23 de setembro de 2018

Capítulo 24

NIC
AURANOS

Ele só conseguia ver labaredas, tão altas quanto ele, cercando-o por todos os lados.
Então Nic teve a sensação de ter levado um soco no estômago, deixando-o imóvel enquanto Kyan voltava a assumir o controle. Tinha sido o período mais longo em que tinha assumido o controle do próprio corpo e da magia de fogo de Kyan. Ele tinha invocado chamas para proteger a fuga de Cleo. E chamas apareceram.
A dor foi fulminante, mas ele estava orgulhoso das conquistas daquela noite.
Nic não sabia como tinha conseguido. Talvez ter visto Cleo, com linhas azuis assustadoras marcando metade de seu rosto, fazendo caretas para Kyan com tanta coragem e força, fez seu coração se partir.
Ele sabia que precisava fazer alguma coisa para ajudá-la.
Kyan, Taran e Olivia não teriam permitido que ela saísse. Eles a acorrentariam se tentasse fugir. Com a presença de Cleo, mesmo sem que a deusa da água estivesse no controle de seu corpo, Nic tinha sentido o poder de Kyan se tornar duas vezes mais forte.
Kyan balançou a mão, e o fogo desapareceu. Deixou um círculo preto queimado no mármore branco. Nic sentiu que Kyan considerou aquilo detestável e imperfeito — uma marca física de sua falta de controle sobre o mortal. Ele analisou o templo em busca de Cleo, que já tinha ido embora.
— Você se acha esperto — Kyan disse em voz baixa. — Muito esperto, não, é?
Na verdade, sim. Nic se achava esperto.
E, se tivesse algum controle sobre o próprio corpo naquele momento, faria um gesto bem grosseiro para o deus do fogo.
— Não vai demorar muito para você não passar de uma lembrança — Kyan continuou em tom ameaçador. — Que eu vou jogar fora e esquecer, como se você nunca tivesse existido.
Aquilo foi grosseiro, Nic pensou. E só o fez sentir mais vontade de lutar por sua sobrevivência.
Kyan caminhou em direção à saída, em busca de Kurtis. E o encontrou à espreita do lado de fora, nas sombras.
— Venha aqui — ele vociferou.
Nic tinha rapidamente deixado de lado a empatia que sentira pela dor de Kurtis quando tinha sido marcado. O garoto ruivo já o odiava novamente. Kurtis era um covarde, disposto a fazer qualquer coisa para não sofrer. Sem dúvida, ele ofereceria a alma da própria avó se isso significasse evitar qualquer momento de desconforto.
Ajudava um pouco o fato de que Kyan também detestava profundamente o ex-grão-vassalo.
— Você a viu fugir? — Kyan questionou.
— Quem? — Kurtis perguntou.
A fúria cresceu dentro de Kyan, e seus punhos e antebraços se acenderam com labaredas. Os olhos de Kurtis ficaram tomados pelo medo.
— A princesa — Kyan sibilou.
Kurtis começou a tremer.
— Sinto muito, mestre. Não a vi.
— Vá atrás dela. Encontre-a e a traga de volta imediatamente. Ela não pode ter ido longe.
Kurtis olhou para a floresta.
— Em que direção ela foi?
— Apenas encontre a princesa! — Kyan explodiu. — Se falhar, vai arder em chamas.
Kurtis desceu correndo a escadaria do templo e se embrenhou na floresta.
— Se eu for atrás da pequena rainha, posso acabar queimando-a além da conta — Kyan murmurou. — Nós não queremos que isso aconteça, não é, Nicolo?
Nic desprezava intensamente aquele monstro.
— Viu? Você só piorou as coisas para ela — Kyan continuou. — Não há escapatória para a pequena rainha. A deusa da água vai emergir, quer ela queira quer não. Não há como nos deter. Somos eternos. Somos a própria vida. E vamos fazer de tudo para sobreviver.
Vai se danar, seu pedaço de esterco queimado, Nic pensou.
— Esta noite me provou uma coisa, Nicolo. — Kyan encostou no pilar de mármore, passando a mão distraidamente pelo cabelo ruivo que tinha roubado. — Chegou a hora de abraçar por completo o poder que já é nosso. As peças estão no lugar, os meios para executar o ritual com perfeição estão ao meu alcance. A pequena rainha vai voltar para mim, Olivia e Taran, e tudo vai ficar bem. Por toda a eternidade.
Ele observou o templo com repulsa.
— Mas não aqui. — Kyan ficou em silêncio, pensativo. — Acho que conheço o local perfeito.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!