16 de setembro de 2018

Capítulo 22

JONAS
PAELSIA

Jonas teve que sair do complexo antes de encontrar Nic. Eles tinham sido separados depois da revolta rebelde. A multidão à espera da imperatriz tinha entrado em pânico, e as pessoas começaram a lutar umas contra as outras e contra os guardas kraeshianos. Sua visão do palco estava bloqueada, e ele se viu frente a frente com paelsianos irados e com a feiticeira que queriam matar.
— Pode olhar para mim com ódio — Lucia disse a ele enquanto se afastavam da confusão.
— Que bom que permite.
— Você me odeia. E, ainda assim, você salvou minha vida.
— É provável que eu tenha salvado a vida de uma dúzia de paelsianos que subestimaram sua capacidade de matar cada um deles.
— E você não me subestima?
— Não.
— Então sugiro que você me diga onde meu pai e meu irmão estão para que não tenha que colocar sua vida em risco por nenhum segundo a mais em minha companhia.
Jonas sabia que ela poderia cumprir uma ameaça, se quisesse. Ele temia quando pensava no poder daquela garota e no prejuízo e na destruição pela qual a responsabilizavam.
— Onde está o deus do fogo? — ele sussurrou.
Lucia arqueou as sobrancelhas. Jonas percebeu que ela estava chocada por ele saber quem — ou melhor, o que — Kyan era de fato.
— Já disse que não sei.
— Ele é o pai de seu filho?
Lucia deu uma risada alta e nervosa.
— Com certeza não.
— Não vejo graça nenhuma nisso.
— Não se engane, rebelde, nem eu.
— Continue andando — ele disse quando Lucia diminuiu o ritmo. — Pelo jeito você está pesada demais para ser carregada.
A resposta de Lucia ao insulto foi parar totalmente. Os dois tinham adentrado uma parte densa da floresta a caminho da cidade mais próxima, onde Jonas pretendia conseguir transporte para o oeste.
— Responda à minha pergunta: onde estão meu pai e meu irmão? Sei que ainda estão vivos. Só podem estar.
— Se eu responder à sua pergunta, que certeza posso ter de que você não vai acabar com a minha vida? — ele perguntou.
— Nenhuma.
— Exatamente. Por isso mesmo vou levá-la até eles.
Lucia se surpreendeu.
— Então eles estão vivos!
— Talvez — ele disse.
— E como posso acreditar que você quer me ajudar?
Jonas virou e levantou o dedo indicador para ela.
— Não se engane, princesa Lucia, não estou fazendo isso para ajudá-la. Estou fazendo isso para ajudar Mítica.
Ela revirou os olhos.
— Que nobre.
— Pense o que quiser. Não me importa. Você se recusa a responder às minhas perguntas, então me recuso a responder às suas. Nosso destino final não está muito longe, mas você precisa encontrar uma maneira de lidar com minha presença e com meu ódio durante o trajeto que vamos percorrer juntos.
— Acho que não. Vou contar um segredinho para você, rebelde, a respeito de uma habilidade especial que descobri recentemente. Posso forçar você a dizer a verdade… e quanto mais resistir, mais vai doer.
Jonas virou para encará-la de novo, mais irritado do que intimidado.
— Você sempre foi má assim ou só começou quando descobriu que era uma feiticeira?
— Sinceramente? — Ela abriu um sorriso frio. — Só depois.
— Acho difícil acreditar nisso. Você e sua família… são maldade pura, todos vocês.
— E ainda assim você está nos ajudando. — Lucia franziu a testa discretamente. — Pelo menos, diga que estão bem, que saíram ilesos depois de tudo o que aconteceu.
— Ilesos? — Ele sorriu com ironia. — Não sei de nada. Finalmente tive a chance de enfiar uma adaga no coração do rei. Por azar, isso só o atrapalhou um pouco.
Os olhos dela brilharam, furiosos.
— Mentira.
— Bem aqui. — Ele indicou o peito. — Certeiro e profundo. Até girei. Foi tão bom que não consigo nem explicar.
Um instante depois, ele se viu no ar, voando até bater as costas no tronco de uma árvore com força suficiente para tirar seu fôlego.
Lucia se ajoelhou ao lado dele, apertando sua garganta.
— Olhe para mim.
Desorientado, Jonas encarou os olhos azul-claros dela.
— Diga a verdade — ela rosnou. — Meu pai está morto?
— Não. — A palavra foi dita com dificuldade.
— Você o apunhalou no coração mas ele não morreu?
— Exatamente.
— Como isso é possível? Responda!
Jonas não conseguia desviar daqueles olhos lindos e assustadores. A magia que ela tinha perdido — se é que isso de fato havia acontecido — estava de volta. E Lucia estava bem mais forte do que ele esperava.
— Algum tipo de magia… Não sei. Isso prolongou a vida dele.
— Magia de quem?
— Da mãe. dele. — Jonas tinha certeza de que estava sentindo gosto de sangue, forte e metálico. Ele engasgou enquanto tentava resistir à magia.
Ela franziu ainda mais a testa.
— Minha avó morreu.
— Ela está viva. Não sei muito mais do que isso. — Ele fez uma careta pela dor de estar contando todas aquelas verdades. — Agora, me faça um favor, princesa.
Ela inclinou a cabeça, mas não cedeu nem um pouco.
— Dificilmente.
Jonas semicerrou os olhos e tentou, com toda a força, canalizar a própria magia como tinha feito sem querer no navio com Felix.
— Me solte.
Lucia soltou Jonas e caiu para trás como se tivesse sido empurrada pelo rebelde.
Tossindo e com a mão no pescoço, Jonas levantou e olhou para ela.
Percebeu que esboçava um sorriso. Olivia deveria estar enganada sobre o poder de sua magia. Jonas se permitiu um breve momento de vitória.
Lucia o encarou, com os olhos arregalados.
— Você pode canalizar a magia do ar? Um bruxo? Nunca soube sobre algo assim… Ou você é um Vigilante exilado?
— Prefiro evitar títulos, princesa — ele disse. — E, francamente, não sei o que sou, só que tenho que lidar com isso agora. — Ele levantou a camisa o suficiente para revelar a marca em espiral em seu peito, que tinha ficado mais brilhante desde a última vez em que ele olhara, e agora cintilava num tom dourado que o fazia lembrar cada vez mais da marca de um Vigilante.
— O quê? — Lucia balançou a cabeça com os olhos arregalados. — Não compreendo.
— Nem eu. E juro, se essa é minha profecia, cuidar para que alguém como você volte para sua odiosa família sã e salva, vou ficar furioso. — Ele olhou para cima, para as árvores. — Olivia, está me ouvindo onde quer que esteja? É a pior profecia do mundo!
— Quem é Olivia?
— Deixa para lá. — Ele olhou para Lucia, ainda deitada no chão. — Levante.
Ela tentou ficar de pé.
— Hum…
— Não consegue levantar, não é?
— Me dê um minuto. Minha barriga está um pouco esquisita no momento. — Lucia olhou feio para ele. — E, por favor, nem pense em me ajudar.
— Não pensei. — Jonas ficou observando enquanto ela rolava devagar e com dificuldade para o lado, e então levantava, batendo no manto para tirar as agulhas de pinheiro e a terra. — Você ainda não está acostumada com sua situação? Já vi paelsianas grávidas, a poucos dias de dar à luz, cortando madeira de uma árvore inteira e carregando para casa.
— Não sou uma paelsiana — ela disse e hesitou. — Bem, não exatamente. E não tive tempo de me acostumar com minha “situação”, como você diz.
Que moça esquisita.
— Você está grávida de quantos meses?
— Não que seja da sua conta, mas… cerca de um mês.
Jonas olhou para o corpo dela sem acreditar.
— É assim que funciona com as feiticeiras cruéis? Os bebês delas se desenvolvem muito mais depressa do que os bebês normais?
— Não tenho como saber. — Lucia cruzou os braços como se tentasse proteger a barriga. — Compreendo seu ódio por mim. Compreendo o ódio de todos por mim. O que fiz desde… desde que o pai desta criança morreu é imperdoável. Sei disso. Mas essa criança é inocente e merece uma chance de viver. O fato de você, logo você, ter vindo ajudar alguém como eu… Você está marcado como imortal, mas afirma não ser bruxo nem exilado. Isso deve significar alguma coisa. Você fala sobre profecias. Sei bem que sou o alvo de profecias. Para mim, isso quer dizer que essa criança é importante para o mundo.
— Quem é o pai? — Jonas perguntou. Ele não queria sentir pena pelo que Lucia estava passando nem deixar que a voz dela o emocionasse.
— Um imortal exilado.
— E você disse que ele está morto.
Ela assentiu uma única vez.
— Como? — Jonas perguntou. — Você o matou?
Lucia ficou em silêncio por tanto tempo que ele achou que ela não responderia.
— Não. Ele tirou a própria vida.
— Interessante. É essa a única maneira de escapar de suas garras sombrias?
O olhar de ódio de Lucia o fez recuar. Mas era mais do que isso. Os olhos dela estavam vermelhos, numa mistura de cansaço e tristeza.
— Desculpa — Jonas disse antes de pensar em outra resposta. — Acho que fui desnecessariamente grosseiro.
— Foi. Mas eu não esperaria nada menos de alguém que pensa que sou cruel. O que Kyan fez com sua amiga…
— Lysandra — ele disse com a voz embargada. — Ela era incrível… A garota mais forte e corajosa que já conheci. Ela merecia a vida que Kyan lhe roubou sem um segundo de hesitação. Ele estava mirando em mim, eu deveria ter morrido naquele dia, não ela.
Lucia assentiu com tristeza.
— Sinto muito. Percebo que Kyan não é uma pessoa, não é alguém com sentimentos e necessidades como as dos mortais, e não é possível discutir com ele. Kyan vê todas as falhas e imperfeições deste mundo. Ele deseja reduzir tudo a cinzas para poder recomeçar. Diria que ele é maluco, mas é fogo. Fogo arde. Destrói. Essa é a razão de sua existência.
— Kyan quer destruir o mundo — Jonas repetiu.
Ela confirmou.
— Por isso eu o deixei. Por isso ele quase me matou quando eu disse que não o ajudaria mais.
Jonas demorou um momento para absorver a informação.
— Você diz que o fogo destrói. Mas o fogo também cozinha comida e nos aquece em noites frias. Esse tipo de fogo não é cruel, é um elemento que usamos para viver.
— A única certeza que tenho é de que ele precisa parar. — Ela levou a mão ao bolso do manto e tirou uma pequena esfera de âmbar. — Esta era a prisão de Kyan.
Jonas ficou sem palavras por um momento.
— E você acha que pode prendê-lo de novo aí dentro e salvar o mundo?
— Pretendo tentar — ela disse apenas.
Ele observou o rosto de Lucia, determinado e sério olhando para a esfera de cristal. Ela parecia muito sincera. Podia acreditar nela?
— Pelo que sei a respeito do deus do fogo, a imperatriz não parece ser grande ameaça, certo?
Lucia guardou a esfera no bolso de novo.
— Ah, Amara provou que é uma ameaça. Mas Kyan é bem pior. Por isso, pode me considerar cruel, rebelde. Pode me considerar alguém que precisa morrer pelos crimes que cometi. Tudo bem. Mas saiba também que quero tentar consertar parte do que fiz agora que consigo pensar com clareza de novo. Primeiro, preciso ver minha família. Preciso… — As palavras de Lucia foram interrompidas quando ela se inclinou para a frente e chorou.
Jonas correu para o lado dela.
— O que foi?
— Dói! — ela disse. — Está acontecendo com muita frequência desde que saí. Ah… ah, minha nossa! Não consigo…
Lucia caiu de joelhos com as mãos na barriga.
Jonas olhou para ela, sentindo-se totalmente impotente.
— Droga. O que posso fazer? O bebê já está nascendo? Por favor, não me diga que o bebê já está nascendo.
— Não, não está… Acho que ainda não está na hora. Mas isso… — Quando ela gritou, o som atingiu Jonas como uma lâmina fria. — Me leve para minha família! Por favor!
O rosto da princesa estava pálido como papel em contraste com seu cabelo escuro. Ela revirou os olhos e caiu, inconsciente.
— Princesa — ele disse, tentando acordá-la. — Vamos, não temos tempo para isso.
Lucia não acordou.
Jonas virou e olhou para o conflito. Não demoraria muito para a multidão paelsiana encontrar armas e sair em busca dele e da feiticeira.
Finalmente, xingando em voz baixa, ele se abaixou e pegou a princesa nos braços, percebendo que ela era muito mais leve do que imaginava, mesmo com o bebê que esperava.
— Não temos tempo para ir até sua família — ele disse. — Por isso vou levá-la à minha. Estão muito mais perto.


A irmã de Jonas, Felicia, abriu a porta de casa e observou Jonas por um momento, em silêncio total. Em seguida, olhou para a garota grávida e inconsciente que ele carregava nos braços.
— Posso explicar — ele se apressou em dizer.
— Espero muito que possa. Entre. — Ela abriu mais a porta para Jonas entrar, tomando o cuidado de não bater as pernas de Lucia no batente.
— Deixe-a na minha cama — Felicia disse a Jonas. Ele fez o que sua irmã disse e voltou até ela, mas a irmã não o recebeu com um abraço. Simplesmente ficou ali, a expressão séria e furiosa, os braços cruzados.
Jonas não esperava que ela ficasse feliz ao vê-lo.
— Sinto muito por não ter vindo visitá-la — ele começou.
— Não tenho notícias suas há quase um ano e você aparece hoje de repente.
— Precisava de sua ajuda. Com… a garota.
Ela riu.
— Sim, com certeza precisa. O filho é seu?
— Não.
Ela não pareceu convencida.
— E o que você espera que eu faça por ela?
— Não sei. — Ele coçou a testa e começou a andar de um lado para o outro na casa pequena. — Ela não está bem. Sentiu dor na barriga e desmaiou. Eu não sabia o que fazer.
— Por isso a trouxe para cá.
— Eu sabia que você me ajudaria. — Ele suspirou nervoso. — Sei que você está brava comigo por eu ter passado muito tempo longe, mas era perigoso demais voltar.
— Sim, eu vi seus cartazes de procurado. O que era aquilo? Dez mil cêntimos para quem capturasse você, morto ou vivo?
— Mais ou menos isso.
— Você matou a rainha Althea.
— Não matei. É uma longa história.
— Imagino.
Ele observou ao redor, à procura de algum sinal do marido da irmã.
— Onde está Paolo?
— Morto.
Jonas a encarou.
— O quê?
— Foi tirado de mim, forçado a trabalhar para a Estrada Imperial. Eles queriam o nosso pai também, mas decidiram que, devido à idade e ao fato de mancar, ele era inútil. Paolo não voltou quando os operários finalmente foram liberados de suas tarefas. O que devo pensar além de que foi morto com os outros paelsianos que eram tratados como escravos?
Jonas olhou para ela em choque. Paolo foi um bom amigo quando a vida era difícil, mas simples.
— Felicia, sinto muito. Eu não imaginava…
— Não, tenho certeza de que não imaginava. Assim como tenho certeza de que não pensou que manter aquela princesa dourada presa em nosso abrigo quase causaria a morte dele também.
— Claro que eu não sabia disso. — Ele olhou para o chão de terra. — Você… você disse que nosso pai não foi levado?
— Não foi, mas assim que soube da morte do chefe, ficou muito doente… doente de pesar, diferente de qualquer coisa que tenha sentido quando a mamãe e o Tomas morreram. É como se a vontade que ele tinha de viver tivesse desaparecido. Eu o perdi faz dois meses. Agora cuido do vinhedo. São dias sobrecarregados, Jonas, com pouca ajuda.
Seu pai tinha morrido e Jonas não ficara sabendo. Ele sentou numa cadeira deixando o peso do corpo desabar.
— Sinto muito por não ter estado ao seu lado. Não sei o que dizer.
— Não há nada a dizer.
— Quando isso acabar, quando este reino voltar a ser como deveria, vou voltar. Vou ajudar você a cuidar da vinícola.
— Não quero sua ajuda — ela respondeu, e a raiva que Felicia estava controlando até aquele momento transbordou. — Consigo me virar sozinha. Bom, acho que já conversamos mais do que o suficiente. Vamos cuidar de seu problema para você poder ir embora o mais rápido possível. Não sou curandeira, mas já ajudei muitas mulheres grávidas.
— O que você puder fazer para ajudar será muito bem-vindo. Eu só esperava que você soubesse acabar com a dor.
— Algumas gestações são mais difíceis do que outras. Quem é ela? — Ela lançou um olhar incisivo para ele quando não obteve resposta. — Diga, Jonas, ou mando você embora.
Felicia estava diferente, mais dura, mais zangada. Cada palavra dita por ela fazia Jonas se encolher. Ele se sentia um idiota por pensar que quando voltasse nada teria mudado, mesmo depois de tanto tempo. Pensou em enviar uma mensagem, perguntar como as coisas estavam, mas não o fez. E o tempo tinha passado.
— Ela é Lucia Damora — ele respondeu com sinceridade, já que devia isso a Felicia.
Ela arregalou os olhos, chocada.
— O que você estava pensando ao trazer essa bruxa má aqui para dentro? Ela não é bem-vinda em minha casa. Tem noção do que ela fez? Um vilarejo que fica a menos de vinte quilômetros daqui foi incendiado. Todos os moradores foram mortos por causa dela. Ela merece morrer pelo que fez.
Cada palavra parecia um golpe, e Jonas não tinha o que argumentar.
— Talvez sim, mas no momento a magia dela é necessária para salvar Mítica. Para salvar o mundo. Você não deixaria uma criança inocente sofrer por causa das escolhas da mãe, deixaria?
Ela deu uma risada seca.
— Ouça só você, defendendo uma princesa real… De Limeros, ainda por cima! Quem é você, Jonas? No que meu irmão se transformou?
— Amara não pode controlar Mítica — ele disse. — Estou disposto a fazer o que for preciso para impedi-la.
— Você está cego como uma toupeira, irmão. A imperatriz é a única que pode salvar a todos nós. Ou será que você esqueceu o passado com tanta facilidade agora que sua cabeça está tomada por aquela droga cruel que está dormindo na minha cama?
— Minha cabeça não está tomada por ninguém — ele resmungou. — Mas sei o que é certo.
— Então precisa acordar. A imperatriz é o melhor que já aconteceu em Paelsia há gerações.
— Você está errada.
— Não estou errada — ela disse, e a raiva em sua voz finalmente deu lugar ao cansaço. — Mas não vou me dar ao trabalho de convencê-lo de algo que sei que é certo. Você se perdeu de nós, Jonas. Consigo ver em seus olhos. Você não é o mesmo garoto que cresceu desejando ser como Tomas, que ia caçar com ele na fronteira de Auranos, que ia atrás de todas as garotas do vilarejo. Não sei mais quem você é.
Ele sentiu uma pontada no peito ao pensar que a tinha decepcionado tanto.
— Não diga isso, Felicia.
Ela deu as costas para ele.
— Vou deixar você e aquela criatura passarem a noite aqui. E só. Se ela morrer por causa da dor que está sentindo, então deixe-a morrer. O mundo vai ficar melhor sem ela.
Jonas deitou no chão de terra, ao lado do fogo, a mente em disparada.
Quando chegou ali, pelo menos tinha um senso de direção, de propósito. Precisava levar Lucia até a família dela. Os Damora. O Rei Sanguinário que tinha oprimido seu povo. Que tinha assassinado o chefe Basilius. Que tinha mentido para dois exércitos sobre os motivos que deram início a uma guerra com os auranianos.
Felicia tinha razão. Amara Cortas tinha acabado com tudo aquilo ao ocupar Paelsia. Como foi que ele pegou aquele caminho? Era um rebelde, não o criado tímido de um rei sádico.
Jonas demorou muito para conseguir dormir. Em um sonho, ele se viu em um campo verdejante sob o céu azul e límpido. Ao longe, uma cidade que parecia feita de cristal brilhava sob o sol.
— Jonas Agallon, finalmente nos conhecemos. Olivia me contou muito sobre você. Sou Timotheus.
Jonas virou e viu um homem que parecia só alguns anos mais velho do que ele. Seu cabelo tinha um tom bronze escuro, os olhos, acobreados. Usava vestes que desciam até a grama cor de esmeralda.
— Você está em meu sonho — Jonas disse devagar.
Timotheus arqueou uma sobrancelha.
— Que dedução brilhante. Sim, estou.
— Por quê?
— Imaginei que teria muitas perguntas para me fazer.
Apesar de tudo o que sentia por estar frente a frente com o imortal sobre o qual Olivia havia contado pouco, não sentiu surpresa nem cansaço.
— Perguntas que você vai responder?
— Algumas, talvez. Outras, provavelmente não.
— Não, tudo bem. Só me deixe dormir. Estou cansado e não quero ter que desvendar enigmas.
— O tempo está passando. A tempestade está quase aqui.
— Você fala assim, tão vago e irritante, com todo mundo?
Timotheus inclinou a cabeça.
— Na verdade, sim. Falo, sim.
— Não gosto. E não gosto de você. O que quer que isso seja — Jonas indicou a marca em seu peito — quero que desapareça. Não quero nenhuma ligação com sua gente. Sou paelsiano. Não sou um Vigilante, nem bruxo, nem o que você acha que sou.
— Essa marca torna você muito especial.
— Não quero ser especial.
— Você não tem escolha.
— Sempre tenho escolha.
— Seu destino está escrito.
— Vá se ferrar.
Timotheus hesitou.
— Olivia disse que você é irredutível em suas observações. No entanto, tenho certeza de que percebeu que agora tem um pouco de magia. A magia de Phaedra. A magia de Olivia. Você as absorveu como uma esponja. Sua condição é rara e, repito, especial. As visões que tive de você são importantes.
— Certo. As visões. A profecia na qual levo Lucia Damora para a família dela.
— É o que você acha?
— Parece que é aonde meu destino está me levando.
— Não, não exatamente. Você vai saber quando acontecer. Vai sentir…
— O que sinto no momento é a necessidade de enfiar uma faca na sua barriga. — Jonas olhou para o imortal. — Ousa entrar no meu sonho agora, depois de todo esse tempo? Olivia me ajudou a ficar vivo, seguindo o que você mandou. Acho que ela não precisa mais de mim. Ou talvez esteja me espionando lá de cima como um falcão, como todos vocês fazem. A única coisa da qual tenho certeza é que estou cansado disso. Não importa o que você tem a dizer. Você espalha meias verdades como se a vida dos imortais fosse uma brincadeira.
Timotheus falou mais baixo.
— Não é uma brincadeira, meu jovem.
— Ah, não? Prove! Diga qual é meu destino, se acha que não posso evitá-lo.
Timotheus o observou.
— Não previ a gravidez de Lucia — ele admitiu. — Foi uma surpresa para mim, assim como tenho certeza de que foi para ela. Foi mantida em segredo de todos nós pelos Criadores, e deve haver um motivo para isso… um motivo importante. Eu via você como alguém que ajudaria Lucia durante a tempestade…
— De que tempestade está falando?
Timotheus levantou a mão.
— Não me interrompa. Estou sendo sincero com você como nunca fui com ninguém, porque agora vejo que não há tempo para mais nada.
— Então, desembucha — Jonas disse. Ele estava frustrado com tudo na vida, e ele queria descontar naquele imortal pomposo.
— O filho de Lucia terá muita importância. Muitos desejarão sequestrar a criança ou matá-la. Você vai proteger essa criança do perigo e vai criá-la como se fosse seu filho.
— É sério? E Lucia e eu seremos o quê? Vamos nos casar e viver felizes para sempre? Duvido.
— Não. Lucia vai morrer no parto na próxima tempestade. — Ele afirmou com firmeza, franzindo a testa. — Estou vendo agora, claramente. Antes eu achava que a magia dela pudesse ser transferida a você no momento da morte, transformando você em um feiticeiro que pudesse caminhar entre os mundos, cujo destino fosse aprisionar os deuses da Tétrade depois de serem libertados. Mas a magia de Lucia vai perdurar no filho dela.
Jonas o encarou boquiaberto, surpreso com a revelação.
— Ela vai morrer?
— Sim. — Timotheus deu as costas para ele. — É só o que posso contar. Boa sorte, Jonas Agallon. O destino de todos os mundos está nas suas mãos agora.
— Não, espere! Tenho perguntas! Você precisa me contar o que tenho que fazer…
Mas Timotheus desapareceu naquele instante, assim como o campo e a cidade à distância.
Jonas acordou e viu a irmã o chacoalhando.
— Amanheceu — ela disse. — Sua amiga está acordada. Está na hora de vocês saírem da minha casa.

Um comentário:

  1. Sabia que ela ia morrer, mas não no parto. Que droga.
    Jonas vai ter que dar uma se pai solteiro. Tadinho ;(

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