23 de setembro de 2018

Capítulo 23

CLEO
AURANOS

A primeira coisa que Cleo viu quando abriu os olhos foi um pilar de mármore branco.
Ainda atordoada, registrou-o como familiar, parecido com os pilares da sala do trono do palácio.
Mas era maior e ainda mais adornado, com imagens de rosas esculpidas na superfície.
Ela tinha visto algo exatamente igual no Templo de Cleiona.
Cleo respirou fundo.
É o templo, pensou.
Ela ficou observando o corredor gigante. Tinha três vezes o tamanho da sala do trono do palácio, com um pé-direito alto e arqueado. A última vez em que estivera ali, quando se juntara a Lucia, Ioannes e Magnus para recuperar a Tétrade da terra recém-despertada, o templo tinha sido abandonado e estava em ruínas depois do terremoto elementar durante seu casamento. O chão se abrira em grandes rachaduras que desciam até a escuridão. O teto alto tinha se rompido e se separado, lançando pedaços de pedra no chão.
Mas não estava mais em ruínas. Miraculosamente, tinha sido restaurado à sua glória anterior.
— Dormiu bem, pequena rainha?
O estômago de Cleo revirou ao ouvir aquela voz conhecida. Ela levantou do chão frio de pedra tão rápido que ficou tonta.
Nic.
Nic estava lá, parado na frente dela, com seu sorriso torto, o cabelo cor de cenoura desgrenhado como sempre.
O primeiro instinto de Cleo foi correr para os braços dele.
O segundo foi cerrar os punhos e atacar.
Aquele não era Nic. Não o seu Nic. Não mais.
Uma fina camada de gelo começou a sair de baixo dos finos sapatos de couro de Cleo, cobrindo o chão do templo.
— Excelente — Kyan olhou para baixo, arqueando uma das sobrancelhas ruivas. — Estou gostando de ver isso. Significa que estamos muito próximos, a magia dentro de você está bem perto da superfície.
— Seu bastardo — ela gritou.
Ele se movimentou casualmente para a esquerda e sentou sobre um dos longos bancos de madeira que se espalhavam pelo templo, os mesmos que tinham abrigado as centenas de convidados do casamento de Cleo.
— Errado — ele disse. — Não tenho mãe nem pai, então esse rótulo não pode ser aplicado a mim. A menos que você o tenha usado como um insulto. — Ele inclinou a cabeça e ficou pensativo. — Como é triste que os mortais usem essa palavra como xingamento. Até parece que os verdadeiros bastardos podem interferir nas escolhas dos pais, não é?
Ela cerrou os punhos, não querendo lhe dar a satisfação de uma resposta.
— Eu a perdoo, por sinal — Kyan disse.
— Você me perdoa? — Cleo ficou surpresa. — Pelo quê?
— Por tentar cravar uma faca neste peito poucos minutos depois de eu me apropriar dele. — Ele pressionou a mão no coração. — Sei que estava confusa. Foi uma noite difícil para todos.
A vertigem ainda não tinha passado, e toda sua força era necessária simplesmente para permanecer em pé.
Nesse momento, Olivia entrou no templo, caminhando pelo corredor central até parar ao lado de Kyan. Seu rosto era tão belo quanto o de qualquer Vigilante que Cleo pudesse imaginar, sua pele escura e sem falhas contrastava lindamente com o vestido amarelo. Bela, sim, mas Cleo sabia que nunca saberia do segredo de Olivia se Jonas não tivesse lhe contado.
Mas agora ela não era uma Vigilante. Era a deusa da terra.
— Saudações, Cleiona — ela disse.
Cleo passou a ponta da língua nos lábios secos, tentando desesperadamente encontrar a própria voz.
— Imagino que tenha sido responsável pela restauração do templo.
Olivia sorriu, depois balançou a mão. A cem passos de Cleo, perto de uma janela gravada com uma linda espiral, uma coluna caída que ela ainda não tinha visto se reergueu diante de seus olhos.
— É uma honra trazer a beleza de volta para esta magnífica construção — Olivia comentou.
Cleo fez uma careta para aquela demonstração exagerada de magia. Era um lembrete de que precisava tomar muito cuidado com o que dizia para a deusa da terra.
— Muito impressionante.
— Obrigada — Olivia agradeceu com um sorriso. — Você precisa saber que não somos inimigos. Queremos ajudar em sua transição para que não seja tão traumática quanto a de Taran.
Taran. Cleo se lembrou de que ele tinha ido até a viela, aparecido do nada. Como se tivesse sido invocado, Taran se aproximou pelo lado direito de Cleo. A linhas finas que tinham aparecido em seu rosto durante o acesso de asfixia mais recente haviam desaparecido por completo, assim como todas as demais. Sua pele estava perfeita, à exceção da espiral da magia do ar na palma da mão.
— Taran… — Cleo sussurrou com a boca seca.
— Sim, decidi manter esse nome — ele respondeu. — Como homenagem a este veículo forte e capaz, para mostrar quanto apreço sinto por ele.
Cleo ficou imóvel.
— Então Taran se foi?
Ele assentiu.
— Quando o ritual for completado de modo adequado, todos os resquícios dele não passarão de lembrança.
— E isso vai acontecer logo — Olivia disse com firmeza.
O coração de Cleo ficou apertado. Aquilo significava que Taran não tinha desaparecido. Olívia não tinha desaparecido. Ainda não. Não completamente. Ainda havia esperança.
De canto de olho, Cleo viu Kurtis Cirillo emergir das sombras do templo cavernoso atrás dela, os braços cruzados diante do peito.
Cleo se virou para ele.
— Onde está Magnus? — ela perguntou.
Kurtis abriu um sorriso forçado.
— Digamos apenas que ele não virá em seu socorro tão cedo, princesa.
O medo cresceu dentro dela, a ponto de sufocá-la. Cleo queria partir para cima dele, arrancar seus olhos odiosos. Mas se forçou a respirar fundo.
— Kurtis… — Kyan começou a falar.
— Pois não?
— Espere lá fora.
— Mas quero ficar aqui — ele respondeu com firmeza. — Quero ver a princesa perder seu corpo para a deusa da água. Você disse que eu poderia ver!
— Espere lá fora — Kyan repetiu. Não era uma sugestão, mas uma ordem.
O rosto de Kurtis empalideceu, seu corpo endureceu, e ele assentiu bruscamente.
— Sim, claro.
Com os olhos semicerrados, Cleo observou a fuinha sair do templo.
— Peço desculpas pela grosseira de Kurtis, pequena rainha — Kyan disse com calma. — A presença dele não é necessária, e sei que lhe causa muita ansiedade.
— É um modo de se dizer — ela murmurou, observando Kyan com atenção.
— Como está se sentindo? — Kyan perguntou, analisando-a. — Não está com dor, espero.
— Você tem muita sorte por Kyan estar de tão bom humor hoje — a voz da Tétrade de água disse dentro da cabeça de Cleo. — Seria prudente não deixá-lo irritado.
Era um conselho surpreendentemente bom, na verdade.
Um conselho que Cleo resolveu seguir. Por ora.
— Não, não sinto dor — Cleo confirmou.
Kyan assentiu.
— Ótimo.
Ela analisou o templo em busca de qualquer sinal de Lyssa, pois sabia que Kyan a havia sequestrado.
— Acha que Lucia virá até aqui? Que vai ajudar você?
— Não tenho dúvida disso — Kyan respondeu.
Ele estava tão confiante… Será que estava certo? Ou estava delirando?
Cleo não podia esquecer que aquele monstro com o rosto de seu melhor amigo tinha incendiado vilarejos e matado milhares, incluindo sua adorada ama.
Ela passou as mãos na saia do vestido para sentir a esfera de água-marinha em seu bolso, aliviada ao constatar que ela continuava lá, e ciente de que era um milagre que ninguém tivesse descoberto o cristal enquanto estivera inconsciente.
Ela precisava usar a oportunidade para reunir informações que pudesse usar. O máximo possível.
Cleo engoliu o medo.
— E então, o que acontece agora?
— Por enquanto é suficiente que nós quatro estejamos juntos — Kyan disse. Ele arrumou o cabelo dela atrás da orelha e passou o dedo pelo filete azul em sua têmpora. Ela se obrigou a não afastá-lo.
— Estamos o mais perto da verdadeira liberdade de que já estivemos como uma família — Olivia acrescentou. — Já sinto o acesso à minha magia mais forte.
— Essa forma mortal é incrível. Posso sentir tudo. — Taran olhou para as mãos, sorrindo. — Gostei.
— Espero que tenha mais do que gostado — Olivia comentou. — Esse será seu veículo por toda a eternidade.
— Seu veículo é perfeito — Taran respondeu com um meneio de cabeça. — Assim como o meu.
Cleo notou um músculo se contrair no rosto de Kyan.
— Está infeliz com o seu veículo? — Cleo perguntou com firmeza. — Fique sabendo que eu amo muito esse veículo.
— Eu sei — Kyan disse com severidade. — E ele é bom, de verdade. No entanto, as coisas não estão correndo sem… dificuldades. Todas as almas de fogo são seres desafiadores, difíceis de controlar. Mas depois que minha pequena feiticeira completar o ritual da maneira adequada, tudo vai ficar bem.
Cleo fez muito esforço para não reagir fisicamente àquelas palavras, mas elas a tinham abalado. Ele estava querendo dizer que Nic estava brigando pelo controle?
— Nunca imaginaria que Nic teria uma alma de fogo — ela comentou da forma mais calma possível.
— Ah, não? Havia muitos indícios disso. — Kyan encostou os dedos nas têmporas. — Lembranças de sua valentia, de sua imprudência. A tendência a se apaixonar em um piscar de olhos, ou de alimentar amores não correspondidos ou impossíveis por muitos anos. Tenho as lembranças dele aqui… de você, pequena rainha. Muito mais jovem, muito menor, e já disposta a correr riscos incríveis. Saltar de penhascos altos no mar; sua alma de água se manifestava desde aquela época.
Cleo ficou chocada ao saber que Kyan podia acessar as memórias de Nic.
— Sempre amei a água — ela se forçou a admitir.
— Correndo tão rápido quanto os garotos e disposta a derrubar os mais rápidos do que você para ganhar a corrida, incluindo Nic. Foi por sua causa que ele quebrou o nariz aos doze anos! — Um sorriso esticou suas bochechas sardentas. — E ficou bravo porque seu nariz ficou torto, mas nunca a culpou. Ele a amava muito.
Cleo apertou os lábios. As lembranças de alguém que tinha perdido voltavam puras e dolorosas, como se tivessem acontecido no dia anterior. Boas lembranças de uma época de inocência, agora roubadas por um monstro.
Era irritante reviver lembranças tão queridas pelo rosto do próprio Nic, como se ela fosse amada pelo deus do fogo que tinha roubado a vida de seu melhor amigo.
— Kyan gosta de você — a deusa da água disse a ela. — Isso é muito útil.
Sim, Cleo pensou. Pode ser mesmo.
O olhar de Kyan ficou distante.
— Posso vê-la montada em seu cavalo, rápida e livre, sem sela, pelo menos até seu pai a repreender. “Isso não é jeito de uma jovem princesa se comportar”, ele disse. “Tente ser mais como a sua irmã.” Você se lembra disso?
— Pare — ela exclamou, incapaz de ouvir aquelas memórias. — Essas lembranças não são suas para sair contando como se não passassem de histórias divertidas.
— Só estou tentando ajudar — ele disse.
— Não está. — Ela sentiu vontade de chorar, mas engoliu desesperadamente.
Cleo respirou fundo, esforçando-se para controlar as emoções antes que tomassem conta dela.
Kyan franziu as sobrancelhas.
— Isso lhe causa sofrimento, e peço desculpas. Mas não existe outro fim, pequena rainha. Permita que minha irmã assuma o controle do seu corpo. Vai acontecer logo, mesmo se continuar resistindo. Vai ser muito mais fácil e menos doloroso se concordar. Suas lembranças também vão continuar vivas por meio dela.
Cleo juntou as mãos e se afastou dele para observar as rosas esculpidas no pilar de mármore. Ela as contou, chegando a vinte, antes de sentir seu coração começar a desacelerar e voltar a um ritmo mais controlado.
Taran e Olivia observavam todos os seus movimentos, todos os gestos. Não com gentileza nem compreensão, mas com curiosidade.
Mais ou menos como deviam observar um filhote de cachorro recém-adestrado, entretidos com suas travessuras.
Cleo tocou uma das flores de mármore. A superfície fria e sólida ajudou a mantê-la presente.
— Deve haver outra maneira. Está me pedindo para abrir mão da minha vida, do meu corpo, do meu futuro, para que a deusa da água possa apenas… assumir o controle? Não posso. Simplesmente não posso.
— Isso é muito maior e mais importante do que a vida de uma única mortal — Taran explicou.
Olivia franziu a testa para ela.
— Está apenas tornando as coisas mais difíceis para si mesma. Não faz sentido, e é um tanto quanto frustrante.
— Não resta nada de Olivia dentro de você? — Cleo perguntou, desesperada para saber como aquilo funcionava.
— Lembranças — Olivia disse, pensativa. — Assim como Kyan guardou as lembranças que Nicolo tinha de Auranos, me lembro da beleza do Santuário. Eu me lembro de voar em forma de falcão e passar por um portal que dava para o mundo mortal. E me lembro de Timotheus, alguém que Olivia respeitava muito mais do que a maioria das outras pessoas, que o achavam misterioso e manipulador. Todos os demais acreditavam em Melenia, mas Olivia a considerava mentirosa e uma ladra.
— Melenia fez algumas coisas certas — Kyan comentou com um sorriso. — Ela adquiriu meu primeiro veículo, que, devo admitir, era superior a esse de muitas formas.
Mais uma vez, Cleo notou um músculo se contrair no rosto dele.
— Lucia sabe onde nos… encontrar? — Cleo perguntou, forçando a última palavra a sair.
— Ela vai saber — ele respondeu.
— Como?
Kyan inclinou a cabeça, observando-a atentamente.
— Posso invocá-la.
— Como você pode invocá-la? — ela perguntou.
— Tome cuidado — disse a deusa da água, embora seu tom fosse mais irônico dessa vez. — Se fizer tantas perguntas, ele vai perder a paciência com você.
Mas o exterior calmo de Kyan não mudou.
— A magia de Lucia, a magia de toda bruxa comum ou imortal, é a nossa magia. Uma parte de cada um de nós dentro dela e dentro de todos tocados pelos elementia. Eu não estava forte o bastante antes para usar essa habilidade, mas, agora que nós quatro estamos juntos, me sinto… muito bem. E muito forte. Quando eu souber que é a hora, vou invocá-la, e ela vai assumir seu lugar de direito ao meu lado.
Olivia murmurou algo em voz baixa.
Os olhos de Kyan mudaram de castanhos para azuis em um instante.
— O que foi?
— Ah, nada — ela respondeu. — Nada mesmo.
Kyan voltou a olhar para Cleo. Ele abriu um pequeno sorriso para a princesa, mas qualquer rastro de cordialidade tinha desaparecido de seus olhos. Cleo podia ver que sua paciência estava começando a acabar.
— Meus irmãos não compartilham da mesma confiança que eu na pequena feiticeira. Lucia e eu tivemos momentos difíceis no passado, mas sei que ela vai cumprir seu destino.
Interessante. E assustador. Será que Taran e Olivia não sabiam que Kyan tinha sequestrado Lyssa como garantia de que a feiticeira os ajudaria?
Se Lucia fizesse qualquer coisa para ajudar Kyan, com certeza seria apenas para proteger a filha. Cleo acreditava nisso quase completamente. Mas a lembrança de Lucia indo ao palácio limeriano como assistente mais do que determinada de Kyan ainda manchava sua confiança na irmã de Magnus.
Ela queria desesperadamente perguntar onde Lyssa estava, se a bebê estava bem, recebendo cuidados adequados, mas se conteve.
Kyan não faria mal à criança. Ela valia muito mais viva.
Pelo menos, não lhe faria mal até que Lucia resistisse às suas exigências.
Cleo precisava continuar falando, arrancar a verdade dos lábios de Kyan para saber se algo poderia impedir tudo aquilo.
— Kyan — ela chamou da maneira mais calma possível.
— Sim, pequena rainha? — ele respondeu.
— No complexo de Amara, você me disse que eu poderia ajudá-lo por ser descendente de uma deusa. Era verdade?
— Claro que sim. — Ele semicerrou os olhos, encarando-a como se a analisasse com atenção. — Sua homônima, a própria Cleiona é sua ancestral.
Ela ficou boquiaberta.
— Mas a deusa não teve filhos.
— Você acha isso? — ele sorriu. — Apenas mais uma prova de que a história escrita não contém todos os segredos do passado.
— Cleiona foi destruída na batalha final com Valoria — Cleo argumentou.
— A palavra destruída pode ter muitos significados — ele disse. — Talvez apenas sua magia tenha sido destruída. Talvez ela tenha se tornado livre para viver a vida de uma mortal ao lado do homem por quem havia se apaixonado. Não é possível?
Kyan podia estar mentindo. Na verdade, Cleo tinha quase certeza disso.
Respire, ela disse a si mesma. Não deixe que ele a distraia.
— Foi por isso que a deusa da água me escolheu? — ela sussurrou. — Porque já tenho… algum tipo de magia dentro de mim?
Magia que posso usar para combater isso, ela pensou.
Ele balançou a cabeça.
— Não. Você não tem nenhuma magia naturalmente dentro de si, mas não se sinta mal por isso. A maioria dos mortais não tem, nem mesmo os descendentes de imortais.
A decepção tomou conta dela.
Aquele mesmo músculo se contorceu no rosto de Kyan mais uma vez.
— Taran, Olivia, quero falar com Cleo a sós. Podem nos dar um pouco de privacidade por um momento?
— O que tem para dizer a ela que não pode dizer em nossa presença? — Taran perguntou.
— Vou pedir de novo — Kyan disse com firmeza. — Concedam-nos um momento de privacidade. Talvez eu possa convencer Cleo a parar de lutar contra a Tétrade da água e facilitar as coisas para todos nós.
Olivia deu um suspiro irritado.
— Muito bem. Venha, Taran, vamos dar uma volta no templo.
— Tudo bem. — Com um meneio de cabeça, Taran se juntou a Olivia, e os dois saíram do templo.
Kyan ficou em silêncio diante de Cleo.
— E? — Cleo perguntou. — Diga o que quiser, mas garanto que vai precisar de mais do que palavras para me fazer desistir dessa luta.
— É isso que sempre adorei em você, Cleo — ele disse em voz baixa. — Você nunca desiste de lutar.
Ela ficou sem fôlego. E encarou os olhos de Kyan.
Kyan nunca a chamava de Cleo. Apenas de “pequena rainha”.
— Nic? — ela arriscou, a garganta apertada.
— Sim — ele respondeu tenso. — Sou eu. Sou eu mesmo.
Cleo cobriu a boca com a mão quando foi tomada pelo choque. Então observou o rosto dele, com medo de se permitir ficar alegre.
— Como isso é possível? Você voltou?
— Não — ele disse. — Ele logo vai retomar o controle, e é por isso que precisamos ser rápidos.
— O que aconteceu? — ela perguntou. — Como é possível?
— Na floresta, não muito longe do complexo de Amara — Nic tocou o próprio braço —, Magnus estava lá, e ele me segurou, ou melhor, segurou Kyan e… Não sei por quê, mas foi como um tapa na cara e me fez acordar. Ashur também estava lá. Eu… eu acho que ele pode ter feito algum tipo de magia, algum feitiço que me fez recobrar um pouco de presença, não sei. Pode ter sido minha imaginação ter visto ele lá.
— Ashur ainda está conosco — Cleo disse. — Ele não quis ir embora de jeito nenhum. Está determinado a ajudar a salvar você, Nic.
Seus olhos castanhos se encheram de esperança.
— Fui uma perturbação para ele desde o momento em que nos conhecemos.
— Que engraçado… — Um pequeno sorriso surgiu nos lábios dela. — Acho que ele acredita exatamente no contrário.
— Desde então, tenho momentos de controle como este, em que o deus do fogo não está consciente. Kyan culpa o ritual interrompido, mas sei que é mais do que isso. Que eu saiba, não acontece com Olivia.
Cleo tocou aquele rosto sardento. Ele apertou a mão dela. Lágrimas quentes começaram a escorrer pelo rosto da princesa.
— Podemos detê-los? — ela perguntou, sentindo a garganta arder.
Nic respirou fundo antes de responder.
— Kyan quer as esferas. Todas as quatro. Depois, precisa que a princesa execute o ritual de novo. Ele realmente acredita que Lucia o fará sem questionar e que vai dar tudo certo, dando aos quatro o poder supremo. Eles ainda não estão tão poderosos. A magia deles tem seus limites.
— Quando ele quer que o ritual aconteça? — ela perguntou.
— Não sei exatamente. Logo. Ele encontrou Lucia no palácio e apresentou seu plano. Deixou a decisão nas mãos dela, mas não tem dúvidas de que vai se juntar a eles. — Ele abaixou a voz: — Cleo, acho que Lucia ainda é má.
Cleo balançou a cabeça.
— Não, não acredito nisso. Kyan está com a bebê dela. Ele roubou Lyssa do berço. Você não se lembra disso? Onde ela está agora?
— Lyssa? Eu… eu não sei. — Com os olhos surpresos diante da notícia, ele balançou a cabeça. — Não estou sempre consciente. Vejo muito pouco, mas lembro todo o pouco que vejo e ouço. Por exemplo, lembro com muita clareza quando Kyan marcou Kurtis, transformando-o em seu escravo. Lembro como ele gritou.
— Não me importo com Kurtis.
A expressão dele era de sofrimento.
— Estou tentando pensar, mas não me lembro de ter visto Lyssa aqui. Lembro que Kyan foi visitar Lucia no palácio, mas… não lembro de ter levado a criança. Ela pode estar em qualquer lugar.
Cleo tentou raciocinar e juntar as peças daquele quebra-cabeça.
— O que acontece se Kyan não estiver com os cristais?
— Ele vai incendiar o mundo — a deusa da água respondeu. — E todos os que vivem nele.
Um arrepio correu pela espinha de Cleo.
— Nada de bom — Nic disse, e depois xingou em voz baixa. — Não consigo manter o controle por muito mais tempo. Mas você precisa fazer isso. Não pode deixar o que aconteceu com Taran acontecer com você. Não pode deixar a deusa da água assumir o controle.
Cleo tirou uma das luvas de seda e tocou as linhas azuis em sua mão.
— Não sei por quanto tempo vou conseguir resistir. Toda vez que sinto que estou me afogando, tenho certeza de que vou morrer.
— Seja forte — Nic pediu. — Porque você precisa reunir e destruir todas as esferas.
Ela se surpreendeu.
— O quê?
— Ridículo. Ele não sabe o que está dizendo — resmungou a deusa da água, embora houvesse um tom estranho em sua voz, uma certa aflição. — Ignore-o. Ouça apenas Kyan. Ele vai ajudar você.
— Kyan só ajuda a si mesmo — Cleo murmurou. E depois disse mais alto: — Nic, o que quer dizer com destruir? As esferas são as prisões da Tétrade.
Ele balançou a cabeça.
— Não são prisões, não exatamente. As esferas são âncoras, princesa. Âncoras que os mantêm nesse nível de existência. Se destruir todas, não haverá mais nenhum laço entre eles e este mundo.
— Tem certeza disso?
Nic confirmou.
— Tenho.
— Tolo — resmungou a deusa da água. — Ele está proferindo suas últimas palavras, repletas de falsidade e desespero. Tão mortal, tão lamentável…
Quanto mais a deusa da água protestava, mais Cleo tinha certeza de que Nic estava certo.
— Eu… eu não consigo mais controlar — Nic disse e depois soltou um grito de dor. — Você precisa ir… Vá agora e faça o que eu disse. Não deixe que a capturem!
Uma parede de fogo surgiu em volta dele, formando um círculo de chamas e bloqueando a visão de Cleo.
Ela queria ajudar Nic, queria que ele fugisse junto, mas sabia que aquilo não podia acontecer. Não agora.
Cleo virou e correu para fora do templo, o mais longe e mais rápido que conseguiu.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!