldes que queria criar um mundo melhor. Ele também estava criando um novo mundo. Um mundo onde não teria que compartilhar seu poder.
Alguma coisa brilhou do lado de fora da janela. Asas azuis. Um enorme roc. Izz circulando acima do trem. Àquela altura, ele devia ter percebido que alguma coisa estava errada.
Noorsham seguiu meu olhar enquanto Izz guinava para cima, lançando-se sobre o trem e sumindo de vista.
— Você é de Sazi — eu disse, atraindo de volta sua atenção. Me afastei da porta e comecei a andar de um lado para o outro, mantendo os olhos dele em mim. Só porque dizemos a verdade não quer dizer que não somos manipuladores. — Dá pra perceber pelo seu sotaque. As minas. — As peças estavam começando a se encaixar: a forma como a cidade arruinada pelo fogo me lembrava alguma coisa, mas eu não conseguia entender exatamente o quê. Dois grandes desastres separados pelo deserto. — Não foi um acidente. Foi você.
— Destruí as minas no dia em que descobri meu dom. — Ele levantou, movendo-se como um pai sagrado. — O dia em que levei a luz e a fúria aos ímpios.
— E Sazi era cheia de ímpios, não? — Deslizei o dedo pela madeira do bar. Enquanto estivesse ali, meus amigos permaneceriam vivos. Estava ganhando algum tempo. Só precisava mantê-lo falando. Quando olhei de relance pela janela, Izz não estava mais lá. Quanto tempo demoraria para ter certeza de que estávamos em apuros?
— Você também é do Último Condado — ele disse. — As pessoas eram boas na sua cidade?
Ele não estava errado.
— Você matou mais gente do que qualquer pessoa do Último Condado.
Noorsham deu de ombros e a cota de malha fina reluziu.
— Fui escolhido para algo maior. É o meu propósito.
Recuei. Algo maior. Soava muito como o que eu dizia a Tamid sobre deixar a Vila da Poeira. Sobre ter outra vida lá fora. Uma que não fosse tão medíocre e sem propósito e curta. Eu podia ter o mesmo sotaque de alguém que matava com tanto desprendimento, mas não estava disposta a usar as mesmas palavras.
— E o que os ímpios de Sazi fizeram contra você?
Por um instante, mesmo feito de metal, ele parecia humano.
— Você lembra, sete anos atrás, quando o Exército gallan passou? — ele perguntou, batendo os dedos no bar enquanto andava na minha direção.
— O Exército gallan atravessou o deserto mais de uma vez — eu disse, sem me afastar dele.
— Não finja que não lembra. — Seu sotaque fraquejou, e dava para sentir o Último Condado em sua voz mais do que nunca. Ele ajustou o tom novamente. — Daquela vez foi diferente.
— Eu lembro — admiti, embora não quisesse. Era um ano de seca. A inquietação era profunda, e havia mais forasteiros de uniforme azul do que o normal. — Minha mãe e eu nos escondemos em casa o dia inteiro. Ela tentou me fazer acreditar que era uma brincadeira. Mas eu tinha idade suficiente para entender um pouco o que estava acontecendo.
Noorsham assentiu.
— Minha irmã Rabia tinha idade suficiente também — ele disse. — E então, quando o Exército foi embora, o povo da montanha se juntou e atirou pedras nela e em todas as outras garotas por se deitarem com homens estrangeiros. Até elas morrerem. E minha mãe deixou.
Eu não tinha o que dizer.
— Por anos esperei que Deus os punisse. Rezei. Nunca imaginei que a punição viria de mim. — Suas palavras me lembravam da voz do pai sagrado, ardendo pelo povo nos dias de oração. Eu também ouvia aquele fervor religioso na voz de Tamid às vezes. — Eu estava afastado das minas havia um tempo — ele continuou. — Estava doente demais para trabalhar. Tentei ir, mas minha mãe não deixou, e eu não tinha mais energia para lutar. Quando voltei, todos os outros homens me olhavam de um jeito estranho. Ficavam perguntando por Suha, minha outra irmã. Na hora do almoço, um deles ficou bêbado o suficiente para me contar. Nosso dinheiro tinha acabado enquanto eu estava doente. Minha mãe vendeu Suha para os homens da mina, com medo de morrer de fome. Os mesmos que tinham matado Rabia por se deitar com estrangeiros. Quando descobri, senti uma explosão dentro de mim, uma luz enviada por um poder maior, destruindo a todos e me deixando intacto.
Noorsham parou a um metro de mim. As feições imutáveis de sua máscara de bronze estavam calmas. Mas um único punho de bronze estava fechado firme, com raiva. Senti a raiva junto com ele. Raiva das pessoas na Vila da Poeira que tinham enforcado a minha mãe. Das pessoas que tinham enforcado Dalala. Das pessoas que deixariam alguém como Fazim ou meu tio se deitarem comigo.
— Depois disso, o príncipe Naguib me encontrou. Eu estava escondido na montanha, esperando a próxima ordem de Deus, e ele veio e me levou ao nosso aclamado sultão, que me explicou que meu fogo era um dom. De Deus. E que deveria queimar os pecadores e salvar os bons.
— Assim como as balas, o fogo por si só não distingue o bem do mal — eu disse, incapaz de me conter.
Ele inclinou a cabeça, confuso.
— Você ainda está viva — ele disse.
— Isso já deveria ser prova suficiente. — Eu me inclinei contra o bar, escondendo as mãos que tremiam enquanto segurava a madeira com força. — E acho que você sabe disso também. Por que mais teriam acorrentado você em Fahali? Por que te prenderam dentro dessa armadura agora? Acho que você sabe tão bem quanto eu, tendo crescido no Último Condado, que misturamos bronze com o ferro para tornar os buraqis obedientes. — O Exército gallan que procurava os rebeldes estava acampado em Dassama. O plano era queimá-los também. Mas Noorsham tinha se recusado. Então o levaram de volta a Izman e fizeram uma armadura de bronze para ele. — Parece que o sultão acha que você precisa ser forçado a obedecer. Quer saber a minha opinião? Naguib tem medo de você. — E eu não o culpava por isso. — Ele só está te usando. Você é uma arma como qualquer outra.
Noorsham contraiu os dedos.
— Você parece muito segura de si.
— Porque estou certa. — Tentei pensar em alguma coisa para dizer, alguma verdade. Não ia adiantar dizer que ele era um demdji, não uma arma de Deus. Ou que estava do lado errado da batalha. Noorsham poderia dizer o mesmo para mim. Ele acreditava no sultão; eu acreditava no príncipe rebelde. Jin uma vez me dissera que não havia como argumentar contra a crença. Era um idioma estrangeiro à lógica. E, filha de djinni ou não, eu imaginava que ele ainda poderia me queimar viva se decidisse que eu era uma inimiga.
Precisava escapar. Me afastei do bar e andei até a janela. Ainda podia ver Izz voando lá no alto. A janela abriu com um puxão, deixando ar fresco entrar.
— O que você está fazendo?
— Estou com calor — eu disse, tirando o sheema do pescoço. Soltei o tecido vermelho, roubado de um varal em Sazi, deixando-o voar até a areia como uma bandeira ensanguentada. Torci para que Izz visse aquilo e entendesse como um pedido de socorro.
— É algum tipo de truque? — Ele parecia muito jovem de novo.
— Você não precisa deixar que te usem. — Minha voz saiu com um tom de desespero quando virei para encará-lo. — O príncipe Ahmed, se fosse sultão, expulsaria os gallans também. Sem matar tantas pessoas. Ele tem gente como você do lado dele, como eu. Só que não nos usa para destruir cidades. Não somos armas, somos soldados.
— Não sou uma arma — Noorsham disse.
Talvez Jin estivesse certo. Talvez não houvesse como argumentar contra a crença. Olhei pela janela novamente. Izz estava voando mais baixo agora, acompanhando o trem.
— Então por que você não pode tirar a armadura? — perguntei, me apoiando contra o bar.
Ele ergueu a mão depressa, segurando o fecho soldado na lateral da máscara, no mesmo instante em que Izz, na forma de um roc gigante, se arremessou contra o trem.
O veículo balançou com tanta força que achei que íamos descarrilhar. Colidi com o bar, perdendo o fôlego. Ouvi metal rasgando, e com o canto de olho vi um pedaço da parede do vagão ser arrancado pelas garras afiadas de Izz.
Disparei na direção do buraco estreito, o deserto por todos os lados.
Então uma silhueta com roupas de deserto vibrantes se jogou na areia. Shazad caiu rolando de forma disciplinada, e estava de pé antes de desaparecer de vista, com dois soldados atrás dela. Uma garota dourada lutando contra um soldado caiu na areia em seguida.
A porta do vagão abriu com força e Naguib correu para dentro, procurando Noorsham. Tentei ser rápida como Shazad, estendendo a mão por cima do bar. Consegui pegar uma garrafa pelo gargalo. Me virei, golpeando com ela, errando o rosto de Naguib por pouco. Ele segurou meu punho, puxando-o para baixo. Senti uma pontada de dor atravessar todo o meu corpo e gritei. A garrafa estilhaçou no chão, e isso o distraiu o suficiente para que eu conseguisse me libertar.
Alguém chamou meu nome. Jin estava de pé no vão da porta. Um enorme buraco que rasgara o trem separava os dois vagões, mas parecia que o idiota estava pensando em ir atrás de mim.
— Pula! — gritei para ele. — Vou logo atrás de você.
Ele sabia que não adiantava discutir comigo. Saltou quando eu comecei a correr até a lateral do vagão.
Eu não estava muito atrás dele e logo alcancei o buraco na parede.
Noorsham.
Olhei rápido para trás. Ele havia sido derrubado pelo impacto. O elmo de metal estava amassado, mas ele já se recuperava. Vi de relance pelo buraco que estávamos chegando a um desfiladeiro, onde os trilhos passavam por cima de um penhasco.
Eu tinha que pular. Naquele instante. Mas não podia abandonar Noorsham. Não podia deixá-lo vivo. Não podia deixá-lo nas mãos de Naguib. Eu tinha que matá-lo. Ou salvá-lo. Nossos olhos azuis se encontraram em meio aos destroços no vagão.
O ruído dentro de mim soava como o grito de Bahi, implorando que eu atravessasse o vagão, arrancasse sua máscara e o arrastasse para longe. Mas o vale estava quase sob nós, e talvez eu tivesse esperado tempo demais.
Se voltasse ficaria presa e não teria tempo para saltar.
Se pulasse, talvez caísse no vazio de qualquer jeito.
Não tinha saída.
Me joguei do vagão. Senti o vento me arrastar. Atingi o chão e meu corpo explodiu em uma constelação de dor. O impulso me carregou pela areia como se eu fosse feita de ar, mas doía demais para lutar contra aquilo. Minha visão clareou a tempo de ver o abismo do desfiladeiro se abrindo para me engolir. Meus dedos pegaram a areia. Lutei para segurar alguma coisa, mas não havia como impedir que meu corpo continuasse rolando. Não havia onde me segurar além da areia.
Minhas pernas caíram, levando o resto de mim com elas.

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