3 de setembro de 2018

Capítulo 22

AMARA
KRAESHIA

Amara conhecia um lugar perfeito para ir quando queria ficar sozinha.
Era um jardim anexo à ala leste da Lança de Esmeralda, um presente de seu pai para contribuir para a beleza da residência real. Afinal, a única coisa que se esperava das garotas kraeshianas era um interesse por flores belas.
Mas, em vez de flores, Amara tinha cultivado um jardim com dezenas de milhares de rochas, conchas e pedras semipreciosas, de vários lugares do mundo. Seu pai tinha considerado aquele jardim feio e decepcionante, mas Amara discordava totalmente.
Em especial agora, porque era onde tinha escondido o cristal da água.
E foi nesse jardim que sentou para pensar no plano de controlar o próprio futuro sem ficar sob o domínio de homens cujo objetivo era fazê-la se sentir um ser inferior. Na vida, ela tinha conhecido muitos poucos homens que não compartilhavam da misoginia kraeshiana.
Felix era um deles.
Ele não queria nada dela. Não fez nenhuma exigência. Amara o havia levado para a cama porque gostou de seus ombros largos e de seu nariz torto, e do fato de que seu pai nunca aprovaria se ficasse sabendo do caso entre os dois.
Mas logo começou a ansiar pela companhia do limeriano, e não apenas à noite. Ele a entretinha e a desafiava com suas opiniões — as poucas que tinha compartilhado com ela, pelo menos. Felix havia provado ser muito mais do que apenas um escudeiro do rei. Sem nem tentar, tinha se tornado alguém especial para ela.
Isso tinha criado complicações em um momento em que ela precisava que tudo fosse simples.
Sua avó entrou no jardim e foi se sentar a seu lado no banco de pedra.
— Você tem muitas preocupações, dhosha. Posso ver em seu rosto encantador.
— A senhora me culpa por isso?
— Nem um pouco. O fato de refletir sobre sua vida e suas decisões com cuidado mostra que a ensinei bem.
— Queria que tudo fosse mais fácil.
— Nada que tem valor é fácil, dhosha — afirmou a avó, apoiando a mão sobre seu ombro. — Fui ver meu boticário hoje de manhã.
Amara ficou tensa. Neela tinha falado de um homem com um grande talento secreto para criar poções mágicas para sua avó e, no passado, para sua mãe.
— E?
— Ele mencionou que outro cliente do palácio foi visitá-lo, não muito tempo atrás.
— Alguém do palácio? Quem?
— Seu irmão. Ashur.
Amara arregalou os olhos.
— Mas... eu nem sabia que Ashur sabia da existência desse boticário.
— Nem eu.
— Que poção ele pediu?
— Não sei. Ele apenas mencionou a visita de Ashur por alto ao perguntar como ele estava.
— E a senhora não perguntou mais nada? Vovó, preciso saber.
— Por quê? Que diferença isso faz agora?
— Se não faz diferença, por que veio me contar?
— Agora percebo que não devia ter feito isso. — Neela pegou a mão dela. — Acalme seus pensamentos, dhosha. Você é forte e vai fazer o que precisa ser feito. Está perto agora. Muito mais perto do que antes.
Amara soltou um suspiro longo e incomodado, depois assentiu.
— Não se preocupe comigo, madhosha. Sei o que preciso fazer.


— Venha sentar ao meu lado, filha.
O imperador levantou quando Amara entrou no solário, um ambiente privado em que ele recebia os convidados mais importantes.
Ela não sabia o que esperar quando seu pai a intimou e percebeu que não era a única que ele havia chamado. Foi a última a chegar. O rei Gaius, Felix, Milo e seus irmãos já estavam lá.
Então ficou claro. Ela tinha sido convidada para presenciar o momento em que o imperador declararia sua decisão.
Amara nunca tinha sido convidada para um evento tão importante antes. Será que, de alguma forma, tinha provado seu valor para o pai? Tinha provado que sua opinião sobre política importava? Ele faria bem se a colocasse sob sua asa como conselheira; seria muito mais útil que Elan e Dastan juntos.
— Princesa — o rei Gaius disse, levantando quando ela sentou. — Está muito bonita hoje.
— Obrigada, vossa graça. — Por que os homens sempre achavam necessário tecer comentários sobre o exterior de uma mulher? Ela sabia que era bela. Não havia necessidade de ficar repetindo o tempo todo, como se lhes rendesse pontos em um jogo.
O rei parecia confiante. Ele de fato acreditava que o imperador concordaria com aqueles termos mais do que ambiciosos?
Felix e Milo estavam ao lado do rei, com as mãos para trás. Felix meneou a cabeça para ela, e os olhares se cruzaram por um instante. Ele, por outro lado, não parecia tão confiante. Seria uma sombra de preocupação o que se passava por trás de seus olhos escuros?
Minha bela fera, ela pensou. Não se aflija. Você já me provou seu valor.
Sua atenção se voltou a seus irmãos, nenhum dos quais tinha se levantado para saudá-la. Os dois bebiam de cálices dourados ornados com pedras preciosas, e Amara notou que o centro da mesa estava repleto de frutas coloridas.
O imperador fez um sinal para os guardas que estavam nas portas.
— Deixem-nos discutir nossos assuntos importantes em particular. — Amara observou quando saíram, notando que Mikah não estava entre eles, e de repente se deu conta de que não o via fazia vários dias. Talvez estivesse doente.
Os guardas fecharam as pesadas portas com uma pancada barulhenta, e o coração de Amara começou a acelerar. Era um dia importante. Um dia novo em folha que profetizaria um futuro incerto para o Império Kraeshiano...
... ou um dia que marcaria o fim da vida do Rei Sanguinário.
Era assim que seu pai conduzia suas negociações políticas: ou concordava com termos obviamente favoráveis, ou fazia um problema irritante desaparecer matando-o e matando todos os envolvidos. No fim, o imperador Cortas sempre vencia.
— Dediquei algum tempo para considerar sua interessante oferta, Gaius. — O imperador se manteve em pé, o rosto enrugado lúgubre e sério. Não haveria bom humor dessa vez.
O rei Gaius assentiu.
— E estou pronto para ouvir sua decisão.
— Você deseja se tornar o segundo imperador do Império Kraeshiano, e compartilhar o poder de maneira igualitária comigo. Em troca, vai me dar o cristal do ar e me ensinar a liberar sua magia. Além dessa magia, também terei as habilidades de feiticeira de sua filha à minha disposição. Entendi bem, Gaius?
— Sim — o rei respondeu com calma, quase entediado.
Era impossível para Amara não admirar a confiança do rei — ou seria burrice? Afinal, ele não passava de um abutre pedindo para um leão compartilhar sua carne de graça.
No entanto, o rei não parecia burro. Muito pelo contrário. Ele devia ter outra carta na manga.
O imperador voltou a falar:
— E você espera que eu acredite em sua palavra quando afirma que o que disse sobre sua filha, sobre a Tétrade, é verdade.
— Sim.
— É isso que me incomoda, Gaius. Você não me deu provas de nenhuma das duas coisas.
— E não verá nenhuma prova até chegarmos a um acordo. Com todo o respeito, vossa iminência, esta é a maior oportunidade de sua vida. Você é sábio, muito sábio, e tenho certeza de que deve perceber isso. — Gaius tomou um gole de seu cálice, olhando fixamente para o imperador. — E se vier a descobrir que sou um mentiroso, pode mandar me executar e tomar Mítica sem resistência. Com minha bênção, na verdade. Simples.
O imperador cerrou os lábios.
— Mítica será minha independentemente do desenrolar deste acordo. Fará parte do Império Kraeshiano, não se manterá um reino soberano.
O rei piscou.
— Muito bem.
— E eu quero outro cristal. Se vamos compartilhar o poder de forma igualitária, não é justo que eu fique apenas com a esfera de selenita.
Um sorriso fino se formou nos lábios do rei.
— Está pedindo muito, mas vou concordar com isso também.
Fez-se um longo e desconfortável silêncio, e Amara só conseguia ouvir o som de seu coração batendo forte no peito.
— Pegue o documento — o imperador instruiu Dastan.
Dastan levantou da mesa, logo voltou com um rolo de pergaminho e o deixou diante do rei.
— Esperava que concordasse com minhas solicitações — disse o imperador. — Então aqui está o acordo oficial. Não deixe de notar a advertência no final. Essencialmente, ela declara que você consente em ser morto se mentir para mim agora ou no futuro.
O rei passou os olhos pelo pergaminho, sem deixar transparecer nada em sua expressão.
Finalmente, olhou para a frente.
— Vou precisar de alguma coisa para assinar isso.
O imperador sorriu.
— Não vou fazê-lo assinar com seu próprio sangue, embora tenha considerado essa hipótese. — Ele fez um sinal para Elan, que trouxe pena e tinta.
O rei pegou a pena e assinou no fim do pergaminho, embaixo da assinatura do imperador.
Os homens nunca deixavam de entreter Amara. Esses dois achavam mesmo que um mero pedaço de papel equivalia a um acordo compulsório?
O rei Gaius devolveu o pergaminho ao imperador, cujos lábios formaram um sorriso de satisfação.
— Fico muito grato, rei Gaius. Há mais uma questão que pode se provar preocupante — o imperador afirmou.
O rei Gaius se inclinou na cadeira, rangendo os dentes.
— É mesmo?
— Em Kraeshia, o poder é passado por meio da hereditariedade. — Ele apontou para o pergaminho. — Este é um documento válido apenas entre mim e você. Quaisquer futuros governantes de meu império devem pertencer à família Cortas.
— Isso é um problema — comentou o rei. — E, para ser franco, estou confuso. Você concordou com meus termos, e sinto que fui extremamente generoso e paciente com os seus. Agora está tentando me dizer que a participação de minha família neste império termina quando eu morrer?
Amara teria que ser surda para não ouvir as ameaças sombrias por trás de suas palavras.
A situação estava ficando interessante.
O imperador fez sinal para Dastan de novo.
— Mande buscar o profeta do palácio.
Amara franziu a testa. O profeta do palácio era um oficial religioso que conduzia rituais kraeshianos e cerimônias exclusivamente para o imperador.
— Está mandando buscá-lo para me obrigar a fazer um juramento religioso? — o rei perguntou calmo. — Vossa senhoria, me desculpe, mas o que isso tem a ver com hereditariedade?
— Não é esse tipo de juramento — explicou o imperador. — Isso vai tranquilizá-lo em relação ao futuro.
— Meu sangue é Damora, nem mesmo a magia pode mudar isso. Parece que temos um problema, vossa senhoria.
— Não é um problema que não possa ser resolvido — o imperador disse. — Você vai se casar com minha filha. Hoje.
Com certeza Amara tinha entendido errado.
Ela se esforçou para não perder a compostura, para não sair correndo da sala. Então foi por isso que seu pai tinha pedido sua presença; não tinha nada a ver com respeito.
Ele queria usá-la como trunfo.
Amara sentiu os olhos de Felix sobre si, e arriscou olhar para ele. Ele a observava com a testa franzida.
— Esta união vai simbolizar a junção de nossas famílias e a divisão do poder entre nós dois — o imperador continuou. — Considera aceitável, Gaius? Sei que perdeu sua rainha recentemente e deve estar pronto para uma nova esposa.
O rei pareceu considerar a reviravolta com tranquilidade.
— Sim, perdi minha amada Althea — ele afirmou. — Sinto muita falta da companhia de uma esposa. Mas, com todo respeito, vossa senhoria, eu nunca desejaria obrigar ninguém a um casamento arranjado como esse, muito menos sua adorável filha.
— Talvez seja isso que nos diferencie.
— Talvez — o rei reconheceu. — Mas eu só poderia concordar com isso se a princesa Amara também concordar.
Todas as atenções se voltaram para a princesa.
Amara tinha recusado todos os outros pretendentes que seu pai havia empurrado, e o imperador nunca a tinha forçado a se casar antes. Mas isso tinha sido antes, quando ela tinha tão pouca importância para ele. Ela seria incrivelmente ingênua se pensasse que tinha escolha. E Amara era tudo menos ingênua. Fazer estardalhaço só causaria um conflito desnecessário.
Naquele dia, dentre todos os demais, a princesa queria que seu pai ficasse satisfeito com ela.
— Seria uma honra me tornar sua rainha, rei Gaius — ela respondeu, ignorando o aperto que sentia no peito.
O rei arregalou os olhos. Ela o havia surpreendido.
Dastan voltou acompanhado de um homem idoso de cabelo branco e túnica verde.
— Excelente — disse o imperador. — Profeta, por favor, não percamos mais nenhum instante para oficializar esse casamento.
O sacerdote apresentou um longo lenço de seda que estava na família de Amara havia inúmeras gerações e fez um sinal para ela se posicionar diante do rei. Seguindo a tradição kraeshiana, ele enrolou o lenço em volta dela e do rei, dos tornozelos aos ombros, amarrando as mãos juntas.
Amara encarou o rei, que se parecia muito com o filho, Magnus. Ela não tinha se dado conta até aquele momento.
Como ditava o costume, a cerimônia de casamento foi realizada em língua kraeshiana, com o sacerdote repetindo os votos em língua franca para que o rei pudesse compreender.
O sacerdote falou solenemente sobre os deveres de marido e mulher. Declarou que a esposa deveria ser sempre leal ao marido. Ela lhe daria seu poder. Ela lhe daria filhos. Ela o serviria. Se o desagradasse, era direito do marido bater nela.
Os dedos do rei apertavam os dela conforme as palavras lhe atravessavam, como se cortassem sua garganta.
Se ele algum dia ousasse tocá-la com fúria, Amara o mataria.
A cerimônia terminou, e os dois foram proclamados marido e mulher. O profeta desenrolou o lenço, e o rei puxou Amara e a beijou quando foi instruído, para selar simbolicamente a união. Apesar da agitação interna e do fato desolador de ter acabado de casar com alguém com idade para ser seu pai, o beijo não foi de todo desagradável.
E aquele casamento era apenas mais uma oportunidade para ela.
Seu pai se aproximou, segurando o rosto dela entre as mãos e beijando suas bochechas.
— Nunca estive tão orgulhoso de você, minha querida filha!
Parecia que ela finalmente havia conquistado sua aprovação.
— Obrigada, pai.
— Este é um dia incrível: a união de duas famílias, duas nações. Um futuro brilhante com magia e poder.
Ela sorriu.
— Concordo plenamente. Por sinal, tenho algo que seria perfeito para uma celebração como esta. Está em meus aposentos. Permite que eu vá buscar? É uma garrafa de vinho paelsiano.
Seus olhos se arregalaram de surpresa e deleite.
— Que maravilha!
— Sim, eu tinha esquecido completamente que havia trazido da viagem. Só lembrei agora. Sabia que o senhor gostaria de provar. E, se gostar, ainda há mais duas caixas no navio.
— Ouvi dizer que o vinho paelsiano tem sabor de magia — Elan disse.
— Sim, parece a maneira perfeita de homenagear esta ocasião — afirmou o imperador. — Vá pegá-lo, filha. E vamos brindar ao futuro de Kraeshia.
Ela deixou a sala com a cabeça atordoada, uma mistura de preocupação, empolgação e medo.
Você não precisa fazer isso, alertou uma pequena parte dela. Você tem outra escolha. Se fugir, pode viver sua vida em outro lugar, em algum lugar bem longe daqui.
Amara quase chegou a achar graça daquele momento de dúvida.
Não havia escolha. Ela sabia disso. Aceitava isso. Seu destino havia sido traçado desde o momento de seu nascimento.
Ela correu até seu quarto e voltou ao solário com a garrafa de vinho paelsiano. O imperador pegou da mão dela, tirou a rolha rapidamente e serviu a bebida amarelo-clara em quatro cálices. Seus irmãos receberam um cálice cada um, e o imperador entregou o quarto ao rei.
— Receio que não haja o bastante para você, filha.
— Receio ter de recusar — o rei Gaius levantou a mão. — Bebidas alcoólicas são contra a religião limeriana.
— Que política infeliz — comentou o imperador. — Muito bem, então este cálice é para você, Amara.
Ela pegou a taça da mão do pai e fez uma pequena reverência.
— Obrigada, pai.
O imperador levantou o cálice.
— Ao futuro do Império Kraeshiano. E a muito mais filhos para você, Gaius. Muito mais filhos! Amara e meninos, bebam.
Amara tomou um gole da bebida e observou o pai e os irmãos secarem as taças.
— É incrível. — O imperador ficou eufórico e arregalou os olhos de prazer. — Delicioso como sempre ouvi falar. E agora finalmente o provei. Gaius, vou precisar que mais caixas sejam entregues em Joia, um suprimento eterno.
O rei concordou.
— Vou providenciar pessoalmente, vossa senhoria.
— É muito bom — Dastan aprovou.
— Não tem mais? — Elan perguntou. — Eu quero mais.
— Amara, peça para trazerem ao palácio as caixas que ficaram no navio, assim poderemos continuar a comemoração. Já mandei preparar um banquete na expectativa de selarmos o acordo de hoje. E assim que voltar, filha, precisa trocar de vestido. O que está usando não é apropriado para a esposa de um... — Ele franziu a testa. — Amara?
Amara contou devagar até dez, depois começou a conta mais uma vez. Seu coração estava acelerado. Ela não podia esperar, não por muito mais tempo.
Finalmente, quando não conseguiu mais se conter, cuspiu o vinho de volta no cálice.
O imperador franziu a testa.
— Qual é o problema?
Ela limpou a boca com um pedaço de seda.
— Sei que não vai acreditar em mim, pai, mas sinto muito. Queria que pudesse ser diferente.
A expressão inquisidora logo se transformou em agonia. Ele levou as mãos à garganta.
— Filha... o que você fez?
— Só o que foi preciso. — Ela olhou para seus irmãos, que também estavam segurando a garganta, sufocando.
O veneno devia agir muito rápido e não causar nenhuma dor.
— Sinto muito — ela disse de novo com os olhos cheios de lágrimas.
Um por um, cada membro da família caiu no chão, contorcendo-se, ficando roxos enquanto a encaravam sem entender, e depois com ódio.
Assim como havia acontecido com Ashur.
Finalmente, eles ficaram imóveis.
Amara virou para os quatro guardas que tinham voltado ao solário durante a cerimônia de casamento. As mãos estavam de prontidão sobre as armas, um olhando para o outro sem saber muito bem o que fazer.
— Vocês não vão dizer nada sobre o que viram aqui — ela anunciou. — A ninguém.
— Eles não vão lhe dar ouvidos — disse o rei, surpreendentemente calmo. — Felix, Milo. Cuidem disso.
Felix e Milo voaram sobre os guardas e só se viram lampejos de aço em suas mãos.
Os guardas estavam mortos no momento em que caíram no chão.
Amara soltou um suspiro lento e trêmulo, o olhar selvagem encontrando o do rei.
Gaius ficou a observando sem nenhuma acusação ou choque.
— Tive a sensação de que você estava tramando alguma coisa. Mas não fazia ideia de que seria algo tão extremo.
— Você chama de extremo. Eu chamo de necessário. — Ela engoliu em seco, encarando os guardas assassinos com apreensão. Felix tinha seguido a ordem do rei. Será que a mataria com a mesma rapidez com que matou os guardas se o rei ordenasse?
— Uma profecia dizia que eu dominaria o universo com uma deusa ao meu lado — Gaius afirmou. — Já estava começando a achar que era mentira. Agora não tenho tanta certeza. — Ele abaixou a cabeça. — Se me aceitar, gostaria de continuar sendo seu marido e seu criado. Imperatriz Cortas.
A violenta turbulência em seu interior parou quando, de repente, ela se deu conta de que havia conseguido.
A hereditariedade era a lei em Kraeshia, e ela era a primeira criança do sexo feminino a sobreviver à morte de um imperador e de todos os herdeiros homens.
Uma criança que tinha se tornado mulher.
E a primeira imperatriz que Kraeshia já conheceu.
Talvez ela e o rei formassem uma excelente dupla, afinal.


O rei Gaius e Amara notificaram o capitão da guarda de que rebeldes tinham se infiltrado no palácio e envenenado a família real. Amara era a única Cortas que sobrevivera ao ataque sorrateiro.
É claro que ela colocaria a culpa nos rebeldes. Quem acreditaria que a princesa Amara tinha envenenado a própria família?
Amara foi ver a avó depois que os corpos foram removidos do solário. O sorriso e o abraço dela fizeram parte da dor desaparecer.
— É tudo por um bem maior, dhosha — ela afirmou. — Eu sabia que seria vitoriosa.
— Não sei se teria conseguido sem sua fé em mim.
— Tem alguma dúvida do que deve acontecer em seguida?
— Sim, madhosha — Amara admitiu. — Muitas. Mas sei que precisa ser feito.
Neela pressionou a palma da mão fria no rosto quente de Amara.
— Então não há motivos para esperar.
Ela finalmente viu Felix de novo nos corredores perto de seus aposentos e foi falar com ele no mesmo instante. Ele olhou para Amara com incerteza.
— Então... — ele começou a falar. — Aquilo foi bastante inesperado, não foi?
— Talvez para você, mas não para mim.
— Você é uma garota perigosa. — Ele inclinou a cabeça. — Mas acho que eu já sabia disso. Talvez seja o que eu mais gosto em você.
— Então você gosta de mim.
Ele deu uma risada nervosa.
— Alguma vez duvidou disso, princesa? Não estou mostrando o quanto gosto de você todas as noites?
— Não foi isso que quis dizer.
— Peço desculpas, estou sendo rude. Apelo para a grosseria quando me sinto desequilibrado. E é exatamente assim que me sinto com você. — Ele limpou a garganta. — Parabéns pelo casamento. Vocês formam uma bela dupla.
— Formamos, não é? Pelo menos por enquanto.
Ele franziu a testa.
— Do que está falando?
— Preciso do rei para ter acesso aos outros cristais da Tétrade e para aprender como liberar sua magia.
— Está me dizendo que o rei não está em segurança ao seu lado? Tem certeza de que é inteligente fazer isso, princesa? Ser tão sincera comigo, o guarda pessoal dele? Meu trabalho é protegê-lo.
— Você não me engana, minha bela fera. No dia em que ele morrer, você vai comemorar com todo mundo. Devia ter concordado em trabalhar para mim quando lhe dei a chance.
— Acho que trabalho para você, já que é esposa do rei.
Amara pegou o braço dele, fazendo-o se contrair.
— Desculpe. Ainda está machucado?
Ele esfregou o antebraço, que ela sabia que estava com bandagens sob a camisa, devido a um ferimento recente.
— Estou melhorando.
— Ótimo. Agora, venha comigo. Preciso de você.
Ele olhou com nervosismo para os dois lados do corredor.
— Não sei se é um bom momento, princesa. Afinal, você acabou de casar com o Rei Sanguinário. Não acho que ele aprovaria o que estamos fazendo. Na verdade, tenho quase certeza de que ele cortaria certas partes do meu corpo se ficasse sabendo.
— Que estranho, não pensei que você fosse covarde.
Os olhos dele arderam de raiva.
— Não sou.
— Então prove. — Ela ficou na ponta dos pés e o beijou. Felix a agarrou pelo punho, pressionou-a contra a parede, e retribuiu o beijo com entusiasmo.
— Cuidado. Estou ficando viciado em você — ele sussurrou. — Considerando que um vício como esse poderia levar à minha desgraça, não sei se gosto muito dele.
— O sentimento é mútuo. Agora, venha comigo. Tenho uma coisa importante para lhe mostrar.
— Eu a seguiria para qualquer lugar, princesa.
Ela o levou ao grande saguão que ficava na entrada principal da Lança de Esmeralda. Estavam cercados de janelas que lançavam luz verde e cintilante sobre o chão brilhoso.
— É isso? — ele perguntou, observando ao redor. — É um pouco público demais para o meu gosto. Que tal irmos para um lugar mais fechado?
O sorriso de Amara desapareceu.
— Guardas! — ela gritou com severidade. — Aqui está ele!
Felix ficou paralisado e olhou para todos os lados, confuso. Dezenas de guardas se aproximavam dele com armas em punho.
— O que é isso? — ele perguntou. — O que está acontecendo?
Ela respirou fundo e levantou o queixo ao se dirigir aos guardas.
— Felix Graebas revelou ser um conspirador rebelde. Ele envenenou minha família, ele matou o imperador e meus irmãos.
— Princesa, o que está dizendo?
— Prendam-no — ela disse com uma voz áspera.
— Está louca? O rei não vai deixar isso acontecer!
— O rei já está ciente do que você fez, e também acredita que merece pagar com a morte.
Amara observou quando o entendimento, e depois a fúria, tomaram conta do olhar de Felix.
— Sua megera desalmada — ele bradou.
Felix, então, cometeu o erro de lutar com os guardas na tentativa de escapar. A disputa durou apenas alguns momentos até ele ser dominado e espancado até ficar inconsciente.
Os guardas o arrastaram ao calabouço e para uma execução rápida. Amara tinha descoberto que estava começando a se apaixonar por Felix — e o amor enfraquecia as pessoas.
Esse sacrifício necessário a fortaleceria de novo.

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