1 de setembro de 2018

Capítulo 20

CLEO
AURANOS

Cleo se lembrou do que sentiu quando estava na plataforma perto do palco de execução e as explosões começaram, fazendo nuvens brilhantes e ardentes de fumaça se elevarem diante de seus olhos.
O mundo explodia à sua volta.
Ela lutou com toda a força que lhe restava para permanecer impassível diante das revelações do vigilante.
Ele sabia. Não havia como negar, não era possível sair ilesa daquela situação. Chegara ao fim da linha.
Tinha sido muita tolice pensar que poderia usar o anel sem que ninguém soubesse o que era, que estaria mais seguro em seu dedo do que atrás de uma pedra na parede de seus aposentos particulares.
Mas não podia se desesperar, ou tudo estaria perdido. Não podia deixar transparecer que conhecia o segredo do anel esse tempo todo e já tinha até visto uma ilustração dele em um livro muito antigo sobre a feiticeira original. Cleo arrancou a página com o desenho e a queimou, para que ninguém mais o visse, mesmo sofrendo ao pensar em como Emilia teria ficado horrorizada ao saber que ela destruíra um pedaço, ainda que pequeno, dos raros volumes do palácio. Sua irmã amava livros.
E Cleo amava Emilia.
Ela se apegou a esse amor, para que a fortalecesse naquele momento de desespero.
Lucia ficou em silêncio por um tempo, olhando para Cleo em choque, confusa.
— Você sabia disso? — ela finamente perguntou.
Fique calma, Cleo ordenou a si mesma. Não perca tudo o que se esforçou tanto para conquistar.
Ela olhou para o anel de ametista, forçando uma expressão confusa. Então levantou as sobrancelhas e olhou para a outra princesa.
— Se eu sabia que o anel que meu pai me deu instantes antes de morrer em meus braços pertenceu a uma feiticeira lendária? Não. — Ela virou para o vigilante e estendeu a mão corajosamente na direção dele. — Acredita mesmo que isto, o anel da minha mãe, é o anel de que está falando?
Ela viu confusão no rosto dele também, o que ajudou a diminuir um pouquinho seu medo. Se fosse descoberta como mentirosa e manipuladora nas tentativas de se aproximar de Lucia, seria o fim de tudo.
A ironia era que, sinceramente, começara a gostar de Lucia, apesar de sua terrível família.
Não era sua família de verdade, pensou, lembrando-se da confissão embriagada de Magnus. Ela é uma Damora apenas no nome, não no sangue.
— É este anel — Ioannes disse com certeza. — Posso sentir seu poder. Este anel, junto com sua magia, princesa, pode despertar a Tétrade — ele falou para Lucia.
Lucia virou para ele, com os olhos arregalados.
— Não pode estar falando sério.
Cleo nunca vira um garoto com a expressão mais séria do que Ioannes naquele momento.
— Você disse que queria saber sobre Melenia: o que ela me diz e o que discutiu com o rei. Eu queria esperar, mas agora… isso faz parte da profecia. O rei sabe que sua magia é a chave para o que mais deseja: possuir a Tétrade, que, ele acredita, trará um poder infinito sobre este mundo. Melenia o orientou em muitos sentidos, mas ela tem um segredo que o rei desconhece. Que o rei não pode saber.
Cleo ficou quieta como um cadáver. Ioannes continuou a falar como se ela não estivesse no quarto, como se não se importasse que ela ouvisse tudo. Talvez não a visse como uma ameaça, apenas como uma garota desavisada em posse de um anel com um histórico longo e mágico.
Ótimo.
— O que é? — Lucia segurou a mão dele, olhando para seu rosto tenso. Também não parecia preocupada com a presença de Cleo diante daquelas revelações.
Cleo mal respirava, esperando a resposta.
— O rei não pode tomar a Tétrade para si — Ioannes declarou. — Isso não será permitido. Eu disse que os vigilantes são guardiões. Faz um milênio que procuramos os cristais perdidos, sem êxito, sempre com o objetivo de devolver a Tétrade ao Santuário, onde deve ficar, onde sua magia estará segura e protegida. Sua ausência durante todos esses anos resultou em um lento esmaecimento dos mundos – tanto o de vocês quanto o nosso. A magia… a própria vida se esgotou. Dá pra ver no congelamento de Limeros, na aridez das terras de Paelsia, onde as pessoas passam fome. E aqui, em Auranos, a temperatura está subindo constantemente. Pode não parecer tão drástico agora, mas logo o calor será insuportável. Depois disso, esse esmaecimento se estenderá para além das costas de Mítica até terras e mundos distantes. Mil anos de enfraquecimento da magia, e a única solução é a Tétrade voltar para seu lar de direito. Todo esse tempo, a peça que faltava era você, princesa. Sua magia iluminará o caminho. E o anel vai ajudar.
A cabeça de Cleo estava girando. Ela não sabia ao certo se acreditava no discursinho de Ioannes, embora a previsão sobre Auranos fosse um tanto perturbadora. A Tétrade deveria ser dela, para lhe conceder a magia necessária para recuperar seu reino.
Mas se o que o recém-chegado dissera era verdade, ela tinha muito em que pensar.
— Sem o anel, eu ainda poderia encontrar os cristais? — Lucia perguntou depois de um silêncio ponderado.
— Encontrar talvez não seja a palavra certa. Mas, sim, seu poder é suficiente. No entanto, como a magia é tão nova para você, seriam necessários meses de trabalho e treino para desenvolver a habilidade necessária. Mas agora… tudo mudou. — Ioannes esfregou o peito e começou a andar de um lado para o outro em linhas curtas, com a testa muito franzida. Finalmente, olhou para Cleo, com a expressão mais curiosa do que acusatória.
— Sabe alguma coisa sobre isso?
Com a atenção de novo sobre ela, Cleo levantou o queixo e fingiu pensar, perguntando-se quão transparente deveria ser. Qual era a capacidade dos vigilantes para captar mentiras?
— Eu sei sobre a Tétrade, é claro, através de lendas e histórias. Até cheguei a conhecer uma vigilante exilada alguns meses atrás, em Paelsia, quando estive lá buscando uma cura para a doença de minha irmã. — Era melhor ter uma camada de verdade para ajudar a encobrir qualquer mentira. Ainda assim, lembrar daquilo fazia seu coração doer. — Ela me contou uma história, um conto realmente fantástico…
— Sobre o quê? — Ioannes perguntou quando ela parou de falar, sem saber quanto queria revelar.
Ela passou a língua pelos lábios secos e se forçou a falar em um tom de voz confiante, mesmo não se sentindo assim.
— Sobre Eva e o caçador mortal que ela amava, a criança nascida dos dois, perdida depois da morte da mãe. E sobre as deusas e o fato de não serem de fato deusas, mas imortais que roubaram a Tétrade e assassinaram Eva. Anos depois, elas se destruíram em uma batalha por poder, então o caçador pegou os cristais e os escondeu por toda a Mítica, onde ninguém conseguiu localizá-los desde então. — Ela tentou sorrir. — Não sei bem quanto disso é verdade.
— Uma parte — Ioannes disse. — Mas certamente não tudo. Não estou surpreso. Poucos dos meus sabem de toda a verdade, além da lenda que contamos entre nós, mesmo depois de todo esse tempo.
— Qual é a verdade? — Lucia perguntou. — E por que ninguém nunca conseguiu encontrar os cristais?
— Porque nos mil anos desde que Cleiona e Valoria deixaram de existir, a Tétrade não esteve fisicamente aqui. Os cristais não estão enterrados, não estão escondidos, não estão em nenhum lugar deste mundo. Mas agora podem ser invocados. Melenia tem trabalhado muito para preparar o terreno para essa busca. Ninguém se dedica mais a isso que ela.
Cleo reconheceu o nome Melenia da conversa que escutara entre o rei e Magnus. Ela também devia ser uma vigilante. Cleo queria desesperadamente pedir esclarecimentos, mas segurou a língua.
— Estou pronta, Ioannes — Lucia disse com vivacidade, como se essa estranha conversa a tivesse energizado. — Se esse de fato for meu destino, estou pronta para fazer o que for preciso. É muito difícil compreender tudo, mas quero ajudar você e Melenia. Minha magia pode ser usada para o bem, como você disse. Para salvar o mundo da destruição. Foi exatamente isso que você quis dizer, não foi?
— Sim — a expressão de Ioannes permaneceu rígida, até mesmo sofrida. — Talvez amanhã…
— Não, hoje. As aulas matutinas não me esgotaram. Estou pronta. Se vamos fazer alguma coisa, que seja agora. Por que esperar um dia a mais do que o necessário quando você já esperou tanto? — Ela sorriu, e seus olhos azuis se iluminaram de empolgação. — Me mostre o que fazer. Você é meu tutor. Me ensine.
— Muito bem. — O maxilar dele estava tenso. — Você quer que ela fique?
Lucia olhou para Cleo por um instante longo e intenso.
— Depende — ela disse. — Depois de tudo o que ouviu aqui, por acaso quer ficar?
Seria um teste? Para avaliar até onde ia o interesse de Cleo no assunto?
Não havia motivos para hesitar agora.
— Sim — Cleo disse com firmeza. — É tudo tão incrivelmente fascinante. Quero ficar, se você permitir.
Lucia não falou nada por um momento, concentrando-se com seriedade e determinação na resposta dela.
— Sim, pode ficar — ela finalmente respondeu. — Afinal, seu anel parece ser a peça-chave aqui. — Ela estendeu a mão. — Posso vê-lo?
— É claro. — Cleo não hesitou em tirá-lo do dedo e entregar a Lucia, que olhou para ele com admiração.
— É lindo — ela disse.
Era mesmo. E cortava o coração de Cleo vê-lo nas mãos de outra pessoa. Respire, ela disse a si mesma. Apenas respire. Ainda pode dar certo.
Ioannes fechou as cortinas e as portas da varanda, deixando o quarto na penumbra. Acendeu várias velas e as reuniu no meio do quarto.
— Melenia repassou esse feitiço comigo em detalhes. Ele vai canalizar as quatro partes de seus elementia — disse. — Por favor, sentem-se, vocês duas.
Cleo sentou no chão a mais ou menos um metro e meio de Lucia. Ioannes se sentou na frente delas, formando um triângulo com as velas no centro.
— Devo alertá-la, princesa — Ioannes disse a Lucia —, que isso vai drenar sua magia e sua energia. Ainda não sei quanto. Mas se sentir que está fazendo mal, interrompo.
Lucia concordou.
— Entendido. Não estou com medo. Como começamos?
— Melenia tem trabalhado com seu pai para construir a Estrada Imperial — ele disse.
Cleo ficou boquiaberta quando Ioannes moveu a mão, fazendo luz se espalhar pelo chão, entre eles. Finalmente, a luz se transformou em um mapa cintilante, que Cleo reconheceu na hora como Mítica. Cadeias de montanhas, florestas, praias, cidades grandes e pequenas, vilas, lagos e rios, tudo representado nos mínimos detalhes naquele panorama mágico. Parecia saído de um sonho.
Ioannes analisou o mapa. Então uma nova linha luminosa apareceu no panorama.
— É a estrada — Lucia disse com os olhos arregalados. — Reconheço dos mapas que meu pai estuda todos os dias.
— A estrada é importante — Ioannes explicou. — Foi projetada por um vigilante exilado, como eu. A construção foi inoculada com a magia dele, exatamente como Melenia instruiu. Existem quatro pontos ao longo da estrada que Melenia determinou como locais poderosos, com um nível mais concentrado de magia elementar do que qualquer outro lugar em Mítica. Ela usou a estrada para unir esses locais poderosos, ligando-os como pérolas em um colar. Três deles foram palco de momentos fatídicos de magia de sangue. Sangue que foi derramado sobre ou próximo à estrada, desencadeando desastres elementares, confirmando-os como pontos ideais.
Cleo ficou olhando para Ioannes, quase sem conseguir respirar. Desastres elementares — ela mesma tinha vivenciado um deles. Um potente terremoto no dia de seu casamento, logo depois do massacre do grupo de rebeldes de Jonas.
Magia de sangue. Seria verdade?
— Parece complicado — Cleo comentou.
Ele concordou.
— A recuperação da Tétrade é um processo complicado e estratificado. Nada dessa importância pode ser fácil.
Cleo precisava concordar com ele sobre isso.
— Então, onde ficam? — Lucia perguntou. — Esses lugares poderosos?
— Não posso revelar isso. Você precisa ser capaz de enxergar sozinha, usando sua magia. Quando os vir, será capaz de despertar os cristais e atraí-los para esses locais mágicos. Sua magia é tão pura quanto a magia da própria Tétrade, e é só através dessa fagulha de magia que eles podem ser invocados fisicamente, parte por parte. — Ele olhou para Cleo. — A invocação é um pouco menos complicada que o despertar.
— Como os cristais são invocados? — ela arriscou perguntar, necessitando saber o máximo que pudesse.
— Por meio de magia de sangue. Para fazer os cristais aparecerem, os símbolos de cada cristal da Tétrade devem ser desenhados com sangue nos locais.
Incrível. Já era bastante informação, mas ela queria mais.
— Ouvi dizer que o poder de um cristal é tão grande que pode corromper quem tocar nele — Cleo disse. Uma de suas crenças sobre o anel era de que quem o usasse não seria corrompido.
— Esse alerta se aplica aos vigilantes — Ioannes disse, com a expressão distante à luz do mapa e das velas. — Um alerta que não foi devidamente observado no passado, receio.
Então os cristais não podiam corromper um mortal? Seria verdade? Será que ela podia confiar no que aquele jovem dizia?
Ioannes podia estar mentindo. Ela não tinha como saber ao certo o que era verdade e o que era mentira.
— Como faço isso? — Lucia perguntou, franzindo a testa e olhando fixamente para o mapa. — Como desperto os cristais?
— Isso vai ajudar. Observe. — Ioannes se aproximou, pegou o anel da mão de Lucia e o fez girar diante dela. — Enquanto se concentrar no anel, ele continuará girando. Esvazie a mente de todo o resto. Pense apenas no anel e na magia contida nele. O poder dele vai acentuar o seu.
— Aprendeu isso tudo com Melenia? — ela sussurrou.
— Sim — ele respondeu apenas.
— Ela parece incrível. Tão sábia.
— O anel, princesa — ele insistiu. — Não o deixe parar de girar, ou teremos que começar de novo. Vou guiá-la.
— Tudo bem. — A empolgação tinha desaparecido dos olhos de Lucia e fora substituída por uma forte determinação. Cleo estava impressionada com sua disposição em assimilar essa virada inesperada nos acontecimentos com tanta facilidade. Mas, até aí, aquele era seu destino.
Nosso destino, Cleo corrigiu a si mesma.
Lucia se concentrou, e o anel não parou de girar. A ametista lançou sua própria luz sobre o mapa, tornando-o violeta e refletindo uma cascata de luz cintilante sobre o rosto deles e as paredes de pedra.
— Ótimo, princesa — Ioannes disse. — Está funcionando.
— O que faço agora? — Lucia perguntou, forçando a voz.
— Pense na Tétrade. Quatro cristais que contêm a mais pura essência da magia elementar. Âmbar para o fogo, selenita para o ar, água-marinha para a água e obsidiana para a terra. Forme a imagem deles na cabeça. Visualize.
— Posso vê-los — Lucia sussurrou.
— Agora você precisa sentir a qual lugar cada um pertence, o local de poder escolhido em Mítica onde os elementos devem ser despertados.
— Não entendi.
Cleo observava os dois tensa, alternando o olhar entre a feiticeira e o tutor.
— Confie em sua magia, princesa. Ela é ancestral, tão ancestral quanto a própria Tétrade. Ela sabe o que fazer. Deixe-a conduzir. — Ele hesitou. — E, se não puder, saberemos que ainda não chegou a hora. Podemos esperar um dia, uma semana…
— Eu consigo — Lucia insistiu. Ela manteve o olhar no anel que girava. — Posso ver. Posso ver o cristal da terra… onde ele será despertado…
Cleo também conseguia ver. O anel se movimentava pelo mapa de Mítica. A luz então se transformou diante dos olhos de Cleo, dando mais dimensão e profundidade à imagem. Ela de repente teve a sensação de que eram falcões, sobrevoando a terra, olhando do alto para sua superfície. O anel, ainda girando, movimentou-se pela linha da Estrada Imperial até parar em um ponto próximo de sua origem, em Auranos. Cleo o reconheceu de imediato.
— Ali — Lucia sussurrou. — O Templo de Cleiona… é o local de poder escolhido para a terra.
O terremoto. Magia da terra.
— Eu desperto o cristal da terra — Lucia disse suavemente, mas com o peso de um comando.
Impressionada, Cleo observou a exibição diante de si, agora mostrando os contornos do próprio templo. Então um símbolo apareceu, queimando, como se tivesse sido fisicamente gravado na paisagem mágica.
Um círculo dentro de outro círculo.
Ioannes respirou fundo, olhando rapidamente para Lucia.
— Você conseguiu, princesa. Despertou o cristal da terra.
A boca de Lucia formou um sorriso trêmulo.
— Foi natural. Quase não fiz esforço.
Cleo percebeu que ela estava mentindo. O que quer que tivesse feito, exigira muito dela. A feiticeira tremia, com a testa úmida de suor.
Cleo não conseguiu conter a surpresa.
— Então basta fazer o que você disse… — Cleo arriscou dizer. — Desenhar com sangue os símbolos correspondentes nos locais… para invocar o cristal?
— Sim — Ioannes respondeu, mas sua atenção estava totalmente voltada para Lucia. — Pode continuar, princesa? Ou prefere parar?
— Posso continuar. — Lucia nem piscou, a atenção ainda fixa no anel que girava. De repente, Cleo ficou chocada ao perceber que os olhos de Lucia estavam cor de ametista, a pedra do anel, e brilhavam com a luz.
O mapa mudou para outra localização ao longo da estrada, bem no centro de Paelsia. Parecia uma pequena vila cercada por uma muralha.
— O antigo complexo do chefe Basilius — Lucia disse.
— Conhece esse lugar? — Cleo perguntou, surpresa. Seu conhecimento de geografia não era tão amplo.
— Não conhecia — Lucia sorriu, trêmula. — Mas agora, sim. Conheço com tanta clareza… Cleo, nem consigo explicar.
— Não precisa. Isso é incrível, Lucia.
— É… — Lucia franziu a testa, e seus olhos brilharam. — O cristal do ar deve ser despertado aqui, no rastro de um furacão que devastou o lugar. Ar, ouça-me. Eu o desperto.
O símbolo do ar — uma espiral — gravou-se sobre o local.
Terra e ar, Cleo pensou. Tinha esperado tanto tempo, e agora tudo acontecia tão rápido.
— Princesa — Ioannes disse, preocupado, observando Lucia. — Tome cuidado. Está exigindo mais magia do que pensei que seria necessário, e isso pode fazer mal. Vamos parar por hoje.
— Não. Esse é o meu destino. — Os olhos de Lucia ardiam com a luz. — Posso fazer isso. Estou conseguindo. Precisamos encontrar a Tétrade. Todos os quatro cristais serão devolvidos ao Santuário, e minha profecia estará completa. E toda essa luta chegará ao fim. Ficarei livre. Por favor, me deixe continuar.
Ela não esperou a permissão. O mapa voltou a mudar enquanto o anel girava ao longo da linha da estrada, a leste, entrando em Paelsia, perto das Montanhas Proibidas.
— Aqui — Lucia disse, a voz começando a ficar rouca — foi onde Magnus combateu os rebeldes. Um campo de trabalho da estrada… houve um enorme incêndio. O cristal do fogo é o que pode ser despertado aqui… — Ela franziu o cenho ao parar de falar. — Espere. É tão estranho…
Cleo analisou o mapa, que havia se fechado em um trecho de terra que parecia ardente e fumegante. Um símbolo já tinha sido gravado na luz do mapa.
Um triângulo.
Fogo.
— Está diferente aqui. Sinto que esses cristais já foram despertados. — Lucia sacudiu a cabeça. — Mas é impossível, não?
— É claro que é impossível. — Ioannes estudou o mapa com preocupação. — Princesa, pode ser um sinal de que sua magia está se enfraquecendo…
— Fogo — Lucia disse, ignorando-o. — Eu o desperto. Desperto o cristal do fogo neste lugar de poder.
Três cristais. Cleo não podia acreditar. Mas era verdade: três cristais haviam sido despertados e estavam prontos para ser invocados.
— Mais um — Lucia sussurrou, com a voz mais fraca agora, apesar dos olhos acesos como pequenos sóis. — Eu consigo.
— Lucia — Ioannes estendeu o braço e segurou os pulsos dela. — É demais para você.
— Você está errado. — Ela tentou se soltar, mas não conseguiu. — Sou forte o bastante!
— Sim, você é forte. Mas basta por enquanto. Eu insisto.
Cleo viu a mão de Ioannes começar a brilhar. Lucia respirou fundo, finalmente interrompendo a concentração. A luz violeta desapareceu de seus olhos e ela se virou, furiosa, para Ioannes. Mas, logo depois, desmaiou em seus braços, perdendo a consciência.
O anel parou de girar, e sua luz mágica se apagou.
O mapa sumiu como se nunca tivesse existido.
— Você fez isso — Cleo disse com a voz abafada. — Você a fez parar.
Ioannes olhou para ela.
— Ela estava fazendo mal a si mesma, estava indo longe demais. Eu não podia deixar isso acontecer.
Lucia começou a acordar. Ela piscou e olhou para Ioannes, que a segurava nos braços.
— Quanto tempo fiquei desacordada?
— Apenas alguns instantes. E, antes que pergunte: não, nós não vamos tentar de novo hoje.
— Mas estávamos tão perto! O cristal da água…
— Pode esperar até eu julgar que chegou a hora de retomar o feitiço — ele disse, com mais severidade que qualquer outro tutor que Cleo já teve.
Cleo se aproximou e pegou o anel. Segurou-o com força até todos se levantarem. Ioannes ajudou Lucia. Ela queria se beliscar para ter certeza de que tudo aquilo tinha realmente acontecido, de que não tinha sido um sonho.
Terra, ar e fogo. Ela sabia onde estavam e como invocá-los.
Três de quatro, nada mal.
Mas sabia que precisava fazer algo que não podia adiar por mais nem um segundo.
— Lucia — Cleo disse, aproximando-se da princesa. — Vi com meus próprios olhos que Ioannes disse a verdade. Não sei como esse anel foi parar na minha família, mas agora que sei o que realmente é, o que pode fazer… quero que fique com você.
Ela apertou o anel na mão de Lucia. A outra princesa o olhou com admiração. Lucia poderia tirar o anel de Cleo com facilidade, mas era melhor entregá-lo por vontade própria antes que a feiticeira tivesse a oportunidade de fazê-lo.
Foi a coisa mais difícil que Cleo já tinha feito.
Lucia olhou para ela com os olhos azuis cheios de gratidão.
— Esse anel é a prova de que tínhamos que nos encontrar. Foi o destino que fez nossos caminhos se cruzarem dessa forma. Hoje você provou que é uma amiga verdadeira e leal. Obrigada.
Ah, com certeza havia sido o destino. Disso Cleo não tinha dúvida.
— Peço apenas uma coisa em troca — ela disse.
— O quê?
Cleo fingiu confiança, coragem. Não demonstraria nenhuma fraqueza.
— Peço que, quando for invocar o primeiro cristal, me deixe ir com você.
Lucia colocou o anel no dedo médio da mão direita e ficou olhando para ele, atônita.
Depois pegou as mãos de Cleo e a puxou para um abraço apertado.
— É claro. Você estará conosco, juro.

4 comentários:

  1. Não sei se me agrada essa falsidade com que a Cleo trata a Lucia, sei que é preciso, mas mesmo assim, não gosto...

    ResponderExcluir
  2. Acho que o cristal do fogo tem alguma coisa a ver com aquele menino do Prólogo, que tinha magia do fogo, por isso ela disse que o cristal já tinha sido despertado, tem alguma coisa errada aí..

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!