29 de setembro de 2018

Capítulo 20

JIN ESTAVA ACORDADO, apoiando o peso no ombro do irmão, de pé à beira da luz da fogueira. Ele parecia drenado e cansado, mas estava vivo. E olhava para mim. Reagi instintivamente, meu corpo me puxando para a frente como se estivesse amarrado a ele por um fio. Como o ponteiro de uma bússola em perfeita sincronia com o outro.
Mas antes que eu pudesse me levantar, houve um pequeno grito de alegria do outro lado do acampamento. Delila correu e se jogou nos braços de Jin, balbuciando em um idioma que imaginei ser xichan. Ela começou a chorar na camisa dele. Logo o acampamento todo estava de pé, as pessoas se aglomerando ao redor de Jin. Fazendo perguntas, dando as boas-vindas.
— Calma aí, pessoal — Bahi disse. — Ele acabou de levantar.
Aos poucos as pessoas começaram a voltar para as suas respectivas fogueiras e refeições. Quando Delila finalmente o soltou, Jin virou para Shazad.
— General — ele disse. Sua voz estava rouca da falta de uso, mas o modo como ele falava soava dolorosamente familiar. Bandida, eu o ouvi dizendo no deserto.
— Não me chame assim. — Shazad o abraçou com um só braço, tendo mais cuidado com os curativos do que Delila. — O que aconteceu com “Eu só vou lá dar uma olhada, volto num piscar de olhos”?
A risada se espalhou pelo pequeno círculo de pessoas ao redor de Jin, enquanto eu sentava do lado de fora. Eu procurava nos meus sentimentos alguma coisa para dizer ali, naquele lugar ao qual não pertencia, para Jin, que tinha se tornado um desconhecido de novo. Aquelas pessoas estavam planejando uma revolução lado a lado desde os dias em que eu atirava em latas na cerca atrás da casa do meu tio.
— Melhor atrasado do que morto — Hala disse. Ela não o abraçou. Mas conforme a luz do fogo reluzia em sua pele dourada, fazendo-a parecer ouro derretido, percebi que parte da dureza em sua atitude tinha desaparecido.
— Sim, e você pode me agradecer por isso — Bahi disse, de boca cheia. Mesmo de pé, ainda enfiava comida na boca enquanto falava. — Não que alguém já tenha me agradecido.
— Achei que os pais sagrados fizessem seu trabalho pela graça divina, não pelos agradecimentos dos mortais. — Jin estava evitando meu olhar enquanto falava com Bahi.
— Ainda bem que não terminei o treinamento então, né? — Bahi gesticulou dramaticamente com comida nas mãos, arremessando farelos em Delila.
— Mais dia menos dia você ia acabar conseguindo manter alguém vivo — Shazad disse. — E foi Amani que arrastou Jin até aqui. — Eu queria abraçar e xingar Shazad ao mesmo tempo. Finalmente Jin não teve escolha e precisou olhar nos meus olhos.
Aqueles dois meses no deserto pendiam entre nós. Todas as coisas que ele tinha me dito, e as que não tinha. Os segredos e as mentiras. O reconhecimento de que eu não o abandonara dessa vez. Em dois meses eu havia me transformado: antes uma garota que o havia dopado e largado numa mesa, e agora uma garota que o arrastara por território inimigo e entre carniçais assassinos para salvá-lo.
Nenhum de nós sabia o que dizer.
Hala se pendurou casualmente sobre os ombros de Delila.
— Pelo menos um de nós foi bem-sucedido em trazer um demdji para casa.
A nova palavra ainda era tão estranha que levei um tempo para perceber que Hala estava apontando… para mim. Todos ficaram em silêncio.
— Demdji? — perguntei, confusa.
A expressão de Ahmed mudou. Ele disse algo para Jin em xichan. Jin respondeu balançando a cabeça sem nem olhar para mim.
— Só porque eu não falo sua língua não significa que eu não saiba quando estão falando de mim nela. — Minha voz subiu um pouco mais do que eu queria. Eu estava gritando na frente do príncipe.
De dois príncipes.
— Amani — Ahmed disse gentilmente. — Talvez você devesse se sentar.
O prato que Shazad tinha me oferecido caíra no chão. Eu me levantara sem perceber, sem saber o que queria fazer, mas tinha certeza absoluta de que precisava estar de pé para aquilo.
— Talvez eu não queira. — Vi o canto da boca de Jin se curvar e minha raiva cresceu. — Mentir é pecado — eu disse, olhando só pra ele.
Jin finalmente falou comigo.
— Eu já ia pro inferno muito antes de te conhecer. — Tinha algo parecido com arrependimento em sua voz.
— Você não tem como saber se eu sou…
Jin me interrompeu.
— Não se engane, Bandida de Olhos Azuis. — Sua voz saiu sem emoção, estranha, resignada. — Eu sabia que você era uma demdji antes de saber que não era um garoto. Bastou ver seus olhos.
Olhos que me traíam.
O cabelo de Delila. Os olhos de Imin. A pele de Hala.
A marca dos djinnis.
— Percebi que você não sabia quando me falou sobre o marido da sua mãe. Você o chamou de pai. Demdjis que sabem quem são não fazem isso.
Olhei para as duas demdjis perto dele. Delila estava mordendo o lábio, parecendo pouco à vontade, enquanto Hala parecia prestes a bater palmas diante do meu desconforto.
— Muitos soldados gallans têm olhos como os meus — argumentei.
— O povo do norte tem olhos de água pálida. Os seus são diferentes. São da cor do fogo quando queima quente demais. E não é só isso. — Agora que Jin tinha parado de me ignorar, ele concentrava toda a atenção em mim. — Você conhece as histórias melhor do que eu: djinnis não podem dizer mentiras. Seus filhos também não. Aposto minha vida que você nunca mentiu.
Minha risada saiu curta e violenta. Shazad deu um passo na minha direção, mas recuei.
— Você está me acusando de ser honesta?
— Não, você é ótima em enganar. Mas não é uma mentirosa.
Lembrei de algo que Jin tinha dito na loja na Vila da Poeira. Você é uma boa mentirosa. Para alguém que não mente.
— Na loja, eu escondi você do Naguib…
— Você não mentiu para ele. — O mundo tinha se reduzido a mim, Jin e a memória daquele dia. Repassei os acontecimentos, tentando lembrar. — Nem uma vez. Você falou que era um dia meio parado. Disse que não havia muitos forasteiros na Vila da Poeira. Verdades enganosas, mas ainda assim verdades. Você o iludiu. Assim como fez com a caravana. Ou quando disse que eu podia te chamar de Oman. — Pensei em como Jin tinha confiado tão facilmente nas minhas palavras. Na facilidade com que desistira de encontrar a arma em Fahali quando eu disse que ele não conseguiria. — Djinnis são criaturas poderosas e dissimuladas.
— Então qual é a sua desculpa? — eu disse, com raiva, mas ele nem hesitou.
— Posso continuar se você quiser.
— Jin. — O aviso de Ahmed soou muito distante.
— A areia e o sol não drenam sua energia como acontece conosco, meros mortais. Você pertence a eles. — Me lembrei de uma das nossas últimas noites no deserto. Você não é normal, ele dissera. — Você aprende idiomas assim. — Ele estalou os dedos, e percebi que tinha falado as últimas palavras em xichan. Todas as noites no deserto quando tinha me contado histórias de lugares distantes e ensinado um pouco do seu idioma… ele estava me testando.
— Pare. — Eu mal conseguia falar. O que Shazad tinha dito sobre os demdjis? Eles… nós… éramos úteis. Então era por isso que Jin tinha me salvado pra começo de conversa? Ele me arrastara pelo deserto não como aliada, não porque precisávamos um do outro para sobreviver, mas porque ele sabia que eu seria útil para seu irmão.
Dei um passo à frente e o círculo em torno de Jin se abriu para eu passar. Me aproximei até estar tão perto que poderia beijá-lo novamente. Aquele beijo tinha sido um truque também. Meu truque. Eu era uma criatura dissimulada, mas não era a mentirosa ali.
— Por que eu acreditaria em qualquer coisa que você diz?
— Vá em frente, então. — Ele esboçou um sorriso. — Prove que estou errado: conte uma mentira. Diga que seu nome é Oman, sem enrolar. Diga que é um garoto chamado Alidad. Diga que não é uma demdji.
— Por que eu faria isso? — Eu podia sentir meus lábios lutando contra as palavras que Jin me desafiava a dizer.
— Você não pode. — A vitória estava estampada na cara dele enquanto me observava lutar para pronunciar as palavras.
Acertei um tapa na cara dele. Seu rosto foi jogado para o lado com o impacto e minha mão queimou. Antes que alguém pudesse dizer alguma coisa, corri.


— Você está planejando roubar todas as nossas armas, ou acha que talvez só precise de uma para cada mão?
Me virei rapidamente. Ahmed estava me observando da entrada da pequena caverna na parede do desfiladeiro. Eu mal conseguia vê-lo.
Tinha decidido partir antes mesmo de minha mão parar de doer. Mas não sairia desarmada. Enfiei a quarta pistola dentro do sheema que tinha amarrado na cintura como uma faixa, já que não tinha cinto.
— Seu arsenal deveria estar mais protegido se você não quer que peguem tudo.
— Na verdade, nunca precisamos nos preocupar com isso antes — disse Ahmed.
— Bem, pense nisso da próxima vez que seu irmão trouxer alguém perdido e ingênuo para casa.
Eu o empurrei para passar e continuei em frente. Ahmed me seguiu.
— Sou uma prisioneira? — Virei para encará-lo depois de dar alguns passos.
— Não. — Ahmed cruzou as mãos atrás das costas. — Mas Jin sugeriu que era melhor mandar alguém atrás de você. Assim, quando desabasse de exaustão por pura teimosia, nós poderíamos te trazer de volta antes que morresse.
— Ele tem tanta fé em mim. — Não tentei disfarçar a amargura na voz enquanto ajustava a arma na cintura.
— Ele tem mesmo — o príncipe disse. — Achava que você já estaria muito mais longe a esta altura, por exemplo.
Mexi na arma, inquieta. Ele não estava errado. Eu estava exausta. Ferida. Com fome. E a quilômetros de qualquer lugar aonde pudesse ir. E mais longe ainda de qualquer lugar aonde quisesse estar. Mas antes de Jin acordar, antes de a palavra “demdji” saltar da boca de Hala e cair em cima de mim, eu tinha sentido vontade de ficar.
— Por quê? — Minha voz falhou um pouco, e limpei a garganta.
— Bem — disse Ahmed —, pelo que entendi, você andou bastante até chegar aqui. Jin achava que você ao menos conseguiria passar do ponto onde não haveria mais volta…
Eu me controlei para não rir. Eu podia quase fingir que ele era apenas mais um garoto do Último Condado, só que com um sotaque melhor.
— Por que ele não me contou?
— Só Jin pode dizer os motivos dele. Mas se quer que eu seja sincero… — Ahmed suspirou. Ele parecia mais velho do que seus dezoito anos. — Os demdjis são trunfos, Amani. Não me entenda mal, todo homem e toda mulher nessa rebelião é. Mas Imin é a melhor espiã que tenho. E Hala talvez até tenha salvado mais pessoas do que Shazad. Minha irmã é o motivo de eu não ter morrido no final dos jogos do sultim. E ainda existem outros capazes de cruzar distâncias em questão de dias que um homem normal demoraria semanas para percorrer. Em uma guerra, você usa os melhores recursos para sua causa.
Eu queria que fosse Jin tentando me convencer. Seria tão mais fácil argumentar com ele. Mas a lógica de Ahmed era mais difícil de contestar. E isso fazia de mim o problema.
— Não posso… — As palavras me fugiam. — Não posso fazer o que os outros demdjis fazem. Acho que já teria notado se meu rosto mudasse ou se eu pudesse fazer ilusões flutuarem pelo ar. Achei que poderia ficar e… fazer o que a Shazad faz. — Quando disse em voz alta, me pareceu idiota também. Shazad podia ser totalmente humana, mas eu a vira matar um andarilho sem nem suar. Sem uma arma, eu era apenas uma garota. Não uma demdji. — Eu não imaginava que ficaria para fazer besouros brotarem da pele dos outros ou para me transformar em outra pessoa.
— Se você escolher ir embora, está livre para isso — Ahmed disse. — Miraji é perigosa para os demdjis, mas você parece ter se virado bem até agora. — Pensei na garota que tinha levado um tiro na cabeça do general gallan em Fahali. Ela era como eu. Lembrei de Jin me avisando para ter cuidado. Me alertando sobre Izman. — Mas, se decidir ficar, aqui há muitos outros demdjis que poderiam te ajudar a entender qual é sua habilidade, o que você pode fazer para ajudar a rebelião. Se ainda quiser.
Se eu quisesse.
Se eu quisesse fazer parte dessa história. Desse enigma.
Verdade seja dita, era mais do que um desejo.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!