3 de setembro de 2018

Capítulo 20

MAGNUS
LIMEROS

A princesa estava vestindo azul. A princesa sempre vestia azul.
Magnus estava encostado em um muro do palácio, observando Cleo e lorde Kurtis, que começavam a aula de arqueirismo do dia. Era a primeira vez que ele saía para vê-la praticar, mas, depois que Nic e todos os amigos rebeldes de Cleo sumiram do palácio na calada da noite, sem permissão — supostamente para comprar um presente para Cleo, em comemoração a seu décimo sétimo aniversário —, ele havia decidido ficar de olho naquela princesa mentirosa.
A fúria que sentira ao saber que seus novos “aliados” tinham desaparecido depois que toda aquela informação havia sido revelada tinha se transformado, desde então, em uma raiva ardente, porém controlada. A princesa não os havia acompanhado. Se tivesse feito isso, ele estaria rastreando todo o reino em busca do grupo e não teria piedade quando os encontrasse.
Nic voltaria, ele tinha certeza. Ele nunca abandonaria sua preciosa princesa com tanta facilidade. Magnus esperava.
Desde então, tinha ficado muito mais curioso a respeito de Cleo e seu progresso com o arco e flecha.
Ela usava um manto azul-turquesa, comprado em Pico do Corvo fazia alguns dias. Ela tinha levado Nerissa e, depois de um dia inteiro de compras, parado na quinta de lady Sophia.
A quinta de lady Sophia. Um lugar que guardaria para sempre lembranças inevitáveis para Magnus. E nenhuma tinha a ver com a própria lady Sophia.
Ele cerrou os olhos ao ver Kurtis colocar a mão enluvada sobre o ombro de Cleo e sussurrar algo em seu ouvido. Uma pequena tropa que Magnus havia designado para proteger Cleo — mais de Kurtis do que de qualquer outra ameaça externa — montava guarda a poucos passos de distância dos dois.
O grão-vassalo apontou para um alvo a vinte passos deles. Cleo assentiu confiante e encaixou com habilidade uma flecha no arco.
Ela puxou a corda, mirou e...
Magnus prendeu a respiração.
... a flecha voou direto para o céu, como se Cleo tivesse mirado uma nuvem. Caiu a poucos passos dela, e foi enterrada no chão coberto de neve.
Hum.
Kurtis se aproximou de Cleo e abriu um sorriso encorajador ao lhe entregar uma nova flecha para tentar de novo. Ela concordou, ajeitou a flecha no lugar, puxou a corda, mirou e...
Magnus viu Kurtis proteger os olhos do sol para acompanhar o trajeto ascendente. Então, de repente, ele levou um susto e deu um pulo para sair do caminho e evitar ser atingido quando a flecha caiu.
Magnus cobriu a mão para ocultar o sorriso.
Ah, princesa... Você é péssima nisso, não é?
Ela tentou mais duas vezes, e obteve os mesmos resultados. Então jogou o arco no chão, bateu o pé e apontou com raiva para o alvo.
— Calma — Magnus disse baixinho. — Não seja má perdedora.
Como se pudesse escutá-lo daquela distância, Cleo virou na direção dele. Seus olhares se encontraram.
Ele ficou paralisado, e se lembrou no mesmo instante da penosa animosidade do último confronto e do novo ódio que ardeu nos olhos dela quando mencionou Theon.
Mas, em vez de ir embora, ele começou a aplaudir.
— Ah, muito bem, princesa! Você tem um dom natural.
Cleo apertou os olhos e franziu a testa, depois foi direto para o portão do palácio que ficava mais perto de onde Magnus estava, deixando Kurtis para trás sem se despedir. Magnus lançou um olhar sinistro para ele antes de sair andando e encontrar Cleo na entrada.
Ela tirou as luvas.
— Pode zombar de mim o quanto quiser. Não me importo. Você não foi convidado para assistir.
— Esta é minha casa, meu palácio. Posso fazer o que quiser, inclusive vê-la praticar seus incríveis dons com armas. — Por mais divertido que fosse provocá-la de vez em quando, ele tinha assuntos mais importantes a tratar. — Diga, princesa. Quando seus amigos voltam?
— Eu já disse, Magnus, que não faço a mínima ideia. E tenho certeza de que eles não imaginariam que você ficaria tão irritado com a ausência deles. Devem voltar logo.
— Como pode ter certeza disso se não tem ideia do rumo que eles tomaram, nem do motivo da partida?
Ela abriu um sorriso.
— Você não tem uma reunião de conselho para presidir?
Evitando o assunto, princesa?, ele pensou. Eu não podia esperar outra coisa.
— Eles podem esperar.
— Tem certeza? Se eu fosse você, não faria nada para deixá-los ainda mais descontentes do que já estão.
A pouca paciência que lhe restava estava acabando.
— Ainda bem que não é.
Magnus sabia que Kurtis continuava a encher os ouvidos dela com todo tipo de história sobre sua falta de aptidão, dizendo que era um tolo que só tomava decisões ruins e que não sabia governar. Aquele galo podia cantar o quanto quisesse — não faria a mínima diferença. Magnus sabia que era um líder digno.
E, diferente do conselho e de seu pai, ele de fato se preocupava com a vida dos limerianos.
Ele suspirou alto.
— Por que me dou ao trabalho de falar com você? Nunca vamos concordar em nada.
— Talvez seja porque você não tem com quem conversar?
O insulto veio com um tapa que ele não esperava. Um músculo em sua face, do lado da cicatriz, se contraiu.
— É verdade. Ninguém me conhece como você, princesa.
Cleo o encarou com a testa franzida.
— Foi grosseiro de minha parte dizer isso.
— A verdade nunca é grosseira, princesa. É libertadora. Agora, se me der licença. — Magnus deu meia-volta e se afastou de Cleo antes que ela pudesse responder.


Vários dias depois, Enzo chegou à porta e disse:
— Eles estão prontos, vossa alteza.
Magnus fez um sinal para o guarda e se levantou da mesa com pilhas de pergaminhos. Estava grato pela chance de fazer uma pequena pausa na monotonia que era ficar horas e horas lendo infinitas linhas escritas em letra cursiva pequena e apertada, à luz de vela, tentando decorar todos os detalhes de todas as leis de sua terra.
Enzo o escoltou até a torre noroeste, onde o rei mantinha aposentos frios para prisioneiros notórios, valiosos demais para serem jogados no calabouço com os ladrões e criminosos comuns. As paredes estavam cobertas por uma fina camada de gelo, mas os guardas tinham ordens para garantir que a temperatura permanecesse tolerável.
No alto da estreita escadaria em espiral, Magnus entrou em uma pequena sala circular para saudar os dois mais novos hóspedes.
— Bem-vindos de volta.
Dois pares de olhos o encaravam, um repleto de ódio, o outro totalmente vazio. Um era Nic, lutando contra as correntes que prendiam seus braços acima da cabeça. Preso bem na frente dele estava Jonas, com o corpo mole, pendendo das algemas.
— Por que mandou nos acorrentar como ladrões? — Nic resmungou. — Onde está Cleo? Quero ver Cleo!
Magnus se aproximou.
— Vocês estão acorrentados como ladrões, caro Nicolo, porque quando eu me comprometo a fazer uma parceria com alguém, presumo que haja um certo nível de confiança. Não saio no meio da noite, sem dizer nada nem dar nenhum indício para onde estou indo. O que vocês fizeram é inaceitável. Até onde sei, vocês podiam muito bem estar reunindo um exército para me derrubar.
— Que ideia inspiradora. Queria ter pensando nisso.
— Ainda não me considera grande coisa, não é, Cassian? — Magnus sorriu e deu um tapinha no rosto de Nic.
— Você não quer nem saber o que eu o considero — Nic murmurou. — Preciso ver a Cleo.
— E eu preciso que vocês digam o que andaram tramando durante a última semana para ficarmos amigos de novo. Mas, por outro lado, faz muito tempo que não vejo uma execução. Aquela última foi bem divertida. Lembra, Agallon? Foi bem... explosiva, não foi?
Jonas não respondeu nem se mexeu.
Dada a desobediência usual do rebelde, seu silêncio intimidava Magnus.
— Estávamos comprando um presente para a princesa — Nic respondeu. — Encontrar algo digno dela demanda tempo e esforço.
— Prefiro ouvir da boca de Agallon. — Magnus segurou o queixo do rebelde e levantou seu rosto, esperando que Jonas cuspisse em sua cara. Em vez disso, Jonas simplesmente ficou olhando para a frente, os olhos vidrados e sem energia.
— O que aconteceu com você? — Magnus franziu a testa e olhou para Nic. — Ele está bêbado?
Nic ficou assombrado.
— Não.
Magnus soltou Jonas e ficou andando em círculos em volta dos prisioneiros.
— Deixem-nos a sós — ele disse para os guardas.
Os guardas fizeram uma reverência e saíram, fechando a porta.
— Onde estão as meninas que viajavam com vocês? Lysandra e Olivia? — Magnus perguntou, uma vez que Jonas e Nic tinham retornado sozinhos ao palácio.
— Olívia foi embora. E Lys... — Nic engoliu em seco. — Lysandra está morta.
Jonas se contraiu, como se tivesse levado uma chicotada nas costas.
Magnus ficou em silêncio por um instante, tentando processar o choque e a estranha sensação de horror que acompanhava a notícia.
— Como? — ele perguntou.
Finalmente, Jonas respondeu com a voz áspera:
— Sua irmã feiticeira.
Magnus perdeu o fôlego.
— Lucia? Vocês encontraram Lucia?
Jonas confirmou.
— O homem que estava com ela... matou Lys. Ela tentou me proteger, então o homem a destruiu com fogo. E logo ela... simplesmente... desapareceu.
A dor na voz de Jonas era perceptível. Magnus sentiu garras afiadas sendo fincadas em seu peito.
Lucia e o homem que havia tentado matá-lo com magia do fogo assombravam seus sonhos desde aquela visita.
— Ele deve ser um bruxo poderoso — Magnus afirmou.
— Acho que não é um bruxo — Nic disse, sem a ousadia anterior. — Já o vi duas vezes e parece que ele é muito mais poderoso que isso. A princesa Lucia deve ter invocado o cristal do fogo. E, de alguma forma, ela e Kyan descobriram como usar sua magia. Ele a está controlando agora.
Magnus se lembrou do incêndio com fogo elementar que aconteceu durante o ataque rebelde ao campo de trabalho da estrada no leste de Paelsia. Sempre que o fogo tocava uma pessoa, suas chamas ficavam azuis e estilhaçavam a vítima como uma escultura de gelo.
Pensar que esse poder estava solto por aí, controlado por alguém que viajava com sua irmã...
— Por que vocês foram até lá? — Magnus perguntou quando recuperou a voz. — O que a princesa Cleo pediu para encontrarem para ela?
— Cleo não teve nada a ver com isso — Nic insistiu. — Estávamos visitando um mercado, em busca de um presente, como eu já disse. Só isso.
Magnus poderia mandar torturar o garoto, surrá-lo, deixá-lo isolado... mas sabia que sua história nunca mudaria. Quanto a Jonas, já parecia estar meio morto. Se o rebelde de fato havia se desestruturado por isso, ele não teria nenhuma utilidade para Magnus.
— E quanto ao nosso acordo? — Magnus perguntou, olhando direto para Jonas.
Ele levantou os olhos.
— Resolveu me fazer essa pergunta justo agora?
— Resolvi. E exijo uma resposta.
— Eu não sei. Não sei de mais nada.
— Tenho empatia por sua dor, Agallon. De verdade. Mas hoje é um novo dia, que será seguido por outro, e por mais outro depois. Sua amiga está morta, e é uma tragédia, mas nada mais mudou. Você se lembra do acordo que fizemos?
— Lembro.
— E ele ainda está de pé?
Fez-se um prolongado silêncio, e Magnus esperou com paciência.
— Está — Jonas finalmente respondeu.
Magnus pediu que os guardas voltassem à torre.
— Desacorrentem os dois, forneçam alimento e os deixem limpos. Depois os tragam até mim na sala do trono. Temos um assunto importante para discutir.
Jonas e Nic foram levados para a sala do trono, ambos vestindo roupas limpas e sem o fedor de dias sem tomar banho.
— Sentem — Magnus ordenou. Jonas sentou, e Nic, com relutância, fez o mesmo. Magnus deixou de lado uma pilha de papéis e pegou uma mensagem que tinha recebido via corvo pela manhã. Ele a deslizou pela mesa na direção de Nic. — Leia em voz alta.
Com um olhar aflito no rosto, Nic pegou a mensagem, cerrando os olhos para conseguir ler com a pouca luz do fim de tarde.

Vossa alteza, príncipe Magnus Damora,
Uma vez que me encontro em Kraeshia, serei tão direto quanto o povo daqui.
Estou trabalhando como guarda pessoal de seu pai durante esta viagem. Ele ofereceu o cristal do ar ao imperador Cortas em troca de dividirem o poder sobre toda Mítica e Kraeshia.

Nic fez uma pausa, depois levantou os olhos.
— O rei está com o cristal do ar?
Jonas tinha ficado completamente pálido.
— Continue lendo — ele disse, e Nic prosseguiu.

Se o imperador recusar a proposta, acredite, você e todo seu reino correrão grande perigo. Recomendo que responda esta mensagem imediatamente, e também que envie um representante a Kraeshia assim que possível.
Mítica vai precisar de todo o apoio disponível no momento. Incluí uma prova que indica que não sou mais leal ao rei Gaius nem a sua ganância implacável.
Com muita esperança em um futuro sob seu domínio,
Felix Graebas

Nic desdobrou a última parte da mensagem e pegou o que parecia um pedaço pequeno e ressecado de pergaminho. Ele o levantou na luz.
— O que é isso?
Jonas se aproximou para ver mais de perto. Seus olhos se arregalaram em choque.
— Pele esfolada. Com uma tatuagem nela.
Nic soltou o pedaço de pele sobre a mesa.
Magnus assentiu.
— É a marca oficial do Clã da Naja, um grupo de assassinos experientes que trabalha especificamente para meu pai. Felix deve ter arrancado isso do próprio braço.
Finalmente, uma pequena fagulha de vida retornou ao olhar de Jonas.
— Eu conheço Felix.
— Você o conhece? — Magnus virou para o rebelde. — Como?
— Achei que fosse um amigo antes de saber da ligação com seu pai. Tivemos uma... desavença, e ele foi embora, voltou para o rei que havia lhe dado a missão de se infiltrar em meu grupo.
— Que mundo pequeno — Magnus disse, agora desconfiado das verdadeiras intenções por trás da mensagem. — É prova suficiente de que o rapaz não é confiável.
— Há duas semanas, eu poderia ter concordado com você — disse Jonas, observando o pedaço de pele e balançando a cabeça. — Mas agora, não. Felix tinha decidido deixar o clã quando se juntou ao meu grupo, buscando redenção por seu passado. Ele era um verdadeiro amigo, e eu só o decepcionei. — Ele ficou em silêncio por um instante. — Acredito que esteja dizendo a verdade.
Magnus sentou e pressionou as mãos abertas sobre a mesa. Parecia que ele e Jonas concordavam em alguma coisa. Que acontecimento estranho.
Seu pai estava em Kraeshia conduzindo negociações secretas com o imperador. E pensar que, para ele, Magnus era o traidor. Dominar o mundo era exatamente o que Gaius Damora queria. E agora estava com o cristal do ar. Lucia e Kyan estavam com o cristal do fogo. Amara tinha roubado o cristal da água.
Isso queria dizer que apenas o cristal da terra estava desaparecido.
— Agallon, você vai para Kraeshia como meu representante para falar com Felix e seu novo grupo de rebeldes — Magnus anunciou. — E depois vai encontrar meu pai e enfiar uma adaga em seu coração.
Era a única forma de dar um fim àquilo.
— Vai fazer isso? — Magnus questionou depois de um longo silêncio.
Jonas assentiu.
— Vou.
— Ótimo. Você parte ao amanhecer.

Um comentário:

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!