3 de setembro de 2018

Capítulo 21

CLEO
LIMEROS

Despertada de seu descanso, Cleo abriu os olhos e viu seu quarto na penumbra. O céu do lado de fora ainda estava escuro, exceto pela luz da lua.
— Princesa — sussurrou uma voz insistente. — Sinto muito em incomodá-la tão cedo. — A luz de uma lamparina atravessou a escuridão, iluminando o rosto da confidente de Cleo. Ela esfregou os olhos para acordar e sentou na cama.
— O que foi, Nerissa? Algo errado?
— Não sei bem se “errado” é a melhor palavra... mas tem uma coisa que imaginei que você gostaria de saber, e não pode esperar até amanhecer.
— Diga.
Nerissa sentou na beirada da cama.
— Jonas e Nic voltaram ontem.
— O quê? Por que só estou sabendo disso agora?
— O príncipe os encontrou primeiro e não quis que você soubesse.
Ah, não. Milhares de versões diferentes do que poderia ter acontecido explodiram em sua cabeça de uma vez.
— Eles estão bem? O que Magnus fez com eles?
— Está tudo bem — Nerissa garantiu. — Eu vi os dois bem rápido. Jonas me pediu para lhe dizer que ele vai partir ao amanhecer. Vai embarcar em Porto Negro em um navio para Kraeshia.
— Para Kraeshia? Por que para Kraeshia? Para ir atrás de Amara e do cristal da água?
— Não. O príncipe ficou sabendo recentemente que o rei Gaius está em Kraeshia. Ele vai mandar Jonas para... cuidar da situação.
— Ah, entendi. — Cleo estava muito surpresa. Por que Magnus confiaria uma missão tão importante ao rebelde, principalmente depois de seu desaparecimento injustificado? Ele devia estar muito desesperado e sem outras opções.
— Onde está Nic? — ela perguntou.
— Ele está no quarto, dormindo, imagino.
Cleo sentiu um repentino baque de decepção.
— Se a viagem a Paelsia tivesse sido bem-sucedida, eles teriam me acordado imediatamente para dar a notícia.
— Tenho certeza de que Nic vai lhe contar tudo sobre a viagem pela manhã. — Nerissa levantou da cama. — Por enquanto, volte a dormir. Vai precisar estar descansada amanhã.
Nada daquilo parecia certo.
— Por que Magnus tomaria uma decisão tão importante sem me consultar primeiro? Por que esconderia isso de mim?
— Não sei — Nerissa respondeu. — Normalmente espera que ele a consulte?
— Não tenho mais ideia do que esperar dele — ela murmurou. — Obrigada por me contar, Nerissa.
— Tente dormir, princesa. — Nerissa apagou a chama da lamparina e virou para sair.
— Acha mesmo que vou conseguir voltar a dormir agora?
Nerissa olhou para trás.
— Princesa?
— Me ajude a me vestir — Cleo pediu, saindo de baixo das cobertas e descendo da cama. — Precisamos chegar a Porto Negro antes do amanhecer.


Porto Negro ficava ao sopé dos altos penhascos, embaixo das terras do castelo. Uma estrada tortuosa permitia a viagem de carroça ou carruagem, mas a rota era longa demais, então Cleo e Nerissa resolveram descer pelos degraus esculpidos na lateral do penhasco.
Os degraus traiçoeiros e cobertos de gelo esculpidos na lateral do penhasco.
Finalmente, chegaram às docas.
— Talvez tenha sido uma péssima ideia — Cleo sussurrou, o rosto dormente devido ao vento gélido.
— De jeito nenhum — Nerissa garantiu a ela. — Eu a admiro. Está defendendo seus interesses sem deixar os outros tomarem decisões que a afetem. No entanto...
— O quê?
— Eu queria estar em Auranos. Este frio é insuportável. Sinto falta do calor de nossa terra.
Cleo não conseguiu conter o riso.
— Concordo.
O pequeno porto era usado apenas para atracar os navios de visitantes do palácio e as embarcações usadas em importações e exportações. Havia três grandes navios atracados: dois com o brasão de Auranos, carregados de produtos importados como legumes, frutas, grãos e animais vivos — caixotes com galinhas, porcos e carneiros —, e um preto com velas vermelhas com a insígnia da serpente limeriana. As palavras “força, fé e sabedoria” estavam pintadas na lateral do navio.
Dezenas de marinheiros, criados e outros membros da tripulação movimentavam-se pelas docas, repletas de suprimentos. Cleo e Nerissa observavam o caos organizado à distância.
— Princesa. — Nerissa apertou a mão enluvada para chamar sua atenção.
E então ela viu uma imagem que nunca acreditaria ser possível.
Jonas Agallon e Magnus Damora caminhando lado a lado.
— Certo — ela sussurrou. — Aquela é a prova de que ainda estou dormindo e sonhando.
Nerissa sorriu.
— Ou de que existem milagres.
Cleo não conseguia tirar os olhos do príncipe e do rebelde.
— Magnus está sorrindo ou cerrando os dentes? Jonas acabou de contar uma piada a ele?
— Ele com certeza está cerrando os dentes. Tenho a impressão de que Jonas não vai contar nenhuma piada por um tempo.
— Como assim?
Nerissa balançou a cabeça.
— Acho melhor Nic contar para você.
Cleo ficou preocupada. Algo devia ter dado terrivelmente errado em Paelsia.
— Nerissa, Nic não está aqui. Está claro que aconteceu alguma coisa de que preciso saber, e você vai ter que me contar.
Nerissa encarou Cleo com seus olhos escuros e perturbados.
— Lysandra está morta.
Cleo ficou boquiaberta.
— O quê?
— Durante a viagem, eles encontraram a princesa Lucia e outro homem, e... as coisas não saíram bem. Não sei muito mais do que isso, princesa. Sinto muito.
— Não! Ah, não! — A respiração de Cleo acelerou.
Lucia e outro homem. Deve ter sido aquele que a acompanhou ao palácio procurando a roda de pedra. Era tudo obra dele. Ela não tinha nenhuma dúvida sobre isso.
— Não sabia que Lysandra era sua amiga — Nerissa disse.
— Não era. Mas ainda assim é uma grande perda para nós todos. Lysandra era uma guerreira habilidosa e apaixonada. — Cleo se obrigou a respirar fundo e se recompor para se concentrar na tarefa atual. Lysandra nunca tinha lhe dito uma palavra gentil, mas Cleo sabia como a rebelde era próxima de Jonas. Ela admirava Lysandra por sua força e capacidade de se misturar e lutar com a mesma intensidade que um dos rapazes.
E Jonas tinha muito carinho por ela.
Cleo ficou de coração partido por ele. Ah, Jonas...
Ela saiu do lado de Nerissa e caminhou na direção de Jonas e Magnus.
Magnus a viu primeiro, demonstrando seu desgosto no mesmo instante.
— O que está fazendo aqui?
— Por que não fui informada sobre isso? — Cleo rebateu.
Magnus revirou os olhos.
— Você não deveria estar aqui. Volte ao palácio imediatamente.
— Não.
Ele soltou um suspiro irritado.
— Essas docas não são lugar para uma princesa.
Ignorando o príncipe, ela virou para Jonas.
— Acabei de ficar sabendo sobre o que aconteceu com Lysandra.
Jonas a encarou nos olhos.
— Eu nem sabia o quanto ela significava para mim até pouco antes de... — Ele passou a mão no rosto. — Estava tão cego.
— Não tenho palavras, Jonas. Sinto muito, muito mesmo.
Ela o abraçou forte. Levou um momento, mas ele retribuiu o abraço.
— Vou matar o rei. Não pelo príncipe, nem mesmo por todos os cidadãos de Mítica que ele tentou dominar e explorar. Vou matá-lo por Lysandra.
Cleo assentiu.
— Sei que vai conseguir.
Ele pressionou os lábios na testa dela, beijando-a com ternura.
— Vamos nos ver em breve, vossa alteza.
— É bom mesmo.
Jonas assentiu e abriu um meio sorriso antes de subir na plataforma e embarcar no navio.
Cleo arriscou lançar um olhar para Magnus. Nem por um instante tinha esquecido que ele estava a apenas alguns passos de distância.
De braços cruzados, ele a analisava com uma expressão indecifrável, à exceção do maxilar tenso.
— Que linda despedida — ele disse. — Muito romântico.
Sim, é claro que o príncipe era estúpido o bastante para acreditar que o diálogo dos dois tinha um teor de romance e não de uma amizade nascida em uma época de dificuldade e luto.
Cleo resolveu deixá-lo acreditar no que quisesse sobre ela e o rebelde.
Mas esqueceu totalmente de Magnus quando viu alguém se aproximando dela — Nic, pegando-a de surpresa.
— O que você está fazendo aqui? — ela perguntou.
Ele olhou para ela com curiosidade, pendurando a bolsa volumosa que carregava no outro ombro.
— Eu ia perguntar a mesma coisa. Você falou com Nerissa?
— Falei. Ela não me contou tudo, mas contou o suficiente. — Ela agarrou a manga do casaco dele. — Fiquei sabendo sobre Lysandra. É horrível, não há palavras para descrever. Mas, Nic, você podia ter sido assassinado também.
— Mas não fui.
— Quem sabe da próxima vez? — Magnus comentou, interrompendo os dois. — Cassian, volte para o palácio. Sua presença não foi solicitada aqui.
Nic olhou feio para ele.
— Vou para Kraeshia com Jonas.
— Nic, não — ela disse, séria. — Jonas está preparado para arriscar a vida nessa viagem. Você pode pensar que está disposto a fazer o mesmo, mas me recuso a correr o risco de perdê-lo também.
— Preciso fazer isso, Cleo. Preciso ajudar. Que serventia tenho se apenas ficar o dia todo no palácio como um inútil? — Ele cerrou os dentes. — E preciso encontrar a princesa Amara. Quero pegar o cristal da água de volta, e ela precisa pagar pelo que fez com Ashur. — O sofrimento que ele estava tentando esconder dela e de todos com tanto afinco reluziu em seus olhos. — Por favor, entenda que preciso ir.
— Você ficaria aqui comigo se eu pedisse?
Ele soltou um suspiro longo e trêmulo.
— Sim, é claro que ficaria.
Ela assentiu, depois o envolveu pela cintura e o abraçou forte.
— Sei o quanto Ashur significava para você, então não vou pedir que fique. Vá. Mas, lembre-se de uma coisa: se morrer, vou ficar furiosa com você.
— Também vou ficar furioso. — Nic riu de leve. — Por sinal, você precisa saber que não comprei seu presente de aniversário. Nossa viagem a Paelsia foi malsucedida em todos os sentidos possíveis.
Ela conteve o ímpeto de olhar para Magnus e abaixou a voz.
— Sinto muito saber disso.
— Eu também. A vendedora que queríamos visitar havia falecido, infelizmente.
Cleo mordeu o lábio.
— Ah.
— Ela era bem idosa, então não ficamos muito surpresos. Mas eu esperava que ela estivesse ali para ajudar.
— Vamos ter de encontrar outra pessoa. Ela não deve ser a única.
— Sim. — Ele apertou as mãos de Cleo. — Amo você, Cleo. Mas acho que você já sabe disso.
— Quanto amor pela princesa esta manhã! Que encantador da parte de todos vocês! — Magnus cruzou os braços diante da jaqueta preta. — Agora, se pretende mesmo ir, Cassian, vá logo.
— Não vai tentar me impedir? — Nic perguntou com cautela.
— Por quê? Você é livre para ir aonde quiser, como já provou com a recente viagem que fez com o rebelde. E saiba que se você acabar morrendo — Magnus disse, oferecendo-lhe um sorriso desagradável —, não vou ficar nem um pouco furioso.
Ignorando Magnus, Nic beijou a bochecha de Cleo, deu outro abraço nela, e depois fez o mesmo com Nerissa. Com mais um olhar melancólico para cada uma delas, ele embarcou no navio limeriano.
Cleo procurou a mão de Nerissa, precisando do apoio da amiga mais do que nunca. Mas não ia chorar. Aquilo era o que precisava ser feito.
Quando o sol nasceu sobre o penhasco atrás deles, o navio negro partiu pelo mar escuro.

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