16 de setembro de 2018

Capítulo 1

JONAS
KRAESHIA

Do outro lado do mar, em Mítica, havia uma princesa dourada que Jonas queria salvar.
E um deus do fogo que ele precisava destruir.
No entanto, havia um obstáculo em seu caminho nas docas kraeshianas, consumindo um tempo que Jonas não podia perder.
— Achei que você tinha dito que ele havia sido morto pela irmã — Jonas disse a Nic em voz baixa.
— E foi. — A voz de Nic não era mais que um sussurro, enquanto passava as duas mãos pelos cabelos ruivos e despenteados. — Eu vi com meus próprios olhos.
— Então como isso é possível?
— Eu… eu não sei.
O príncipe Ashur Cortas parou a apenas alguns passos de distância. Encarou Jonas e Nic com seus olhos azul-prateados semicerrados, que contrastavam com a pele escura como o brilho de uma lâmina ao anoitecer.
Os únicos sons ouvidos por um longo momento foram o grasnado de uma ave marinha que mergulhava para pegar um peixe e a batida constante da água contra o navio limeriano, com suas velas pretas e vermelhas.
— Nicolo — o príncipe de cabelos negros disse com um aceno de cabeça. — Sei que deve estar confuso em me ver novamente.
— Eu… eu… o quê…? — Foi a única resposta de Nic. As sardas em seu nariz e em suas bochechas se destacavam sobre a pele branca. Ele respirou fundo, trêmulo. — Não é possível.
Ashur arqueou a sobrancelha escura para o garoto, hesitando apenas um segundo antes de falar:
— Em meus vinte e um anos de vida, aprendi que pouquíssimas coisas neste mundo são impossíveis.
— Eu vi você morrer. — A última palavra soou como se tivesse sido arrancada dolorosamente da garganta de Nic. — O que foi aquilo? Apenas mais uma mentira? Mais um truque? Mais um plano que não sentiu necessidade de me contar?
Jonas ficou surpreso que Nic ousasse falar com tanta insolência com um membro da realeza. Não que ele respeitasse muito os membros da família real, mas Nic tinha passado tempo o bastante no palácio auraniano, lado a lado com a princesa, para saber que não era prudente ser grosseiro.
— Não foi mentira. O que aconteceu no templo não foi nenhum truque. — Ashur passou os olhos pelo navio limeriano, pronto para partir das docas cheias e movimentadas de Joia do Império. — Explico melhor quando nós estivermos no mar.
Jonas arregalou os olhos diante do tom autoritário e confiante do príncipe.
— Quando nós estivermos no mar? — ele repetiu.
— Sim, eu vou com vocês.
— Se pretende fazer isso — Jonas disse, cruzando os braços —, vai ter que se explicar melhor agora.
Ashur olhou para ele.
— Quem é você?
Jonas não desviou o olhar.
— Sou a pessoa que decide quem entra neste navio. E quem não entra.
— Você sabe quem eu sou? — Ashur perguntou.
— Sei muito bem. Você é o irmão de Amara Cortas, que aparentemente se tornou a imperatriz sanguinária de grande parte deste mundo maldito. E, de acordo com o Nic, você deveria estar morto.
Uma figura familiar apareceu atrás de Ashur, chamando a atenção de Jonas.
Taran Ranus havia deixado as docas apenas alguns minutos antes, para se preparar rapidamente para uma viagem não planejada a Mítica. Mas já estava de volta. Conforme se aproximava, o rebelde desembainhou uma espada da cintura.
— Ora, ora — Taran disse ao levar a ponta da espada até a garganta de Ashur. — Príncipe Ashur. Que surpresa agradável tê-lo entre nós esta manhã, justo quando meus amigos estão trabalhando para derrubar o reinado de sua família.
— Deu para perceber que estão trabalhando mesmo com o caos generalizado por toda Joia — Ashur comentou, com tom e conduta surpreendentemente serenos.
— Por que voltou? Por que não ficou no exterior buscando tesouros sem sentido como todos dizem que aprecia fazer?
Buscando tesouros? Jonas trocou um olhar ansioso com Nic. Parecia que poucos estavam cientes de que o príncipe tinha sido dado como morto.
— As circunstâncias do meu retorno não são da sua conta.
— Você está em Kraeshia por causa do… — Nic começou, mas hesitou logo em seguida. — Do… do que aconteceu com sua família? Deve estar sabendo, não?
— Sim, estou. — A expressão de Ashur obscureceu. — Mas não é por isso que estou aqui.
Taran riu.
— Como verdadeiro herdeiro do trono, talvez você seja uma excelente ferramenta de negociação com sua avó, agora que sua irmã se casou com o inimigo e viajou.
Ashur achou graça.
— Se é o que você pensa, então não conhece nada sobre o desejo de poder dela nem de minha irmã. É fácil ver que seus rebeldes estão em desvantagem numérica. O levante de vocês vai ser tão efetivo quanto o piado de um passarinho recém-nascido à sombra de um gato selvagem. O que vocês realmente precisam fazer é entrar neste navio e partir enquanto podem.
O sorriso irônico de Taran desapareceu. Seus olhos castanhos se encheram de indignação.
— Você não pode me dizer o que fazer.
Jonas estava desconfortável com o comportamento de Ashur. Ele não parecia afetado pelas últimas notícias sobre o massacre de quase toda sua família. Não era possível dizer se Ashur sofria pela perda ou se a celebrava.
Ou será que ele apenas não sentia nada?
— Abaixe a arma, Taran — Jonas resmungou, depois soltou um suspiro. — Por que voltou tão cedo, afinal? Não tinha pertences para buscar?
Taran não cedeu. Manteve a ponta afiada da espada pressionada contra a garganta de Ashur.
— As estradas estão bloqueadas. Vovó Cortas decidiu que todos os rebeldes devem ser assassinados imediatamente. Como explodimos o calabouço da cidade ontem, não há local para deixar os prisioneiros.
— Mais um motivo para irmos embora agora — Nic insistiu.
— Concordo com Nicolo — Ashur disse.
O grasnado furioso de um pássaro chamou a atenção de Jonas. Ele protegeu os olhos do sol e virou para o falcão dourado que sobrevoava o navio.
Olivia estava ficando impaciente. E não era a única.
Ele se esforçou para se manter calmo. Não podia correr o risco de tomar decisões precipitadas.
No mesmo instante, uma imagem de Lysandra surgiu em sua mente, junto com o som de sua risada. “Sem decisões precipitadas? Desde quando?”, ela teria dito.
Desde que eu não consegui salvá-la e você morreu.
Dispersando a dor, Jonas voltou sua concentração para o príncipe.
— Se pretende embarcar neste navio — ele disse —, explique como conseguiu ressurgir dos mortos e chegar até um grupo de rebeldes como se tivesse saído apenas para tomar uma caneca de cerveja.
— Ressurgir dos mortos? — Taran repetiu, passando de furioso a confuso.
Ignorando Taran, Jonas procurou sinais de intimidação no comportamento do príncipe. Algo que indicasse que ele temia pela própria vida, que estava desesperado para fugir de sua terra natal. Mas seus olhos claros só mostravam serenidade.
Era perturbador, na verdade.
— Já ouviu falar da lenda da fênix? — Ashur perguntou com naturalidade.
— Claro que sim — Nic respondeu. — É um pássaro mítico que ressurgiu das cinzas das chamas que originalmente o mataram. É o símbolo de Kraeshia, que mostra a força do império e sua capacidade de desafiar a própria morte.
Ashur assentiu.
— Sim.
Jonas arqueou as sobrancelhas.
— Sério? — ele disse.
Nic deu de ombros.
— Fiz uma aula sobre mitos estrangeiros com Cleo uma vez. Prestei mais atenção do que ela. — Ele lançou um olhar desconfiado para Ashur. — O que tem essa lenda?
— Existe também uma lenda sobre um mortal destinado a fazer o mesmo: voltar dos mortos para unir o mundo. Minha avó sempre acreditou que minha irmã seria essa fênix. Quando Amara era bebê, ela morreu por um breve instante, mas voltou à vida, graças a uma poção de ressurreição que nossa mãe lhe deu. Pouco tempo atrás, quando fiquei sabendo dessa história, encomendei a mesma poção para mim. Não tenho certeza se de fato acreditava que funcionaria, mas funcionou. E quando levantei ao amanhecer, no templo onde havia morrido na noite anterior pelas mãos de minha irmã, me dei conta da verdade.
— Que verdade? — Jonas questionou quando Ashur ficou em silêncio.
Ashur o encarou nos olhos.
— Eu sou a fênix. É a minha sina salvar este mundo de seu atual destino, e preciso começar contendo minha irmã e sua necessidade sinistra de seguir cegamente os passos de meu pai.
O príncipe ficou em silêncio de novo enquanto seus três ouvintes o encaravam. Taran foi o primeiro a rir.
— Membros da família real sempre se acham tão importantes — ele zombou. — Lendas sobre heróis que desafiam a morte são tão antigas quanto as lendas sobre os próprios Vigilantes. — Taran olhou para Jonas. — Vou cortar a cabeça dele. Se ele levantar depois disso, aí passo a acreditar.
Jonas não achou que Taran estivesse falando sério, mas não quis arriscar.
— Abaixe a arma — Jonas resmungou. — Não vou falar de novo.
Taran inclinou a cabeça.
— Não recebo ordens suas.
— Quer viajar neste navio? Então, sim, você recebe ordens minhas.
Ainda assim, Taran não cedeu, e seu olhar se tornou ainda mais desafiador.
— Está causando problemas para Jonas, Ranus? — A voz de Felix ecoou pouco antes de ele parar ao lado de Jonas.
Jonas ficou grato por Felix Gaebras — com toda sua altura e seus músculos — estar a seu lado. Ex-membro do Clã da Naja, grupo de assassinos que trabalhava para o rei Gaius, não por acaso Felix conseguia produzir uma sombra letal e intimidadora.
Mas Taran era igualmente letal e intimidador.
— Quer saber dos meus problemas? — Taran finalmente abaixou a espada, depois indicou com a cabeça o príncipe ressuscitado. — Este é o príncipe Ashur Cortas.
Com o olho bom, Felix contemplou o príncipe com ceticismo. Depois de passar a última semana preso, sendo torturado sem dó nem piedade por envenenar a família real kraeshiana — crime pelo qual Amara o havia culpado —, aquele era seu único olho; o outro estava coberto por um tapa-olho preto.
— Você não devia estar morto?
— Ele está. — Até então, Nic tinha ficado bem quieto, sem tirar os olhos do príncipe, com uma expressão ao mesmo tempo perplexa e confusa.
— Não estou — Ashur explicou pacientemente a Nic.
— Pode ser um truque. — Nic franziu a testa, concentrado, enquanto observava o príncipe com cuidado. — Talvez você tenha feito alguma bruxaria com magia do ar suficiente para mudar sua aparência.
Ashur arqueou uma das sobrancelhas escuras, como se achasse graça.
— Acho difícil.
— Bruxaria é coisa de mulher — Taran argumentou.
— Nem sempre — Ashur respondeu. — Existiram algumas exceções notáveis no decorrer dos séculos.
— Você está tentando soar convincente ou não? — Jonas perguntou com firmeza.
— Ele é irmão de Amara — Felix vociferou. — Vamos matá-lo de uma vez e acabar logo com isso.
— Sim — Taran assentiu. — Nisso estamos de acordo.
Ashur suspirou, e, pela primeira vez, percebeu-se um quê de impaciência. Apesar das ameaças, ele manteve a atenção em Nic.
— Entendo sua hesitação em acreditar em mim, Nicolo. Me lembro de sua hesitação aquele dia na Cidade de Ouro, quando saiu da taverna… A Fera, acho que esse era o nome. Você estava bêbado, perdido, e olhou para mim naquela viela como se eu pudesse matá-lo com as duas lâminas que carregava. Mas não matei, não é mesmo? Em vez disso, você se lembra do que eu fiz?
O rosto pálido de Nic corou instantaneamente, e ele limpou a garganta.
— É ele — Nic disse rapidamente. — Não sei como, mas… é ele. Vamos.
Jonas analisou o rosto de Nic, sem saber se deveria acreditar naquela afirmação, mesmo vindo de alguém em quem havia começado a confiar. Seus instintos lhe diziam que Nic não estava mentindo.
E se Ashur queria dar um basta aos planos nefastos da irmã, acreditando ser a tal fênix lendária ressurgida dos mortos, fosse verdade ou não, poderia muito bem ser um elemento vantajoso para o grupo.
Ele ficou imaginando o que Lys diria sobre aquela situação.
Não, Jonas sabia. Ela provavelmente teria cravado uma flecha no príncipe assim que ele aparecesse.
O brilho da espada de Taran chamou sua atenção mais uma vez.
— Se não abaixar essa arma, vou ter que pedir para o Felix cortar seu braço.
Taran riu, um som oscilante que cortou o ar frio da manhã.
— Gostaria de vê-lo tentar.
— Gostaria mesmo? — Felix perguntou. — Minha visão não está tão boa quanto era, mas eu acho… na verdade, eu sei que poderia fazer isso bem rápido. Talvez você nem sentisse dor. — Ele deu uma risada sinistra enquanto desembainhava a espada. — Espera aí, o que estou falando? É claro que a dor vai ser terrível! Não sou aliado de nenhum Cortas, mas se Jonas quer que o príncipe continue respirando, ele vai continuar respirando. Entendeu?
Os dois jovens se encararam durante minutos tensos. Finalmente, Taran guardou a espada.
— Está bem — ele disse por entre dentes. O sorriso forçado não combinava com a fúria intensa em seus olhos.
Sem dizer mais nenhuma palavra, ele passou por Felix e embarcou.
— Obrigado — Jonas disse a Felix em voz baixa.
Felix observou a partida de Taran com um olhar desgostoso.
— Você sabe que ele vai ser um problema, não sabe?
— Sei.
— Ótimo. — Felix olhou para o navio limeriano. — A propósito, mencionei que fico muito enjoado no mar, principalmente ao pensar no irmão morto-vivo de Amara a bordo? Então, se nosso novo amigo Taran tentar cortar minha garganta enquanto eu estiver vomitando, vou culpar você.
— Entendido. — Jonas olhou para Nic e para Ashur com desconfiança. — Muito bem, seja qual for o destino que nos aguarda, vamos partir para Mítica. Todos nós.
— Achei que você não acreditasse em destino — Nic murmurou enquanto subiam pela prancha de embarque.
— Não acredito — Jonas disse.
Mas, para ser sincero, apenas uma pequena parte dele ainda pensava assim.

3 comentários:

  1. A galera toda reunida!! Taran não vai prestar...

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  2. Agora que a Cleo e o Magnos estavam bem 😓 vai da merda o Taram se aproximar da Cleo

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Boa leitura, E SEM SPOILER!