1 de setembro de 2018

Capítulo 24

LUCIA
AURANOS

Se havia uma lição que Lucia aprendera com a mãe, era que qualquer coisa abaixo da perfeição era inaceitável.
A rainha era obcecada por aparências, e sua prioridade era que a filha adotiva estivesse sempre o mais bonita possível. Que fosse uma princesa perfeita. Ela obrigava Lucia a fazer muitos exercícios de memorização quando criança, forçando-a a decorar longas passagens dos Livros de Valoria, além dos estudos regulares. Sempre que os Damora recebiam convidados importantes e nobres locais, Lucia era chamada, como objeto de exposição, para recitar o que havia aprendido. Se alguma vez tropeçasse em uma palavra, ou demorasse para lembrar a frase seguinte, a rainha ficava muito séria, mas não dizia nada. Não na hora.
— Garota idiota! — a rainha gritava assim que os convidados iam embora. — Você me envergonhou.
— Sinto muito, mãe. Achei que soubesse. Eu… não tive a intenção de esquecer.
— Precisa praticar mais. Não se renda à preguiça. A má impressão recai sobre todos nós. Hoje você não passou de uma decepção.
Palavras tão depreciativas tinham feito Lucia sentir menos afeto por aquela mulher e, aos poucos, começar a odiá-la.
Aquela lição dura, mas importante, permanecera. Perfeição era tudo o que importava, a qualquer custo.
Com o coração atormentado pelo fracasso no templo, Lucia voltou aos seus aposentos para ficar sozinha com seus pensamentos. Ela foi para a varanda e deixou a brisa quente passear por seus cabelos e sua pele.
O anel em seu dedo — o anel de Cleo — proporcionava apenas uma quantidade modesta de paz. Talvez sem ele ela já tivesse ateado fogo em alguma coisa para extravasar suas frustrações.
Mas o dia ainda não tinha chegado ao fim.
Lucia não estava errada a respeito do templo. O cristal da terra havia sido despertado ali — ela sabia disso. Mas tinham chegado tarde demais.
Alguém o roubara antes que eles chegassem.
Mas não fazia sentido. Quem mais possuía a magia para descobrir aonde ir e o que fazer?
Ela queria ir a Paelsia no mesmo instante, reivindicar os cristais do ar e do fogo, mas Ioannes se recusou e a fez prometer que não contaria a Magnus mais nenhum de seus segredos. Ele já sabia demais, Ioannes disse. Além disso, o rei tinha dado permissão para um passeio de um dia, não para uma viagem longa a terras vizinhas perigosas.
Com relutância, Lucia concordou em ficar quieta por um tempo.
E quem quer que tenha roubado o primeiro cristal também vai chegar antes de você aos outros dois, disse uma voz desagradável e sinistra dentro dela. Que bondade sua dar essa vantagem inicial.
Ioannes a fizera parar antes de localizar o quarto cristal. Dissera a ela para esperar, para se fortalecer e continuar as aulas antes de mobilizar a magia mais profunda necessária para o feitiço de despertar.
Ela também havia concordado com isso. O feitiço tinha sido muito mais intenso do que o previsto, mas ela havia conseguido. Ainda assim, agora Ioannes a fazia duvidar de suas habilidades. Talvez estivesse certo — talvez não estivesse pronta.
Mas, não. Ela estava pronta.
Será que poderia despertar o último cristal sozinha?
Pratique. Faça de novo. Não pare — não ceda à fraqueza. Não me envergonhe, garota idiota.
Era a voz da mãe, ainda em sua cabeça, depois de todos aqueles anos.
A rainha acreditava que a magia de Lucia era maligna, mas não era. Era pura. Era a essência da vida. Ioannes insistira, e ela estava começando a acreditar. E agora, com o anel de Eva na mão, finalmente tinha um pouco de controle sobre seu poder. Não era mais sua vítima. Sua magia era parte dela. Sua magia era ela.
A constatação lhe deu uma nova força. Fechou as janelas, acendeu uma dúzia de velas e as colocou no meio do chão. Sentindo-se ousada e rebelde, ela sentou, ajeitando a saia e cruzando as pernas. Tirou o anel de ametista do dedo e o analisou com cuidado, em silêncio, depois o girou à sua frente. Exatamente como Ioannes ensinara, ela se concentrou para mantê-lo girando, sem parar.
Ioannes tinha sido apenas seu guia da última vez, seu tutor. Mas sua presença não era necessária. A magia dependia apenas dela.
Com muito foco, criou um mapa de Mítica com magia e luz e o espalhou pelo chão como uma manta aberta para um piquenique.
Muito bem.
Lucia se concentrou na peça final da Tétrade — a água-marinha, cristal da água — libertando-se de quaisquer dúvidas ou temores que restassem.
— Onde você está? — ela perguntou em voz alta.
O anel girou pela Estrada Imperial, passando pelo templo em Auranos, pelo cristal do ar, ao sul de Paelsia, e mais a leste na direção das Montanhas Proibidas, onde parou na localização do cristal do fogo. Os cumes das montanhas eram altos, irregulares e assustadores, mesmo naquela representação mágica.
— Não, isso não. Eu já vi tudo isso — ela murmurou.
De repente, as montanhas se iluminaram com um triângulo gigantesco. Ardia como brasa, depois com chamas azuis, laranja e brancas, fazendo Lucia quase perder a concentração.
Fogo.
Ela se sentiu especialmente atraída por esse símbolo, chegando tão perto que tinha certeza de que as labaredas a queimariam.
Então, algo a empurrou para trás e a afastou do símbolo de maneira rápida e selvagem, deixando-a tonta. Lucia se esforçou para manter o controle sobre a magia e não perder o mapa. O anel quase parou de girar, mas ela o agarrou de novo com a mente bem a tempo.
Ela se recusava a aceitar o fracasso. Era forte, principalmente agora que tinha o anel. Ia conseguir.
Seus elementia a inundaram mais uma vez, tomando conta dela, como uma fera sinistra alongando os membros e afiando as garras. Mas dessa vez ela optou por aceitá-la. Era selvagem e perigosa, mas com o anel como âncora, sabia que iria obedecê-la.
O brilho do mapa voltou a se intensificar, a ponto de seus olhos começarem a arder. O anel que girava correu pela Estrada Imperial até atingir seu ponto mais ao norte.
Ela reconheceu o último local de poder de imediato. O Templo de Valoria, em Limeros.
Antes de partir para Auranos, o templo era como uma segunda casa para Lucia. Ela o frequentava uma vez por semana desde a infância para idolatrar a deusa.
Ficou satisfeita ao descobrir que era a localização do último cristal da Tétrade.
— Cristal da água… eu o desperto — ela sussurrou.
Sobre o mapa, o templo agora estava marcado com o símbolo da água. Duas linhas onduladas paralelas começaram a se agitar, tornando-se mais brilhantes a cada movimento.
Mas a sensação era diferente do que tinha sido com o fogo. Não parecia certo. Ela não conseguia desviar o olhar, que estava fixo no símbolo que brilhava sob o anel de ametista. Lágrimas corriam por seu rosto.
— Chega — ela disse, ofegante. — Como acabo com isso?
Antes, Ioannes a libertara do feitiço. Como faria isso sozinha? Seria capaz? Ou essa luz ardente queimaria seus olhos até cegá-la?
Seu coração disparou, as batidas reverberavam em seus ouvidos. O brilho dolorido diante dos olhos continuava a aumentar, transformando-se em um grito no fundo da garganta…
Então tudo ficou preto.


Não havia mais nenhuma sensação, nenhum sentimento. Apenas o silêncio e a escuridão a cercaram por uma breve eternidade.
Aterrorizada, piscou rapidamente e viu quatro figuras humanas tomando forma diante de seus olhos. Não podiam ser reais; essas figuras tremulavam como o mapa de Mítica. Como se fossem feitas de luz e magia.
O que está acontecendo?
Uma das figuras, uma jovem de beleza estonteante com longos cabelos dourados e olhos cor de safira, disse:
— É isso. Devolva-os para mim, Eva. Eu venci. Você perdeu. Não torne tudo mais difícil do que precisa ser.
Eva.
Lucia respirou fundo ao ouvir o nome da feiticeira original.
Eva era tão bela quanto a criatura dourada e cintilante, mas tinha cabelos escuros e olhos da cor da meia-noite. Ela balançou a cabeça.
— Você terá que tirá-los de mim.
— Já que insiste. — A criatura dourada acenou para duas garotas próximas, uma de cabelo escuro, outra de cabelo claro. — Peguem-nos.
Havia algo errado com Eva; estava pálida e trêmula. Mas, mesmo ajoelhada no chão diante da mulher dourada, olhava para cima com rebeldia.
As garotas se aproximaram e pegaram os objetos que estavam no chão, na frente de Eva, quatro pequenas esferas de cristal.
Lucia observava em silêncio, perplexa.
— Estão cometendo um erro estúpido. — Eva balançou a cabeça. — Vão se arrepender de seguir as ordens dela.
— Cale a boca, sua tola — gritou a garota de cabelo escuro. — Você queria todo o poder para si.
— Não. Queria protegê-las dele. Mas agora é tarde demais.
Cada garota segurava dois cristais. Eles logo ficaram mais brilhantes nas mãos delas, até arderem como pequenos sóis.
— O que está acontecendo? — perguntou a de cabelo claro, ofegante, olhando para as esferas de âmbar e selenita que segurava.
— Faça parar. — O pânico tomou conta da voz da mulher dourada. — Não! Isso não pode acontecer.
— Eu avisei, Melenia. Várias vezes. — Eva cerrou as mãos em punho. — Mas você me ignorou.
Lucia fixou o olhar na criatura dourada, como se a estivesse vendo pela primeira vez.
— Eu… eu não consigo soltar! — gritou a garota de cabelo escuro, que segurava a água-marinha e a obsidiana. — Está doendo!
Melenia correu na direção de Eva e agarrou seu pescoço, cravando os dedos sem piedade.
— Faça parar.
— Não posso. É tarde demais. Foi escolha sua. Lembre-se sempre disso.
— Eu roubei sua magia. Você não tem mais nada. Já deveria estar morta. Esse é o seu fim.
Eva olhou para ela com desdém, mas não tentou se libertar.
— Acha mesmo que é tão fácil? Minha magia é eterna. Meu sangue em suas mãos sela seu destino.
— Eu o quero de volta! — Melenia deu um tapa no rosto de Eva, e o ruído seco fez Lucia se contorcer. — Ele pertence a mim!
Sangue escorria pelo canto da boca de Eva.
— Ele não pertence a ninguém. Nunca pertenceu e nunca pertencerá. Ele a usou, e você permitiu, Melenia. Se eu não o tivesse detido a tempo, ele teria destruído tudo.
Melenia tremia de raiva, com lágrimas escorrendo pelo rosto.
— Eu o amo.
— Esse é o seu maior erro. O amor que sentia por ele não era amor, era obsessão. Amor de verdade tem a ver com sacrifício, não com egoísmo.
As duas garotas começaram a gritar, berros de dor que geravam ondas de solidariedade em Lucia. Mas Eva parecia satisfeita, como se os gritos fossem música para os seus ouvidos.
Os gritos finalmente pararam, e os olhos de Lucia se arregalaram em choque.
Os cristais tinham desaparecido. O que restou foram quatro símbolos gravados na palma das mãos das garotas.
Terra e água.
Fogo e ar.
Lucia mal conseguia respirar. As garotas eram as deusas Valoria e Cleiona… De repente, antes que tivesse mais tempo para absorver aquela constatação, seu mundo desabou de novo na escuridão. Ela caiu para trás, girando dentro de um poço escuro sem fundo.


— Lucia — disse uma voz na escuridão. — Lucia! Acorde!
Ela tentou agarrar a voz e usá-la para voltar ao mundo real. Segurou firme, até finalmente se dar conta de que estava agarrando o tecido macio de uma camisa.
— Estou aqui. Não vou deixar você sozinha, eu juro — disse a voz.
Magnus? Magnus sempre estava pronto para protegê-la, sempre a animava quando ela se sentia mal, assim como ela sempre tentava fazer por ele.
Lucia se forçou a abrir os olhos e viu que não era Magnus que a segurava. Em vez dele, viu olhos cor de prata observando-a com preocupação.
— Ioannes — ela conseguiu dizer.
Ainda estava no chão, com um monte de velas ao seu redor. Ioannes a segurou junto ao corpo, acariciando seus cabelos e os tirando do rosto.
— Você estava dormindo. Tendo um pesadelo, pelo jeito.
O sonho começava a se perder na memória dela, mas a noção do que havia testemunhado permanecia.
— Sonhei com Melenia — ela disse. — E Eva. E as deusas.
Ele franziu a testa.
— Todas elas? Um sonho e tanto.
— Melenia era… — As palavras morreram em seus lábios. Melenia era má, terrível, manipuladora. Uma assassina.
Mas era também a líder de Ioannes, em quem ele confiava, o motivo por que estava ali. Ela queria devolver a Tétrade ao Santuário pelo bem do mundo.
Lucia não estava pronta para admitir a Ioannes o que havia feito. Apesar de ter certeza de que despertara com sucesso o cristal da água, algo ruim tinha acontecido. Ela sabia o quanto chegara perto de se ferir.
Ioannes ficaria furioso ao saber que ela havia tentado fazer o feitiço sem ele. Lucia contaria logo, mas não naquele dia. Por enquanto seria seu segredo.
— Por um momento, fiquei preocupado com você — Ioannes disse quando ela ficou em silêncio.
A seriedade na voz dele levou um pequeno sorriso aos lábios de Lucia.
— Você ficou preocupado?
— Muito. Não quero que nada ruim aconteça a você. Você é importante demais para mim, princesa. — Ele se aproximou e roçou os lábios nos dela.
O coração de Lucia se expandiu, e a escuridão que havia dentro dela, todo o medo e o desespero que sentira foram eliminados por um momento de ternura.
— Eu amo você — ele sussurrou. — Não importa o que aconteça, por favor, nunca duvide disso.
Quando ele a beijou mais uma vez, as terríveis lembranças do feitiço e do pesadelo se desfizeram e desapareceram como fumaça.


Dois dias se passaram sem incidentes. Lucia manteve o feitiço clandestino de despertar em segredo, mas resolveu que logo engoliria o orgulho e falaria sobre ele. Aceitaria a fúria de Ioannes diante da decisão apressada de agir sem sua orientação e proteção.
A aula do dia incluía mais roubo de magia. Ioannes insistia nisso, apesar dos protestos dela.
— Estamos perdendo tempo — ela disse. — Precisamos inventar uma desculpa para sair do palácio e invocar os outros cristais. Não podemos esperar mais. Por que você não está preocupado? Alguém pode roubá-los também!
Ele a encarou com paciência.
— Eu estava preocupado, princesa. Mas, ontem à noite, Melenia visitou meus sonhos. Contei a ela sobre nosso progresso, sobre o que aconteceu no templo. Sugeri que ela enviasse falcões exploradores para vigiar os outros locais.
— E o que ela disse?
— Ela disse que já tinha feito isso. — Quando Lucia ficou boquiaberta, ele sorriu.
— Então os falcões estão vigiando tudo?
— É o que nós, vigilantes, fazemos.
Lucia pensou um pouco antes de falar de novo.
— Isso significa que ela sabe quem está com o cristal da terra?
Ele confirmou.
— Quem? — Lucia insistiu quando ele não revelou de imediato.
— Jonas Agallon.
Os olhos dela se arregalaram, reconhecendo de imediato o nome.
— O líder rebelde.
Ioannes a observou com calma.
— Você é uma feiticeira, princesa, com muita magia na ponta dos dedos. O que foi roubado pode, e vai, ser recuperado. É por isso que não estou muito preocupado. Você também não deveria estar.
— Mas Jonas pode usar o cristal…
— Primeiro ele teria que descobrir como — ele a interrompeu. — E, confie em mim, princesa, não é tão simples.
Confie em mim.
Ela confiava. Apesar da tendência irritante de não revelar informações que achava que podiam preocupá-la, Lucia confiava em Ioannes com toda sua alma e coração.
— Mas quem pode ter contado a Jonas aonde ir e o que fazer? — ela perguntou, meio para si mesma, meio para Ioannes.
— A resposta para essa pergunta é tão difícil? — ele respondeu. — Só três pessoas estavam presentes durante o feitiço do despertar, princesa.
Antes que ela pudesse responder àquela afirmação de revirar o estômago, Cronus apareceu na porta para conduzir Ioannes até sua reunião diária com o rei.
Era mais cedo que de costume, mas não parecia estranho que o rei precisasse dele com tanta urgência; o palácio estava extremamente movimentado, com os preparativos para o casamento de uma garota limeriana de família nobre. O pai, lorde Gareth — um dos conselheiros e amigos de maior confiança do rei — solicitara a honra da presença do rei na cerimônia. Embora não costumasse atender a pedidos tão frívolos, o rei resolvera que o casamento seria uma excelente desculpa para dar uma grande festa e ordenou que tudo fosse organizado rapidamente.
Desde que se mudara para Auranos e assumira seu novo trono dourado, o pai de Lucia parecia agarrar qualquer oportunidade de celebração. Ela não sabia ao certo se era apenas para manter as aparências, uma forma de inflamar ainda mais seus novos súditos, ou se ele realmente gostava dos eventos.
Ioannes se despediu dela, deixando-a andando de um lado para o outro em seus aposentos, com a cabeça girando com tudo o que acabara de ser revelado.
De repente, alguém bateu na porta. Ela abriu e viu Cleo.
— Estou interrompendo? — Cleo perguntou.
Por um instante, Lucia ficou sem palavras. Cleo passara a visitá-la todos os dias, pronta para arrastá-la para conversas sobre garotos e a vida em geral. Ela só se interessava por discussões fúteis e longas caminhadas pelo pátio e pelos corredores do palácio. Durante dias depois do presente generoso de Cleo — o anel —, Lucia esteve aberta a isso. Estava feliz e muito aliviada por finalmente ter uma amiga íntima a quem pudesse confiar seus segredos.
Agora não sabia mais o que pensar.
Ela abriu a porta e convidou a princesa para entrar.
— Não está interrompendo nada. Ioannes não está aqui.
Cleo entrou e passou por ela, dando uma olhada nas velas acesas e centenas de flores espalhadas pelo lugar.
— Seu quarto está parecendo mais um cenário romântico do que sala de aula.
— Acredite, as velas e flores são apenas para as aulas.
Cleo levantou uma sobrancelha.
— Que decepcionante.
Lucia observou a outra princesa com cuidado.
— Estou feliz que esteja aqui. Queria mesmo falar com você.
— Então também fico feliz por ter vindo. Em que está pensando?
— Fiz o feitiço de novo, sozinha. Despertei o cristal da água.
Cleo ficou de queixo caído e perguntou a Lucia:
— Onde está?
Que resposta rápida. Tão ávida, tão voraz.
Será que Lucia tinha sido tola de confiar nela, mesmo por um segundo? De pensar que Cleo poderia ser uma amiga de verdade em um reino de inimigos?
As palavras de Ioannes ecoaram em sua cabeça. “Você é uma feiticeira, princesa, com ampla magia na ponta dos dedos. O que foi roubado pode, e vai, ser recuperado.”
Ele tinha razão.
— Em Limeros — ela disse. — No Templo de Valoria.
Ela queria ver a reação de Cleo à verdade, ver se podia detectar alguma falsidade. Talvez suas suspeitas estivessem equivocadas. Afinal, quando a princesa poderia ter entrado em contato com um criminoso procurado como Jonas Agallon?
Mas os fatos eram inegáveis — e Lucia tinha sido criada para valorizar fatos e verdades acima de tudo. Apenas duas pessoas além dela mesma conheciam a localização do cristal da terra antes de descobrirem que havia sido roubado.
Apenas duas. E uma delas estava diante dela — uma garota cujo reino e cuja liberdade tinham sido roubados pela família de Lucia.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!