3 de setembro de 2018

Capítulo 1

MAGNUS
LIMEROS

— Todas as mulheres são criaturas enganadoras e perigosas. São aranhas venenosas o bastante para matar com uma só picada. Lembre-se disso.
O conselho que o pai lhe dera uma vez ecoava na memória de Magnus enquanto ele via das docas de Pico do Corvo o navio kraeshiano desaparecer na escuridão. O Rei Sanguinário nunca havia confiado totalmente em nenhuma mulher. Nem em sua rainha, nem em sua antiga amante e conselheira, nem na imortal que sussurrava segredos em seus sonhos. Magnus costumava ignorar a maior parte das coisas que o implacável pai dizia, mas agora sabia quem era a mais perigosa e enganadora de todas.
Amara Cortas tinha roubado um dos cristais da Tétrade, uma esfera de água-marinha com a essência da magia da água, deixando um rastro de sangue e destruição.
A neve violenta lhe corroía a pele, ajudando a anestesiar a dor de seu braço quebrado. Ainda faltavam horas para amanhecer, e a noite estava gelada o bastante para lhe levar a vida, se ele não fosse cuidadoso.
Ainda assim, era impossível fazer outra coisa além de olhar fixamente para as águas negras e para o tesouro roubado, que deveria ser dele.
— E agora? — A voz de Cleo finalmente interrompeu seus pensamentos sombrios.
Por um instante, Magnus havia esquecido que não estava sozinho.
— E agora, princesa? — ele resmungou, o hálito formando nuvens geladas a cada palavra que dizia. — Bom, acho que devemos desfrutar do pouco tempo que nos resta antes que os homens do meu pai cheguem para nos executar.
A pena por traição era a morte, mesmo para o herdeiro do trono. E ele havia, sem sombra de dúvida, cometido um ato de traição ao ajudar a princesa a escapar da execução.
Em seguida, foi a voz de Nic que atravessou a noite fria.
— Tenho uma sugestão, vossa alteza — ele disse. — Se já terminou de inspecionar a água em busca de pistas, por que não mergulha e nada atrás do navio daquela megera assassina?
Como de costume, o lacaio favorito de Cleo se dirigiu a Magnus sem se preocupar em esconder o desdém.
— Se eu achasse que conseguiria pegá-la, já teria mergulhado — ele respondeu no mesmo tom venenoso.
— Vamos recuperar o cristal da água — Cleo disse. — E Amara vai pagar pelo que fez.
— Não sei se compartilho da sua certeza — Magnus respondeu. Finalmente, ele olhou para trás, para ela: princesa Cleiona Bellos, com a beleza de sempre iluminada apenas pela lua e por algumas poucas lamparinas dispostas ao longo das docas.
Magnus ainda não pensava nela como uma Damora. Ela tinha pedido para manter o sobrenome da família, uma vez que era a última da linhagem, e ele havia concordado. O rei o havia castigado por permitir que Cleiona — uma princesa forçada a um casamento arranjado cujo objetivo era tornar os conquistadores mais simpáticos aos olhos do reino conquistado, com a esperança de conter qualquer rebelião imediata por parte do povo auraniano — tivesse qualquer tipo de liberdade.
Apesar do manto revestido de pele que ela usava sobre a cabeça para proteger o longo cabelo dourado da neve, Cleo tremia. Estava com o rosto pálido e envolvia o corpo com os braços.
Ela não havia reclamado do frio nenhuma vez na rápida viagem do Templo de Valoria até a cidade. Os dois mal tinham trocado sequer uma palavra até o momento.
Mas eles tinham trocado palavras demais na noite anterior, antes de o caos se instaurar.
— Me dê um bom motivo para não ter deixado Cronus me matar — ela exigiu quando finalmente o encurralou na quinta de lady Sophia.
E, em vez de continuar a ignorar ou negar o que tinha feito — matado o guarda que recebera ordens do rei para acabar com a vida da princesa aprisionada —, Magnus havia respondido, com palavras que lhe cortaram dolorosamente a garganta como se não tivesse nenhum controle sobre elas.
— Você é a única luz que consigo enxergar. E, custe o que custar, me recuso a deixar essa luz se apagar.
Magnus sabia que, naquele momento, tinha dado a Cleo muito poder sobre ele. Agora sentia aquela fraqueza — combinada a tudo o que havia acontecido na noite anterior, a começar pelo beijo avassalador que se seguiu à tola confissão da importância cada vez maior que ela tinha para ele.
Felizmente, o beijo fora interrompido antes que ele se perdesse completamente.
— Magnus? Você está bem? — Cleo tocou seu braço, mas ele ficou tenso e se afastou, como se tivesse sido queimado. A confusão brigava com a preocupação nos olhos verde-azulados da garota.
— Estou bem — ele respondeu.
— Mas seu braço...
— Estou bem — ele repetiu, mais firme.
Cleo apertou os lábios, endurecendo o olhar.
— Ótimo.
— Precisamos de um plano — Nic interrompeu. — E rápido, antes que a gente morra congelado aqui.
Seu tom de voz tirou a atenção de Magnus da princesa e a lançou diretamente para o garoto ruivo e sardento que sempre lhe parecera fraco e inútil... pelo menos até aquela noite.
— Você quer um plano? — Magnus rosnou. — Aqui está meu plano: pegue sua preciosa princesa e vá embora. Embarquem em um navio para Auranos. Caminhem até Paelsia. Não me importa. Direi a meu pai que estão mortos. O único jeito de continuarem vivos e bem é partirem para o exílio.
Os olhos de Nic brilharam de surpresa, como se aquela fosse a última coisa que esperasse ouvir de Magnus.
— Está falando sério? Podemos ir?
— Sim, podem. — Era a melhor decisão para todos. Cleo havia se tornado uma distração perigosa, e Nic era, na melhor das hipóteses, um aborrecimento, e na pior, uma ameaça. — É uma ordem.
Ele encarou Cleo, esperando encontrar alívio nos olhos da princesa.
Em vez disso, encontrou indignação.
— Uma ordem? — ela resmungou. — Com certeza as coisas seriam muito mais fáceis para você se a gente não estivesse por perto, né? Seria muito mais fácil encontrar sua irmã feiticeira e botar as mãos nos cristais que faltam.
A lembrança de Lucia, que tinha fugido para Limeros com Ioannes, seu tutor e vigilante, foi um golpe inesperado. Havia sangue no chão quando eles chegaram ao templo — e podia muito bem ser de Lucia.
Ela tem que estar viva. Magnus se recusava a pensar diferente. Lucia estava viva e, quando a encontrasse, ele mataria Ioannes.
— Pense o que quiser, princesa — ele disse, voltando ao assunto mais imediato. É claro que Magnus queria a Tétrade para si. Cleo realmente esperava que ele quisesse compartilhá-la com a garota que, praticamente desde o momento em que o conhecera, estava aguardando qualquer oportunidade para retomar o trono? A Tétrade lhe daria poderes para reivindicar não só Auranos, mas todos os outros tronos que quisesse. Ele precisava daquele poder em suas mãos — e nas de mais ninguém —, assim finalmente teria controle total sobre sua vida e seu futuro, sem precisar temer ou responder a ninguém.
Nem mesmo o que havia acontecido entre eles antes, o que fosse que significasse, poderia mudar aquilo. Eram duas pessoas de lados opostos — ambos em busca da mesma coisa, mas apenas um a conseguiria. Ele não abriria mão de tudo o que sempre quis por ninguém.
Uma onda de cor voltou ao rosto da princesa, deixando a frustração transparecer nos olhos.
— Não vou a lugar nenhum. Eu e você vamos para o palácio juntos. E vamos procurar Lucia juntos. E quando seu pai vier atrás de nós, vamos enfrentar sua fúria juntos.
Ele lançou um olhar furioso para a princesa zangada. Cleo também o encarou, sem se intimidar. Com os ombros para trás, queixo empinado, ela era uma tocha ardente no meio da noite fria e interminável.
Magnus queria muito ser forte o bastante para odiá-la.
— Muito bem — ele disse por entre os dentes. — Mas lembre-se: você tomou essa decisão sozinha.


A carruagem chegou às dependências do palácio limeriano e passou pelo posto de segurança pouco depois do nascer do sol. Assentado na beira de um despenhadeiro com vista para o Mar Prateado, o castelo negro contrastava completamente com a paisagem de um branco imaculado. As torres de obsidiana erguiam-se no céu da manhã como garras de um deus sombrio e poderoso.
Muitos o consideravam uma imagem ameaçadora, mas, para Magnus, era seu lar. Uma agitação estranha de nostalgia tomou conta dele; lembranças de tempos mais simples, de cavalgadas e aulas de esgrima com os filhos dos nobres da região. De passeios pelos arredores com Lucia a seu lado, a irmã sempre com um livro nas mãos. Da rainha, aventurando-se do lado de fora, enrolada em peles, para receber convidados importantes que chegavam para um banquete. De seu pai voltando de uma caçada, saudando o jovem filho com um raro sorriso.
Para todo lugar que olhava, via fantasmas do passado.
Ele saiu da carruagem e subiu as dezenas de degraus que levavam às grandes e pesadas portas principais, com a superfície de ébano adornada com o emblema limeriano da naja e o lema “força, fé e sabedoria”. Dava para ouvir Cleo e Nic sussurrando em tom conspiratório enquanto caminhavam atrás dele.
Magnus dera a eles uma grande chance de partir e não enfrentar nenhuma consequência, mas ainda assim os dois tinham escolhido ir com ele. A responsabilidade pelo que poderia acontecer em seguida seria inteiramente deles.
Dois homens vigiavam as portas de entrada. Usavam o uniforme grosso e vermelho da guarda limeriana, com pesados mantos pretos para ajudar a bloquear o frio. Magnus sabia que não precisava se apresentar. Os guardas fizeram reverências sincronizadas.
— Vossa alteza! — exclamou um deles, antes de olhar com surpresa para Cleo e Nic. — Altezas — corrigiu. — Está tudo bem?
Com o braço quebrado apoiado de forma estranha, o rosto machucado e ensanguentado, e a aparência desgrenhada como um todo, Magnus não se surpreendeu com a pergunta do guarda.
— Bem o bastante — ele respondeu. — Abra as portas.
Ele não precisava explicar a um simples guarda por que havia chegado sem avisar naquele estado. Aquela era sua casa, e ele tinha todo o direito de entrar ali sempre que desejasse, sobretudo depois de escapar por pouco da morte nas mãos dos escudeiros de Amara.
Ainda assim, Magnus não conseguia ignorar a possibilidade ameaçadora de que uma mensagem ordenando sua prisão tivesse sido enviada ao castelo via corvo. Mas quando os guardas abriram as portas sem dizer nada, ele soltou o ar que nem sabia que estava prendendo.
Magnus parou um momento na entrada majestosa para se recompor, observando tudo e fixando o olhar na escadaria em espiral esculpida nas paredes de pedra, como se procurasse alguma falha.
— Quem está no comando aqui, com lorde Gareth ainda em Auranos? Imagino que ele ainda não tenha voltado da festa de casamento da filha.
— Lorde Gareth ainda deve demorar algumas semanas. Em sua ausência, lorde Kurtis foi nomeado grão-vassalo do rei.
Magnus não sabia o que responder e pensou que talvez não tivesse ouvido o guarda direito.
— Lorde Kurtis Cirillo foi nomeado grão-vassalo do rei? — ele perguntou depois de um instante.
— Sim, vossa alteza.
Kurtis Cirillo, filho mais velho de lorde Gareth, estava no comando de Limeros. A notícia era uma grande surpresa, já que Magnus tinha ouvido alguns meses antes um rumor de que Kurtis havia se afogado durante uma viagem para o exterior.
Ele ficou decepcionado ao saber que o rumor se provava falso.
— Conheci você em minha última visita — Cleo disse ao guarda enquanto baixava o capuz. — Enzo, não é?
— Isso mesmo. — O guarda observou com agonia o manto rasgado e as manchas de sangue ressecado no cabelo loiro de Cleo. — Vossa alteza, precisa que eu chame o médico do palácio?
Sem se dar conta, ela tocou o ferimento pequeno, porém dolorido, em sua testa, causado por um dos guardas de Amara.
— Não é necessário. Obrigada. — Ela sorriu, e seu rosto se iluminou. — Você é muito gentil, já tinha percebido na última vez.
O rosto de Enzo logo ficou vermelho como o uniforme.
— A senhora facilita a gentileza, vossa graça.
Magnus conteve o ímpeto de revirar os olhos. Parecia que a princesa tinha capturado outra mosca desafortunada em sua teia.
— Enzo — ele disse em voz baixa e assertiva. O guarda virou imediatamente. — Peça para lorde Kurtis me encontrar na sala do trono agora mesmo.
Outra reverência.
— Sim, vossa alteza. — Ele saiu sem dizer mais nada.
— Venham — Magnus disse a Cleo e Nic, dando meia-volta e seguindo o caminho familiar pelo castelo até seu destino.
— Venham — Nic repetiu em tom de zombaria. — Ele dá ordens como se fôssemos cães adestrados.
— Não sei se alguém chegou a ensinar ao príncipe como tratar as pessoas com educação — Cleo respondeu.
— E ainda assim — Magnus disse — vocês estão me seguindo, não estão?
— Por enquanto. Mas é melhor lembrar que o charme abre muito mais portas do que palavras afiadas.
— E um machado afiado abre todas as portas.
Havia vários guardas posicionados na entrada da sala do trono, e todos se curvaram ao ver Magnus. Não foi necessário nenhum machado, pois as portas se abriram tão rápido que nem foi preciso diminuir o passo.
Lá dentro, ele inspecionou a sala cavernosa. O trono de seu pai, de ferro negro e couro, ficava sobre uma plataforma em uma das extremidades. Na outra, uma longa mesa de madeira e cadeiras, para as reuniões do conselho. As paredes eram guarnecidas com tapeçarias limerianas e bandeiras, além de várias tochas delineando as molduras, trazendo um pouco de luz aos cantos da sala, onde o sol que brilhava pelas grandes janelas não alcançava.
A sala do trono era cenário de muitas reuniões oficiais. Era onde o rei recebia os cidadãos limerianos e seus vários pedidos de assistência financeira ou justiça contra transgressões. Era onde ele sentenciava prisioneiros por seus crimes e celebrava cerimônias em que tanto homens merecedores quanto não merecedores recebiam títulos oficiais como grão-vassalo do rei.
Pelo canto do olho, Magnus notou que Cleo tinha se aproximado.
— Você já conhece lorde Kurtis, não é? — ela perguntou.
Magnus manteve o olhar fixo no trono.
— Conheço.
— E não gosta dele.
— Não gosto de ninguém, princesa.
Nic bufou.
Os três ficaram em silêncio enquanto Magnus pensava na melhor maneira de lidar com a bagunça que sua vida havia se tornado. Ele se sentia acuado: ferido, desarmado e vulnerável demais. O braço quebrado latejava, mas, em vez de ignorar a dor, ele se concentrou nela, para ajudar a limpar a mente do zumbido constante de confusão e caos.
Fazia seis anos que Magnus não via Kurtis Cirillo, mas ainda se lembrava dele tão claramente como se o tivesse visto no dia anterior.
Naquele dia, o sol estava claro e quente, e a neve tinha derretido tanto que lírios rompiam o solo congelado. Uma rara borboleta de verão, com asas douradas com manchas azuis e roxas, pousou sobre uma das flores no jardim perto da beirada do despenhadeiro. Em Limeros, era considerado sinal de sorte ver uma borboleta de verão, pois elas viviam apenas um dia.
Magnus estendeu a mão na direção do inseto e, para sua surpresa, ela subiu em seu dedo, fazendo cócegas na pele. Era tão bela de perto que quase parecia mágica.
— Isso é uma borboleta?
Um arrepio percorreu suas costas ao ouvir a voz fria de Kurtis. O garoto tinha catorze anos, e Magnus, doze. O rei insistia que o filho fosse simpático com Kurtis durante as visitas de lorde Gareth. Mas era difícil ser simpático com aquele garoto terrível; ficar a apenas dez passos dele já o deixava desconfortável.
— É — Magnus respondeu relutante.
Kurtis chegou mais perto. Ele era bem mais alto que Magnus.
— Você devia matá-la.
Magnus franziu a testa.
— O quê?
— Qualquer coisa estúpida o suficiente para pousar nessa sua mãozinha pálida merece morrer. Mate-a.
— Não.
— Você é o herdeiro do trono. Vai ter que crescer um dia, sabia? Vai ter que matar pessoas e não vai poder chorar depois. Seu pai esmagaria essa coisa em um segundo. Eu também. Não seja tão fraco.
Magnus já sabia que Kurtis gostava de machucar animais. Durante sua última visita, Kurtis tinha matado um gato e deixado o que sobrou do corpo se contorcendo em um corredor onde sabia que Lucia o encontraria. Ela passou dias chorando.
— Não sou fraco! — Magnus retrucou por entre os dentes.
Kurtis sorriu.
— Então vamos fazer um teste. Ou você mata essa coisa agora mesmo, ou prometo que da próxima vez que vier aqui... — Ele se aproximou o bastante para sussurrar. — Corto o dedo mindinho da sua irmã.
Magnus olhou para ele, horrorizado.
— Vou contar para o meu pai que você disse isso. Nunca mais vai poder voltar aqui.
— Vá em frente. Conte. Eu vou negar. Quem vai acreditar em você? — Ele riu. — Agora, escolha. A borboleta ou o dedo da sua irmã. Vou cortar bem devagar e dizer a ela que foi você que mandou.
Ele queria acreditar que aquilo não passava de um blefe, mas a lembrança daquele gato fez sua garganta fechar.
Magnus sabia que não tinha escolha. Bateu a mão esquerda sobre a direita, sentindo o colapso macio das asas brandas ao esmagar a criatura bela e pacífica.
Kurtis abriu um sorriso malicioso.
— Ah, Magnus. Não sabe que dá azar matar uma borboleta de verão?
— Príncipe Magnus, parece que acabou de voltar da guerra. — Mais uma vez, a voz de Kurtis arrancou Magnus daquela terrível lembrança.
Sem perder tempo, Magnus se recompôs, estampando uma expressão agradável o suficiente ao se virar. Kurtis ainda era incrivelmente alto — três a cinco centímetros a mais que Magnus. O cabelo castanho-avermelhado, os olhos verde-escuros e as feições angulosas sempre remetiam Magnus a uma fuinha.
— Não foi precisamente uma guerra. Mas os últimos dias foram desafiadores.
— Estou vendo. Seu braço...
— Vou receber cuidados em breve, assim que tirar algumas pendências do caminho. Fico satisfeito em ver que está bem, Kurtis. Ouvi rumores terríveis.
Kurtis sorriu com aquela expressão repulsiva de sempre e fez um gesto de desdém.
— Ah, sim, os rumores sobre minha morte. Mandei contarem essa história absurda para um amigo ingênuo, de brincadeira. E ele logo espalhou a notícia. Mas, como pode ver, estou vivo e bem. — O olhar curioso de Kurtis foi parar em Cleo, parada ao lado de Magnus, e depois em Nic, que tinha ficado junto à porta, ao lado de três guardas.
Claramente, Kurtis esperava apresentações.
Magnus preferiu fazer o jogo dele naquele momento.
— Princesa Cleiona Bellos, este é lorde Kurtis Cirillo, grão-vassalo do rei de Limeros.
Cleo o cumprimentou com um meneio de cabeça quando Kurtis beijou sua mão.
— É uma honra conhecê-lo — ela disse.
— A honra é minha — Kurtis respondeu. — Ouvi falar de sua beleza, mas minhas maiores expectativas foram superadas.
— É muita gentileza, tendo em vista minha aparência esta manhã.
— De jeito nenhum. Sua beleza é reluzente. Mas deve me assegurar de que não está sentindo dor.
Ela manteve o sorriso.
— Não estou.
— Fico feliz em saber disso.
Todos os músculos do corpo de Magnus ficaram tensos ao som da voz do grão-vassalo.
— E este é Nicolo Cassian, o... — Qual seria a melhor maneira de explicar a identidade do rapaz e sua presença ali? — ... criado da princesa.
Kurtis arregalou os olhos.
— Um criado homem? Que peculiar.
— Não no sul. — Em um gesto louvável, Nic levou a apresentação na esportiva. — Lá é um trabalho normal, honrado e masculino.
— Tenho certeza que sim.
Magnus já estava farto de cortesias forçadas. Era hora de ir direto ao ponto.
— Suponho que esteja se perguntando por que eu e minha esposa estamos aqui, em Limeros, e não com meu pai, em Auranos — Magnus afirmou. — Ou foi avisado de nossa atual situação?
— Não fui. Foi uma surpresa inesperada, porém muito agradável.
Parte da tensão nos ombros de Magnus desapareceu.
— Então vou confidenciar um segredo muito bem guardado: estamos em Limeros à procura de minha irmã, que fugiu para se casar com seu tutor. Precisamos impedir que ela cometa esse erro... e qualquer outro erro futuro.
— Minha nossa — Kurtis cruzou as mãos atrás das costas. — Lucia sempre foi cheia de surpresas, não é?
Você não faz ideia, Magnus pensou.
— Sim, de fato.
Assentindo, Kurtis subiu os degraus que levavam ao trono do rei e sentou. Magnus o observou com extrema descrença, mas decidiu segurar a língua.
— Colocarei doze guardas à sua disposição para essa importante busca — Kurtis anunciou. Ele então se dirigiu a um dos guardas que estava na porta. — Organize isso imediatamente e retorne a esta sala.
O guarda se curvou.
— Sim, vossa graça.
Magnus viu o guarda sair.
— Eles obedecem suas ordens com muita facilidade.
— É verdade. Faz parte do treinamento. Guardas limerianos recebem qualquer ordem oficial e a cumprem ao pé da letra, de imediato.
Magnus concordou.
— Meu pai não teria feito diferente. Aqueles que demonstram qualquer sinal de desobediência são... disciplinados. — Aquela era uma palavra leve demais para as punições que Magnus tinha visto guardas do palácio sofrerem quando não se dedicavam de corpo, mente e alma a seus deveres para com o reino.
— É assim que deve ser — disse Kurtis. — Agora, vou providenciar acomodações para você, sua bela esposa e seu criado.
— Sim. Fico com meus próprios aposentos. A princesa vai precisar de aposentos separados, de acordo com sua posição. E Nic pode ficar... — Ele olhou para o rapaz. — ... na área dos criados. Talvez em um dos quartos maiores.
— É muita gentileza sua — Nic respondeu em tom sombrio.
— Aposentos separados para marido e mulher? — Kurtis disse, franzindo a testa.
— Foi o que eu disse — Magnus confirmou, um instante antes de lhe ocorrer que aquilo podia parecer um pedido estranho em se tratando de um casal.
— Magnus está sendo muito gentil em fazer esse pedido em meu nome — Cleo se manifestou para esclarecer a dúvida de Kurtis. — É uma tradição antiga da minha família manter aposentos separados no primeiro ano de casamento, tanto para boa sorte quanto para tornar nosso tempo juntos mais... animado e imprevisível. — Ela corou e olhou para baixo, como se estivesse constrangida com a confissão. — É uma tradição boba, eu sei.
— Nem um pouco — Magnus disse, impressionado com a mentira ágil da princesa.
Kurtis assentiu, pelo jeito satisfeito com a explicação.
— Muito bem. Vou garantir que tenham exatamente o que solicitaram.
— Ótimo. — Magnus voltou a atenção para o “vassalo”. — Também preciso enviar alguns homens ao Templo de Valoria de imediato. Na noite passada, houve uma tempestade de gelo violenta e isolada que deixou muitos mortos. As vítimas devem ser enterradas até o meio-dia, e o templo, restaurado à sua glória original o mais rápido possível.
De acordo com os costumes religiosos de Limeros, o corpo dos mortos deveria ser enterrado com terra benzida por um sacerdote, em até doze horas após a morte.
Magnus não pôde deixar de olhar para Nic, cuja expressão era de dor diante da menção dos corpos no templo. Um dos corpos era do príncipe Ashur — irmão de Amara. O príncipe tinha se tornado próximo de Nic antes de ser assassinado pelas mãos sorrateiras da própria irmã.
— Uma tempestade de gelo? — Os olhos de Kurtis estavam ainda mais arregalados. — Então é por isso que vocês estão nesse estado. Agradeço à deusa por você e sua esposa terem sido poupados. Devem estar precisando de descanso depois de uma experiência tão sofrida.
— O descanso pode esperar.
— Muito bem. — Kurtis segurou os braços do trono. — Por quanto tempo terei a honra de sua presença antes de retornarem a Auranos?
Doze guardas entraram na sala do trono, desviando por um instante a atenção de Magnus. Por mais dedicados e comprometidos que os guardas limerianos fossem, doze não eram suficientes para formar uma equipe de busca pela sua irmã.
— Não pretendo voltar a Auranos — Magnus respondeu, voltando a olhar para Kurtis.
Kurtis inclinou a cabeça.
— Acho que não entendi.
— Este é meu lar, meu palácio, meu reino. E, na ausência de meu pai, esse trono onde você se sentou é meu por direito.
Kurtis o encarou por um instante até um sorriso surgir em seus lábios.
— Compreendo inteiramente. No entanto, o próprio rei me nomeou ao trono durante este período. Executei minhas tarefas com prazer e com sucesso, na ausência dele e de meu pai. Os membros do conselho já se acostumaram a seguir minhas orientações.
— Então agora que estou aqui terão que se acostumar a seguir minhas orientações.
O sorriso de Kurtis desapareceu. Ele voltou a recostar no trono, sem fazer nenhuma menção de que pretendia levantar.
— Magnus...
— É príncipe Magnus. Ou vossa alteza — ele o corrigiu. Mesmo sem subir os degraus, Magnus podia ver a ponta de raiva nos olhos verdes de Kurtis.
— Peço desculpas, príncipe Magnus, mas sem nenhuma notificação do rei Gaius, terei de me opor a essa mudança tão repentina. Talvez devesse...
— Guardas — Magnus chamou, sem se virar. — Compreendo que estivessem recebendo ordens de lorde Kurtis nas últimas semanas, o que era o correto a se fazer. Mas sou seu príncipe, herdeiro do trono de meu pai, e agora que estou aqui, vocês estão sob meu comando. — Sua expressão era dura ao encarar os olhos que odiava desde os tempos de menino. — O grão-vassalo do rei me insultou com suas oposições. Tirem-no de meu trono e cortem sua garganta.
O ardente ultraje nas feições de Kurtis logo se transformou num medo gélido quando os guardas se aproximaram. Quatro já tinham subido os degraus antes que ele pudesse fazer qualquer movimento. Arrancaram-no do trono e o arrastaram escada abaixo, onde o forçaram a se ajoelhar. Magnus tomou seu lugar no alto da plataforma.
O trono frio e implacável suscitava muitas lembranças, mas Magnus nunca tinha sentado ali antes.
Era muito mais confortável do que esperava.
A tropa de uniforme vermelho aguardava diante dele, todos olhando em sua direção, sem nenhuma dúvida ou preocupação. Cleo estava agarrada ao braço de Nic, o rosto pálido e uma expressão de incerteza.
Ajoelhado diante de Magnus estava Kurtis, olhos apavorados, rosto suado, com a lâmina da espada de um guarda na garganta.
— Vossa alteza — ele conseguiu falar. — Se sentiu que lhe ofendi de algum modo, não foi minha intenção.
— Pode até ser. — Magnus se inclinou para a frente e o observou por um longo momento. — Implore para que eu poupe sua vida e talvez eu apenas corte seu mindinho.
Primeiro, confusão, em seguida, a compreensão transpareceu nos olhos de Kurtis.
É isso mesmo, pensou Magnus. Agora a situação mudou entre nós, não é?
— Por favor — Kurtis sussurrou. — Por favor, vossa alteza, poupe minha vida. Eu lhe imploro. Por favor, farei qualquer coisa para provar meu valor e merecer o perdão por ter lhe insultado.
Uma onda de puro poder percorreu Magnus e fluiu dentro dele. Ele sorriu, um sorriso genuíno, para a doninha chorosa.
— Diga “por favor” mais uma vez. — Quando não houve resposta imediata, Magnus fez um sinal para o guarda, que pressionou ainda mais a espada na garganta pálida de Kurtis, formando uma linha fina de sangue.
— Por favooooor — Kurtis conseguiu dizer.
Magnus acenou, e o guarda afastou e embainhou a espada.
— Está vendo? Não se sente melhor agora?
Kurtis levantou tremendo. Talvez, ao contrário de Magnus, ele nunca tivesse sido punido fisicamente por seus erros.
Ele abaixou a cabeça.
— Obrigado, vossa alteza. Estou a seu dispor.
— Fico feliz em saber — afirmou Magnus. — Agora, preciso enviar uma mensagem ao meu pai imediatamente. Quero informá-lo do que pretendo fazer por aqui. Não quero que ele se preocupe comigo.
— É claro, vossa alteza.
— Seja um bom grão-vassalo e vá buscar um pouco de tinta e um pergaminho.
A expressão de Kurtis obscureceu um pouco, mas ele logo se recompôs.
— Sim, vossa alteza.
Magnus notou Cleo observando quando Kurtis deixou a sala, mas ela não disse nada, assim como Nic. Quando a princesa voltou a olhar para ele, Magnus não viu nada além de acusação em seus olhos. Talvez não concordasse com a maneira como Magnus havia reduzido aquele jovem a um servo assustado por causa de uma transgressão sem importância, ao menos aos olhos dela.
Sim, princesa, pensou Magnus. Sou o filho de Gaius Damora, o Rei Sanguinário. E é hora de começar a agir como tal.

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