1 de setembro de 2018

Capítulo 21

JONAS
AURANOS

Os pais de Tarus, ainda de luto pelo filho mais novo, morto depois de ter sido forçado a lutar na batalha contra Auranos, o receberam com lágrimas nos olhos e palavras de gratidão para Jonas e seus amigos.
Depois de uma semana inteira de viagens indo e voltando de Paelsia, Jonas, Felix e Lysandra retornaram à vila de Viridy, e seguiram imediatamente para a Sapo de Prata. Depois de várias noites dormindo sob as estrelas e enfrentando as intempéries, Jonas decidiu que passariam a noite na hospedaria.
— É por minha causa, não é? — Lysandra perguntou do lado de fora de seu quarto. — Não preciso de uma cama macia nem de um teto sobre minha cabeça. Não preciso ser paparicada.
Jonas discordou. Ainda que Lysandra tivesse revelado um esforço heroico, ele sabia que ela precisaria de muito mais tempo para superar a provação do calabouço.
— Fale por si mesma — ele disse. — Pode não querer um mimo, mas eu quero. Então vamos ficar, sem discussão. Só tente dormir um pouco. Venho vê-la mais tarde.
Ele fechou a porta e desceu a escada até a taverna, que, naquele momento, estava deserta. O dono, um homem chamado Galyn, não estava lá naquela noite, mas o pai de cabelos brancos, Bruno, estava no balcão, esfregando-o vigorosamente com um pano.
Felix estava sentado na mesma mesa ocupada no Dia das Chamas, quando recrutaram Petros para se juntar à causa. Jonas não sabia muito bem o que acontecera com o garoto depois do ataque, mas esperava que ele nunca mais voltasse a cruzar seu caminho. Idiota irresponsável.
— A bela adormecida está bem? — Felix perguntou, segurando uma caneca de cerveja.
Jonas assentiu.
— Tão bem quanto se pode esperar.
— Ótimo. Sente-se, precisamos conversar.
Jonas sentou em uma cadeira dura de frente para o companheiro de viagem e se acomodou para a conversa que temia já havia algum tempo.
— Qual é o problema?
— Você sabe qual é o problema. Ela. É um peso para nós.
Pronto. O que ainda não tinha sido dito entre eles durante a semana em que estiveram com Tarus finalmente vinha à tona, como o fedor de uma batata podre.
— Você está errado.
Felix fechou a cara.
— Veja, sei que ela é importante para você. Mas está em frangalhos, Jonas. O que quer que tenha acontecido naquele calabouço… Ela não é útil para nós.
Jonas sentiu um aperto no peito.
— O rei a forçou a assistir à decapitação do irmão mais velho. Conhece alguém que consiga se recuperar imediatamente de algo tão horrível? Ela está sofrendo, mesmo que se recuse a admitir. Precisa de mais tempo para se recompor e se recuperar.
— E quanto tempo mais pretende dar a ela?
Jonas sabia que seu parceiro era impaciente, mas Felix precisava entender que Lysandra não era uma rebelde qualquer. Era sua amiga. E era de grande valia, só não tivera a chance de mostrar isso ainda.
— O tempo que for preciso.
Bruno se aproximou da mesa trazendo canecas nas duas mãos.
— Trouxe para vocês, rapazes. Por conta da casa! Meu filho admira tudo o que fazem pela causa rebelde, e isso vale algumas cervejas de cortesia, na minha opinião. Qualquer um que dedique a vida a matar o rei será sempre bem-vindo aqui!
Jonas olhou para ele, um tanto assustado.
— Obrigado?
O homem sorridente deixou as canecas na mesa e deu um tapinha nas costas de Jonas.
— Disponha, filho. Disponha!
Ele voltou ao balcão sem falar mais nada.
— Acha que ele teria dito tudo isso se não fôssemos os únicos clientes? — Felix perguntou.
— Espero que não.
— Somos dois, então. Mas vamos voltar ao assunto. — Felix fez uma pausa. — A noite em que nos conhecemos. Lembra?
Jonas assentiu.
— Como se fosse hoje.
— Nunca contei a você, mas tomei uma grande decisão naquela noite. Foi uma grande mudança de objetivo. Pensei comigo: tenho a oportunidade de ajudar o famigerado Jonas Agallon a dar umas porradas e mudar o mundo. Mudar o mundo, Jonas. Mas, até agora, o que fizemos além de resgatar uns rebeldes e percorrer um longo caminho?
— Fizemos muito mais que isso — Jonas tomou um gole da caneca, tentando engolir a irritação junto com a cerveja forte e amarga. Aonde Felix queria chegar, falando sobre o passado pela primeira vez desde que se conheceram?
— Agora, parece que seu grande plano é ficar esperando que o rei saia do palácio para dar uma volta e lhe ofereça o pescoço. Genial.
Jonas estreitou os olhos.
— Muito obrigado por me lembrar dos meus fracassos. Não acha que já me sinto um derrotado depois de tudo o que aconteceu?
— Não sei o que se passa na sua cabeça.
— Tenho olhos e ouvidos no palácio. Três espiões posicionados, todos dispostos a me contar tudo que preciso saber para garantir a vitória contra aquele cretino limeriano e libertar meu povo de um futuro à mercê daquele monstro. Vou pegá-lo, jamais duvide disso. Meu plano de raptar o príncipe Magnus ainda pode dar certo, ou talvez a princesa Lucia. O rei sairia de seu reino pequeno e seguro para salvá-la se soubesse que está em perigo, não acha?
— Sequestro. Muito bem. Já tentou isso antes, não? Capturou a própria princesa Cleo. Deu certo? — Antes que Jonas conseguisse responder esse comentário sarcástico, talvez com um soco em seu queixo, Felix se afastou. — Ora, ora. A bela adormecida acordou. Bem-vinda, querida.
Jonas virou e viu Lysandra em pé atrás dele. Abriu a boca para falar, mas ela levantou a mão para impedi-lo.
— Não consegui dormir — ela disse.
— Não acho que tenha tentado com muito afinco — Jonas respondeu.
— Talvez eu tenha achado mais inteligente ficar acordada para descer aqui e escutar o que vocês dois falavam pelas minhas costas.
— Acho que quanto mais gente, melhor. Junte-se a nós — Felix deu um tapinha no colo. — Por que não senta bem aqui?
Lysandra o encarou com uma expressão de tédio.
— Por que não beija minha bunda?
— Traga ela aqui, e vou pensar na ideia com carinho.
— Só por cima do meu cadáver.
— Também podemos resolver isso, se pedir com educação. — Para a sorte de Felix, ele disse isso com um sorriso jovial, e não com um toque de ameaça.
Jonas sentiu um peso no peito. Aqueles dois tinham passado a semana toda brigando, e era quase impossível ficar por perto depois que começavam. Ele achava que sabia o verdadeiro motivo para Felix não querer Lysandra por perto. Não tinha quase nada a ver com a velocidade de sua recuperação depois de ter sido prisioneira do rei, mas sim com o fato de ele não gostar de ser desafiado por uma garota.
Lysandra puxou uma cadeira e olhou para Jonas.
— Por que continua com ele?
E, mais uma vez, Jonas precisava agir como mediador, um trabalho que nunca desejara.
— Felix é um imbecil, mas, como você, é de grande valia e um amigo.
— Concordo com você na parte do imbecil. — Ela observou Felix com atenção, inspecionando-o da cabeça aos pés. — Mas sabe de fato alguma coisa sobre ele?
— Sei o suficiente — Jonas respondeu, ainda que por dentro precisasse ser sincero: não sabia quase nada sobre o rapaz do outro lado da mesa.
— O que posso dizer? Sou um sujeito reservado. Mas se está preocupada, Lys — disse Felix —, fico feliz em responder o que quiser. Ou pode continuar falando de mim como se eu não estivesse aqui.
Lysandra fez bico e olhou feio para ele.
— Tudo bem. Para começar, de onde você veio?
Felix sorriu com malícia.
— De todo lugar e de lugar nenhum, querida.
— Viu? — Ela olhou para Jonas de relance. — Ele é fechado e evasivo. E bajulador, também.
O sorriso de Felix desapareceu.
— Bajulador?
— Ele salvou minha vida — Jonas rebateu. — E a sua também.
— Tudo bem. Mas não fazemos ideia de onde ele surgiu ou qual foi sua verdadeira motivação para se juntar a você.
— Ei — Felix disse. — Ainda estou sentado bem aqui.
— Então, qual é a sua história, Felix? — Apesar de Felix ter provado ser digno de sua confiança várias vezes, Jonas precisava admitir que estava curioso para saber mais sobre ele. — É sério. Conte um pouco mais hoje.
— Minha história? Sou muito atraente. Um encrenqueiro renomado. Sou divertido, e é um prazer me ter por perto. Pelo jeito, sou meio bajulador. O que mais precisa saber?
Nesse exato momento, Bruno surgiu com uma bebida para Lysandra.
— Aqui está, querida. Um bom vinho para uma boa garota.
Lysandra olhou para a taça com desgosto.
— Os dois rapazes ganham cerveja, e eu, vinho. Nem gosto de vinho.
Jonas ainda olhava para Felix, que também o observava com atenção. O assunto surgira, e Felix dera respostas vagas a perguntas diretas. Ele queria, mais do que nunca, saber toda a verdade.
— Preciso saber sua história, Felix — disse Jonas. — Conte algo de verdade. Não é muito mais velho que eu. Como veio parar neste tipo de vida? Onde está sua família? Seus amigos?
— Sinceramente? Quer saber onde estão meus amigos? — O último brilho de humor sumiu dos olhos de Felix. — Estão nesta mesa agora. Os únicos que tenho. — Ele tomou um bom gole de cerveja antes de continuar. — É ridículo, eu sei. Mas nunca tive amigos. Não fui criado desse jeito.
Lysandra franziu a testa.
— E sua família?
— Morta — ele disse, desviando o olhar. — Meus pais e meus irmãos foram mortos por um bando de ladrões e assassinos contratados por um homem muito importante e perigoso. Invadiram nossa quinta quando eu tinha seis anos. Por capricho, pouparam minha vida. Fui criado como se fosse um deles. Eles me ensinaram a roubar, lutar, matar e a usar essas habilidades para conseguir dinheiro para o líder. — Felix fez uma pausa e lançou um olhar tenso para Jonas. — E me ensinaram a obter recompensas por capturar líderes rebeldes paelsianos e supostos assassinos.
A boca de Jonas ficou seca.
— Então foi assim que me encontrou.
Ele confirmou com a cabeça.
— Sou ótimo em rastrear as pessoas. Posso encontrar qualquer um, em qualquer lugar. Mas, não, nunca planejei receber essa recompensa. Se tivesse planejado, você já estaria morto a esta altura.
Era visível que tinha sido muito doloroso para Felix relatar tudo aquilo. Era o tipo de lembrança que a maioria das pessoas preferia reprimir.
— E onde estão as pessoas que o criaram agora? — Jonas perguntou. — E esse seu empregador?
— Sei tanto quanto você. Fugi ano passado. Estou sozinho desde então, para procurar trabalho. Para procurar encrenca. — Finalmente seu sorriso voltou. — Tenho talento para encontrar encrenca sem precisar procurar muito.
— Não duvido disso nem por um minuto — disse Lysandra, ainda olhando para ele com atenção.
— Essas informações bastam para uma noite? — Felix perguntou. — Gostaram do passeio pelas minhas lembranças?
Lysandra ficou em silêncio por um instante.
— É o bastante por enquanto.
— Ótimo.
— Ainda não gosto de você.
— É uma pena, porque o sentimento não é totalmente recíproco. — O sorriso de Felix se abriu mais. — É bonita demais para ganhar minha total antipatia, apesar de ser uma chata. Mas não se preocupe, não tentarei fazer nada. Sei que Jonas quer você só para ele.
Jonas engasgou e cuspiu a cerveja que tinha acabado de tomar.
— O quê?
Felix deu de ombros.
— Está apaixonado por ela.
Apaixonado por Lys? Olhou para ela de soslaio.
— Não, não estou.
— Quase nos matamos para tirá-la da praça do palácio. Agora mesmo estava lá em cima colocando-a para dormir e cantando canções de ninar. E defendeu com todas as forças a permanência dela neste trio. Por favor. Não sou cego, meu amigo.
Lysandra riu, uma risada leve presa no fundo da garganta.
— Sinto desapontá-lo, Felix, mas não é por mim que Jonas está apaixonado. Seu coração é todo da princesa Cleo.
Felix piscou, surpreso.
— Sua alteza real, princesa Cleo, esposa do príncipe Magnus? Aquela que você encontrou naquele templo coberto de sombras e mistérios? A princesa que você sequestrou, deixe-me ver… três vezes?
— Duas vezes. — Jonas encarou Lysandra com a expressão fechada por ter trazido o assunto à tona.
Ela devolveu o olhar com inocência.
— Qual é o problema?
— Não estou apaixonado pela princesa.
— Como não? — Felix gargalhou, e então secou o resto da cerveja. — Metade de Auranos está. Por que não iria querer se ajoelhar à barra do vestido da princesa dourada e implorar sua atenção como todos os outros?
— Não sei se consigo imaginar Jonas se ajoelhando — disse Lysandra, levantando a sobrancelha.
Jonas não conseguiu conter um sorriso por conta daquela repentina, e um tanto indesejada, mudança de assunto.
— Pela garota certa, talvez. Mas não há discussão sobre a princesa Cleo. Ela é uma princesa, e eu sou… o que quer que seja.
Lysandra esfregou o nariz.
— Ela tem sangue real. Isso nunca vai mudar.
— E é casada — Felix acrescentou.
— Obrigado pelo lembrete.
Veio à memória de Jonas o bilhete recebido da princesa. Sentiu que era o momento de compartilhar seu conteúdo.
— Algum dos dois acredita em lendas? — Jonas perguntou depois que o silêncio se abateu sobre eles.
— Que tipo de lendas? — Felix fez um sinal, pedindo outra rodada de bebidas.
Lysandra examinou sua taça de vinho e, por fim, decidiu experimentar um gole.
— Sobre magia… a magia que, dizem, tem uma história aqui em Mítica — continuou. — E… sobre os vigilantes. E a Tétrade.
Lysandra respirou com dificuldade.
— O que têm os vigilantes?
— Eles existem de verdade.
Lysandra começou a tremer com a resposta e, assustado, Jonas estendeu o braço para apertar sua mão.
— O que foi? Qual o problema?
Ela tomou um grande gole de vinho.
— Não contei nada disso antes porque tentei esquecer tudo. Mas Gregor dizia que uma vigilante costumava visitá-lo em seus sonhos, e foi por isso que o rei o manteve vivo por tanto tempo. Para interrogá-lo. O rei acreditava na história, dava para ver nos olhos dele. Ele acredita em magia, e a busca vorazmente. Quando Gregor não conseguiu dar as respostas desejadas, o rei mandou matá-lo.
Jonas a encarou, chocado. O rei estava em busca da magia — como Cleo dissera.
Felix observava a ambos em silêncio.
— Quando Phaedra parou de visitá-lo nos sonhos, partiu seu coração — Lysandra sussurrou.
Ao ouvir aquele nome, Jonas teve a sensação de que uma mão apertava seu pescoço.
— Na época — Lysandra prosseguiu —, achei que meu irmão tivesse enlouquecido, mas talvez fosse verdade. Talvez ela fosse real.
— Você disse… Phaedra? — Jonas perguntou.
— Sim. Por quê?
Phaedra. O nome da vigilante que o havia curado quando Jonas estava à beira da morte.
— É impossível.
Felix recostou-se na cadeira e passou a mão no cabelo negro curto.
— Uau. Com certeza precisamos de mais bebida. Ei! Mais bebida para meu amigo aqui, por favor. Ele está precisando muito.
Bruno chegou mancando, com o sorriso permanente ainda estampado no rosto. No entanto, em vez de bebidas, trouxe um pedaço de papel dobrado e lacrado com cera.
— Quase me esqueci disso! Sua adorável amiga Nerissa deixou essa mensagem há alguns dias. Estava preocupada, achando que demoraria semanas para voltar! Ah, ela vai ficar muito feliz por você ter recebido. Disse que é muito urgente. Que hora mais perfeita para chegar!
Lysandra observou atentamente enquanto o homem deixava a mensagem sobre a mesa e depois se afastava sem dizer mais nada.
— Sujeito encantador, não é?
— Muito — Felix concordou. — Mas, veja só. Outra mensagem, com um selo igual ao da última. Acha que é uma carta de amor perfumada da princesa?
Olhando para Lysandra, Jonas pegou o papel.
— Abra. — Ela o apressou.
Ele assentiu, rompeu o lacre e desdobrou o bilhete.
— O que é? — Felix perguntou. — O que diz?
Os olhos de Jonas brilhavam a cada palavra que lia.
— É um pedido.
— Um pedido de sua alteza real — disse Lysandra, e foi a primeira vez que falou de Cleo sem que a voz demonstrasse uma animosidade palpável. — Está pensando em atender ao pedido?
Houve um tempo em que teria jogado o papel fora e rido de uma solicitação tão ridícula.
Não estava rindo agora.
— Ah, sim — ele disse. — Nós três vamos atender. Quando o sol nascer, partiremos para fazer exatamente o que sua alteza real deseja.

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