16 de setembro de 2018

Capítulo 24

CLEO
PAELSIA

O mundo de Cleo estava reduzido às quatro paredes do quarto na hospedaria paelsiana. A tranca enferrujada na porta era a única coisa que a protegia dos inimigos.
Os Damora eram seus inimigos — não sua família, nem seus aliados, nem seus amigos.
E ainda assim, ela continuava com eles, sentindo-se presa, uma prisioneira impotente que não podia decidir o próprio destino.
Ela não sabia ao certo quando finalmente conseguira adormecer, mas depois de escapar das garras dos pesadelos, com lágrimas secas no rosto, percebeu algo muito importante.
Não era uma prisioneira impotente. Era uma rainha.
Ela tinha se esquecido de ser corajosa, de ser forte como a irmã e o pai tinham pedido para que fosse. O que pensariam dela agora, depois de se perder e esperar respostas confiando em pessoas que não mereciam sua confiança?
— Já chega — ela sussurrou quando saiu da pequena cama.
Não sabia como, mas ia consertar aquilo. Seus objetivos continuavam os mesmos: vingança, poder, recuperar o trono e garantir o bem-estar do povo auraniano.
Nada mais importava.
Seu marido tinha razão sobre uma coisa: se Nic soubesse que ela estava apaixonada por Magnus, ele a teria detestado. Era sorte, então, que ela não tivesse se entregado totalmente ao príncipe. Ela estava se controlando, protegendo a si mesma apesar de não saber que era isso que estava fazendo.
— Sinto muito, Nic — ela murmurou quando passou a escova prateada pelos fios de cabelo compridos, tentando não pensar em quando Magnus tinha feito a mesma coisa. — Você estava certo. Você sempre esteve certo.
Seu estômago roncou, e ela percebeu que não comia desde a tarde do dia anterior. Necessitava de força para fazer o que precisava ser feito — ir a Auranos encontrar os aliados de seu pai. Tinha que encontrar os rebeldes que a ajudariam a elaborar um plano para derrubar Amara.
Se havia um jeito, Cleo descobriria qual era. Não importava o que teria que fazer.
Assim que amanheceu, ela desceu a escada, em silêncio. A hospedaria estava quieta; apenas os Damora moravam no lugar que, dias antes, era tomado por uma mistura estranha de inimigos e aliados.
Ela caminhou em direção à cozinha. A esposa do dono já estava de pé, assando pão. O cheiro deixou Cleo com água na boca.
— Preciso tomar café da manhã — ela disse à mulher.
— Sim, vossa graça — a mulher assentiu. — Sente e trarei tudo assim que estiver pronto.
— Obrigada. — Cleo foi para a sala de jantar e ficou surpresa ao ver que não era a única pessoa acordada àquela hora. Selia Damora estava sentada à cabeceira da mesa, lendo um livro sob a luz clara do sol nascente. Ela levantou os olhos quando Cleo se aproximou.
— A princesa finalmente saiu de seus aposentos — ela disse. — Que bom vê-la hoje.
Cleo hesitou antes de sentar ao lado da mulher. Ainda não havia por que mudar seus planos de partir.
— Está muito cedo.
— Sempre gostei de levantar antes de o sol nascer.
Cleo nunca teve esse hábito. Houve uma época em que dormia até mais tarde todas as manhãs, até que sua irmã tocasse seu ombro para dizer que ela já tinha perdido a primeira aula, o que deixava seu tutor muito irritado. Cleo respondia cobrindo a cabeça com cobertores e resmungando para Emilia deixá-la em paz. Os tutores sempre gostaram muito mais de Emilia do que da princesa mais nova.
Cleo olhou para a jarra e para os copos de vidro perto de Selia.
— O que está bebendo?
— Suco de uva fresco. Parece que os paelsianos fazem mais do que vinho com a fruta. Aceita um copo?
— Talvez daqui a pouco.
— Você está chateada hoje — Selia comentou. — Não pude evitar e acabei entreouvindo parte de sua discussão com meu neto ontem à noite. Devo admitir que você tem razão por estar brava. Ele não tinha o direito de manipular seu amigo e deixá-lo em perigo.
Os olhos de Cleo começaram a arder.
— Ainda não consigo acreditar que é verdade. Que Nic… morreu.
— Sei que está sofrendo. Mas deixe essa dor fortalecê-la, querida.
Cleo olhou para a mulher na hora.
— Não pareço forte o bastante?
— Uma mulher pode sempre se esforçar para ser mais forte diante de emoções dolorosas. Se chegou a alguma conclusão sobre o amor e sobre como ele nos enfraquece, eu a enalteço. Muitas mulheres precisam ter muito mais idade do que você para aprender essas lições.
— Você fala como se conhecesse meu coração, mas não conhece. Não me conhece, e não conheço você.
— Aprenda a aceitar bons conselhos quando os recebe de graça. A vida será muito mais fácil se fizer isso. — Selia não pareceu se abalar nem um pouco com o tom de Cleo. — Percebo grandeza em você, minha cara. Vejo em seus olhos. Você está determinada a mudar o mundo. Vi a mesma expressão nos olhos de sua mãe quando a conheci.
Cleo arregalou os olhos.
— Você conheceu minha mãe?
Selia assentiu.
— Elena era uma mulher louvável, forte, corajosa e inteligente. Uma combinação incomum, detesto admitir, principalmente entre os membros da realeza. Nossa classe costuma ser mimada e protegida na juventude, não importa nossa origem. Isso pode gerar adultos preguiçosos que não estão dispostos a fazer o que precisa ser feito para conseguirem o que querem.
— Fui mimada e protegida — Cleo admitiu.
— Tal fraqueza foi extinta de você com os desafios e as perdas.
— Sim. Extinta — Cleo repetiu, assentindo. — Uma descrição precisa do que senti.
— O fogo que nos deixa ocos é o que permite que sejamos preenchidos com força e poder onde antes não tínhamos nada — Selia disse. Ela encheu dois copos de suco de uva. Cleo pegou um deles. — Talvez devêssemos brindar a esse fogo. Sem ele, não ameaçaríamos aqueles que talvez queiram limitar nosso potencial.
Cleo assentiu.
— Acho que podemos brindar a isso.
Ela levou o copo aos lábios. Quando estava prestes a tomar um gole, o copo voou de sua mão e se espatifou na parede.
Ela olhou com surpresa para o rei, que estava agora a seu lado. Gaius não olhava para ela, mas, sim, para a mãe dele.
Cleo levantou com dificuldade, arrastando a cadeira no piso de madeira. O rei parecia mais forte e saudável do que nunca.
A pedra sanguínea. Gaius a tinha agora, e ela havia feito sua mágica.
Ela estivera ocupada demais sentindo pena de si mesma, isolada no quarto, para saber o que estava acontecendo.
— Minha nossa, Gaius. — Selia levantou. — É assim que você trata a esposa de seu filho?
— Percebi que você ainda não tomou um gole, mãe. Vá em frente, mate sua sede. Não me deixe impedi-la de saborear sua própria magia.
Em vez de fazer o que ele havia sugerido, Selia deixou o copo sobre a mesa.
Cleo a observou, enojada ao perceber.
O suco de uva estava envenenado.
Cleo se encostou na parede, o coração batendo rápido.
— Você parece muito bem, Gaius — Selia disse sem olhar na direção de Cleo.
— Graças a você, parece que me recuperei.
— Como prometi que aconteceria. — A expressão dela estava séria. — Agora diga o que está acontecendo e por que me olha com ódio em vez de amor hoje.
Ele riu com frieza. Seu olhar era tão frio que fez o sangue de Cleo congelar nas veias.
— O que teria acontecido se a princesa tivesse bebido aquilo? — Ele indicou a jarra com um aceno de cabeça. — Ela teria morrido depressa e sem dor ou teria gritado com um buraco na garganta, como aconteceu com meu pai quando tomou a sua poção mais fatal?
— Não sei bem — Selia disse com calma. — Cada pessoa reage de um jeito.
— Você tentou mesmo me envenenar? — Cleo perguntou. O choque e o susto a deixaram trêmula.
Selia a encarou determinada.
— Você revelou ser um problema em muitos aspectos. Não vejo motivo para permitir que estrague essa família mais do que já estragou.
— Essa decisão não cabe a você — Gaius resmungou. — Cabe a mim.
— Até onde sei, você tentou se livrar desse incômodo muitas vezes. Será que é tão difícil assim acabar  com a vida de uma garota problemática?
— Como você sabia? — Cleo perguntou a Gaius. Pensar que tinha começado a confiar em Selia, que tinha acreditado em suas palavras de força e coragem provocava náuseas. Ela quase tinha tomado o veneno, sem pensar, nem por um momento, que sua vida estivesse em risco. Se o rei não tivesse arrancado o copo de sua mão…
— Eu apenas soube — o rei respondeu. Ele ainda não tinha olhado diretamente para Cleo; seu olhar permanecia fixo na mãe. — Assim como sei o que você fez dezessete anos atrás, mãe.
Por fim, Selia franziu a testa.
— Não sei do que está falando.
— Podemos brincar disso, se quiser. Prefiro não brincar. Prefiro não perder mais tempo ouvindo suas mentiras, as mentiras com as quais encheu minha cabeça a vida toda.
— Nunca menti para você, Gaius. Eu amo você.
— Amor. — Ele jogou a palavra de volta como se fosse uma flecha em chamas que tinha conseguido bloquear. — É disso que você chama? Não, mãe. Durante o tempo que passei frente a frente com a morte, a mente livre de poções de proteção, pensei muito em como sua ideia de amor é apenas um truque para conseguir poder. Fiz tudo o que você pediu e não recebi nada em troca. Foi você que me disse que o amor é uma ilusão. Ou você só considera alguns tipos de amor inadequados?
Selia o encarou incrédula.
— O amor romântico é uma ilusão. O amor da família é eterno! Esperei treze anos no exílio para você perceber que tudo o que fiz foi por você. Por você, Gaius, não por mim. E finalmente você apareceu quando mais precisou de mim. E o que fiz sem questionar? Salvei sua vida!
— Sei que salvou. E também sei que você foi ver Elena antes de ela morrer — disse Gaius, a voz mais baixa. — Você ficou atormentada com a ideia de que eu voltaria para ela, apesar de ela nunca ter respondido às minhas cartas. Mas você interceptou as cartas, não é? Ela não recebeu nenhuma.
Cleo não conseguia se mexer, mal conseguia respirar. Ela sabia que o que estava assistindo não era para ser visto. Ainda assim, não conseguia sair de lá.
Selia olhou para Gaius como se ele fosse um menino de dez anos tentando argumentar com uma intelectual.
— Sempre tentei proteger você para que não tomasse decisões ruins que ameaçariam seu poder. E, sim, eu sabia que você planejava ir até ela, tão ingênuo aos vinte e cinco anos quanto era aos dezessete.
Ele assentiu devagar.
— Você ofereceu suco de uva para ela também? Lembro que ela preferia sidra. Sidra morna de maçã com especiarias.
Selia não respondeu.
— Você não precisava tê-la envenenado. Eu não pretendia ficar com Elena, não naquela época. Meu coração já tinha se tornado sombrio e frio demais para pensar que ela me aceitaria de volta, principalmente com a vida e a família perfeitas que tinha. Mas não foi a maldição de uma bruxa vingativa que a matou. Foi você.
Cleo percebeu que tinha começado a tremer muito, e tudo o que ouvia a atingia como socos.
— Você envenenou minha mãe — ela sussurrou. — Você a matou.
— O veneno deveria ter acabado com a vida dela e com a do bebê que ela esperava. — Selia balançou a cabeça. — Mas a gravidez já estava avançada demais. A morte dela pareceu natural para muitos, já que o parto de Emilia tinha sido muito difícil. Sei que Corvin acreditava ter sido uma maldição, culpa dele por se envolver com uma bruxa. E, sim, foi com sidra de maçã. Que estranho… só lembrei agora. Mas garanto que ela não sofreu. Simplesmente… foi. Em paz.
— Mentira — Gaius disse, os dentes cerrados. — Ouvi relatos do quanto ela sofreu até a morte finalmente levá-la.
— São só boatos.
O ódio frio nos olhos do rei congelou a sala.
— Quero que você saia. Nunca mais quero vê-la de novo.
Selia balançou a cabeça.
— Você precisa ver que fiz o que achava ser o melhor para você, Gaius. Porque amo você, e sempre amei. Você é meu menino perfeito, nascido para ser grande. Juntos, vamos dominar o mundo, como eu sempre disse que faríamos.
— Saia — ele disse de novo —, ou mato você.
— Não, meu querido. Não posso deixá-lo. Não agora. Não assim…
— Saia! — ele berrou e socou a mesa de café da manhã com tanta força que Cleo teve certeza de que ela se racharia.
Selia levantou o queixo.
— Você vai me perdoar quando entender que não há outra maneira de isso terminar.
O rei tremia da cabeça aos pés quando sua mãe saiu da sala.
Cleo estava assustada, incapaz de pensar com clareza depois daquela discussão.
— Minha mãe foi envenenada… — ela começou. — Porque sua mãe achou que você queria retomar o relacionamento com ela.
— Sim.
— E isso… acabaria com o controle dela sobre você.
— Sim. — A segunda resposta não passou de um sibilo.
— Selia me disse que você agrediu minha mãe quase a ponto de matá-la, que ela odiava você.
Gaius arregalou os olhos.
— Minha mãe é uma mentirosa. Elena era meu mundo, minha fraqueza, meu sofrimento e meu único amor. Não encostei a mão nela com raiva e nunca faria isso. — Gaius olhou para ela com seriedade. — Quero que você saia daqui também.
— O quê?
— Minha mãe tem razão a respeito de uma coisa: você é um perigo para meu filho, assim como Elena era um perigo para mim. Não vou aceitar. Vou protegê-lo do perigo, quer ele queira minha proteção ou não.
— Mas eu… eu pensei…
— O quê? Que eu tinha começado a me redimir de alguma maneira impedindo-a de tomar aquele veneno? Não teve nada a ver com você, princesa. Teve a ver comigo e com minha mãe. Magnus estaria melhor se você estivesse morta e não fosse mais um problema para nós.
A dor no coração que tinha assustadoramente começado a sentir por causa do passado horroroso daquele homem logo se transformou em pedra.
— Acho que o Magnus deveria participar dessa decisão.
— Ele é jovem e idiota no que diz respeito a essas coisas, assim como eu era. Não perdoo minha mãe pelo que fez, mas compreendo por que tomou essa atitude. Farei o favor de não acabar com sua vida hoje, mas só se você for embora agora. Volte para sua preciosa Auranos. Ou, melhor ainda, saia de Mítica de uma vez. A família de Elena é do oeste de Veneas. Talvez você possa construir uma vida nova lá.
— Quero falar com Magnus — Cleo insistiu. — Preciso…
— Você precisa partir antes que o pouco de paciência que ainda me resta desapareça. E saiba, princesa, não faço isso por você, mas em memória de sua mãe, que deveria ter vivido no lugar de sua filha inútil, que não trouxe nada além de tristeza ao meu mundo. Agora vá e não volte.
Cleo finalmente virou de costas, contendo as lágrimas.
A primeira pessoa que viu foi Enzo, do lado de fora da sala.
— Você ouviu? — ela perguntou.
— Não tudo — ele admitiu.
Ela hesitou.
— Sei que você é limeriano e, apesar das promessas que fez, é leal ao rei, não a mim. Mas preciso perguntar mesmo assim… Quer vir comigo? Não sou tola o bastante para achar que consigo sair por aí por este mundo como está agora, sem proteção.
Não demorou muito para Enzo assentir com firmeza.
— Sim, claro que vou. Vamos encontrar um navio que nos leve a Auranos ou a qualquer lugar aonde queira ir.
Cleo concordou, grata por contar com o apoio dele, pelo menos.
— Obrigada, Enzo. Mas não vou pegar navio para lugar nenhum.
— Aonde você quer ir?
Parecia que restavam poucas opções. Estava na hora de ela ser forte de novo.
— Quero me encontrar com a imperatriz.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!