1 de setembro de 2018

Capítulo 2

MAGNUS
AURANOS

Magnus não estava com apetite para um banquete de celebração, mas foi exatamente isso que encontrou no dia seguinte a seu retorno ao palácio real auraniano, na Cidade de Ouro. Havia acabado de enfrentar uma cansativa viagem de volta de Paelsia e agora tinha que comparecer a um banquete em homenagem à sua vitória contra os rebeldes.
Garrafas e mais garrafas do doce vinho paelsiano surgiam como água da fonte, e os convidados bebiam sem comedimento. Pouco tempo antes, Magnus jamais teria cedido a coisas tão frívolas, que eram proibidas em sua terra natal, Limeros.
Mas as coisas haviam mudado. Agora, estava decidido: desfrutaria sempre que possível.
Ele chegou atrasado. Algumas horas atrasado, na verdade. Não se importava nem um pouco com pontualidade, mas, como convidado de honra, deveria ter feito uma grande entrada, e parecia ter perdido a apresentação inicial. Conseguiu apreciar três cálices do vinho doce antes de ser interrompido.
— Magnus. — O som da voz do rei o perfurou como uma lâmina. Era o primeiro contato que tinha com o pai desde sua chegada; Magnus o estava evitando de propósito.
Ele se virou e encontrou o olhar frio e atento do pai. O rei Gaius tinha olhos castanho-escuros, iguais aos de Magnus, e o cabelo de ambos tinha o mesmo tom, quase preto — o do rei ainda não mostrava nenhum fio grisalho. O pai usava sua melhor sobreveste, feita de um rico tecido cinza escuro, com o símbolo limeriano das serpentes entrelaçadas bordado em fios de seda vermelha nas mangas. Magnus usava um traje quase idêntico, um pouco rígido e restritivo demais para um dia tão quente.
Com o rei, estavam o príncipe Ashur, visitante do outro lado do oceano que, a essa altura, já abusava da hospitalidade do reino, e uma bela garota que Magnus não reconheceu.
— Pois não, pai? — O ódio que Magnus tinha pelo homem diante dele fez sua garganta se fechar. Ele lutou com todas as forças para não deixar esse ódio transparecer.
Não aqui. Não agora.
— Gostaria de lhe apresentar a princesa Amara Cortas, do Império Kraeshiano. A princesa se juntou ao irmão, Ashur, como convidada de honra. Princesa, apresento-lhe meu filho e herdeiro do trono, príncipe Magnus Lukas Damora.
Magnus desejou estar em qualquer outro lugar. Conhecer gente nova e parecer cordial era uma obrigação muito desagradável, mesmo quando estava minimamente bem-humorado. O que não era o caso.
Magnus ergueu o cálice em cumprimento aos irmãos kraeshianos.
Tinha ouvido rumores sobre a beleza da princesa Amara e agora via que eram todos verdadeiros. O cabelo profundamente negro estava preso em um coque bem apertado atrás do longo e gracioso pescoço, sua pele era escura e impecável como a do irmão, e os olhos eram de um azul claro, prateado, como os de Ashur.
Magnus forçou um sorriso e abaixou a cabeça.
— É uma honra, princesa.
— Não — disse a princesa Amara. — A honra é minha por ser recebida no palácio de seu pai com tanta cortesia, quando mal avisei sobre minha chegada.
— Minha irmã é cheia de surpresas. — A voz grave de Ashur tinha um leve sotaque kraeshiano, assim como a dela. — Nem eu estava ciente de sua chegada até a noite passada.
— Senti muito a sua falta — ela disse. — Não consegui esperar até você decidir voltar para casa. Você nos deixou sem avisar quanto tempo ficaria fora.
— Gosto de Mítica — ele respondeu. — É um pequeno conjunto de reinos muito charmoso.
Magnus notou uma leve contração no rosto do rei ao ouvir a palavra pequeno.
Talvez o príncipe Ashur não tivesse a intenção de soar desdenhoso, mas… Tinha soado.
— Ambos são muito bem-vindos ao meu pequeno reino pelo tempo que quiserem — afirmou o rei Gaius, sem qualquer animosidade na voz.
Uma coisa que Magnus admirava muito era como o pai sempre conseguia abusar do charme quando necessário. Era um talento que Magnus ainda precisava adquirir.
— Aonde foi sua adorável esposa? — A princesa Amara perguntou a Magnus. — Só consegui encontrá-la brevemente, logo que cheguei.
Aí estava uma palavra que fazia o rosto de Magnus se contrair. Esposa. Ele olhou para o salão de banquete lotado, para as várias centenas de convidados sentados às longas mesas, com montes de comida e bebida servidos, um enxame de criados garantindo que nenhum copo ficasse totalmente vazio. Um quinteto de músicos tocava seus instrumentos em um canto, como um bando de grilos barulhentos.
Como era diferente dos costumes austeros de Limeros, onde havia poucas festas e era raro ouvir música. E como seu pai mudara rápido seus antigos gostos e interesses, adaptando-se às novas leis e regras para se misturar ao entorno. Ele era dissimulado: um camaleão escondido à vista de todos.
Magnus imaginou que devia ser mais fácil se adaptar aos costumes auranianos do que forçar um reino recém-conquistado a mudar de vida de um dia para o outro. Isso levaria a mais rebelião do que seu pai já havia enfrentado, e o exército limeriano estava espalhado demais por todo o continente.
Tudo estava saindo de acordo com o plano do rei.
Ou talvez seu pai estivesse começando a gostar mais de música, banquetes e tronos de ouro do que era capaz de admitir em voz alta.
— Minha esposa? Não sei onde está — Magnus respondeu, tomando um gole de vinho e fazendo sinal para uma criada completar seu cálice. Voltou a olhar para o salão. Todos os rostos se misturavam, e ele não conseguia ver a cor dourada do cabelo de Cleo em nenhuma parte.
— Tenho certeza de que está muito feliz por ter seu novo marido de volta depois de tanto tempo — Amara disse.
— Não foi tanto tempo assim. — Francamente, não chegou a ser tempo suficiente, ele pensou.
— Um único dia longe é tempo demais para dois jovens apaixonados — Ashur afirmou.
O vinho que Magnus tinha tomado quase subiu por sua garganta.
— Que belo sentimento, príncipe Ashur. Não tinha ideia de que era um romântico.
— Ashur é o solteiro mais cobiçado de toda Kraeshia. — A princesa Amara deu o braço ao irmão. — Já recusou várias noivas. Nosso pai teme que nunca se case.
— O que posso dizer? — Ashur respondeu. — O verdadeiro amor ainda não bateu à minha porta, e não me contentarei com menos.
— Isso o torna ainda mais desejado. Mesmo aqui, conseguiu chamar a atenção de todas as mulheres com facilidade.
— Sorte a minha.
— Se nos dão licença — o rei Gaius interrompeu —, preciso ter uma conversa particular com meu filho. Por favor, aproveitem o resto do banquete.
— Muito obrigado, vossa alteza — Amara respondeu. Tocando o braço de Magnus, ela disse: — Espero vê-lo de novo em breve.
Magnus sorriu e, apesar da graça e da beleza inquestionáveis da garota, o gesto pareceu tão falso que chegou a ser doloroso.
— Faço questão.


Enquanto Magnus seguia o rei para fora do salão lotado, vários convidados tentaram chamar sua atenção, cumprimentando-o e parabenizando-o por sua vitória em Paelsia, onde impedira que os rebeldes interrompessem a construção da Estrada Imperial.
Magnus notou, então, o olhar penetrante de Nicolo Cassian, jovem guarda do palácio parado junto às portas do grande salão.
— Você a manteve aquecida para mim enquanto eu estava fora? — Magnus perguntou ao passar por ele, sentindo o primeiro vislumbre de prazer do dia quando a expressão de Nic ficou ainda mais furiosa, seu rosto tão vermelho que quase chegou ao tom do cabelo.
Nic precisava mesmo aprender a controlar as emoções se não quisesse se meter em confusão.
O tolo rapaz estava apaixonado por Cleo. E, até onde Magnus sabia — ou se importava —, Cleo sentia o mesmo por ele. Ainda assim, duvidava muito que Cleo pudesse se interessar por um simples guarda, mesmo um que considerasse seu amigo.
O rei o levou para a sala do trono, um salão grandioso com pé-direito alto e degraus de mármore esculpido que terminavam em um trono de ouro enorme e decorado, cravado de rubis e safiras. As tapeçarias e faixas auranianas penduradas sobre o trono tinham sido trocadas pelas de Limeros, mas, fora isso, a sala continuava igual ao que era quando o rei Corvin Bellos governava aquele reino abastado.
Os guardas do rei ficaram do lado de fora das portas pesadas, deixando-os sozinhos no recinto cavernoso.
Magnus ficou olhando para o pai em silêncio, desejando permanecer calmo. Não quis falar primeiro por medo de dizer algo de que se arrependesse.
— Estamos com um problema, eu e você — o rei disse ao sentar no trono.
Magnus ficou sem ar.
— Do que está falando?
— Os kraeshianos. — A expressão do rei ficou ácida, seus traços se tornando impetuosos e desagradáveis em um instante. — Aqueles tolos acham que não sei por que estão aqui. Mas eu sei.
Não era isso que Magnus esperava.
— E por que estão aqui?
— Estão aqui em nome de seu imperador, que anseia por mais poder e destrói tudo em seu caminho para conseguir o que quer.
— É mesmo? E o que pretende fazer sobre isso?
— Não vou deixar nada atrapalhar meus planos. Se esses dois espiões descobrirem o quanto estou perto de conseguir meu tesouro, sei que tentarão roubá-lo.
Preocupação e dúvida inundavam os olhos de seu pai. Magnus nunca tinha visto tanta fraqueza nele, esse homem cuja confiança era sempre ofuscante, independente do que estivesse dizendo ou fazendo.
O rei tinha objetivos grandiosos, dignos de sua ganância e crueldade incessantes. Procurava a Tétrade, os quatro cristais que continham a essência dos elementia — a magia elementar. Eles estavam perdidos havia um milênio, mas qualquer mortal que os possuísse se tornaria um deus.
Magnus vira a magia lado a lado com a morte nas sombras das Montanhas Proibidas e sabia com toda a certeza que a Tétrade era real.
E os cristais seriam dele, não de seu pai.
— Qualquer um que ousar certamente vai se arrepender, não importa quem seja — Magnus disse.
O rei assentiu, e a sombra de incerteza desapareceu.
— Sobre a batalha no campo de trabalho, ouvi dizer que você se saiu muito bem. Às vezes me esqueço do quanto é jovem.
Magnus ficou furioso.
— Tenho dezoito anos.
— Dezoito anos ainda é muito jovem. Mas você cresceu muito no último ano. Mal consigo expressar o quanto estou orgulhoso de tudo o que você faz, de tudo o que teve de enfrentar e superar. Você é tudo o que sempre sonhei que seria, meu filho.
Houve um tempo em que ouvir essas palavras de seu pai teria sido como beber um gole d’água quando estava prestes a morrer de sede.
Agora, depois de tudo o que Magnus havia descoberto, sabia que não passava de uma manipulação feita pelo homem que mais odiava no mundo.
— Obrigado, pai — ele disse com firmeza.
— Fiquei decepcionado ao saber o destino de meu vassalo. — Antes que Magnus pudesse comentar, o rei continuou: — Mas ele não era habilidoso para a batalha. Não me surpreende que tenha sucumbido com tanta facilidade à lâmina de um rebelde.
A imagem do rosto pálido e dos olhos vítreos e sem vida de Aron Lagaris passou rapidamente pela cabeça de Magnus.
— Sua ausência será sentida — ele disse, sem emoção.
— De fato.
O rei levantou e desceu as escadas para ficar frente a frente com Magnus. O rapaz lutou contra o ímpeto de agarrar a espada. Precisava permanecer calmo.
— Melenia não entra em contato comigo há semanas. — A voz do rei estava repleta de frustração enquanto falava da misteriosa imortal que, supostamente, o aconselhava em seus sonhos. — Não sei o que ela está esperando e preciso descobrir como utilizar a magia de Lucia para iluminar nosso caminho. Depois de todo esse tempo, sua irmã ainda mal consegue controlar seus elementia, e não encontro ninguém de confiança para instruí-la.
— A profecia sobre Lucia continua verdadeira. É ela que vai levá-lo à Tétrade, não Melenia. Lucia é a chave para tudo isso, e sempre terei fé nela. Mais do que qualquer um.
As palavras doeram ainda mais em sua garganta por serem verdade. Magnus ainda acreditava em Lucia, por mais que a irmã não acreditasse mais nele.
O rei segurou os ombros do filho.
— É claro, você tem razão. Lucia vai mostrar o caminho. É meu destino ter a magia da Tétrade em minhas mãos.
Não, pai, pensou Magnus. É meu destino.
— Vou ficar de olho nos kraeshianos — ele disse. — Se demonstrarem algum sinal de que desejam o que é nosso, podemos lidar com isso juntos.
O rei meneou a cabeça e pôs a mão perto da cicatriz no rosto de Magnus, com um sorriso no canto da boca.
— Sim. Juntos.
Magnus deixou a sala do trono. Atravessou rapidamente o corredor até encontrar um lugar onde pudesse fazer uma pausa, sem ser visto pelo pai, e tentar parar de tremer de raiva. De frustração. A necessidade de vingar o assassinato de sua mãe e fazer o pai enfrentar a justiça formigava sob sua pele. O vinho não ajudara em nada; estava servindo apenas para embaçar sua visão e sua mente.
Ele precisava de ar. Desesperadamente.
Continuou andando pelo corredor até encontrar a saída para uma grande sacada que dava para os jardins do palácio. Iluminados apenas pelo luar, ele tinha de admitir que eram extremamente belos. O doce perfume das rosas chegava até Magnus, quase dez metros acima. Ele arqueou os ombros, agarrou o frio balaústre de mármore e respirou fundo.
De repente, um leve movimento chamou sua atenção. Nos jardins, na trilha de mosaico que serpenteava pela área viçosa, ele viu três figuras: sua irmã adotiva, Lucia, caminhando com o príncipe e com a princesa kraeshianos.
Ele se deu conta de que não conseguia desviar o olhar.
— Alguém parece um tanto infeliz esta noite.
A voz atrapalhou sua concentração e fez os músculos de suas costas se contraírem.
Sem se virar, ele respondeu:
— Pensei que estivesse sozinho aqui fora.
— É, mas não está.
— Gostaria de ficar sozinho.
— Tenho certeza que sim. Mas cheguei antes. Na verdade, cheguei dezesseis anos antes de você aparecer e assassinar praticamente todos que conheço e amo, então acho que isso me dá o direito de ficar nesta sacada.
Ele se virou para a garota parada nas sombras e ficou chocado por não ter percebido sua presença antes. Conhecida como princesa dourada pelos cidadãos de Auranos, a princesa Cleiona tinha cabelos tão claros que quase brilhavam sob o luar. Ela tinha olhos verde-azulados, vibrantes como a superfície de um lago sob um céu de verão.
Talvez ele não a tivesse visto porque seu vestido era muito escuro: azul como o tom mais profundo do crepúsculo um instante antes do cair da noite.
Cleo emergiu de seu manto de sombras e se juntou a ele na beirada da sacada.
Acompanhando seu olhar, viu Lucia, assim como o príncipe e a princesa que visitavam o reino.
— Vai gostar de saber que me tornei bem próxima de Lucia durante sua ausência — Cleo disse.
— É mesmo?
— Sim. Acho que posso até dizer que somos amigas. Ela é muito especial, sua irmã. Entendo por que você a ama tanto.
Levada ao pé da letra, aquela era uma observação cordial. Mas vista de outro modo…
Magnus sabia que rumores sobre seu desejo platônico por Lucia circulavam pelo palácio. Os criados gostavam de falar sobre a vida das pessoas de status mais alto. E às vezes comentavam as fofocas com pessoas de status mais alto.
— Fico muito satisfeito em saber que Lucia andou passeando pelo palácio durante minha ausência — ele disse, ignorando as acusações veladas de Cleo. — Já conheceu a princesa Amara?
— Rapidamente — ela disse com frieza e nenhum entusiasmo.
— Ela também vai se tornar umas de suas amigas?
Cleo manteve um sorriso discreto, mas os olhos ficaram frios.
— Espero que sim.
Era impossível não se entreter com aquela garota. A princesa Cleiona Bellos era uma criatura incrivelmente falsa.
Mas, naquela noite, havia algo em sua expressão que ia além das mentiras e de sua agressividade evidente. Ele via uma dor recente — uma ponta de dor que ela não era capaz de esconder.
Então esperou que Cleo se pronunciasse de novo.
A garota voltou sua atenção para o jardim.
— Enterraram lorde Aron hoje.
A boca dele ficou seca.
— Fiquei sabendo.
Ela mexia em uma longa mecha de cabelo que havia se soltado dos grampos.
— Eu o conhecia desde que nasci, nos tempos bons e nos ruins. Saber que ele se foi…
Seu sofrimento pelo garoto morto era despropositado. Aron não merecia as lágrimas nem a tristeza de ninguém, mas Magnus entendia o luto. Ele mesmo o tinha sentido quando sua mãe foi morta. Ainda sentia. Era como um buraco escuro e sem fundo em seu peito.
Lorde Aron estava comprometido com Cleo quando, sem aviso, o rei Gaius mudou os planos e uniu a princesa a Magnus.
— Como ele morreu? — ela perguntou com a voz suave.
— Enquanto combatia os rebeldes que atacaram o campo de trabalho da estrada que estávamos inspecionando.
— Um rebelde matou Aron?
— Sim.
Cleo se virou e o encarou diretamente.
— Ele morreu em combate. Parece tão… corajoso.
— Parece, sim.
— Aron era muitas coisas, mas corajoso nunca foi uma delas. — Ela se virou. — Acho que eu não o conhecia direito. Se ele foi corajoso no final…
— Ele não foi. — Toda a acidez que Magnus tinha sentido naquela noite emergiu através daquelas palavras.
Cleo ficou olhando para ele, em choque.
— Sinto muito — ele disse, tentando conter o veneno que ameaçava escorrer em um terrível fluxo de verdade. — Lorde Aron se comportou em batalha exatamente de acordo com a experiência que tinha, ou seja, nenhuma. Ele não teve chance. Só lamento não ter tido a oportunidade de salvá-lo.
Mentira. Magnus ficou imaginando como ela reagiria se contasse a verdade — que Aron era um bajulador insípido, um fraco miserável que se curvou de imediato diante de um rei conquistador e fez tudo o que foi pedido sem questionar e muito menos defender sua honra ou a de seu povo.
Aron só teve o que mereceu.
Cleo agora olhava para ele com a testa franzida.
— Esse assunto chateou você — ela disse.
Magnus se virou para o jardim para esconder seu rosto dela. Lucia e os kraeshianos não estavam mais lá.
— A única coisa que sinto é vontade de encerrar esta conversa. A menos que você queira saber mais alguma coisa.
— Apenas a verdade.
— Como é?
— Sinto que está escondendo alguma coisa.
— Acredite, princesa, mesmo que estivesse, não é nada que queira saber.
Ela o encarou fixamente enquanto Magnus, sem perceber, passava os dedos sobre a cicatriz que se estendia do alto da bochecha direita até o canto da boca. Ele detestava que o examinassem tão de perto.
Houve um tempo em que Lucia era capaz de enxergar através de suas máscaras, as máscaras invisíveis que ele havia aperfeiçoado ao longo dos anos para esconder suas emoções, para manter a distância necessária daqueles que o cercavam. Para parecer uma versão mais nova de seu pai. Agora que sua irmã havia perdido aquela capacidade, ele tinha a sensação profundamente irritante de que Cleo também havia aprendido a enxergar através daquelas máscaras.
— Me conte mais sobre o que aconteceu em Paelsia — ela pediu.
Ele a olhou nos olhos e descobriu que estavam muito próximos.
— Cuidado, princesa. Lembra o que aconteceu na última vez que estivemos numa sacada? Não quer que aquilo volte a acontecer, não é?
Ele esperava ver repulsa nos olhos dela ao recordar a excursão de casamento, quando foram obrigados a se beijar diante de uma multidão ávida e entusiasmada. O primeiro beijo dos dois e, ele havia prometido a Cleo na época, o último.
— Boa noite, príncipe Magnus.
Sem dizer mais nada e com apenas uma frieza na voz para indicar sua reação à lembrança, Cleo se virou e saiu da sacada, deixando-o sozinho no escuro.

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