16 de setembro de 2018

Capítulo 23


MAGNUS
PAELSIA

Magnus sabia que nunca imploraria por nada na vida: nem por misericórdia, nem por perdão, nem por uma segunda chance. Ainda assim, tudo o que queria era ir atrás de Cleo para tentar fazê-la entender seu lado.
Maldito Nic. Se o idiota tinha finalmente morrido, Magnus não podia nem comemorar a ocasião, graças à recente ruptura com Cleo.
Ele deu um passo em direção à escada.
— Não — a voz da avó dele o impediu. — Deixe a garota sozinha. Correr atrás dela logo depois da discussão só vai piorar as coisas. Acredite.
Magnus virou e viu Selia de pé perto da porta, observando-o com curiosidade.
— Eu não sabia que nossa discussão estava sendo ouvida — ele disse.
— Meu querido, até um surdo poderia ter ouvido — ela inclinou a cabeça — a discussão, foi o que você disse?
— Peço desculpas, Selia, mas não quero falar sobre isso com você.
— Eu preferiria que me chamasse de avó, como costumava fazer quando era pequeno.
Mais uma vez, ele se virou para a escada, esperando por um milagre que fizesse Cleo voltar para ele.
— Vou chamar a senhora do que quiser.
— Você é surpreendentemente sério e inflexível para alguém tão jovem. Até mesmo para um limeriano, não? Mas você foi criado por Althea, por isso não me surpreendo muito. Não me lembro de ter visto aquela mulher sorrir alguma vez.
— Meu pai, por acaso, contou que a matou? E então mentiu e me disse que a amante dele, Sabina, era minha mãe verdadeira?
— Não — ela disse apenas, retorcendo o prateado pingente de serpente no pescoço. — É a primeira vez que estou ouvindo isso.
— E você acha esquisito que eu não esteja rindo alegremente todos os dias, sendo que estamos em guerra contra um império inteiro que ameaça nos destruir?
— Claro que você tem razão. Sinto muito… meus pensamentos estavam longe.
— Invejo seus pensamentos.
Selia franziu os lábios.
— Você precisa saber que seu pai não vai sobreviver a esta noite. A morte vai levá-lo por completo pela manhã. Você se importa?
Magnus não disse nada. Nenhum pensamento lhe ocorreu, nem bom nem ruim. Ele tinha imaginado que celebraria o momento da morte iminente de um homem que detestara desde sempre.
— Gaius ama você — Selia disse, como se lesse os pensamentos dele. — Independentemente de você acreditar ou não, sei que é verdade. Você e Lucia são a parte mais importante da vida dele.
Ele não tinha tempo para bobagens como aquela.
— É mesmo? Eu poderia jurar que o desejo pelo poder era a coisa mais importante para ele.
— À beira da morte, questões como dinheiro e legado perdem o sentido diante da consciência de que alguém que se importa com você vai segurar sua mão enquanto estiver partindo.
— Vou precisar me lembrar disso quando estiver à beira da morte. — Magnus olhou para ela. — Peço desculpas, mas você quer alguma coisa de mim? Porque se estiver me pedindo para subir a escada e segurar a mão de meu pai enquanto ele morre, me deixando aqui para cuidar da bagunça que ele fez, vou ter que recusar.
— Não. Quero que você me acompanhe à taverna hoje à noite para encontrar minha amiga Dariah.
Magnus prendeu a respiração.
— A pedra sanguínea.
Ela assentiu.
— Quero você do meu lado.
— Por quê?
— Porque é importante para mim. Sei que você tem dúvidas a respeito das escolhas que fiz no passado, mas sei que vai entender tudo em breve.
Magnus acompanharia a avó naquela noite. Não pelos assuntos amorosos, já que esses já tinham se trancado em um quarto no andar superior em um acesso de raiva e pesar.
Não, ele iria porque, naquele momento incerto, a pedra sanguínea parecia uma magia pela qual valia a pena matar.
Magnus esperou Cleo sair do quarto, mas ela não saiu. Quando o sol se pôs, ele e Selia deixaram a hospedaria Falcão e Lança. Até aquele momento, tinha se acostumado com a Videira Púrpura. Da entrada, ele conseguia ver o mar brilhando sob o luar, os navios ancorados no porto enquanto a tripulação estava espalhada pela cidade. Basilia parecia mais movimentada à noite do que durante o dia, quando coisas precisavam ser feitas. À noite, todos os que tinham trabalhado durante o dia queriam beber, comer e se dedicar a outros interesses, todos fáceis de conseguir a uma distância curta do cais.
A taverna estava lotada de clientes barulhentos, e a maioria já estava caindo bêbada quando Magnus e Selia entraram. Ainda assim, o príncipe manteve o capuz sobre a cabeça para esconder sua identidade. Ele não podia correr o risco de ser reconhecido de novo.
Selia o conduziu até uma mesa num canto afastado, e ali, sentados, estavam uma bela jovem de cabelo avermelhado e um homem de cabelo loiro que ia até os ombros, olhos acobreados.
Era um homem que Magnus reconheceu de imediato.
Ao vê-lo, as lembranças do acampamento nas Montanhas Proibidas de Paelsia tomaram sua mente. Aquele homem — um Vigilante exilado — tinha sido designado a ficar ali para infundir a estrada com a magia necessária para localizar os quatro pontos em Mítica onde a Tétrade seria despertada.
Magnus não havia falado diretamente com o Vigilante na época, mas o vira tirar a vida de outro exilado durante um ataque rebelde.
— Xanthus — Magnus finalmente se forçou a dizer o nome. — Você lembra de mim?
O homem levantou, ostentando sua altura. A aliança grossa de ouro que usava no dedo indicador direito reluziu à luz da vela.
— Claro que sim, vossa alteza.
— Não precisa se preocupar com formalidades hoje. Na verdade, vamos deixar de lado meu nome e meu título, certo?
Xanthus assentiu.
— Como quiser.
— Há meses você não aparece nem dá notícias.
— Tem razão — Xanthus concordou. — Meu trabalho para o rei acabou, e chegou a hora de eu descansar e recuperar minhas forças. Sentem, por favor.
Magnus e Selia sentaram no bloco de madeira que fazia as vezes de mesa.
— Você está linda hoje — Selia disse à outra mulher, que Magnus não reconheceu. — Seu controle sobre a magia do ar melhorou muito ao longo dos anos.
— Acha mesmo? — a mulher perguntou com uma risadinha, torcendo timidamente uma mecha do cabelo comprido, sedoso e avermelhado no dedo.
Xanthus pousou a mão sobre a da mulher.
— Dariah sempre está linda.
Dariah? Magnus observou a mulher com interesse renovado quando percebeu que ela tinha usado seus elementia para mudar sua aparência para a de uma mulher muito mais jovem e atraente. Se observasse com atenção, podia ver que seus traços pareciam escondidos, como se estivesse sentada à sombra e não sob a luz de uma lamparina na parede, e que parecia um pouco perfeita demais para ser real.
— Dariah me disse que você deseja falar comigo — Xanthus comentou. — Ela disse que era importante que eu chegasse o mais rápido possível. Se fosse por outra pessoa, eu não me daria ao trabalho.
— Diga — Magnus disse, a curiosidade crescendo dentro dele a ponto de precisar ser liberada —, você continua em contato com Melenia?
Xanthus olhou para Magnus.
— Não continuo.
— O que aconteceu? Ela parou de aparecer nos sonhos de meu pai.
— Melenia faz o que quer quando quer. Acredito que ela está concentrada na restauração de minha casa, para ela voltar a ser linda como antes, agora que a Tétrade foi despertada.
A menção aos cristais fez Magnus criar expectativas de que Selia diria alguma coisa, mas ela se manteve em silêncio, o olhar curioso voltado para os dois.
Xanthus tomou um gole da taça à sua frente, fazendo um gesto para a atendente trazer mais uma rodada à mesa.
— O que quer comigo hoje?
— Mais uma pergunta, se não se importar — Magnus disse, estreitando os olhos. — Conhece alguém chamado Kyan?
Xanthus voltou toda a sua atenção a Magnus, a expressão séria.
— Ele está livre.
— Sim. Será que tem algum conselho para dar sobre ele?
— Fique longe de Kyan o máximo que puder, se dá valor a sua vida — Xanthus disse. — Melenia, pensando que estava fazendo a coisa certa, ajudou o deus do fogo a roubar a forma corpórea de um bom amigo meu. — Ele olhou com seriedade para Dariah enquanto tomava sua bebida. — Foi por isso que insistiu que eu viesse aqui hoje? Para responder às perguntas do príncipe sobre assuntos que não pretendo discutir com ninguém?
— Não, não foi para isso — Selia respondeu no lugar da amiga. — Mas acho fascinante saber mais sobre o deus do fogo, então agradeço por isso.
— A Tétrade foi despertada — Dariah disse, a voz tomada de temor. — É  verdade?
— É — Selia disse, sorrindo com doçura. — Xanthus, há quantos anos está exilado?
Ele olhou para Dariah, que assentiu.
— Selia é uma amiga de confiança — ela disse.
— Muito bem. Deixei o Santuário há vinte anos.
— Incrível — Selia disse, balançando a cabeça. — Todos os exilados de quem tenho informações acabaram com a magia muito reduzida em um quarto desse tempo. Mas a sua permanece tão forte que você é capaz de abençoar a Estrada Imperial com ela.
Ele confirmou.
— Melenia tomou providências para que minha magia não se perdesse ao longo dos anos e eu não corresse o risco de morrer como um mortal. Essa promessa foi posta à prova não muito tempo atrás, quando uma adaga atingiu meu coração.
A atendente trouxe as bebidas, e Magnus ficou surpreso ao se deparar com uma caneca de cerveja. Ele a empurrou para longe.
— Não gostou? — Selia perguntou. — Ah, é verdade. Você prefere vinho paelsiano.
Magnus olhou para ela.
— Como sabe disso?
— Porque você volta para a hospedaria com cheiro de vinho paelsiano toda noite. — A velha bruxa disse a indelicadeza com um sorriso charmoso. — Gaius gostava muito de vinho quando jovem, apesar de todas as leis de proibição. O pai dele sempre ficava furioso que ele desrespeitasse a deusa. Paelsiano, auraniano, terreano, kraeshiano… o vinho que fosse parar nas mãos dele. Eu nunca experimentei. Nunca quis. Prefiro manter a mente clara e atenta.
Mesmo depois de dizer isso, Selia chamou uma moça e pediu duas garrafas da melhor safra. Magnus não tentou impedi-la e, quando chegaram, tirou a rolha das duas garrafas e bebeu com vontade do gargalo de uma delas, cujo rótulo dizia “Vinícolas Agallon”.
Não havia mesmo como escapar do rebelde.
Selia levantou uma sobrancelha quando ele tomou todo o conteúdo da primeira garrafa, rápido.
— O vinho nunca faz os problemas desaparecerem. Só os aumenta.
— Excelente conselho de alguém que nunca tomou um gole. — Ele suspirou. — Estou cansado desse dia horroroso. Quanto tempo precisamos ficar aqui hoje?
— Não muito.
— Que bom.
— Dariah. — Selia se inclinou sobre a mesa. — Chegou a hora.
— Compreendo — Dariah assentiu com o rosto corado. — Faça o que tiver que fazer.
Selia se virou para o imortal exilado.
— Preciso de sua aliança, Xanthus.
— Precisa? Sinto muito, mas não está à venda — Xanthus disse com tranquilidade, olhando para o anel grosso na mão direita. — Mas posso indicar o nome do artesão que a criou para mim.
— Dariah, você precisa saber que estou me preparando para a noite de hoje desde que você se foi. Cada dia pareceu um ano enquanto eu observava meu filho amado desaparecer diante dos meus olhos. Você sabe que eu faria qualquer coisa por ele. Deixe sua vaidade de lado um pouco e tente sentir minha magia recuperada hoje à noite.
Magnus observou sua avó, sem saber exatamente o que ela queria dizer. Ela não tinha dito que precisava da pedra sanguínea para restaurar a magia?
A falsa beleza de Dariah sumiu quando ela franziu a testa.
— Sim, consigo sentir a magia do sangue. Selia, quantas pessoas você matou para conseguir isso?
— O suficiente. Esta cidade está cheia de homens que não vão fazer falta. Eu gosto daqui.
— O quê? — Magnus exclamou, chocado com a afirmação. — Quando você fez isso? Você ficou ao lado do meu pai quase todos os momentos desde que chegamos.
— Toda noite depois de vocês se deitarem. — Selia abriu um sorriso paciente para ele. — Não preciso dormir muito, meu querido. Assim como esta cidade, ao que parece.
— Você não acha que vou tentar impedi-la? — A voz de Dariah falhou.
Impedi-la? Magnus olhou para a outra bruxa e ficou ainda mais confuso.
— Você pode tentar. — Selia levantou o queixo, o lábio contraído, apertando a mão de Dariah. — Mas vai fracassar.
Dariah se assustou e levou a mão ao pescoço.
— Mas… eu… pensei…
Sem nenhuma outra palavra, a beleza da mulher caiu como uma máscara, o rosto enrugado e mais velho foi revelado por baixo de sua magia, e ela desabou sobre a mesa.
Magnus ficou chocado.
— Você a matou — Xanthus disse, a voz baixa e ameaçadora.
— E você não tentou me impedir.
Ele a encarou nos olhos.
— Sua magia é mais forte do que a de qualquer bruxa que já vi.
— Bruxas dispostas a fazer o que for necessário podem ter quase a mesma magia de uma feiticeira. Por um tempo, pelo menos.
Selia olhou para a mão dele.
— Agora, sobre a sua aliança…
Ele ficou mais sério.
— Minha aliança não é…
Selia abaixou uma adaga com força e rapidez, e o dedo indicador de Xanthus saltou sobre a mesa, deixando um rastro de sangue.
Xanthus gritou de dor e partiu para cima de Selia.
— Vou matar você!
O fogo o iluminou um momento depois, cobrindo-o num instante. Ele tentou apagá-lo, mas estava rápido e forte demais.
— Venha comigo — Selia disse a Magnus quando tirou a aliança do dedo cortado e a guardou no bolso.
Magnus deu as costas para o homem em chamas que gritava e se apressou para acompanhar a avó para fora da taverna, deixando os outros clientes bêbados na confusão.
— Surpreendi você? — ela perguntou enquanto os dois voltavam para a taverna.
Magnus estava quieto, tentando desesperadamente se recompor depois do que havia testemunhado.
— Teria sido bom saber de seus planos antes.
— Você teria tentado me impedir?
— De matar uma bruxa e um Vigilante exilado? De jeito nenhum — ele respondeu com sinceridade. — Imagino que a pedra sanguínea esteja escondida dentro da aliança.
— Está. Tenho exatamente aquilo de que precisamos.
Magnus queria a pedra sanguínea para si, mas pensar em pegá-la da avó depois de tê-la visto fazer o que fez quase sem pestanejar… O melhor naquele momento era conservar a simpatia da bruxa.
Selia não parou quando entraram na hospedaria, atravessaram o corredor até a escada e subiram ao segundo andar. Magnus se sentiu meio zonzo por causa da garrafa de vinho bebida depressa, mas sua mente estava quase clara.
Quando passou pela porta de Cleo, encostou a mão nela e então seguiu Selia pelo corredor, entrando no quarto do pai.
Lá dentro, um homem esquelético, a pele da mesma cor dos lençóis brancos, estava deitado na cama.
Magnus não via o pai desde a conversa na taverna. Ele tinha piorado muito. Os lábios estavam secos e rachados. As olheiras profundas estavam muito escuras. Até mesmo o cabelo preto tinha se tornado quebradiço e grisalho. Os olhos, castanhos como o de Magnus, estavam enevoados.
— Meu filho — o rei sussurrou, levantando a mão com fraqueza. — Por favor, venha aqui.
Para ele, era sempre chocante ouvir o rei pedir “por favor”.
Magnus, com relutância, sentou na beira da cama.
— Sei que você não vai me perdoar. Não deveria me perdoar. Minhas escolhas, principalmente com você… — Os olhos leitosos do rei brilhavam. — Me arrependo por não ter sido um pai melhor para você.
— Me poupe das confissões ao leito de morte — Magnus disse, a garganta seca. — Elas não funcionam comigo.
— Shiu, meu querido. — Selia sentou na beira da cama de Gaius, a mão sobre a testa dele. — Poupe sua energia.
Magnus desejara muito fincar uma espada no peito do pai, vingar a morte da mãe, fazê-lo pagar por todos os anos de abuso e abandono, ver a vida esvair-se de seus olhos de uma vez por todas.
Mas não era assim que queria que as coisas acontecessem. Magnus não queria sentir nada além de ódio por aquele monstro.
— Sei que tentou me salvar — Gaius disse à mãe. — Não importa mais. Você precisa encontrar Lucia a qualquer custo. Precisa implorar para ela ajudar, se for preciso. Sei que ela não vai deixar Mítica cair nas mãos de Amara. Lucia vai destruir todos os nossos inimigos, e o trono pertencerá ao meu filho.
— Vamos encontrar Lucia juntos. — Selia deslizou a aliança de ouro no dedo magro do rei, e ele respirou com dificuldade. — A pedra sanguínea é sua, meu filho, como prometi. Agora descanse e deixe a pedra fazer seu papel.
Magnus deu meia-volta, confuso com tudo o que tinha visto. O rei segurou o braço dele, forçando-o a se virar.
— Não falei por falar — seu pai disse, já com força renovada na voz e determinação nos olhos menos enevoados. — Serei um pai melhor para você, Magnus. Pode não acreditar, mas eu juro.

Um comentário:

  1. Genteeeee que família mais bizarra!!!
    E EU aqui torcendo pra esse FDP morrer logo aí aparece a vaca mãe e salva ele.
    Que ódio!!!!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!