29 de setembro de 2018

Capítulo 23


PELO INSTANTE MAIS LONGO DA MINHA VIDA, não havia nada além de ar entre meus dedos.
E então consegui agarrar o pulso de Shazad. Senti uma onda de alívio quando ela estendeu o outro braço e segurou o meu, como se uma força maior estivesse nos mantendo juntas.
Shazad conseguiu apoiar os pés na borda estreita, só o suficiente para eu mantê-la segura. Seu peso se dividiu entre o meu apoio e a gravidade, enquanto ela tentava sair da posição inclinada perigosa que poderia se transformar numa queda se uma de nós afrouxasse um pouco a mão.
Meus dedos tremiam com a vontade de não largar. Ela gritou algo, mas o vento abafou suas palavras.
— Não consigo ouvir! — gritei de volta.
— Mais de vocês? — Havia outra voz no ar, como se viesse de um sonho sombrio. Eu havia me esquecido da porta aberta e dos uniformes atrás dela, minhas costas expostas de modo que pudessem me esfaquear a qualquer momento. — É praticamente uma invasão.
Eu conhecia aquela voz. Afiada, com sotaque do norte, ameaçando atirar na perna de Tamid, apontando uma arma para mim, conversando com o general gallan em Fahali.
A risada do comandante Naguib flutuou no vento.
Meus olhos estavam fixos nos de Shazad. Eu não podia desviar o olhar, nem um pouco sequer, sem deixá-la cair. Os trilhos corriam sob seus pés cambaleantes, seu sheema solto chicoteando com violência no ar. Meu braço tremeu, tentando puxá-la de volta para ficar de pé.
Shazad podia ver tudo. Ela podia ver atrás de mim, dentro do vagão. Só não tinha uma pistola.
— Alguém as arraste para dentro — Naguib ordenou casualmente.
Shazad olhou para a arma na minha cintura e então por cima do meu ombro. Eu sabia exatamente o que ela queria que eu fizesse. Poderia sacar minha arma, girar e acertar um tiro na cabeça de Naguib.
Mas não conseguiria fazer isso sem deixá-la cair.
Me solte. Seus lábios moldaram as palavras no ar.
Ela estava disposta a matar e morrer por essa causa. Porque, se o comandante Naguib não morresse, estaríamos todos mortos. Em algum lugar bem fundo dentro de mim, vi o rosto de Tamid. Eu não era mais aquela garota que deixava as pessoas para trás.
Segurei mais firme seu punho.
Alguém agarrou minha cintura e me puxou para trás, carregando Shazad junto e nos puxando para a segurança do vagão, embora segurança não fosse a palavra certa.
Fui revistada em busca de armas. Pressionei a testa no carpete, arfando enquanto vasculhavam meu corpo. Minhas pernas tremiam tanto que eu não teria conseguido ficar de pé ou lutar. Foi preciso a mão de Shazad no meu cotovelo para me ajudar a levantar.
Estávamos em um dos vagões de luxo. Ele estava repleto de soldados com uniformes arrumados e rebeldes maltrapilhos. Contei cerca de vinte soldados.
Dois deles seguravam Jin. Ele estava de joelhos, e parecia que lutava para não desabar no chão. Mas ainda me deu um sorriso fraco e pesaroso, que tentei retribuir.
Havia uma arma apontada para a cabeça de Hala, e seus braços estavam amarrados atrás do corpo.
Inicialmente não vi Bahi, e por um instante tolo imaginei que tivesse sido esperto o suficiente para escapar do trem. Então o vi, a camisa vermelha no colarinho por causa do sangue que esguichava do nariz. Era difícil reconhecê-lo daquele jeito.
De pé, perto do bar de madeira polida, como se fosse o anfitrião de uma festa bizarra, estava Naguib.
— Essa foi uma missão bem patética. — Sua atenção passou rapidamente por mim. — E veja só: a vadia de olhos azuis. Pensei que tinha dito que não era uma aliada do traidor.
— As circunstâncias mudaram. — Escolhi palavras que Shazad diria, suaves, afiadas e limpas, porque se usasse as minhas poderia levar um tiro. — Nada como uma arma na cabeça para fazer você se juntar ao outro lado, comandante.
— Sem dúvida. — Naguib se afastou do bar com aquele seu jeito nervoso e esquisito de andar. — E tenho certeza de que meu irmão aqui foi muito persuasivo.
Ele chutou as costelas de Jin ao terminar a frase, fazendo-o se dobrar de dor sobre o espesso carpete vermelho. Não reagi. Não daria essa satisfação a Naguib.
— Sabe — ele disse, ajeitando as mangas —, você podia me contar logo onde meu outro irmão está e economizar um bocado de sofrimento. Afinal, vocês são cinco, e só preciso que um abra o bico. Na verdade, só preciso de um de vocês vivo. — Ele encostou na pistola em sua cintura.
— Você claramente é um péssimo apostador — Shazad disse.
Acho que foi seu sotaque que fez Naguib reagir.
— Shazad Al’Hamad?
Ela piscou como se realmente fôssemos convidados em uma festa.
— Desculpe, mas já nos conhecemos?
A expressão dele azedou.
— É claro. Eu não esperaria que a única filha do grande general notasse um dos vários filhos do sultão. Embora muitos de nós tenhamos te notado.
— Notei os filhos que importavam — Shazad respondeu friamente.
Observei as palavras passarem por Naguib, o comandante, e atingirem o garoto que havia por baixo dele.
— Seu pai será enforcado por isso, sabia? O que é ótimo para mim, já que meu pai prometeu que eu seria general quando ele morresse. — Naguib estendeu a mão para encostar no rosto de Shazad. — Graças a você. Mas acho que vou lidar com você…
— Se você a machucar, vai queimar no inferno. — A voz de Bahi estava grossa por causa do sangue que bloqueava seu nariz. — Se não acredita em mim, a demdji pode dizer isso a você. — Percebi que ele estava falando de mim. — Ela não pode mentir.
O olhar de Naguib se voltou para mim, parecendo finalmente compreender meus olhos estranhos.
— É verdade — eu disse, sem hesitar. Bahi tinha me avisado para não fazer aquilo. Não torcer o universo criando verdades. Mas era o que ele me pedia naquele momento. Por Shazad. Para mantê-la viva e segura. — Se tocar nela, vai morrer gritando. Implorando pela sua vida.
No instante em que as palavras saíram da minha boca, elas se tornaram verdade. Considerando o aviso de Bahi, achei que seria diferente. Que algum poder explodiria de mim ao sentir minhas palavras alterando o universo para manter Shazad segura. Mas era justamente ali que estava o perigo. Eram apenas palavras. Saíam fácil. Como quaisquer outras.
Os dedos de Naguib pararam a centímetros do queixo de Shazad. Cauteloso diante do nosso jogo, sem saber direito qual era. Encontrei o olhar de Bahi.
— Mentir é pecado, afinal — Bahi disse.
Jin deu risada. Acabei rindo, mesmo com uma arma no pescoço.
— E o que você sabe sobre pecados? — Uma voz vazia veio de um canto, interrompendo meu riso e enviando um arrepio gelado pelas minhas costas. Apertei os olhos para enxergar no escuro, mas tudo o que via era uma pilha de armas e elmos.
Então um dos conjuntos antigos de armadura se mexeu.
Era feita de metal puro. Mãos de cota de malha de bronze ondularam quando flexionou os dedos; juntas de bronze estalaram quando andou. Até seu rosto era uma máscara lisa de cobre que refletia o sol que fulgurava pelas janelas do trem.
Não gostei de como os soldados abriram caminho para essa armadura, como se tivessem medo dela.
— Endireite-se, garoto. — Os lábios de metal não se moveram quando a armadura falou, mas uma voz estranha ecoou dentro da máscara, contaminada por um sotaque que lembrava o Último Condado mais do que eu gostaria. Bahi lutou para levantar o rosto ensanguentado até que dois guardas o prensaram contra a parede, já sem forças e mal se aguentando de pé.
A armadura de bronze estendeu as mãos e segurou as de Bahi, uma delas tatuada, a outra vazia. Inclinou a cabeça como se estivesse curioso, e vi um pedacinho de pele do seu pescoço. Não era uma armadura viva, então. Era uma pessoa vestindo uma armadura de metal.
— Noorsham — Naguib disse, prestes a dar uma ordem.
Noorsham. E então eu estava de volta a Fahali. Na casa de oração transformada em prisão. Um garoto com sorriso torto, acorrentado à parede. sou especial mesmo, ele tinha dito.
Pelas frestas no cobre, só conseguia ver a cor azul. Azul como o céu do deserto, como a água do oásis. Azul como meus próprios olhos.
— Você é um traidor. — A voz de Noorsham estava distante quando ele voltou o olhar azul ardente para Bahi. Muito diferente do tom suplicante e esperançoso de quando me ajudara. Lutei para escapar do soldado que me segurava. — Traidores devem voltar para os braços de Deus, para serem julgados.
Ele ergueu a mão de bronze e a encostou na testa de Bahi, como se o abençoasse. Bahi sorriu, os lábios inchados e manchados de sangue.
— Lamento te desapontar, mas acho que me desviei demais para reencontrar meu caminho…
E então ele estava gritando.
Shazad berrou seu nome.
Antes que eu pudesse me mexer, uma onda de calor atravessou o vagão, violenta e sufocante, enquanto eu assistia à mão na testa de Bahi brilhar como brasa. A pele de Bahi fervilhou e escureceu, e todos nós gritamos.
Eu consegui me soltar do soldado que me segurava. Dei dois passos em direção a Bahi, e então o calor ficou forte demais. Caí de joelhos, arfando.
A pele dele ficou preta, e então branca. Sem poder fazer nada, vi Bahi se transformar de garoto em cinzas.
Tínhamos encontrado a arma.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!