29 de setembro de 2018

Capítulo 22

— VOCÊ SABE POR QUE CHAMAM ESTE LUGAR DE SERRA DO MORTO? — Bahi perguntou, alegre. Ele tentava puxar papo desde que tínhamos aterrissado, depois de voar nas costas de Izz, que assumira a forma de um roc gigante, com o deserto aberto correndo embaixo de nós. O demdji de pele azul estava agora enrolado nas rochas na forma de um grande lagarto azul. Pelo menos não tentava ajudar a montar o acampamento na forma de um garoto pelado.
— Porque vou te matar se não parar de falar? — Shazad perguntou, jogando um pedaço de lenha na direção dele.
— Infelizmente, os cartógrafos não previram você, Shazad. — Bahi passou o braço sobre o ombro dela. Estávamos empoleirados em uma montanha. Lá embaixo o deserto se estendia para todos os lados. Exceto ao norte, onde era possível vislumbrar o que Jin dissera ser o mar. E diretamente abaixo de nós, cortando as montanhas, estava a ferrovia. — É porque muitos trabalhadores morreram abrindo os túneis com explosivos — Bahi explicou. — Dizem que seus fantasmas inquietos perambulam pelos trilhos.
— Mais uma brilhante realização, cortesia da aliança do sultão com os gallans — Jin disse, chutando uma pedra para longe antes de estender seu saco de dormir. Jin o chamava de sultão, eu havia notado. Ahmed se referia a ele como pai, mas Jin não.
— E você está nos dizendo isso agora? — Hala empurrou Bahi. — Logo antes da gente explodir um túnel?
— Só estou tentando estimular a reflexão. — O bom humor de Bahi estava um pouco insano demais para o meu gosto, considerando que eu mal conseguia controlar o nervosismo.
O trecho da ferrovia que víamos da Serra do Morto começava em Izman e abria caminho pelas montanhas até Fahali, do outro lado. E de lá era apenas um dia de viagem até o acampamento de Ahmed.
Estávamos prontos para garantir que a arma não chegasse tão longe. O trem deveria chegar em dois dias. Ao amanhecer instalaríamos explosivos no túnel para forçar o trem a parar, nos dando tempo de subir a bordo, fingindo ser ladrões. Hala confundiria a cabeça dos passageiros para que vissem uma dúzia de bandidos distraindo os soldados enquanto removíamos a arma.
— Os pais sagrados não devem refletir em silêncio? — perguntei, sacudindo meu saco de dormir.
O humor de Bahi não se deixava abalar.
— Sou jovem e bonito demais para ser pai, de qualquer modo.
— Não é isso que Sara anda dizendo — Shazad murmurou.
Eu me perguntei se Sara era o motivo de ele ter falhado como pai sagrado. Bahi disse que havia bebido demais antes das preces matinais uma vez, e que o jantar da noite anterior tinha ido parar na túnica do Pai Superior, mas eu já tinha ouvido outras histórias explicando por que ele não terminara o treinamento.
— Ninguém pode provar que aquele bebê é meu — Bahi disse, parecendo desanimado.
— Ele tem seu talento para falar besteira — Shazad retrucou.
— É apenas um bebê — Bahi disse. — Só grita e chora.
— Então deve ser seu filho mesmo — falei em voz baixa.
Jin soltou uma risada. Bahi puxou uma garrafa da sacola.
— Um brinde ao meu filho, então.
— Por que você trouxe bebida? — Shazad perguntou, massageando as têmporas, como se já estivesse de ressaca.
Em resposta, ele puxou duas outras garrafas.
— Razões médicas. Está nos textos sagrados. Pode consultar. Damas primeiro.
Ele ofereceu a garrafa a ela. O rosto de Bahi tinha uma expressão de pura vitória quando os dedos de Shazad se fecharam sobre os seus. Ele deixou os dedos ali parados por apenas um segundo antes de soltar a garrafa. Eu estava começando a achar que estava certa sobre ele ter deixado o treinamento sagrado por uma garota, só que o nome dela não era Sara. Eu me perguntava se Shazad realmente não tinha notado ou se estava apenas fingindo para não magoá-lo.
— Você sabe que não estou autorizada a beber — Shazad disse, tomando um longo gole.
— Você não pode beber? — Não consegui evitar o tom de ceticismo enquanto ela passava a garrafa para mim. Era bebida barata que queimava a garganta.
— O general não aprova — Bahi interveio, se referindo ao pai dela.
Shazad fez uma saudação militar jocosa, mas seu sorriso era sério demais para me fazer acreditar que não amava seu pai.
— Ele diz que um soldado bêbado é um soldado morto.
— Claramente um momento de equívoco do general — Bahi disse, pegando uma segunda garrafa. — Senão meu pai teria sido morto mil vezes.
Shazad começou a responder, mas Bahi já estava chamando Izz, Jin e Hala para algum jogo de bebida que parecia consistir em lançar algumas moedas e bater as mãos nas rochas antes de dar um gole.
Podemos morrer aqui, pensei. Mas eles estavam acostumados ao risco. No ano anterior tinham se atirado na frente do perigo a todo instante, apenas pela chance de construir um mundo melhor. Eu tinha feito aquilo também. Entrara naquela arena de tiro com nada além de uma boa chance de morrer e a oportunidade de ir para um lugar melhor. Mas eu havia feito aquilo para mim mesma. Eles estavam se arriscando por eles e por todos os demais. Por Miraji inteira. Para que ninguém mais morresse como acontecera em Dassama. Para que ninguém mais tivesse que viver como eu havia vivido na Vila da Poeira.
— Senhoritas! — Bahi chamou, afastando meus pensamentos. — Não querem se juntar a nós? Por enquanto estou ganhando.
— Achei que o objetivo do jogo era não ser a pessoa que bebe mais — Hala respondeu.
— É evidente que você e eu temos definições diferentes do que é vencer — Bahi disse.
— Só estávamos te dando uma vantagem inicial. — Shazad encostou o ombro no meu. — Quando você acordar e todo o seu sangue tiver se transformado em bebida, vai ver isso como o primeiro erro no caminho para a derrota.
Não resisti e acabei rindo. Depois que uma garrafa foi esvaziada, Bahi reuniu coragem para recriar sua serenata sob a janela de Shazad. Estávamos bêbados de ansiedade e do bom e velho álcool sob o céu cheio de estrelas que pareciam nos pertencer. Era como se pudéssemos reorganizá-las à vontade.
E percebi que, por mais assustados que estivéssemos, eu nunca tinha sido tão feliz quanto naquela noite.


Na manhã seguinte, alguma coisa me acordou antes da luz do sol. Fiquei imóvel, tentando entender se era apenas a memória de um sonho que eu já estava esquecendo.
Todos dormiam ao meu redor. O fogo tinha apagado. Shazad estava de lado, uma mão descansando na espada como se esperasse que alguém a atacasse a qualquer instante. Do outro lado da fogueira, Hala estava curvada, enfiada em seu saco de dormir.
Izz deveria estar de guarda no céu na forma de um roc, mas os sacos de dormir de Bahi e Jin estavam vazios. Levantei, as juntas estralando, e comecei a caminhar em direção ao nascer do sol, subindo no cume que protegia o acampamento. Foi lá que os encontrei.
Bahi não tinha um tapete de orações, mas estava ajoelhado, cabeça baixa, lábios pressionados contra as mãos. Fiquei quieta. Podia escutar as preces matinais murmuradas como um segredo. A sensação era de espiar um ato íntimo. Dei um passo para trás, porque não queria me intrometer.
Então vi Jin, agachado a alguns metros de distância em uma beirada estreita, de costas para a montanha, as mãos balançando no espaço aberto acima dos trilhos. Perambulei pelas pedras empoeiradas com os pés descalços.
— A ressaca não é tão ruim assim. — Senti a minha voz rouca quando fui sentar perto dele.
— Por mais que queira culpar a bebida barata de Bahi, eu aguento beber bastante. — Ele passou a mão pelo rosto. — Não durmo bem desde que acordei da mordida do pesadelo. Quando fecho os olhos, vejo o acampamento pegando fogo se não interceptarmos a arma. Minha família queimando. Você queimando.
Levantei a cabeça quando ele falou de mim. Jin deixou escapar um longo suspiro.
— Você não precisa ficar… Sabe disso, não é? Você estava certa na Shihabian. Você está aqui porque eu… Porque eu te envolvi nisso. Porque eu queria que você ficasse. Mas não quero que morra. Ainda pode ir embora. Para Izman. Ou para onde quiser. Escapar disso.
Meu olhar se perdeu no deserto. Parecia infinito, mas o sol nascia à minha esquerda, o que significava que em algum lugar na direção para onde olhava estava a Vila da Poeira.
— Acho que estou onde deveria estar.
— Sabe, eu meio que sinto falta da garota que estava pronta para deixar todo mundo para trás para salvar a própria pele — Jin disse. — Ela parecia ter uma chance muito menor de morrer fazendo algo heroico e idiota.
— Vou encarar isso como um elogio — eu disse, rindo, mas então parei de repente. Na direção onde olhava, nos trilhos, vi o reflexo do sol em alguma superfície metálica. — Aquilo é…?
Um guincho cortou o céu antes que eu pudesse terminar a frase.
Ambos levantamos a cabeça para ver Izz circulando acima do acampamento e então voando em espiral para baixo, mudando de pássaro para garoto alguns metros acima do chão e caindo agachado.
Levantei e olhei para o acampamento, o pânico tomando conta de mim. Mas as mãos de Jin estavam na minha cintura. Ele me virou rápido. Sua boca veio com força e vontade sobre a minha. Suas mãos queimaram a pele das minhas costas. Seu toque soltou faíscas pelo meu corpo. Eu não sabia se aquele beijo me incendiava ou se apenas libertava o fogo que já havia dentro de mim.
Jin se afastou antes que fôssemos consumidos, as mãos segurando meu rosto.
— Ainda está se sentindo imortal, Bandida?
Corremos de volta para o acampamento. Shazad já estava acordada e armada. Izz tinha uma expressão selvagem nos olhos.
— Tem um trem vindo.
Shazad balançou a cabeça como se estivesse tentando entender.
— Não tem nenhum trem agendado antes do nosso — ela disse, confirmando o pensamento de todos. Li no rosto dela a mesma conclusão a que eu tinha chegado.
— O trem partiu mais cedo. — Era melhor eu falar de uma vez o que todo mundo estava pensando. — A arma está vindo.
Não havia tempo para armar os explosivos no túnel, não havia tempo de parar o trem para subir a bordo. Era com isso que eles estavam contando. Ninguém falou nada enquanto nos agrupávamos no cume acima do túnel, esperando o trem passar. No início eu só podia escutar todo mundo respirando em silêncio, depois as respirações misturadas com o trepidar dos trilhos, e em seguida nada além da montanha sacudindo embaixo dos nossos pés enquanto o trem acelerava pelo túnel.
Esperando.
Esperando.
O trem disparou para fora do túnel em uma explosão de fumaça negra.
— Agora!
Nós meio que corremos, meio que deslizamos montanha abaixo, mergulhando na fumaça de carvão. A nuvem negra invadiu meus pulmões e meu nariz e me cegou, então não foi uma descida bonita. Estava novamente de pé e saltando antes de ter tempo de sentir a agonia da pele arrancada do meu cotovelo.
Num instante havia pedra sob meus pés, e no seguinte havia ar. O mundo inteiro parou.
Não consegui me equilibrar quando meus pés acertaram o teto do trem e eu caí em direção à ponta, o pânico tomando conta de mim. Uma mão firme agarrou a minha. Jin me puxou de volta para cima. Não havia como agradecer com o ruído ensurdecedor do trem. Apertei a mão dele por um instante.
E então nos separamos, sua mão arrancada da minha. Shazad e eu corremos para a frente do trem; Jin, Bahi e Hala, para a parte de trás. Não olhei para baixo, nem para os trilhos que passavam rápido sob nós, nem para mais nada, não até estarmos o mais adiante possível sem escalar o motor.
Desci primeiro, em direção à porta que nos permitiria entrar, segurando na parte de fora do trem enquanto ele tentava me derrubar a cada sacudida, o vento uivando em meus ouvidos.
Shazad aterrissou perto de mim com uma graciosidade felina. Verifiquei a arma na cintura e ela segurou firme a espada.
Terror e adrenalina disputavam minha atenção. Podia ver tudo o que eu sentia espelhado nos olhos dela. Estávamos em sincronia.
A porta do vagão se abriu com força sob nossos pés.
Fileiras de assentos vazios. Lampiões de vidro empoeirado balançavam silenciosamente com o movimento do trem. Abaixamos as armas. Uma das janelas estava estilhaçada, havia uma mesa virada.
Prosseguimos em silêncio, meu dedo no gatilho. Minha outra mão descansava sobre a arma sobressalente.
Shazad e eu nos movemos juntas pelo trem, um vagão vazio por vez. No meio do caminho, ela expressou em voz alta o medo que tinha começado a crescer dentro de mim.
— Os outros já deviam ter chegado aqui.
Segurei a arma mais forte e desejei ter algo em que atirar.
Quando abrimos de supetão a porta seguinte, havia um vão com o comprimento de um braço antes do próximo vagão. Parada diante dele, parecia tão largo quanto o vale de Dev.
Eu não podia olhar para baixo. Não queria olhar para baixo. Não com os trilhos passando como um borrão sob nós. Mas precisávamos continuar. Precisávamos encontrar a arma antes que ela nos encontrasse.
— Se afasta — eu disse a Shazad, guardando minha arma. — Eu vou primeiro.
Ela não teve tempo de discutir: agarrei a moldura da porta, tomei impulso para trás, depois arremessei meu corpo para a frente.
O vento assoviava nos meus ouvidos, me desafiando a cair.
Colidi contra o outro vagão. A porta não cedeu. Tentei agarrar o ar enquanto meu coração ameaçava afundar no peito e levar meu corpo inteiro junto com ele direto para os trilhos.
Senti minha mão se fechar em algo sólido: uma escada à esquerda da porta. Eu me puxei para cima, endireitando o corpo, tremendo enquanto me segurava à barra fria de metal. Tudo o que conseguia enxergar eram minhas mãos e o metal. Shazad gritou algo que não pude ouvir com o vento.
Virei o máximo possível para segurar sua mão. Seus dedos estavam na fronteira do meu campo de visão, estendidos na minha direção.
A porta se abriu com um estrondo. Tudo o que vi foi um uniforme dourado, uma ameaça de morte.
Mas Shazad era mais rápida que a morte.
Ela mergulhou no vão entre os vagões. Vi a luz de uma faca em sua mão, e então vermelho espalhado sobre dourado e branco. Se o soldado gritou antes de cair nos trilhos, o som se perdeu com o ruído do trem.
Eu não o vi morrer. Tudo o que vi foi Shazad aterrissando com força demais sobre o tornozelo.
Seu pé cedendo sob seu corpo.
O vento em seus cabelos pretos, torcendo-os em volta do pescoço como uma corda.
Seus olhos fixos nos meus enquanto ela caía em direção aos trilhos.

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