3 de setembro de 2018

Capítulo 23


JONAS
KRAESHIA

Jonas tinha passado a maior parte da vida cercado por terra. Mas, durante quase toda a semana anterior, tinha estado cercado apenas por água — quilômetros e quilômetros de água por todos os lados. O sereno frescor das ondas e da brisa deu a ele muito tempo para pensar. E para viver o luto.
Agora sua mente estava limpa de novo, e ele estava pronto para prosseguir com sua promessa de matar o rei.
— Por você, Lys — ele sussurrou para si mesmo enquanto olhava para o litoral de Joia do Império ao longe. — Tudo o que fizer daqui por diante, será por você.
A embarcação finalmente atracou. Jonas e Nic pegaram as bolsas e foram em direção à prancha de desembarque.
— Então esta é Kraeshia — Nic comentou, observando a cidade resplandecente diante de si.
— Espero que seja — Jonas respondeu. — Se não for, entramos errado em algum lugar.
— Está vendo? É desse rebelde insolente que eu gosto.
— Você gosta de mim? Isso é novidade, Cassian.
— Está crescendo em meu conceito. Devagar. Como um fungo.
Jonas abriu um sorriso.
— O sentimento é mútuo.
Magnus tinha respondido a uma mensagem aos rebeldes kraeshianos por meio do próprio corvo deles, ordenando que encontrassem Jonas e Nic quando chegassem.
— Não vejo Felix — Jonas disse em voz baixa enquanto inspecionava os arredores. — Achei que ele estaria aqui.
Havia uma pessoa esperando no fim das docas, parada ao lado da praia branca. Eles foram até o jovem alto de pele escura e olhos castanho-claros, que meneou a cabeça quando se aproximaram.
— Jonas Agallon? — ele perguntou.
— Isso mesmo.
— Meu nome é Mikah Kasro. Bem-vindo a Kraeshia.
Jonas apresentou Nic e então perguntou:
— Onde está Felix?
— Venha comigo e vou explicar tudo — Mikah disse, examinando as docas. — Há muitos olhares curiosos por aqui.
— Não vou a lugar nenhum até me dizer onde Felix está. E depois quero saber onde está o rei Gaius.
— Qual é seu interesse no rei?
— Não é da sua conta.
— Tudo o que acontece em Kraeshia é da minha conta. Mas suponho que o paradeiro do rei não importe tanto assim para você agora. O rei Gaius e sua nova esposa partiram para Mítica há vários dias.
Jonas o encarou.
— O que disse?
— Nova esposa? — Nic perguntou, franzindo a testa. — Ele casou?
Mikah confirmou, com uma expressão lúgubre.
— Com a princesa Amara.
Nic ficou boquiaberto.
Era impossível. Jonas tinha acabado de chegar, preparado para fincar uma adaga no coração do rei, para dar a vida em troca disso, se necessário.
Mas o rei tinha partido.
Ele praguejou em voz baixa.
— Inacreditável. Então Felix foi com eles. É por isso que não está aqui?
— Não exatamente.
— Então o que aconteceu, exatamente?
— É muito provável que Felix esteja morto a esta altura.
O peito de Jonas foi tomado por um aperto doloroso, e ele encarou Mikah com olhar inquisidor.
— Ele foi acusado de um crime muito sério e levado para o calabouço. Quando um prisioneiro é colocado ali, a única maneira de sair é em pedaços.
— Qual crime?
Mais uma vez, Mikah olhou para a multidão alegre na praia. Jonas seguiu a direção daquele olhar. Os kraeshianos se aqueciam sob o sol, e todos pareciam ignorar a obscuridade que estava tão próxima deles.
Mikah voltou a encarar Jonas e Nic e sussurrou a eles a história do envenenamento na cerimônia de casamento — uma história que ainda não era de conhecimento público.
Quando terminou, Mikah parecia ainda mais convencido de que Felix já estava morto.
Mas Mikah não conhecia Felix tão bem quanto Jonas.


Depois da conversa nas docas, Jonas e Nic foram levados à base rebelde, um amontoado de salas no último andar de um edifício roxo com um muro com pinturas de flores na lateral. Um lugar que parecia feliz demais para abrigar uma discussão tão séria e fatal.
— Ela voltou — Nic disse ao sair do prédio para conversar com Jonas em particular.
Jonas olhou para o falcão que voava em círculos sobre eles.
— Sim, eu notei mais cedo.
— Ela não vai desistir.
— Deveria.
— Você deveria conversar com ela.
— Não quero conversar com ela.
— Ela pode ajudar — Nic insistiu.
— Como? Fazendo outra pessoa de que gosto morrer? — Ele bufou. — Tudo bem. Volte para dentro. Eu cuido disso.
— Não seja duro demais com ela, está bem?
— Não posso prometer nada.
Nic concordou, sério, e então desapareceu dentro do edifício.
Estava quente demais para usar mantos em Kraeshia, então, em vez disso, ele tirou a camisa de algodão e a jogou na grama à frente para que Olivia vestisse. E depois ficou de costas.
E esperou.
Como suspeitava, não demorou muito para ouvir o som de asas batendo. Ele sentiu uma carga elétrica no ar, que arrepiou os pelos de seu braço, fazendo-o respirar fundo. Ele esperou um tempo antes de virar.
Olivia estava a seis passos de distância, vestindo sua camisa, descalça. Ele sempre a achara linda, mas sua beleza parecia muito mais óbvia agora que sabia que era uma imortal. Seu cabelo não era de um preto comum, tinha cor de obsidiana; e sua pele oliva cintilava como se estivesse levemente coberta de pó de ouro. Antes seus olhos eram apenas verdes, mas agora Jonas via que tinham o tom e a profundidade de esmeraldas escuras, de outro mundo.
— Imaginei que precisaria de roupas — ele disse. — Não sei muita coisa a respeito dos Vigilantes, mas sei que a maioria das garotas tem pudores com esse tipo de coisa.
A expressão de Olivia estava tensa, e seu olhar se fixou nele.
— Sinto muito, Jonas.
— Foi o que você me disse na última vez em que a vi.
— Não podia contar a você o que eu era antes.
— Por que não?
— Teria pedido que me juntasse a você se soubesse? — Ela soltou o ar de forma trêmula e então endireitou os ombros. — Sei que cometi erros, mas, por favor, lembre que salvei sua vida ao curar seu ferimento.
— E depois deixou Lysandra morrer.
— Eu não estava preparada. Não tinha ideia de que nossos caminhos se cruzariam com o dele tão cedo. Minha magia é considerável, mas não é páreo para o deus do fogo. Timotheus me disse para evitá-lo a qualquer custo, disse que minha missão não era lutar contra ele, e sim proteger você.
Jonas piscou.
— Do que está falando? O deus do fogo?
Olivia confirmou, em tom solene.
— Kyan... ele é o deus do fogo. Um deus elementar que antes estava aprisionado em uma esfera de âmbar.
Jonas a encarou, visivelmente surpreso.
— E você resolveu esperar até agora para me contar isso?
— Como eu disse, não era minha missão explicar. Apenas...
— Sim, apenas me proteger. Entendi. Fez um trabalho esplêndido, por sinal. — Ele esfregou os olhos. — Diga, Olivia, por que precisaria me proteger?
— Porque Timotheus mandou.
— Não faço ideia de quem seja Timotheus e, ainda assim, Kyan também mencionou esse nome.
— Ele é meu ancião. Meu líder.
— Outro Vigilante.
— Sim. Ele tem visões do futuro. Uma delas incluía você. Por alguma razão, você é importante, Jonas. Phaedra também sabia disso. Era por isso que o observava. Foi por isso que sacrificou a vida para salvar a sua.
— Mas que papel eu poderia desempenhar nessa visão de Timotheus? Sou um pobre trabalhador dos vinhedos de Paelsia, um líder rebelde fracassado. Não sou ninguém.
— Foi exatamente o que eu disse a ele — ela falou, concordando. — Que você não passava de um zé-ninguém. Mas ele insistiu mesmo assim.
Jonas ficou chocado. Ela apresentou aquelas palavras ultrajantes como simples fatos, sem uma gota sequer de agressividade.
— Pode ir agora. Não quero você perto de mim. Vá, voe para seu Santuário. Ou se exilou por minha causa, como fez Phaedra?
— Longe de mim. As barreiras místicas que nos mantinham presos a nosso mundo caíram quando o sangue da nova feiticeira foi derramado. Se os outros soubessem, poderiam tentar sair, e assim se colocariam em perigo com o deus do fogo à solta. Então Timotheus está mantendo isso em segredo.
Jonas rangeu os dentes.
— Vá embora, Olivia.
— Sei que está com raiva por causa de Lysandra. Também estou. Mas não temos como mudar isso. Está feito. De qualquer forma, eu não teria como salvá-la, mesmo que desrespeitasse as ordens de Timotheus.
— Poderia ao menos ter tentado.
Ela ficou séria.
— Você tem razão, deveria ter tentado. Mas estava com medo. Não estou mais. Voltei e pretendo cumprir meu dever para com Timotheus, mesmo que isso signifique que deva quebrar as regras de vez em quando.
— Então voltou para ficar, para me manter seguro para participar de algum evento futuro desconhecido.
— Sim.
— Não me importo com o futuro. Tudo o que quero é que me deixe em paz agora.
— Não posso fazer isso. — Jonas lançou um olhar furioso a ela, que deu de ombros. — Vou me redimir aos seus olhos.
— Duvido muito.
— Vou ficar e protegê-lo, quer você goste ou não, Jonas Agallon. Mas será muito mais fácil para nós dois se não tentar se opor ao plano.
Ela era extremamente irritante. Mas, parado bem diante dela e encarando seus olhos cheios de determinação, Jonas percebeu que não poderia odiá-la por voar para longe como havia feito. Se Kyan de fato era quem ela dizia ser...
.... então estavam com um problema maior do que Jonas imaginava.
E o fato de existirem três outros como Kyan à solta fazia a maldade do rei Gaius parecer tão perigosa quanto a dor de machucar o dedão do pé.
Se Olivia estivesse dizendo a verdade sobre o estado atual do Santuário, aquilo significava que sua magia estava tão forte quanto deveria ser, e não enfraquecida, como acontecia com a de um Vigilante exilado. E aquele com certeza parecia o caso: ela podia se transformar em falcão sempre que quisesse, e tinha curado o ferimento fatal de Jonas com magia da terra.
— Se for ficar, vamos fazer as coisas do meu jeito — Jonas disse. — Dessa vez não vai apenas me proteger. Vai proteger a mim e a todos meus amigos.
— Está pedindo que eu prometa algo que não tenho autoridade para prometer. Você é o único que fui designada a proteger.
— Nunca solicitei um guardião pessoal. Pode dizer isso a seu precioso ancião se ele se exaltar. Isso não é negociável. Se quiser ficar, vai ter que se comprometer a proteger todas as pessoas com as quais me importo.
— Mas como poderei...?
Ele levantou a mão.
— Não. Sem discussão. Sim ou não?
Os olhos dela cintilaram.
— Você já tem sorte de eu ter voltado para protegê-lo, mortal! E ainda ousa agir como se tivesse algum poder de decisão?
— Mas não tenho? Pode me olhar lá de cima, batendo suas belas asas enquanto jogo pedras em você e corro na direção do perigo, ou pode ficar aqui no chão e lutar com a gente. Como vai ser?
Olivia o encarou com firmeza, com um olhar desafiador.
— Está bem.
Ele levantou o queixo e a desafiou também.
— Ótimo.
Então ela descartou a camisa e, em um rápido borrão de ouro, pele nua e penas, transformou-se em falcão e alçou voo, grasnando com desprazer.
Jonas a observou se empoleirar na beirada de um telhado próximo.
Felix queria outra chance na vida, para se redimir pelos erros do passado e partir em direção a um futuro mais feliz. Jonas lamentava não ter dado aquela chance ao amigo.
Em vez disso, tinha dado a Olivia.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!