1 de setembro de 2018

Capítulo 23

JONAS
AURANOS

Só posso torcer para essa mensagem chegar a você a tempo. Deve ir ao Templo de Cleiona o mais rápido possível. Lá, use seu sangue para desenhar o símbolo da terra no chão. Isso vai revelar o cristal da terra. Por mais difícil de acreditar que seja, precisa confiar em mim e fazer o que digo.
Invoque o cristal e o mantenha em segurança até nos encontrarmos de novo.

Jonas, Lysandra e Felix partiram para o templo na manhã seguinte. Jonas quase hesitou diante das ruínas da primeira batalha rebelde, que dera terrivelmente errado. Das duas dúzias de rebeldes que se voluntariaram para se juntar a ele naquele dia, só Jonas tinha conseguido escapar. Se arrastando, na verdade.
Lysandra tocou o ombro dele.
— Jonas, você está bem?
— Perfeitamente bem.
— Por que será que não acredito?
A expressão preocupada de Lysandra o fez sorrir de leve.
— É engraçado…
— O quê?
— Você não costumava olhar para mim como está olhando agora. Sempre parecia querer me matar.
— Eu queria matar você. Ainda quero, de vez em quando. — Lysandra sorriu para ele.
— Andem, vocês dois. — Felix os apressou, já dez passos à frente. — Vamos encontrar o tesouro.
Lysandra segurou o braço de Jonas.
— Tem certeza absoluta de que confia nele?
— Tenho. Apesar das revelações que fez ontem à noite, ele conquistou minha confiança, Lysandra. Repetidas vezes.
Ela assentiu.
— Tudo bem. Se você confia nele, também vou confiar. Sua princesa dourada, por outro lado…
Jonas começou a subir a escada do templo atrás de Lysandra.
— Sei que não gosta de Cleo, mas o fato de ter me pedido para fazer isso por ela… É idiota eu considerar uma honra?
— Não, não é idiota. — Lysandra olhou para ele por sobre o ombro, e seus olhos castanho-claros encontraram os dele. — E o que acontece se acharmos?
Um mês antes, ele não acreditava em vigilantes e nem na Tétrade, mas agora eles podiam fazer toda a diferença do mundo. Tudo por causa de algumas rochas mágicas.
— Sinceramente? Não faço a menor ideia. — Ele sorriu. — Tento não planejar muito adiante.
Quando entraram no templo, o sorriso de Jonas se desfez. Uma onda de lembranças veio por todos os lados, dificultando sua respiração.
Naquele dia, ele estava tão cego e fora tão arrogante. Por um momento breve e ofuscante, assassinar o rei Gaius e o príncipe Magnus e libertar seu povo pareceram uma possibilidade real. Tinha impressão de que poucos guardas protegiam os membros da família real, mas, na verdade, eles estavam disfarçados de convidados do casamento, prontos para massacrar um ataque rebelde.
O sangue daquele dia ainda estava lá, na forma de manchas secas e amarronzadas sobre o claro piso de mármore. O templo estava em ruínas, e cada passo dado produzia mais rachaduras e mais desmoronamentos, como se um movimento errado pudesse destruí-lo por completo. Sua magnificência havia sido maculada. O que costumava ser um local sagrado de adoração da deusa auraniana agora era uma fera perigosa, pronta para consumir intrusos.
— Temos que ser rápidos — Felix disse. — Ou este lugar vai cair na nossa cabeça.
Jonas encontrou um trecho limpo de chão e chutou alguns pedaços de pedra. Pegou a adaga incrustada de joias e cortou a mão. A dor foi aguda e profunda, mas ele não hesitou. Apertou o punho, e o sangue começou a pingar no chão. Agachou e o espalhou em forma de círculo com outro círculo dentro.
Quando terminou, Jonas levantou, com o estômago se revirando de nervosismo.
— Certo, princesa — ele murmurou. — E agora?
O chão retumbou. Pequenos pedaços de mármore começaram a cair em volta deles.
Lysandra olhou para cima e fez uma careta.
— Você deve ter desencadeado alguma coisa. Este lugar vai desmoronar a qualquer momento.
— Espere. — Felix agarrou o braço de Jonas, apertando o bastante para provocar dor. — Olhe ali.
Ao longo do corredor entre os bancos, manchado pelo sangue dos rebeldes mortos, um feixe estreito de luz brilhava através de um buraco no teto, iluminando um pequeno objeto. Jonas seguiu a luz e encarou o objeto, incrédulo e perplexo.
— Funcionou — Felix disse, sem fôlego. — Não acredito, mas funcionou.
Era uma esfera de obsidiana do tamanho de uma ameixa pequena, tão lisa e polida que refletia a imagem dos três que olhavam para ela.
Ouvindo outras vozes ali perto, Jonas ficou tenso. Agarrou a esfera preta e a enfiou no bolso.
— Vamos sair daqui — ele disse. — Agora.
— Não dá tempo — Lysandra sussurrou com aspereza. — Precisamos nos esconder.
Os três rebeldes se esconderam atrás de um pilar e viram quatro pessoas entrarem.
Eram a princesa Cleo, a princesa Lucia, o príncipe Magnus e outro garoto que Jonas não reconheceu — alto e esguio, com a pele dourada e bronzeada e cabelos castanhos acobreados.
Jonas e seus companheiros prenderam a respiração ao mesmo tempo no local onde se escondiam quando os quatro se aproximaram do centro do templo.
— E esse ritual? Do que se trata? — Magnus perguntou.
O outro garoto puxou uma adaga.
— É um ritual de sangue.
— E não é sempre?
Quando o rapaz se preparou para cortar a mão, Jonas fez um sinal para que Lysandra e Felix o seguissem para fora do templo enquanto os outros estavam distraídos. Eles desceram os degraus quebrados e continuaram correndo até chegarem ao abrigo da floresta.
— Continuem — Jonas disse. — Precisamos abrir o máximo de distância possível.
Ele queria ter visto a expressão de Magnus quando percebesse que o cristal não estava lá.
— Imagino que não eram amigos seus — Felix disse.
Jonas quase gargalhou.
— Não reconheceu sua alteza, o príncipe Magnus? E a irmã dele, a princesa Lucia?
— E não se esqueça da princesa Cleo — Lysandra acrescentou. — A amada de Jonas.
Felix foi cortando a folhagem grossa com sua espada enquanto abria o caminho.
— Tão bonita quanto dizem por aí.
Lysandra resmungou.
— Pode ser… se for do seu tipo.
— Rica, privilegiada e linda? Com certeza é do meu tipo.
Os rebeldes pararam para descansar em uma clareira, um refúgio tranquilo onde pássaros cantavam e insetos zuniam. Lysandra sentou sobre o tronco de uma árvore caída.
— A pedra simplesmente apareceu. Como magia — Felix disse, sacudindo a cabeça e rindo. — O que não é estranho, considerando que é magia. Vamos ver.
O cristal pesava no bolso de Jonas. Ele passou a mão sobre a superfície fria e lisa antes de tirá-lo. A esfera de obsidiana brilhava sob a luz que atravessava a copa densa das árvores.
Jonas balançou a cabeça, surpreso.
— Já roubei muito na vida, mas esta é a primeira rocha mágica que tenho nas mãos.
Lysandra se aproximou mais.
— É linda.
— O que é aquilo? — Felix perguntou, chegando perto. — Tem alguma coisa se mexendo lá dentro.
O interior da esfera era ainda mais escuro, onde um filete de fumaça cor de ébano girava em um redemoinho infinito.
Jonas sentiu um tremor.
— É só um palpite, mas… talvez essa seja a magia?
— O que isso faz? — Lysandra perguntou.
— Não tenho a menor ideia.
— Posso ver? — Felix perguntou.
Jonas entregou a pedra, e Felix caminhou até a extremidade da clareira, segurando o cristal no alto para tentar enxergar melhor com a pouca luz.
— É tão incrível — Lysandra disse, segurando e apertando a mão de Jonas. — Não é?
Nossa, ela ficava linda quando sorria. Ele se distraiu por um instante, até que Felix voltou, jogando o cristal para cima e para baixo. E deu de ombros.
— Nem imagino como essa coisa funciona. Alguém sabe como usar magia?
— Não faço ideia, mas acho que é melhor parar de brincar com isso. Pode quebrar. — Jonas estendeu a mão.
Felix colocou a esfera negra sobre a palma dele, mas continuou de olho nela.
— Não sei se você deve simplesmente entregar isso para sua princesa. Tem alguma ideia do quanto pode valer uma coisa dessas? Conheço pessoas, Jonas. Não são boas pessoas, naturalmente, mas têm bolsos bem fundos.
— Tentador — Jonas admitiu, apertando a rocha e tentando, de algum modo, sentir sua magia, sem conseguir captar nada. — Mas esses cristais servem a um propósito mais elevado.
— Então quer entregá-lo à sua princesa.
— De novo, ela não é minha princesa, mas, sim. Estou inclinado a fazer isso.
Lysandra franziu a testa, com os braços cruzados diante do peito.
— Você disse cristais? Existe mais de um cristal?
— Eu disse cristais, não disse?
Ela lançou a ele um olhar severo.
— Tem algo que não nos contou?
Aquele dia já parecia vitorioso, mas a batalha estava apenas começando. Fazia semanas que Jonas não se sentia tão bem.
— A mensagem da princesa não incluía apenas este local.
— Você sabe onde encontrar mais, não sabe? — Felix perguntou.
Jonas não conseguiu conter um sorriso.
— Na verdade, sei onde encontrar três, de um total de quatro.
— Onde? — Lysandra perguntou, ofegante.
Jonas jogou o cristal para o alto, apanhou-o e o guardou de novo no bolso.
— Dois estão na nossa terra, Paelsia. Um lugar adequado, acredito eu, para abrigar o poder capaz de massacrar o rei.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!