23 de setembro de 2018

Capítulo 20

MAGNUS
AURANOS

Uma semana tinha se passado desde o assassinato de seu pai.
A cidade não havia ficado de luto pelo rei morto. Na verdade, o povo estava no meio de uma celebração. Auranianos sempre pareciam estar comemorando alguma coisa.
O último festival tinha sido o Dia das Chamas, e os cidadãos usavam vermelho, laranja e amarelo para representar a magia do fogo da deusa Cleiona. O do momento era para celebrar sua magia do ar e, supostamente, durava quinze dias.
Metade de um mês dedicada a um festival chamado “Sopro de Cleiona”.
Ridículo, Magnus pensou.
Cleo tinha lhe explicado que os cidadãos de toda Auranos iam até o palácio nesse período para recitar poesias e cantar músicas em homenagem à deusa. A respiração que usavam para falar e cantar era o tributo à magia do ar de Cleiona.
Mas, na verdade, tudo não passava de uma desculpa para beber grandes quantidades de vinho e para tumultuosas interações sociais que duravam até a madrugada, ela dissera.
Enquanto essas celebrações ocorriam na cidade, além das muralhas do palácio, Magnus estava no cemitério da realeza, encarando o pedaço de terra que marcava o túmulo temporário do rei. Seus restos mortais seriam levados para Limeros e enterrados ao lado do túmulo de sua mãe. Até então, Magnus tinha mandado enterrá-lo ao anoitecer do mesmo dia de sua morte, de acordo com a tradição limeriana.
Ele achava estranho encontrar um tipo peculiar de consolo ao se apoiar nas mesmas tradições que tinha passado a vida toda ignorando.
Havia uma pequena placa de granito preto sobre o solo, com a insígnia limeriana gravada — serpentes entrelaçadas.
Ele tinha sonhado com o pai na noite anterior.
“Não perca tempo de luto por mim”, o rei lhe havia dito. “Você precisa se concentrar apenas no que importa agora.”
“Hã?”, Magnus respondera. “E o que seria isso?”
“Poder e força. Quando a notícia de minha morte se espalhar, muitos vão querer brigar pelo controle de Mítica. Você não pode permitir isso. Mítica lhe pertence agora. Você é meu herdeiro, você é meu legado. E deve prometer que vai aniquilar quem se colocar contra você.”
Poder e força. Dois atributos contra os quais Magnus sempre havia lutado, para a decepção de seu pai.
Mas ele faria o que seu pai sugerira no sonho.
Ele lutaria. E aniquilaria quem se opusesse a ele e tentasse tirar o que era seu.
A começar pela Tétrade.
Ele notou a presença de Cleo antes de sentir o leve toque em seu braço.
— É tão estranho para mim — ele comentou antes que a princesa dissesse qualquer coisa.
— O quê?
— Eu odiava meu pai com todas as forças do meu ser, mas ainda sinto essa incrível… perda.
— Eu compreendo.
Ele riu, finalmente lançando um olhar para Cleo. Ela usava um vestido azul-claro com o corpete enfeitado por pequenas flores de seda. O cabelo caía pelos ombros em ondas douradas longas e desarrumadas.
Uma bela visão, como sempre.
— Eu não esperava que você compreendesse — ele respondeu. — Sei o que achava dele. Você o odiava mais do que eu.
Cleo negou.
— Você não o odiava. Você o amava.
Magnus a encarou, sem entender.
— Você está errada.
— Não estou errada. — Ela olhou para o túmulo. — Você o amava porque ele era seu pai. Pelos momentos de gentileza e orientação, mesmo nas piores situações, mesmo quando mal podia perceber. Você o amava porque, no fim, começou a enxergar um vislumbre do relacionamento forte que poderia ter virado realidade entre vocês.
Cleo segurou a mão dele.
— Você o amava — ela disse — porque tinha começado a ter esperança.
Magnus virou o rosto para que Cleo não pudesse ver a dor infinita em seu olhar.
— Se for verdade, foi muito idiota de minha parte.
Cleo segurou o rosto dele com as duas mãos e o fez encarar seus olhos.
— Amar um pai como Gaius Damora significa que você foi corajoso, não idiota.
— Espero que esteja certa. — Magnus se inclinou para beijar a testa dela. A pele de Cleo estava fria. Ele tocou seu rosto.
— Hoje não está sendo fácil.
Cleo sorriu para ele.
— Estou bem.
— Mentira.
O sorriso dela se transformou em uma careta.
— Estou bem — ela disse com mais firmeza.
Magnus a encarou por um instante, totalmente em silêncio.
— Seu cabelo, embora esteja lindo como sempre, não parece bem penteado. Sua criada atual não tem muita habilidade?
— Nerissa é a melhor para cuidar do meu cabelo — Cleo respondeu, enrolando uma longa mecha nos dedos. — Sinto muita falta dela. Espero que volte logo.
— Hum.
Antes que ela pudesse impedi-lo, Magnus jogou seu cabelo sedoso atrás dos ombros. Ela se assustou e cobriu a pele exposta com a mão.
Mas ele já tinha visto a dolorosa verdade.
As linhas azuis estavam visíveis do lado esquerdo do pescoço dela.
— Quando isso aconteceu? — ele perguntou. — Quando você teve outro incidente?
Era assim que tinham passado a chamar os acessos de afogamento que tomavam conta dela de repente e a qualquer hora.
— Recentemente. — Cleo olhou feio para ele, como se estivesse zangada por ter descoberto seu segredo.
Magnus praguejou em voz baixa.
— Estava contando com Lucia para ajudar você, mas ela desapareceu.
— Ela está procurando a filha. É a prioridade dela no momento, e não a culpo. Lucia está procurando uma solução para tudo isso, só que não aqui, presa dentro dessas muralhas. Você viu o que Kyan fez com a ama!
A lembrança do corpo carbonizado voltou à sua mente, o cheiro de carne queimada. Pensar em sua sobrinha recém-nascida nas garras do deus do fogo fazia o sangue de Magnus ferver. Força e poder. As únicas coisas que importavam. Ele encontraria Lyssa e sua irmã. Precisava encontrá-las.
— Preciso encontrar respostas por mim mesmo — ele murmurou.
— Andei lendo — Cleo disse.
— Livros não vão ajudar.
— Não sei se concordo. O livro certo, a lenda certa… há tantos na biblioteca, e parece que os relatos sobre o que aconteceu mil anos atrás variam de escriba para escriba. Podemos encontrar a resposta em um deles, se pesquisarmos.
Magnus balançou a cabeça, sem ter certeza.
— Aprendeu algo tangível nesses livros que andou lendo?
— Bem… — Ela fechou as mãos. — Um dos livros me lembrou do anel de Lucia, o que pertenceu à feiticeira original. Ele controla a magia de Lucia, impede que se descontrole. Eu ia perguntar a ela se poderia experimentá-lo, para ver o que aconteceria agora que tenho magia dentro de mim, mas ela partiu antes que eu pudesse pedir.
Magnus a encarou.
— Não acredito que não pensei nisso antes.
— Se ela voltar a tempo, talvez…
— Não, não o anel dela. O meu. — Ele tirou o anel de pedra sanguínea do dedo, pegou a mão direita de Cleo e o colocou no dedo indicador. Então a encarou nos olhos. — Está sentindo alguma coisa?
— Eu… eu não sei. — Cleo estendeu a mão, balançando a cabeça. Então sua pele ficou extremamente pálida, e ela começou a tremer. — Não… Está doendo. Está doendo! Magnus…
Magia da morte. Lucia tinha sido repelida pela mesma magia que agora machucava Cleo.
Em um instante, Magnus arrancou o anel do dedo dela e assistiu, horrorizado, a mais um incidente, Cleo engasgando e tentando respirar como se estivesse se afogando em um oceano profundo e escuro, sem poder fazer nada para salvá-la. Ele a abraçou, acariciando suas costas e rezando para que tudo terminasse logo.
Um minuto depois, tudo passou, e ela sucumbiu nos braços dele.
A magia daquele anel tinha afetado Kyan na noite em que Magnus saíra do túmulo. E agora tinha provas de que machucava Cleo.
Era a última coisa que ele queria.
— Odeio isso — ela disse, respirando com dificuldade. — Eu queria essa magia. Queria tanto que teria dado tudo por ela. E agora que a tenho, eu a odeio!
— Eu também odeio. — Ele beijou a cabeça dela, cansado de se sentir impotente e fraco ao buscar uma solução para livrá-la daquele destino.
Só tinha certeza absoluta de uma coisa: ele não a perderia.


Magnus acompanhou Cleo de volta a seus aposentos e, quando viu que ela estava recuperada e dormia em paz, saiu em busca do príncipe Ashur.
Encontrou o kraeshiano com Taran Ranus no pátio do palácio.
Taran estava sem camisa, e Ashur inspecionava as linhas brancas que cobriam um braço e metade do peito.
Mais linhas do que Cleo tinha.
— O que está sugerindo? — Magnus perguntou quando se aproximou deles. — Que cortemos seu braço fora na esperança de atrasar o progresso? Parece tarde demais para isso, mas estou disposto a tentar.
Taran lançou um olhar sombrio para Magnus, com olheiras escuras.
— Acha que isso é engraçado?
— Nem um pouco.
— Quero esse veneno fora de mim, de qualquer maneira possível. — Taran vestiu a camisa de novo. — Ashur conhece coisas, conhece magia. Achei que ele pudesse ajudar.
Magnus olhou para Ashur.
— E?
Os olhos azul-acinzentados do príncipe estavam revoltos com incerteza e dúvida.
— Estou tentando encontrar uma solução. Mas até agora não deu certo.
Magnus já sabia que a magia do ar de Taran se manifestava em momentos aterrorizantes de asfixia. E, depois de cada incidente, as linhas brancas continuavam seu progresso. Não era necessário ser especialista em magia para saber que aquele era um sinal de que o deus elementar estava tentando se libertar e assumir o controle do corpo dele.
Taran riu, mas sem humor.
— É engraçado, na verdade.
Ashur olhou para ele.
— O quê?
— Minha mãe… ela era uma Vetusta. Sabia tudo sobre a Tétrade, ou pelo menos todas as histórias passadas de geração a geração. Ela as idolatrava. Minha mãe era a bruxa mais poderosa que qualquer outra que conheci ou de que ouvi falar. Talvez ela pudesse me ajudar agora.
— Onde ela está? — Ashur perguntou.
Taran trocou um olhar com Magnus antes de voltar a encarar Ashur.
— Ela está morta.
Magnus sabia que aquela era apenas uma parte da verdade. Taran tinha matado a própria mãe quando ela tentara sacrificá-lo em um ritual de magia do sangue. Magnus também sabia, sem sombra de dúvida, que a mãe de Taran não lhes seria útil e apenas ajudaria a Tétrade, mas preferiu não falar nada.
— Se eu tivesse metade dos recursos que tinha antes — Ashur começou a dizer, andando de um lado para o outro a passos curtos e frustrados à sombra de um alto carvalho —, poderia encontrar uma forma de ajudar você. De ajudar Olivia, Cleo… e Nicolo. Mas estou de mãos atadas. Se aparecer em Kraeshia de novo, não duvido que Amara mande me executar de imediato.
Magnus se contorceu ao ouvir aquele nome.
Ele preferiu não compartilhar seu plano de assassinar Amara com Ashur. Não tinha certeza se o príncipe se importaria, mas achou melhor não comentar nada por enquanto. Ele lidaria com o resultado quando — e se — Felix e Nerissa tivessem sucesso.
— Não está disposto a sacrificar tudo para salvar seu namorado? — Magnus perguntou sem rodeios. — Acho que não é amor verdadeiro, no fim das contas. Se fosse, provavelmente saberia que ele está na cidade incendiando amas e roubando bebês.
Magnus virou e encontrou o punho de Ashur em seu rosto. Depois que a dor lancinante passou, ele agarrou o príncipe e o empurrou contra o tronco grosso da árvore.
A expressão de Ashur se fechou para ele.
— Você me bateu antes. Agora estamos quites.
Taran ficou esperando, observando os dois com tensão.
Com um grito, Magnus o soltou, passando a mão sob o nariz ensanguentado.
— Toquei numa questão sensível, não é?
— O que sinto por Nicolo não é da conta de ninguém — Ashur resmungou. Seu cabelo preto na altura do ombro tinha se soltado da tira de couro e caía sobre seu rosto. — E você não faz ideia do que eu estaria disposto a fazer para ajudá-lo. Pode achar que sabe tudo sobre mim, Magnus, mas está errado. Não estou fazendo nada disso pensando que Nicolo gostaria de passar mais um dia em minha companhia.
— Então por que está fazendo?
— Porque me sinto pessoalmente responsável que sua vida tenha sido tirada dele. Se eu não tivesse sido cúmplice nos planos originais de Amara, talvez ele estivesse livre dessa confusão.
— Duvido — Magnus respondeu. — Ele é o melhor amigo de Cleo. Faria parte disso mesmo que você nunca tivesse pisado em Mítica. Não pense que você é tão importante assim.
— Nicolo já foi apaixonado por Cleo — Ashur disse. — Talvez ainda seja. Suas preferências românticas não são as mesmas que as minhas. Talvez nunca haja um futuro para nós. Mas não importa. Não estou fazendo nada disso em benefício próprio. Estou fazendo porque quero que Nicolo viva a vida que deseja, mesmo que eu não faça parte dela.
Magnus o analisou por um longo momento, o nariz latejando.
— Certo, então prove.
— Como?
— Não posso continuar esperando Lucia voltar. Aquela bruxa ou Vigilante exilada de que falou antes…
— Valia — Ashur disse o nome em voz baixa, como uma praga.
— Você conhece alguém assim? — Taran disse, perplexo. — Alguém que pode nos ajudar?
Magnus assentiu.
— Vamos encontrá-la.


Magnus, Ashur e Taran seguiram até o vilarejo de Viridy imediatamente e chegaram pouco antes de anoitecer. Iluminadas por lamparinas e pela luz da lua, as ruas de pedra cintilavam, guiando-os até a Taverna Sapo de Prata.
A taverna estava lotada de fregueses que comemoravam o festival. Uma banda tocava alto no canto, enquanto uma mulher, de cálice na mão, anunciava que cantara uma canção que havia escrito para a deusa, intitulada “Deusa dourada”.
Magnus desejou ter algodão para enfiar nos ouvidos quando ela começou a gritar, embriagada, a plenos pulmões.
— Isso me faz lembrar da minha infância — Taran disse com uma careta. — É um dos muitos motivos que me levaram a partir e me juntar à revolução em Kraeshia.
Magnus avistou Bruno e fez sinal para chamar o velho para a mesa deles.
— Pessoal! — Bruno balançou os braços. — Vejam quem temos aqui esta noite! Príncipe Magnus, príncipe Ashur e… um amigo. Não sei quem ele é. Vamos fazer um brinde à saúde deles?
— Se não precisássemos dele, eu o mataria — Magnus disse em voz baixa enquanto todos na taverna batiam os copos em um brinde embriagado, porém amigável.
— Ele é mesmo animado — Ashur respondeu.
— Meu pai cortaria a língua de alguém com metade dessa animação se o estivesse perturbando — ele comentou.
— Não tenho dúvida.
— E eu que queria passar despercebido… — Magnus observou a taverna, preocupado que pudesse haver algum guarda kraeshiano, mas não viu ninguém de uniforme verde.
— Sou Taran, a propósito — o rebelde se apresentou.
Bruno apertou a mão dele.
— É um prazer conhecê-lo, meu jovem. Um grande prazer. Bem-vindo à Taverna Sapo de Prata.
A banda começou a tocar de novo, abafando a conversa dos quatro, e os clientes voltaram a atenção para o voluntário seguinte, um homem que tinha escrito um poema em homenagem à beleza da deusa.
— O que gostariam de beber? — Bruno perguntou. — A primeira rodada é em homenagem ao seu pai, príncipe Magnus. — Ele cuspiu de lado. — Eu não tinha um pingo de respeito por ele, mas o que aconteceu foi uma coisa horrível.
— Obrigado pelas condolências sinceras — Magnus disse com ironia.
— Não viemos aqui para beber — Ashur disse. — Viemos para falar sobre Valia.
Bruno franziu a testa.
— Em uma noite como esta?
— Sim. Precisamos de sua ajuda com o ritual de invocação, a menos que ache que ela não vai responder hoje. Talvez esteja comemorando em outro lugar, um lugar inalcançável.
— Ah, não se preocupem. Nunca vi Valia celebrar nada. — Bruno tirou o avental e o jogou sobre outra mesa. — Muito bem, vamos para os fundos. Fico honrado em auxiliar em uma busca tão empolgante.
Depois de desaparecer em outra parte da taverna por alguns minutos, Bruno voltou com uma lamparina para iluminar o caminho e um pedaço de pergaminho enrolado debaixo do braço. Magnus e os outros o acompanharam até o lado de fora, no ar frio da noite.
— O que é isso? — Magnus perguntou, indicando o pergaminho.
— As instruções, vossa alteza. — Bruno deu de ombros. — Tenho dificuldade de lembrar de algumas coisas na minha idade, então anoto tudo.
Magnus trocou um olhar perplexo com Ashur.
— Espero que não seja uma perda de tempo — Ashur comentou em voz baixa.
— Eu também. — Magnus olhou para trás, para Taran, e viu as linhas brancas aparecendo sobre sua mão e seu pescoço, brilhando de leve na escuridão. Um tremor de medo opressivo percorreu seu corpo. — Acho que não temos muito tempo a perder — o príncipe acrescentou.
Magnus tinha deixado Cleo dormindo no palácio sem dizer nada sobre seu paradeiro. Se voltasse com boas notícias, seria uma coisa. Se aquilo não desse em nada além de decepção, ela não precisaria saber.
Se a princesa tivesse se juntado ao grupo, ele sabia que ficaria distraído demais para se concentrar na tarefa.
Eles seguiram Bruno até uma área de bosque pouco depois da fronteira do vilarejo. O homem deixou a lamparina sobre um pouco de musgo e então desenrolou o pergaminho, analisando-o através das lentes dos óculos redondos.
— Ah, sim. Eu me lembro. Sacrifício de sangue. — Ele olhou para os três. — Vocês por acaso têm uma adaga?
— Claro. — Taran tirou a adaga da bainha no cinto, e a entregou a Bruno.
— Excelente, bem afiada. Vai servir perfeitamente. — Então Bruno olhou para as marcas brilhantes no pescoço de Taran. — Hum. Muito curioso, de fato. Anda mexendo com elementia, meu jovem? Ou foi amaldiçoado por uma bruxa?
— Algo do tipo — Taran disse e depois apontou para o pergaminho. — Posso ler?
Bruno o entregou a ele.
— Claro.
Taran olhou para Ashur e Magnus.
— Minha mãe fazia anotações sobre feitiços e suas experiências com magia. Já li esse tipo de coisa antes.
— Parece que vai funcionar? — Ashur perguntou.
Taran passou os olhos pela página.
— É difícil dizer.
— Para o sacrifício de sangue… — Bruno disse, observando ao redor. — Talvez possamos encontrar algo lento para capturar. Pode ser uma tartaruga.
— Me dê isso. — Magnus pegou a lâmina da mão de Bruno e a pressionou contra a palma da mão esquerda, até sentir uma pontada. — Nenhuma tartaruga precisa morrer. Podemos usar o meu sangue.
Bruno assentiu.
— Deve servir.
Magnus estendeu a mão e viu o próprio sangue pingar no chão.
— Ótimo — Taran disse, assentindo. — De acordo com o pergaminho, você precisa espalhar o sangue até formar um círculo.
— Um círculo de que tamanho?
— Não diz aqui.
Com má vontade, Magnus seguiu a instrução, criando um círculo que não devia ter mais de sessenta centímetros de diâmetro.
— E agora?
— Diga o nome dela — Taran disse. — Peça que se junte a nós… — Ele recuou ao tirar os olhos do pergaminho. — E peça com educação.
Magnus deu um suspiro.
— Muito bem. Valia, gostaríamos que se juntasse a nós aqui e agora. — Ele rangeu os dentes. — Por favor.
— Ótimo — Bruno disse, sorrindo. — Agora nós esperamos.
— Minha confiança diminui a cada momento que passamos aqui — Ashur disse, balançando a cabeça enquanto Magnus amarrava uma atadura no ferimento da mão. — Mas vou continuar esperançoso por mais um tempo.
— Minhas expectativas são extremamente baixas — Magnus disse. — Mesmo se conseguirmos entrar em contato com essa tal Valia, não temos ideia se ela vai poder nos ajudar.
— Acho — disse uma voz feminina calma e indiferente — que vocês podem começar pedindo com educação. Eu valorizo boas maneiras, principalmente em rapazes.
Magnus se virou devagar e viu uma bela mulher parada atrás deles, entre as sombras das árvores. Ela usava um longo manto de seda preto, uma cor que combinava com seu cabelo longo. Sua pele era pálida sob a luz da lua, as maçãs do rosto protuberantes, o queixo pontudo. Os lábios estavam pintados de vermelho-escuro.
— Você é Valia? — Magnus perguntou.
— Sou — ela respondeu.
— Prove.
— Príncipe Magnus! — Bruno disse, exasperado. — Precisamos tratar Valia com respeito.
— Ou? — ele perguntou, encarando os olhos da bruxa. — Ela vai me transformar em um sapo?
— Acho que você não seria um bom sapo — Valia disse ao se aproximar, observando um por um.
Ashur fez uma reverência.
— Estamos honrados com sua presença, senhora.
— Está vendo? — Valia arqueou uma sobrancelha e olhou para Magnus. — Esse aqui sabe como se comportar na presença de uma pessoa poderosa.
— É isso que você é? Poderosa? — A paciência de Magnus com uma bruxa comum, pois ainda não tinha motivos para acreditar que ela era mais do que isso, estava rapidamente se dissipando.
— Depende do dia, na verdade — ela disse. — E da razão para me invocar.
— Ou talvez você simplesmente fique escondida nas sombras esperando Bruno trazer suas vítimas. — Magnus a encarou com desprezo. — Está prestes a nos pedir um pagamento para executar sua magia? Se estiver, pode economizar saliva. Guarde-a para recitar poesia ou cantar uma música durante o festival.
— Já tenho riquezas mais do que suficientes. — Valia se aproximou de Taran, franzindo as sobrancelhas finas e escuras ao analisá-lo. Taran permaneceu imóvel como uma estátua quando ela esticou o braço e passou o dedo sobre uma das linhas brancas e brilhantes.
— Muito interessante — ela disse.
— Sabe o que é isso? — ele perguntou.
— Talvez.
— E pode me ajudar?
— Talvez.
Magnus deu uma gargalhada, atraindo o olhar penetrante da bruxa.
— Você sabe, não é? E o que acha que é exatamente?
— Esse jovem está possuído pelo deus do ar. — Valia pegou a mão direita de Taran, virando-a para ver a espiral da magia do ar marcada sobre a palma. — E, ainda assim, tem controle de seu corpo e sua mente. Que interessante.
Magnus descobriu que não tinha uma resposta imediata para aquilo.
Valia era muito mais versada do que ele esperava.
Magnus semicerrou os olhos na escuridão. Algo parecia estranho naquela mulher. À primeira vista, parecia bela e jovem, mas suas feições eram perfeitas demais, sua pele era imaculada demais, sem falhas. Se ela fosse uma Vigilante exilada, e não apenas uma bruxa comum, talvez servisse de explicação.
Mas sua mão esquerda… Não era a mão de um mortal, eram as garras afiadas de um falcão.
— Sua mão… — ele disse, respirando fundo ao se dar conta do que estava vendo.
— Minha mão? — Valia abriu as mãos na frente dele. — Está vendo algo estranho aqui?
Magnus balançou a cabeça, vendo apenas duas mãos graciosas com unhas curtas e muito bem cuidadas.
— Nada — ele disse, franzindo a testa. — Peço desculpas.
Valia chegou mais perto dele, segurando a mão de Magnus e desenrolando o lenço enrolado no ferimento ensanguentado.
— Deixe-me ajudar com isso. — Ela pressionou a palma da mão junto à dele. Uma luz brilhante apareceu, e uma dor repentina atingiu sua pele. Ele quis puxar a mão, mas se obrigou a ficar imóvel.
Quando Valia se afastou, o ferimento estava curado.
— Certo — ele disse, esforçando-se para manter o tom firme e controlado. Ela tinha magia da terra suficiente para curar, assim como Lucia. — Você é de verdade.
Valia não respondeu, só segurou a mão dele de novo.
— Onde conseguiu isso? — ela perguntou, tocando o anel dourado de pedra sanguínea em seu dedo.
Magnus puxou a mão.
— Foi um presente do meu pai.
— Um presente bem valioso — ela disse, encarando os olhos dele. — Muitos matariam por um anel como este. Muitos mataram por ele.
— Você sabe o que é? — ele sussurrou.
— Sei.
— O quê?
— Perigoso — ela respondeu. — Tão perigoso quanto aquele que o criou com sua magia da morte e necromancia, mil anos atrás.
Ele não foi capaz de falar nada por um momento. O silêncio recaiu sobre eles até que Magnus conseguiu encontrar sua voz.
— Quantos anos você tem, Valia? — ele perguntou. Bruno tinha dito que não a via fazia três décadas, mas ela parecia ter apenas alguns anos a mais que Ashur.
Ela sorriu. Seus olhos verdes brilharam satisfeitos.
— Não é uma pergunta que um cavalheiro deveria fazer a uma dama.
— Não sou cavalheiro.
— Cuide desse anel, príncipe Magnus. Não vai querer que alguém o roube de você, não é? — Valia se virou de novo para Taran, passando os olhos sobre as linhas brancas de seu pescoço e de sua mão. — Então você quer minha ajuda. E acha que eu estaria disposta a me envolver com isso?
— Se puder me ajudar de qualquer forma, espero que ajude — Taran disse. — E não sou só eu, a princesa Cleiona também. Ela está em apuros… Nós dois estamos.
— E você precisa ajudar os outros — Ashur disse a Valia. — Um jovem chamado Nicolo e uma imortal chamada Olivia. No entanto, os dois não tiveram a sorte de Taran e Cleiona de ainda ter um pouco de controle.
— Ele estava certo — Valia disse em voz baixa. — Estamos perto agora. Perto demais.
— Quem estava certo? — Magnus perguntou.
— Um amigo meu que gosta de dar conselhos e pedir favores difíceis que demandam tempo. — Ela observou os quatro. — Bruno, foi adorável vê-lo de novo.
Bruno se curvou.
— Você também. Uma bela visão, como sempre.
Valia assentiu.
— Levem-me até a outra… essa tal princesa Cleiona. Quero vê-la.
— E depois? — Magnus perguntou tenso.
Ela encarou bem os olhos dele.
— Depois vou avaliar se posso fazer alguma coisa para ajudar vocês ou se já é tarde demais.

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