23 de setembro de 2018

Capítulo 22

MAGNUS
AURANOS

Claro, Magnus a seguiu no mesmo instante.
Ele observava Cleo e Enzo sob o pesado capuz preto do manto, o que ajudava a ocultar sua identidade de olhos curiosos por entre o labirinto de ruas repletas de cidadãos que festejavam. Sob o sol forte do meio da tarde, era impossível ignorar as faixas coloridas e gritantes do festival e as pinturas temporárias nas laterais das construções.
A Cleiona original deve ter desfrutado de um estilo de vida hedonista assim como seus atuais adoradores, Magnus acreditava. Diziam que Valoria tinha um comportamento muito mais calmo. Ela valorizava o silêncio, e não as festividades, a calma e a reflexão acima da indulgência embriagada. Aquilo dava aos limerianos um senso de superioridade em relação aos vizinhos do sul.
Mas Magnus sabia que nem todos eram tão devotados quanto mandava a lei. Ele tinha descoberto uma taverna limeriana que servia vinho em segredo para quem pedisse, e sem dúvida não era a única. Além disso, grande parte do ouro que seu pai tinha obtido, pelo menos até que a dispendiosa guerra contra Auranos o desprovesse do acesso à fortuna, tinha vindo de multas cobradas daqueles que não respeitavam os dois dias de silêncio semanais.
Para ser sincero, Magnus não se lembrava da última vez que ele mesmo tinha respeitado aquela regra.
Ele viu Cleo e Enzo passarem diante de várias lojas: padarias e joalherias, alfaiates e sapateiros. Cleo não usava nenhum disfarce, apenas um par de luvas de seda branca para cobrir as marcas da Tétrade da água. Ela cumprimentava todos que se aproximavam com um sorriso caloroso, permitindo que fizessem reverências ou mesuras antes de pegar nas mãos deles e dizer algo bondoso que os deixava radiante de felicidade.
O povo Auraniano amava sua princesa dourada.
Ela merece todo aquele amor, Magnus pensou com a garganta apertada.
Depois de um tempo, quando Cleo já tinha falado com dezenas e dezenas de pessoas, Magnus a viu indicar um prédio específico a Enzo. Ele balançou a cabeça, mas Cleo insistiu. Finalmente, ele concordou, e os dois desapareceram lá dentro.
Magnus olhou para a placa do lugar.
A Fera.
Ele não a tinha reconhecido devido à luz forte do dia, mas conhecia bem aquela taverna. Resolveu que seria melhor ficar do lado de fora, onde não seria reconhecido e poderia observar de longe.
Um fluxo constante de clientes entrava sóbrio e saía embriagado, cantando a plenos pulmões, mas Cleo e Enzo ainda não tinham aparecido. A impaciência de Magnus crescia conforme a tarde passava.
E a preocupação se instalava.
Por que estavam demorando tanto?
Ele atravessou a rua até a taverna e entrou. Lá dentro, não se via diferença entre dia e noite. Não havia janelas para deixar a luz entrar, então as paredes eram repletas de lamparinas e havia um lustre carregado de velas pendendo do teto. O salão estava lotado, todas as mesas ocupadas. Magnus mal podia ouvir os próprios pensamentos com o barulho das conversas misturado com a música da rabeca. O lugar cheirava a fumaça de cigarrilha, hálito de álcool, e centenas de corpos que não tinham se banhado naquele dia.
Ele ficou se perguntando, consternado, se a taverna sempre tinha sido daquele jeito, e se ele estivera bêbado demais para notar nas visitas anteriores.
Magnus não viu Cleo em lugar nenhum, então puxou mais o capuz sobre o rosto e avançou por entre uma massa de corpos suados que dançavam sobre um chão coberto de serragem. Ele fez cara feia quando um casal pouco vestido, beijando-se apaixonadamente, cruzou seu caminho, derrubando vinho de seus cálices em suas botas de couro.
Por que Cleo desejaria passar mais de um segundo em um lugar como aquele?
Um homem barbudo tropeçou nos próprios pés e caiu na frente de Magnus. Então, rindo, ele se levantou no mesmo instante e seguiu seu caminho.
Auranianos bárbaros, Magnus pensou.
O rabequista terminou a música e recebeu aplausos da multidão embriagada. Ele se levantou e falou em voz alta o suficiente para ser ouvido:
— Temos alguém aqui que deseja fazer um brinde a todos vocês! Silêncio, por favor! Deixem o rapaz falar!
Fez-se silêncio no salão, e Magnus viu de canto de olho o uniforme vermelho de um guarda. Ele se virou devagar quando Enzo, com uma caneca grande de cerveja na mão, subiu em uma longa mesa de madeira.
— Não sei bem se quero fazer isso — Enzo comentou, hesitante. — Acho que bebi demais hoje.
A multidão riu como se ele tivesse contado a piada mais engraçada do mundo.
— Tudo bem! — o músico disse a ele. — Todos nós bebemos! Fale com o coração, em homenagem à deusa e seu sopro mágico e doce. Faça seu brinde!
Enzo não disse nada por um instante, e a multidão iniciou um burburinho quando o silêncio se tornou constrangedor.
Então ele levantou a caneca no ar.
— A Nerissa Florens, a garota que eu amo.
A multidão vibrou e bebeu, mas Enzo ainda não tinha terminado.
— A garota que eu amo — ele repetiu — e que nunca me amou! A garota que roubou meu coração, cortou-o em pedacinhos, e os jogou no Mar Prateado quando partiu com outro homem! Um homem que só tem um olho, devo acrescentar, quando tenho dois olhos perfeitamente bons! Deusa, como eu o odeio. Sabem o que ela me disse? “É o meu dever.” O dever dela!
Magnus ficou observando o guarda. Ele sabia que Enzo era muito leal, muito quieto e muito calmo — até então. Quanta cerveja ele tinha tomado desde que chegaram?
Enzo continuou:
— Se algum de vocês conhecer Felix Gaebras, e sem dúvida muitos conhecem, não devem confiar nele.
Ele com certeza ia parar, Magnus pensou.
Enzo bateu o pé, fazendo vários pratos de metal voarem da superfície da mesa.
— Nerissa não valoriza o compromisso, ela me disse! Disse várias vezes, mas em que devo acreditar? Que suas atenções eram apenas temporárias? Que os beijos não significavam nada? — Ele ficou sem voz. — Será que ela não sabe que meu coração está em pedaços com sua ausência?
O olhar de Magnus passeou sobre a multidão e viu Cleo, com seu cabelo loiro, correndo na direção de Enzo.
— Por favor, desça daí, Enzo — Cleo implorou.
Vê-la aliviou um pouco do aperto em seu peito.
— A princesa dourada deseja fazer um brinde também! — o rabequista anunciou.
Cleo balançou as mãos.
— Não, não. Não quero. Só estou tentando pegar meu amigo antes que ele diga alguma coisa de que possa se arrepender profundamente.
— Se alguém me perguntasse — Enzo disse em voz alta, ignorando totalmente a princesa —, eu diria que algo curioso está acontecendo entre Nerissa e a imperatriz. Sim, vocês me ouviram bem. Algo muito além da relação entre uma criada e uma soberana. — Ele tomou um grande gole da caneca e a levantou mais uma vez. — Vocês sabem o que dizem sobre os kraeshianos.
— O quê? — alguém gritou. — O que dizem sobre os kraeshianos?
— Que o único leito frio para um kraeshiano é seu leito de morte. — Os ombros de Enzo então desabaram, como se ele tivesse esgotado sua última gota de energia. — Muito obrigado a todos por se juntar a mim neste brinde.
A multidão ficou em silêncio absoluto por um instante, mas logo voltou a vibrar, e o rabequista começou a tocar a próxima música.
Magnus se aproximou de Cleo enquanto ela ajudava Enzo a descer da mesa.
— Isso foi… fascinante — ele disse, não mais interessado em esconder sua presença.
Cleo virou para ele.
— Você nos seguiu?
— Segui. Se não tivesse seguido, não teria ouvido essa fofoca intrigante sobre sua criada preferida.
— Enzo está bêbado — Cleo explicou. — Ele não sabe o que está falando.
Magnus olhou para o guarda.
— Vejo que a princesa conseguiu corrompê-lo a seguir seus costumes auranianos em um período vergonhosamente curto de tempo.
Enzo se apoiou em uma parede próxima.
— Vossa alteza, eu não acho…
— Sem dúvida houve uma profunda falta de reflexão aqui. Seu único trabalho é manter Cleo em segurança, e não lamentar embriagado em público por seu amor perdido.
Enzo abriu a boca, talvez para protestar, mas Magnus levantou a mão.
— Você está dispensado pelo resto do dia. Vá beber o quanto quiser. Encontre outra garota para esquecer Nerissa. Tenho certeza de existem muitas sob este teto que estariam dispostas a ajudar. Faça o que quiser, contanto que saia da minha frente.
Enzo olhou para Cleo com incerteza por um instante, depois fez uma reverência profunda, quase perdendo o equilíbrio.
— Sim, vossa alteza.
Magnus o viu desaparecer na multidão antes de Cleo lançar um olhar irritado para o marido.
— Isso foi grosseiro — ela disse.
— O que quer dizer com isso?
— Enzo merece respeito.
— Não, hoje ele não mereceu. — Magnus cruzou os braços. — Agora, o que vamos fazer com você?
Ela arqueou as sobrancelhas claras.
— Sugiro que nem tente me dizer o que fazer.
— Se dissesse, certamente não esperaria que me ouvisse — ele resmungou.
— Ótimo.
Magnus pegou sua mão, e ela não tentou afastá-lo. Ele passou o polegar sobre a luva de seda.
— Esconder não muda o que está acontecendo.
Cleo olhou para o chão.
— Isso me ajuda a esquecer por um momento, para que eu possa tentar me sentir normal de novo.
Magnus estava prestes a responder quando sentiu alguém colocar a mão sobre seu ombro. Ele se virou e viu uma mulher de seios grandes olhando para os dois com um sorriso amplo e cheio de dentes.
— Pois não? — ele disse.
O sorriso aumentou ainda mais.
— Vocês formam um casal tão adorável.
— Muito obrigada — Cleo respondeu.
— Ver vocês aqui, juntos — a mulher disse —, comemorando com todos nós, aquece o coração.
— De fato — Magnus disse com desdém. — Por favor, não nos deixe tomar mais tempo de sua… diversão. — Ele pegou Cleo pelo braço e a puxou até uma distância segura. — Vamos embora.
— Não quero ir ainda. Gosto daqui. — Ela observou a taverna escura.
— Acho difícil de acreditar.
— Nunca estive aqui antes.
— Eu já. — Ele observou ao redor e as lembranças, a maioria pouco nítida, voltaram de uma vez à sua mente. — Logo antes de eu encontrar você no templo aquela noite.
Cleo franziu a testa, e seu olhar ficou distante.
— Quando lhe ofereci uma aliança temporária, mas você estava bêbado demais para me escutar, e depois passou a noite na cama de Amara.
Ele fez cara feia.
— Na verdade, foi na minha cama. E eu esperava nunca mais ser lembrado daquele erro infeliz.
A expressão irritada de Cleo se desfez.
— Peço desculpas. Já passou, assim como muitos outros problemas.
— Ótimo — ele disse, e observou o rosto dela. — Quer mesmo ficar aqui?
— Não. — Ela balançou a cabeça. — Vamos voltar para o palácio.
O rabequista acabou de tocar uma canção e anunciou que mais alguém queria propor um brinde.
— Espero que não seja Enzo de novo — Magnus murmurou.
De canto de olho, ele viu alguém subir na mesma mesa que Enzo havia usado como palco improvisado, com um cálice de prata na mão.
— Meu brinde vai para o príncipe Magnus, herdeiro do trono de seu pai! — anunciou a voz dolorosamente familiar. — Um verdadeiro amigo e, acreditem, um verdadeiro sobrevivente.
— Magnus… — Cleo começou a apertar o braço dele com força.
Com o coração acelerado, Magnus virou para lorde Kurtis, cujo olhar frio estava fixo nele.
Kurtis levantou seu cálice.
— Um viva para o príncipe Magnus!
A multidão vibrou e brindou mais uma vez, bebendo muito. Em seguida, o tocador preencheu o ar barulhento com música.
O ex-grão-vassalo do rei desceu da mesa e foi em direção à saída.
— Magnus… — Cleo tentou chamá-lo.
— Fique aqui — ele ordenou.
Sem dizer mais nada, Magnus foi atrás de lorde Kurtis.
Ele saiu d’A Fera, olhando para todos os lados, tentando avistar Kurtis fugindo pelo meio da multidão. Finalmente, seu olhar se estreitou sobre um rosto de fuinha, pálido e familiar, rindo em sua direção.
Magnus empurrou vários homens que estavam em seu caminho.
A bebida fria que caiu em suas botas o distraiu por tempo suficiente para Kurtis desaparecer.
Ele soltou um xingamento de frustração.
— Lá na frente! — Cleo gritou. — Na esquina, ele virou à esquerda.
Magnus ficou nervoso.
— Eu falei para você ficar lá dentro.
O rosto dela estava corado quando parou ao lado dele.
— Sim. E eu ignorei. Vamos logo. Ele está fugindo!
Em vez de discutir, Magnus seguiu a sugestão dela, deixando a área mais agitada e descendo uma rua iluminada por poucas tochas para compensar a noite que começava a cair sobre a Cidade de Ouro.
Magnus tinha sonhado com aquele momento. Fantasiado com ele. Além de imaginar besouros famintos e a morte com uma colher, o tempo infinito que passara naquele caixão extremamente pequeno tinha incluído a imagem das próprias mãos em volta do pescoço de lorde Kurtis Cirillo, estrangulando-o até aquela vida inútil se esvair.
A forma escura de Kurtis deslizou por outra esquina. Magnus estava se aproximando; os passos de Kurtis eram rápidos, mas não o bastante.
A viela era um beco sem saída, que terminava em uma parede de pedra. Kurtis parou de repente. E virou devagar para Magnus.
— Não tem mais para onde fugir? — Magnus comentou. — Que azar.
— Eu não estava fugindo.
— Pois deveria.
Cleo alcançou Magnus e parou ao seu lado, braços cruzados e o longo cabelo loiro atrás das orelhas. Seu rosto era uma magnífica máscara de reprovação fria. Os olhos azuis estavam semicerrados.
Um filete azul se enrolava em sua têmpora esquerda. Magnus poderia tê-lo confundido com uma decoração feita por um talentoso maquiador do festival se não soubesse a verdade.
As marcas da Tétrade da água tinham se espalhado ainda mais.
— Você precisa me contar seu segredo — Kurtis disse.
— Que segredo? — ele resmungou.
— Como conseguiu sobreviver e estar aqui diante de mim esta noite. — Kurtis analisou o corpo dele com atenção. — Ouvi seus ossos se quebrarem, foram ossos demais para você estar em pé e caminhando com tanta facilidade. E ajudei a jogar terra sobre seu túmulo. Você não tinha como sobreviver àquilo.
— Eu mesmo vou matar você — Cleo rosnou para ele.
— Como? Com suas excelentes habilidades com o arco e flecha? — Kurtis abriu um sorriso frio para ela antes de voltar os olhos para Magnus. — Sua doce irmãzinha o curou com seus lendários elementia?
— Não — Magnus respondeu apenas.
Kurtis franziu a testa.
— Então como?
— É um mistério, não é? — Magnus olhou para o coto na extremidade do braço direito de Kurtis. — Assim com o paradeiro de sua mão direita.
O rosto de Kurtis começou a tremer, e o ódio tomou conta de seus olhos.
— Você vai se arrepender disso.
— Eu me arrependo de muitas coisas, Kurtis, mas cortar sua mão não é uma delas. — Magnus se arrependeu de ter saído do palácio sem uma espada. Uma tolice. Mas não precisaria de uma para acabar com a vida daquele verme.
Ele deu um passo ameaçador na direção de Kurtis.
— Não quer saber por que estou aqui? — Kurtis perguntou com os olhos cintilando de malícia. — Por que eu correria esse risco?
Magnus olhou para Cleo.
— Queremos saber?
Ela assentiu.
— Preciso admitir, estou vagamente curiosa.
— Eu também — Magnus confirmou. — Talvez ele esteja aqui porque soube que meu pai cortou a garganta do pai dele.
— Pode ser — Cleo concordou. — Talvez devamos ser tolerantes. Afinal, ele está de luto, assim como você.
Kurtis mostrou os dentes como uma fera.
— Sei que meu pai está morto.
— Excelente. — Magnus bateu palmas. — Então podemos continuar sem interrupções. Não seria minha preferência matar você durante um festival tão alegre quanto este, mas vou abrir uma exceção.
A voz de Kurtis se transformou em um sussurro.
— Kyan me mandou aqui.
O estômago de Magnus se revirou. Ele se esforçou para respirar.
— Você está mentindo.
Kurtis abriu a frente da camisa e mostrou uma marca em forma de mão no peito, que parecia muito dolorida.
— Ele me marcou com seu fogo.
Era a mesma marca que Kyan tinha ameaçado fazer em Magnus, que o transformaria em um escravo mortal do deus do fogo.
Kurtis passou a mão sobre a marca, se contorcendo.
— É uma honra, claro, ser marcado por um deus. Mas é como se as presas de um demônio estivessem se cravando cada vez mais fundo dentro de mim a todo momento. A dor é um lembrete constante de onde está minha lealdade.
— Por quê? — Cleo perguntou, a voz tensa. — Por que Kyan quis que você viesse até aqui?
— Porque quer que eu a leve até ele, princesa — Kurtis respondeu.
— Então ele vai ficar decepcionado — Magnus vociferou. — Porque Cleo não vai a lugar nenhum com você.
Kurtis abriu um leve sorriso.
— Preciso admitir, vou lamentar não saber como você escapou de seu túmulo. Mas ninguém pode saber tudo.
— Acha que vou deixar você ir embora? Isso acaba aqui e agora!
— Acaba, sim. — A voz veio de trás deles. Magnus virou de súbito e viu Taran Ranus parado na abertura da viela.
Magnus o encarou, confuso.
— Como você nos encontrou?
Taran abriu a boca para responder, mas, ao mesmo tempo, Cleo soltou um grito agudo. Magnus virou a cabeça na direção dela e viu que Kurtis a havia agarrado por trás e colocado um pano sobre sua boca.
Um frio explodiu no ar. Uma névoa gelada saía de onde estava a princesa e corria pelas paredes, cobrindo-as com uma fina camada de gelo em um instante.
Então Cleo revirou os olhos.
Magnus tentou correr na direção dela.
Taran moveu a mão, e Magnus ficou paralisado, incapaz de se mover.
— O que está fazendo, seu idiota? — Magnus perguntou. — Ajude Cleo!
Cleo estava desacordada nos braços de Kurtis. O pano devia ter algum tipo de poção para dormir, Magnus se deu conta, consternado.
— Eu vou ajudá-la — Taran disse calmamente. — E então nós quatro vamos nos reunir, onipotentes. Invencíveis.
Magnus olhou horrorizado para o rebelde.
— O que você…?
— Mate-o agora! — Kurtis gritou.
Taran moveu o punho mais uma vez. Magnus ficou suspenso no ar por uma fração de segundo e depois atingiu a parede congelada com força o bastante para quebrar um osso. Ele desabou no chão.
— Cuide dela — Kurtis disse para Taran. — Você é mais forte do que eu, e o caminho é longo.
Taran fez o que o outro pediu, levantando o corpo desacordado de Cleo com facilidade.
— Onde estão os outros? Ainda estou recobrando os sentidos. Nada está muito claro. Ainda não consigo senti-los.
— No templo de Cleiona — Kurtis respondeu.
As vozes ficaram mais distantes. Magnus não conseguia se mexer, mal conseguia pensar. Eles acreditavam que o tinham matado, mas… ele não estava morto. O peso frio da pedra sanguínea em seu dedo médio, contra sua pele, era um lembrete constante da magia que ele usava.
Mas ele temia que aquela magia não fosse suficiente daquela vez, principalmente quando o mundo desaparecia à sua volta, restando apenas uma completa escuridão.
Ele foi acordado por um cutucão de leve.
— Ele é um sonho, não é? — Era a voz de uma garota, arrastada e embriagada.
— Ah, minha deusa, sim! — respondeu outra garota. — Bem, quando o vi na sacada do palácio, ele parecia tão frio, tão inacessível… Mas de perto assim? Lindo, não é?
— Muito lindo — a amiga concordou. — A princesa tem muita sorte.
— Será que é melhor buscarmos um médico para ajudá-lo?
— Acho que ele só está bêbado. Você sabe o que dizem sobre o príncipe Magnus e o vinho.
— É mesmo. — Outro cutucão. — Príncipe Magnus? Vossa alteza?
Magnus piscou, tentando expulsar a escuridão da mente, tentando se concentrar no pouco de luz que havia no mundo consciente. Ele ainda estava na viela onde tinha encurralado Kurtis. O céu estava escuro, o sol tinha ido embora. Já era noite. Seus olhos se focaram nas duas garotas, mais ou menos da idade de Cleo, que o observavam com grande interesse.
— Onde… ela está? — ele conseguiu perguntar. — Onde está Cleo?
Em uníssono, ambas arrulharam com felicidade.
— Estávamos esperando que vocês dois encontrassem a felicidade juntos — disse a primeira garota. — Vocês são tão perfeitos um para o outro!
— Eu não gostava dela no início — a amiga respondeu. — Mas fui mudando de ideia.
A primeira garota assentiu.
— Você é tão misterioso e sombrio, vossa alteza. E ela é como um raio de sol. Tão perfeito!
— Tão perfeito — a amiga concordou.
— Eu preciso ir. — Magnus tentou levantar, e as garotas se ajoelharam para ajudá-lo. Como ainda se sentia incrivelmente instável, ele permitiu, depois cambaleou na direção do palácio.
— Adeus, meu príncipe! — as garotas gritaram para ele.
A mente de Magnus estava acelerada quando chegou no palácio.
Ashur, com os braços repletos de livros da biblioteca, foi a primeira pessoa que cruzou seu caminho.
— Magnus… — Ashur o chamou, arregalando os olhos de preocupação.
— Ele a levou.
— Quem?
— Kyan. — Magnus segurou Ashur pelos ombros. — A Tétrade, o deus do ar, ele assumiu completamente o controle do corpo de Taran. Ele e Kurtis Cirillo levaram Cleo.
Ashur largou os livros, que se espalharam pelo chão.
— Taran estava descansando no quarto. Eu o deixei há pouco tempo.
— Acredite, ele não está mais lá.
Magnus desejava não ter mandado Valia embora. Ele precisava de toda a ajuda que pudesse ter, mas não havia tempo para encontrá-la de novo.
— Preciso chegar ao Templo de Cleiona — ele disse.
— A princesa foi levada para lá? — Ashur perguntou.
Magnus confirmou.
— Eles saíram faz tempo, então preciso ir agora mesmo.
Ashur assentiu.
— Vou com você.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!