29 de setembro de 2018

Capítulo 21

HAVIA TRÊS ROMÃS PENDURADAS NO GALHO. E então tinha duas, depois quatro. Olhei de relance para Delila, que sorriu docemente.
— Viu? Não é tão difícil.
Fazia uma semana que Jin tinha acordado, e Ahmed prometera que me ajudariam a desvendar meus poderes. Uma semana de meditação com Bahi, e Delila me explicando que para fazer ilusões bastava querer. Ela achou que uma demonstração ajudaria.
— Isso é inútil — eu disse. — Nem sabemos se meu dom tem a ver com ilusões.
— É o dom mais comum entre os demdjis — Bahi disse.
— Basta tentar — Delila assegurou.
— Sim — Hala disse, observando. — Faça uma delas desaparecer e estará no mesmo patamar de artistas de rua em Izman.
Olhei fixamente para a árvore. Eu não tinha certeza do que estava tentando fazer. Hala disse que vinha da mente. Delila parecia achar que tirava o poder do peito. Eu não conseguia encontrar nada em nenhum desses lugares. O relincho de cavalos por perto desfez minha concentração. Olhei de relance sobre o ombro. Era o grupo que Ahmed tinha enviado três dias antes. Um ataque a um posto avançado nas montanhas para trazer mais armas.
Eu tinha pedido para ir com eles. Entendia de armas. Ahmed não deixara. Dissera que não fazia sentido enviar uma demdji que ainda não sabia controlar seus poderes. A mesma desculpa que tinha dado em uma ocasião similar antes dessa. Eu estava começando a me perguntar do que valia ficar se eu não servia para nada.
Enquanto observava os alforjes tinindo com as armas, a frustração que crescia dentro de mim se transformou em fúria. Não conseguia mudar minha forma ou meu rosto, nem entrar na cabeça de ninguém, nem conjurar imagens. As pessoas no acampamento estavam começando a apostar quanto tempo demoraria para eu descobrir meus poderes. Para ter alguma utilidade. Os boatos de que eu não tinha nenhuma habilidade começavam a surgir.
Enquanto observava, uma das três romãs rachou e um lodo negro vivo começou a vazar. Eu sabia que era coisa da Hala. Saquei a arma por instinto. Mirei com convicção e puxei o gatilho. A romã explodiu em um surto violento de sementes e suco vermelhos, a ilusão de Hala desaparecendo junto.
— Pronto — eu disse, guardando a arma. — Agora tem duas.
Uma risada me fez virar. Percebi que Jin estava vendo. Ele passava por nós, carregando no ombro uma pilha de lenha até o centro do acampamento. Tinha se recuperado rapidamente da mordida do pesadelo. Eu o vira no dia anterior treinando combate corpo a corpo com Shazad. Ela ainda ganhava dele. De longe. Mas ele conseguiu aguentar um pouco.
Uma nova onda de humilhação queimou minha nuca quando Jin fez uma saudação militar para mim e eu dei as costas. Estávamos fazendo esse jogo em que Jin fingia que não tinha nada de errado entre nós e eu fingia que ele não existia.
Pelo visto Jin achava que não era nada de mais me enganar para me levar ao acampamento. Me tirar daquele trem para me impedir de ir a Izman, não para me manter segura. Me convencer de que a melhor maneira de chegar lá era numa caravana, se aproveitando da minha ignorância sobre meu próprio país. Eu tinha aceitado tudo aquilo porque era tola o suficiente para achar que formávamos uma equipe.
Afastei esses pensamentos. Era bobeira odiá-lo. Estávamos no meio de uma guerra. Ele tinha feito o que precisava fazer. Mesmo que no fim das contas eu não tivesse me revelado muito útil.
— Você sabia que conjura ilusões enquanto dorme? — perguntei a Delila. O comentário saiu um pouco mais ríspido do que eu planejava. — Não vou me transformar em uma demdji superpoderosa da noite para o dia simplesmente me concentrando.
— Vamos fazer uma pausa — Bahi interveio antes que Delila pudesse responder. — Faltam apenas algumas horas até a Shihabian.
Hala olhou nervosa para o céu. O sol estava se pondo. Pela primeira vez, vi uma expressão em seu rosto que não era de escárnio. Delila viu também. Ela colocou a mão no ombro da garota.
— Imin está voltando — Delila disse. Minha mente voltou para meu primeiro dia no acampamento, quando Imin tinha sido enviada na forma de um soldado gallan. Ela deveria voltar até a Shihabian.
— Como sabe disso? — perguntei a Delila. Quanto mais tempo eu passava no acampamento, mais preocupada ficava com os gallans em Fahali. O oásis era diferente de tudo o que já tinha visto, mas bastariam os gallans e sua arma poderosa para destruí-lo.
Delila pareceu um pouco envergonhada.
— É algo que aprendi quando pequena. Meus irmãos começaram a trabalhar em navios e velejar para longe, me deixando para trás, e eu nunca sabia quando iam voltar. Então a cada manhã eu abria a boca para garantir que conseguiria dizer que eles ainda estavam vivos, que estavam seguros, que estavam voltando para casa. Então eu tentava dizer que aquele seria o dia em que eles chegariam ao porto. E, se não pudesse, sabia que não era verdade e que não aconteceria. Mas Imin está voltando — ela disse com a confiança de uma profecia.
Nós não conseguíamos falar algo se não fosse verdade, mas e se funcionasse na outra direção? Me dei conta de que eu tinha feito aquilo uma vez, com o soldado gallan. Eu tinha dito que ele não nos veria no desfiladeiro. E realmente ele não nos encontrou. Mas o andarilho sim.
— O que aconteceria se eu simplesmente declarasse que amanhã meus poderes apareceriam? Ou se eu dissesse…
Os olhos de Delila se arregalaram e Bahi tampou minha boca com a velocidade de um chicote, usando a mão tatuada. Ela cheirava a óleos e fumaça, como o interior de uma casa de oração. Pela primeira vez ele estava sério.
— Demdjis não devem tornar reais coisas que não são. Você nunca pode prever o que vai acontecer.
— Não mesmo. — A voz de Hala soou amarga. — Por exemplo, você pode dizer que Ahmed vencerá os jogos do sultim, mas esquecer de dizer que ele ficará com o trono. E se você não tivesse dito nada, talvez ele tivesse sido um ótimo sultão e governado até ficar velho e de cabelos brancos.
O olhar no seu rosto evidenciava que ela tinha vivido aquilo na pele. Pensei em todas as histórias que conhecia sobre pessoas que faziam pedidos e desejos tolos aos djinnis, que eram concedidos de alguma forma distorcida que roubava sua felicidade. O soldado gallan não nos encontrou no desfiladeiro. Ele foi comido vivo. Bahi parou, como se quisesse garantir que eu tinha entendido, antes de tirar a mão da minha boca.
Quando olhei para Hala, ela fitava os próprios pés. Não era à toa que não tinha me perdoado pela demdji de cabelos ruivos. Ela guardava rancor de si mesma fazia um ano. Porque havia tentado enganar o universo para que Ahmed virasse sultão, simplesmente dizendo que ele ganharia os jogos do sultim.
— Eu teria feito o mesmo.
Hala me brindou com uma imagem das minhas mãos pegando fogo, e a agonia ardeu dentro de mim antes de a imagem desaparecer. Qualquer simpatia que sentisse por ela evaporou.
— Sim, mas você não fez. Eu fiz. E se não tivesse feito, talvez não precisássemos de uma guerra, e as pessoas não precisassem morrer.
Sem outra palavra, Hala foi embora, com raiva.
Bahi entrelaçou os dedos.
— Como eu disse, é hora de fazer uma pausa.
Delila e eu voltamos devagar para o acampamento, passando pelos preparativos da Shihabian. As pessoas penduravam lanternas nas árvores, e o ar do acampamento estava tomado pelo cheiro de carnes e pães assados. Mesmo quando sonhava com Izman, não imaginava um lugar como aquele.
Tirando Hala, todos estavam felizes. Pareciam se encaixar facilmente em seu papel, trabalhando com um único propósito: colocar Ahmed no trono. Tornar o resto de Miraji igual àquele pequeno canto do mundo.
— Por que Jin não competiu nos jogos do sultim? — perguntei, tentando quebrar o gelo que tinha se criado com a explosão de raiva de Hala. — A tradição diz que os doze príncipes mais velhos devem competir. Ahmed é o quinto, Jin é o sexto, então ele teria esse direito. Se tivesse se apresentado como outro filho sobrevivente.
O que significava que Jin havia escolhido não fazer isso. Que Ahmed decidira se revelar e reivindicar sua chance de ficar com o que era seu por direito de nascença, e Jin não. Aliás, as histórias nem mencionavam Jin. Não falavam do desaparecimento de outro filho na noite em que a mãe de Ahmed e Delila foi espancada até a morte, muito menos do seu retorno.
— Por que você está perguntando isso pra mim e não pra ele? — Delila roía a unha. Ela tirou o dedo da boca, constrangida.
Porque estou evitando seu irmão.
— Jin tem o hábito de não me contar toda a verdade.
— Eles discutiram sobre isso — Delila admitiu, finalmente. — Shazad achava que seria uma vantagem tática ter um aliado nos jogos para proteger Ahmed. Hala disse que ninguém acreditaria se começassem a chover príncipes desaparecidos. Jin disse que ninguém acreditaria nele porque não era nada parecido com o sultão. Bahi disse que a revelação de Jin reduziria o impacto de Ahmed. Então Shazad disse que a Ordem Sagrada o tornara muito dramático. E por aí foi — ela explicou timidamente. — Mas no fim ninguém podia obrigar Jin a fazer algo que não queria. E a verdade é que ele nunca quis saber de Miraji. — Ela se esticou e colheu uma laranja de uma árvore. Começou a descascá-la, evitando me encarar. — Ahmed se apaixonou por Miraji no instante em que retornou. Disse que era como se um pedaço esquecido de sua alma tivesse sido devolvido a ele. Quando decidiu ficar, Jin não entendeu. Eu mesma não entendi até ver com meus próprios olhos. É que em Miraji… nós nos sentimos em casa. Eles também brigaram quando Ahmed decidiu ficar. Jin velejou para longe sem ele. Sempre achou que Ahmed mudaria de ideia e voltaria para o mar. E então Lien, a mãe de Jin, que era como nossa mãe também… — Delila parecia desconfortável, como se tivesse passado muito tempo lutando contra aquilo. — Quando ela morreu, Jin e eu viemos até Ahmed. Isso foi apenas alguns meses antes dos jogos do sultim. Jin esperava que Ahmed mudasse de ideia, mas nesse meio-tempo Ahmed já tinha conquistado seguidores em Izman. Achei que Jin fosse esmurrar o nariz dele quando finalmente o encontramos, com ajuda da bússola. Mas foi Shazad quem quebrou o nariz de Jin.
Jin me dissera que uma garota tinha quebrado seu nariz, e que seu irmão o colocara no lugar. Eu tinha imaginado alguma namorada brava num porto estrangeiro, não Shazad. Mas era bom saber que nem tudo era mentira.
— Jin achava que o melhor que poderia acontecer era Ahmed não ser morto durante os jogos do sultim e a gente ir embora depois. — Ela gesticulou para o acampamento. — Mas não foi isso que aconteceu.
— Então por que ele continua aqui?
— Jin defende o irmão desde que eram pequenos. Ele socava qualquer um que chamasse Ahmed de… — Ela tropeçou na tradução da palavra xichan. — Significa “forasteiro imundo”, acho. Ele faria o mesmo agora. Mas ainda não acho que perdoou Ahmed por se apaixonar por algo além da família. Bem… talvez agora ele entenda isso melhor. — Ela olhou para mim com um sorrisinho tímido estampado no rosto. Senti o rosto esquentar.
— Não é… — Me atrapalhei com as palavras. — Jin e eu não somos…
— Se fosse verdade, você conseguiria completar a frase — Delila cantarolou.
Ela riu enquanto corria para longe, saltando sobre uma pequena fogueira. Fiquei ainda mais confusa.


Era fim de tarde, o que significava que Shazad provavelmente tinha terminado o treinamento e voltado para nossa tenda. Ou melhor, a tenda dela. Eu tinha dormido lá na primeira noite, exausta demais para discutir depois de descobrir que era uma demdji. E então simplesmente fui ficando. Ela ainda não havia me expulsado, e uma pequena pilha de roupas que ela me emprestara se acumulava no chão, separando o meu lado do dela, que permanecia limpo, com disciplina militar. Era quase como estar em casa.
Ao entrar na tenda, fui recebida por um tecido na cara.
— Pegue — Shazad disse, um pouco tarde.
Peguei a roupa do chão. Senti o tecido dourado com costura em vermelho vibrante se desenrolar entre meus dedos.
— O que é isso? — perguntei.
— Uma oportunidade rara em que a tradição manda vestir suas melhores roupas.
Percebi que Shazad já estava vestida para a Shihabian. Parecia haver magia na maneira como ela tinha se arrumado. Seu cabelo preto estava preso em ondas firmes ao redor da cabeça, com grampos dourados refletindo a luz do sol poente. Ela usava um khalat drapeado, tão verde que ofuscava as árvores.
— Não tive tempo de pegar minhas melhores roupas quando estava fugindo da morte.
Passei as mãos no tecido e imaginei como seria vesti-lo e me transformar numa criatura tal qual a fênix das histórias, pleno fogo e ouro.
— Bem, nesse caso, pode usar uma das melhores roupas da sua amiga — Shazad disse.
Amiga. Aquela palavra simples chamou minha atenção. Eu só perdia amigos desde Tamid.
Shazad parecia ter percebido minha hesitação.
— Tenho outros khalats. Se você não gostar desse — ela acrescentou rápido, ajeitando um fio solto de cabelo atrás da orelha, como se estivesse nervosa, embora fosse impossível.
— Imin já voltou? — perguntei.
Apesar do que Delila tinha dito, eu estava preocupada com a demdji de olhos amarelos em Fahali.
— Não. — Shazad ficou séria. — Ainda não. Vamos esperar até o fim da Shihabian. Se não der notícias até amanhã, vamos atrás dela. — Para garantir que não teve o mesmo destino da garota de cabelos vermelhos.
— Quem vai? — perguntei, começando a tirar a roupa.
— Eu e Jin. E você, se quiser.
Minhas mãos hesitaram nos botões, as palavras de Delila ainda frescas na minha mente.
— Eu achava que não podia deixar o acampamento até descobrir meus poderes. — Não soei muito convincente nem a mim mesma, e Shazad fez um som de descrédito no fundo da garganta.
— Por mais curta que a nossa vida possa ser se essa revolução falhar, você não pode evitar Jin para sempre, sabia?
— Vou tentar mesmo assim.
O tempo sagrado da Shihabian começava quando o sol desaparecia, uma lembrança da noite em que a Destruidora de Mundos surgiu e trouxe a escuridão com ela. No ano anterior, Tamid havia me girado até eu ficar tonta, e tínhamos rido tanto que precisamos nos apoiar um no outro para ficar de pé, cambaleando por conta da bebida e da dança. Comemoramos até a meia-noite, quando o mundo inteiro ficou preto, lembrando a primeira noite. E então, quando as estrelas e a lua voltaram, rezamos até a alvorada.
Mas as comemorações da Vila da Poeira não eram nada se comparadas às daquele oásis. Eram tantas lanternas penduradas entre as árvores que mal dava para ver os galhos. Havia figos colhidos direto das árvores, bolos tão doces que meus dedos grudavam um no outro. O ar cheirava a óleo e incenso e fumaça e comida e a estar vivo no meio do deserto.
Eu estava encantada com a sensação da seda e da musselina do khalat emprestado sobre a minha pele. O tecido dourado preso na minha cintura me envolvia de um jeito diferente de tudo o que eu já havia vestido. A silhueta de Shazad preenchia melhor as roupas do que a minha, mas eu não seria confundida com um garoto vestida daquele jeito, principalmente depois que Shazad abriu os três fechos superiores. Cheguei a tentar resistir, mas Shazad tinha muito mais talento para a luta do que eu, então no fim fui forçada a deixá-la fazer o que quisesse comigo. Imaginei que Shazad falharia ao tentar me transformar em algo tão brilhante e suave quanto ela. Mas, quando levantou o espelho, uma criatura extraordinária me encarava.
Meu cabelo estava torcido e meio preso, caindo em ondas que tocavam meu queixo e meu pescoço como se eu tivesse sido pega numa tempestade de areia. Ela tinha pintado meus lábios de um vermelho tão forte que imaginei que fosse sentir o gosto de sangue. A pintura dos meus olhos estava tão escura ao redor do azul que eu temia por quem fosse pego pela mira.
Eu parecia uma rebelde.
Fomos de uma fogueira até a outra, onde as pessoas paravam para conversar, e fui envolvida pelo falatório do acampamento com tanta facilidade quanto Shazad. Comi bolos de mel e tomei vinho doce. Notei Jin do outro lado da fogueira, jogando alguma coisa com a irmã e rindo ao perder.
Havia dois gatos perto do fogo. Um azul, outro cinza com um tufo azul na cabeça. Eu me agachei distraída para acariciar o azul, mas minha mão encostou na barriga de um garoto muito azul e muito pelado.
— Feliz Shihabian, general. — O garoto fez uma saudação militar para Shazad, que mal se deu ao trabalho de olhar para baixo enquanto passava por cima dele. Tentei manter os olhos no rosto dele, e não no resto do corpo.
— Izz, essa é a Amani — Shazad disse, finalmente se dirigindo ao garoto de pele azul. — Amani, esses são os gêmeos. Ou um deles. Voltaram hoje de manhã de uma viagem para trazer suprimentos.
Enrubesci e desviei o olhar, pegando Shazad com cara de quem estava se divertindo até demais. O outro gato também virou um garoto. Era idêntico a Izz, mas tinha a pele escura. Seu cabelo era do mesmo azul pálido da pele do irmão.
— E esse é o Maz. — Shazad apontou.
Maz deu um sorrisinho.
— O primeiro e único.
Olhei para o irmão dele.
— Quem te ensinou a contar?
Os gêmeos abriram um sorriso largo.
— Então você é a nova demdji — Izz disse, levantando para me observar sem qualquer preocupação com sua nudez. — Queríamos te conhecer.
— Estávamos nos perguntando se não seria nossa irmã — Maz disse. — Por causa dos olhos. — Ele apontou para o cabelo, um azul atípico, uma tonalidade realmente próxima da cor dos meus olhos. Se ambos herdamos a cor do nosso pai djinni, talvez ele fosse o mesmo. A percepção de que eu poderia ter irmãos depois de dezessete anos sem saber foi perturbadora.
— Sempre quis ter uma irmã — Izz disse, alegre. — Já conheceu Hala? Ela e Imin têm o mesmo pai djinni, sabia? As mães viviam na mesma rua em Izman.
Então eu era responsável pela irmã de olhos dourados de Hala arriscar a vida entre os gallans em Fahali. Pelo visto eu não conseguia parar de criar motivos para ela me odiar.
— Mas você não é nossa irmã. — Maz ficou um pouco desapontado ao dizer isso. — Ou não conseguiríamos dizer que não é nossa irmã.
— Ainda assim… — Izz disse, animado. — Talvez você consiga mudar de forma como nós! Seria tão legal quanto.
— Você quer beber alguma coisa? — Shazad felizmente me conduziu para longe dos gêmeos pelados.
A dança começou logo depois. Eu nunca tinha dançado direito na Shihabian antes. Havia a questão da perna de Tamid, e eu não podia deixá-lo de fora. Mas logo meu corpo se soltou e eu comecei a dançar entre as centelhas de fogo, alternando os parceiros. Conforme a bebida fluía mais livre e as pessoas ficavam mais soltas, girávamos cada vez mais. Passei rápido por Shazad dançando com Bahi, e as mãos do meu parceiro seguinte me agarraram, me girando para encará-lo.
Eu estava cara a cara com Jin. Nós dois paramos, deixando a dança continuar à nossa volta. Podia sentir o calor de suas mãos através do tecido delicado do khalat. Depois de semanas sendo um garoto perto dele, tudo o que fazia de mim uma garota estava em suas mãos. Seu olhar passeou lentamente por mim, descansando por apenas um instante no sheema vermelho amarrado na minha cintura. Era o que ele tinha me dado em Sazi.
— Você parece ter nascido do fogo.
— Jin — comecei a falar.
Não consegui terminar. A meia-noite caiu como um manto sobre o céu, como sempre acontecia na Shihabian. Em um momento havia fogueiras, lanternas, estrelas e o luar, e no momento seguinte, apenas escuridão.
Não importava que houvesse menos buraqis e que os djinnis já não coexistissem com os homens, ou quantas fábricas surgiam cheias de ferro e fumaça: aquela era uma magia que não se dissipava. Vivia na memória do próprio mundo. A primeira escuridão de verdade, sob a qual fósforos não acendiam, a lenha não pegava fogo e as estrelas se escondiam. As mãos de Jin se afastaram de mim, e senti ele se distanciar. Eu não podia segui-lo. Não naquela escuridão. Todos permanecemos completamente imóveis onde estávamos. Esperando a luz voltar.
Uma fogueira ressurgiu à minha direita. As estrelas piscavam de volta à vida, uma por uma. Ainda assim, ninguém falou nada. As horas que se seguiam até a meia-noite eram para as festas; depois, era o momento das preces e memórias. Vasculhei a multidão procurando por Jin enquanto as pessoas me empurravam em direção ao único fogo, como se fossem mariposas.
A contadora de histórias era jovem. Estava de pé em uma pedra elevada perto do fogo, olhando para o resto do acampamento enquanto demdjis se reuniam ao seu redor.
— O mundo foi criado na luz — ela começou com a introdução tradicional. As histórias podiam ser diferentes, mas sempre começavam com as mesmas palavras. — E então a noite caiu. A Destruidora de Mundos veio da escuridão que existia nos lugares onde o sol não podia tocar.
Identifiquei a nuca de Jin enquanto ele escapava da multidão. Eu o segui, abrindo caminho entre as pessoas que se ajoelhavam para rezar, caminhando até que o barulho, a luz, as ilusões e os risos ficassem bem distantes e a fronteira do deserto mais próxima.
— Bandida de Olhos Azuis.
Levei um susto ao ouvir a voz de Jin. Eu mal conseguia distingui-lo sob a luz das estrelas que retornavam.
Ele tomou um gole da garrafa que pendia de seus dedos, e por um instante insano pensei que estava bebendo para tomar coragem de realmente me encarar.
— Quer um gole? — Jin estendeu a mão oferecendo a garrafa. — Conheci uma garota no Último Condado que aguentava beber tranquila enquanto seu companheiro já estava desmaiado na mesa.
Ele estava falando do Djinni Bêbado, perto das minas destruídas de Sazi, quando eu era apenas uma garota com uma arma capaz de aguentar muita bebida e ele era apenas um forasteiro incapaz de aguentar as drogas que coloquei no seu copo. Em vez de uma demdji e um príncipe. Naquela época, eu era cheia de certezas, mas ele já mentia para mim.
— Se bem que aquela garota não saía no meio de uma história — ele disse, dando outro gole.
Naquele momento, eu realmente me transformei em fogo. Golpeei a garrafa, que voou para o chão, a areia absorvendo a bebida derramada enquanto ela rolava. Percebi que esperava que ele me impedisse, que segurasse meu braço antes que pudesse acertá-lo.
— Histórias e mentiras. — Reencontrei a voz e engoli o que mais estivesse subindo pela garganta, antes que se transformasse em lágrimas. — Não sou mais tão suscetível a elas quanto costumava ser. Mas você já deve estar sabendo que desperdiçou suas mentiras para me trazer até aqui. Não ouviu o que estão dizendo? Que sou a única demdji no mundo sem poderes? — Ele lutou contra a visão desfocada pela bebida para se concentrar em mim. — Alguma vez pensou em me contar o que eu era?
De repente Jin preencheu meus sentidos: o cheiro de álcool, o calor, os traços de seu rosto, as tatuagens começando a aparecer sob a camisa.
— Você quer falar sobre isso? Agora?
— Por que não? — Abri os braços, desafiando-o. — Por que não me conta qual era o plano? Se as coisas tivessem sido diferentes em Dassama, você ia me amarrar e me arrastar até aqui? Ou já tinha mentiras diferentes na ponta da língua?
— Eu não te obriguei a vir. — Jin me encarou, mas eu não ia recuar. Ele tinha dito que meus olhos me traíam. Queria que visse neles como eu me sentia traída agora. Por ele. — Eu não te enganei, e nunca pedi nada.
— O que mais eu poderia fazer? Deixar você morrer?
— Você poderia ter feito isso.
— Jamais poderia.
— A verdade é que eu não tinha a menor ideia do que estava fazendo, Amani. Tentei te deixar na Vila da Poeira porque não queria te arrastar para a guerra do meu irmão. Voltei pra te buscar porque não queria ver você morrer nas mãos de Naguib. De qualquer modo, um dos meus irmãos seria seu fim. Eu só tinha que escolher qual. — Ele levantou a mão como se fosse me tocar, mas desistiu no meio do caminho. — Fiquei aliviado em Sazi quando vi que você tinha ido embora, porque isso significava que estava seguindo seu próprio caminho, mas também fiquei aliviado quando vi que tinha levado a bússola, porque me dava uma razão para ir atrás de você. E sim, eu menti para te manter longe de Izman porque tinha medo de que alguém percebesse o que você era, porque aí você seria capturada e vendida para o sultão. E eu a levei para Dassama por imaginar que haveria uma chance de te colocar num barco e te tirar deste país antes que ele te matasse.
O rosto de Jin estava tão próximo… Lembrei do que ele tinha dito uma vez, cruzando o deserto: que o mar tinha a cor dos meus olhos.
— Você não tem o direito de decidir isso por mim. — Eu o empurrei, tentando afastá-lo de mim, da minha cabeça.
— Mas ele tem? — Jin gritou. — Meu irmão diz que você é uma demdji e você acha que isso é melhor do que ser a Bandida de Olhos Azuis?
Eu me aproximei dele, meu cabelo esvoaçando ao se soltar do penteado.
— Você não pode me julgar por querer ser algo além de outro grão de areia neste deserto. Não quando nasceu com muito mais que isso. Não quando você nasceu poderoso e importante.
— É mesmo? — Jin deu dois passos rápidos, atravessando a areia com uma velocidade violenta. — Nasci no mesmo ano que dez irmãos e doze irmãs. Nascer não torna ninguém importante. Mas você era importante quando a conheci, a garota que se vestia de garoto, que tinha aprendido sozinha a atirar com precisão, que sonhava, salvava e desejava com tanta força. Aquela garota era alguém que se fez importante. Era alguém de quem eu gostava. O que aconteceu desde que você chegou aqui? Por que ela se tornou tão irrelevante para você? De repente só a aprovação do meu irmão e o desenvolvimento de um poder parecem importantes. É por isso que eu não queria envolver você nesta revolução, Amani. Não queria ver o fim da Bandida de Olhos Azuis por causa de um príncipe sem reino.
Eu queria tanto dizer que ele estava errado, mas minha língua virou ferro só de pensar. O que não significava que ele estava certo.
— E por que está lutando por este país senão pelo seu irmão? Este país que você não entende, e que ressente porque sua família…
— Você está certa — ele disse, me interrompendo. — Nunca tinha entendido este país, por que meu irmão escolheu deixar tudo para trás e ficar aqui. Até te conhecer.
Senti como se Jin tivesse me empurrado, como se eu estivesse caindo e precisasse que ele retirasse aquelas palavras para me manter de pé.
— Você é este país, Amani — ele disse, mais baixo agora. — Mais viva do que qualquer coisa deveria ser neste lugar. Toda feita de fogo e pólvora, com um dedo sempre no gatilho.
Permanecíamos muito próximos, a raiva pulsando entre nós. Meu coração batia rápido — ou talvez fosse o dele. Estávamos respirando um ao outro.
Só nós dois.
Tinha mais fogo em mim do que jamais sentira desde que haviam contado que eu era uma demdji.
Abri e fechei as mãos, querendo estendê-las e tocá-lo.
— Jin. — A voz de Bahi quebrou o encanto. Eu nunca o vira com uma expressão tão séria. — Ahmed está te procurando. Temos notícias da arma de Naguib.


— A arma está em movimento. — Imin bebia água em grandes goles. Ela tinha praticamente corrido de Fahali até ali.
— Você a viu? — Shazad perguntou.
Imin balançou a cabeça. Ainda usava a aparência do soldado gallan. Todos do círculo mais próximo estavam de pé em torno dela, prestando atenção em cada palavra: o príncipe, Shazad, Jin, Bahi, Hala. E eu.
— Só rumores. Alguns incêndios acidentais em Izman pelos quais estão tentando nos culpar. E três navios ancorados no porto que pegaram fogo. Mas uma carta foi enviada esta manhã para os gallans em Fahali. O comandante Naguib está voltando como representante do pai para negociar os termos da aliança com o general Dumas.
— Isso certamente soa como “Estamos levando uma arma para você aniquilar a rebelião” — Hala comentou, colocando a mão no ombro da irmã. — Eles já nos encontraram?
— Ainda não — Imin disse. — Mas estavam perto.
— Então precisamos levantar acampamento.
— E ir para onde? — Bahi interrompeu. — Se formos para o norte, caímos nas garras dos gallans. Se formos para o oeste, cruzamos a fronteira para Amonpour, isso se os clãs das montanhas não nos pegarem primeiro. Para o leste, seu pai nos mata. Para o sul, o privilégio é do deserto. Era diferente quando fugimos pela primeira vez de Izman, só uma dúzia de pessoas, mas agora a rebelião cresceu. Não dá pra mover um reino com tanta facilidade. Mesmo um pequeno.
— Ele está certo — Shazad reconheceu.
Ahmed se apoiava na mesa com força. Suas articulações estavam pálidas.
— Então vamos interceptá-los — Jin disse. Ele passava a bússola de uma mão para a outra e o ponteiro girava frenético, apontando para a de Ahmed. — Eles estão transportando a arma por trem?
Imin assentiu com a cabeça, o cabelo gallan loiro cacheado caindo em seu rosto.
Ahmed não disse nada. Todos aguardávamos no suspense de seu silêncio.
— Eles não podem descobrir que estamos atrás da arma — ele disse, finalmente. Ele se dirigiu a Jin, não à sua general, não aos demdjis. A seu irmão. — Vocês têm que fingir que são só bandidos comuns assaltando trens pelo dinheiro. Jin, você leva…
— Eu vou também. — As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse pensar melhor.
Todos olharam para mim.
Minha discussão com Jin ainda estava fresca. Ele estava certo. Eu nunca ia ser importante se ficasse apenas esperando meus poderes de demdji aparecerem. Tinha ficado parada tempo demais.
— Você é um risco — Ahmed disse, sincero. O que era diferente de um não.
— Assumo esse risco sem pensar — Jin disse, olhando para o irmão. — Não preciso dela como demdji.
Shazad também me defendeu:
— Amani é a melhor atiradora que já vi, e ela consegue se passar por humana. Fez isso a vida inteira.
— Pode confiar em mim — insisti.
Os olhos de Ahmed fitaram os meus, e por um instante ele não parecia o irmão ou amigo de alguém: parecia um príncipe. Me endireitei, tentando parecer uma boa soldada.
Ele assentiu com a cabeça.
— Vocês partem ao amanhecer.

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