29 de setembro de 2018

Capítulo 19

A NOITE CAIU SOBRE O OÁSIS MAIS CEDO DO QUE EU ESPERAVA. Eu não tinha notado enquanto cruzávamos o deserto, mas agora me dava conta de que a Shihabian devia estar próxima. No crepúsculo, o mundo colorido se transformava em uma versão mais suave de si mesmo. Fogueiras ardiam perto das árvores, cada uma cercada por um pequeno amontoado de pessoas compartilhando comida e dando risada. Pensei na Vila da Poeira na hora do jantar. Todo mundo trancado dentro de casa, guardando com avareza cada farelo. Ali a comida era espalhada em um grande tapete no meio do acampamento, com uma pilha de pratos de formatos variados.
Shazad pegou dois pratos, empilhando pão e frutas em um deles e passando para mim. Sentamos perto de uma das fogueiras menores.
— De onde vêm todas essas pessoas? — perguntei entre mordidas. Eu não tinha percebido o quanto estava com fome até começar a comer.
Shazad olhou em volta para os cento e poucos rebeldes, como se a pergunta a surpreendesse.
— De tudo quanto é canto. Éramos uns dez quando fugimos de Izman depois dos jogos do sultim. Mas no ano passado a causa cresceu. Mais pessoas se juntaram a ela. Alguns foram expulsos de casa ou presos por apoiar Ahmed enfaticamente demais. Alguns nós libertamos da prisão. Farrouk e Fazia eram órfãos de Izman. — Ela apontou para a dupla que eu tinha visto mexendo numa bomba naquela manhã. Agora construíam algum tipo de estrutura usando pão. — Nós os contratamos para criar um explosivo numa missão alguns meses atrás e o Exército do sultão os identificou, então agora eles são refugiados. Bem úteis de se manter por perto, embora eu tema que um dia reduzam este lugar a cinzas.
— E quanto a você? — perguntei.
— Sou uma garota que poderia ter me tornado qualquer coisa se tivesse nascido homem. — Shazad deu uma mordida. — Mas nasci mulher, então estou fazendo isto. Minha mãe acha que é uma tática elaborada para não me casar.
Eu tinha visto Shazad matar um andarilho. Observei-a naquela tarde ensinar uma dúzia de rebeldes a usar a espada, com uma autoridade capaz de fazer um exército inteiro marchar pelo deserto. Se ela não conseguira conquistar seu lugar em Izman, que esperança eu tinha?
— Ela é modesta demais. — Bahi sentou perto de Shazad na fogueira, dobrando as pernas sobre a almofada. Ele equilibrava um prato nos joelhos. — Shazad nasceu com um destino grandioso. Seu pai é o general Hamad.
Olhei para eles sem entender.
— Ele é o general-chefe do sultão há duas décadas — Bahi explicou, gabando-se por ela. — Teve uma filha forte e um filho fraco. Por ser adepto de estratégias pouco convencionais, treinou a filha para seguir seus passos.
— Meu irmão não é fraco, é enfermo — Shazad disse.
— A maioria das pessoas teria matado o filho tentando torná-lo forte. Como meu pai tentou fazer comigo e não conseguiu — Bahi disse, com um sorriso cheio de dentes mas sem humor nenhum.
Shazad me salvou de ter que comentar.
— O pai de Bahi é um capitão do Exército. Ele se reporta ao meu pai, por isso nos conhecemos desde que tínhamos seis anos.
— E somos amigos desde então porque sou encantador — Bahi disse.
— Você é um pouco menos insuportável do que o resto dos seus irmãos — Shazad admitiu. — O capitão Reza — ela falou o nome com escárnio, e Bahi fez uma saudação irônica — teve seis filhos, então achou que podia dispensar alguns deles. Apesar de gostar de se gabar por ter seis filhos fortes, enquanto meu pai só tinha um fraco.
— E você — eu disse.
— O capitão Reza não me incluía nas contas.
— Erro dele — Bahi interveio.
— Seu pai sabe… — Eu não sabia como dizer aquilo. — Que você está se voltando contra ele?
— Provavelmente não dessa forma.
— Eu não me voltei contra meu pai. — Shazad sorriu docemente. — Eu me voltei contra o sultão. Meu pai também se voltou contra ele algum tempo atrás. Foi ele quem nos contou sobre os rumores da arma no Último Condado. Tão secreta e confidencial que o sultão nem tinha contado para ele. Mas meu pai tem outras fontes.
Isso foi uma surpresa para mim. As histórias tentavam nos fazer acreditar que a rebelião de Ahmed era só um bando de tolos idealistas no deserto. Mas os rebeldes tiveram uma presença forte o suficiente em Dassama para valer a pena destruir a cidade. E o general ocupava uma posição alta na corte. Se ele era leal a Ahmed…
— Então vocês têm aliados na corte do sultão?
O rosto de Shazad se iluminou. Sem dúvida ela era a garota mais bonita que eu já tinha conhecido, e quando sorria, exibindo todos os dentes, parecia a mais perigosa também.
— Alguns. As histórias levam a acreditar que Ahmed apareceu em Izman no dia dos jogos do sultim num passe de mágica. Do mesmo modo que afirmam que ele desapareceu do palácio na noite do nascimento de Delila numa nuvem de fumaça criada por um demdji. Mas os contos da fogueira nunca contam a história toda. — Lembrei do que Ahmed me dissera enquanto estávamos de vigília na tenda. Sobre sua mãe e a mãe de Jin terem planejado a fuga. A mãe de Jin nem aparecia na história. Nem Jin. — Ahmed voltou a Izman uns seis meses antes dos jogos do sultim, em um navio mercante. Se envolveu com um grupo de intelectuais. Garotos muito inteligentes e idealistas, incluindo meu irmão, que se reuniam e conversavam sobre filosofia e como tornar Miraji um lugar melhor. Muitos eram filhos de membros da corte do sultão.
Shazad deu mais uma mordida.
— Certa noite, achei meu irmão, Ahmed e três dos seus amigos idiotas algemados no meio da cidade porque estavam pregando que as mulheres deveriam ter o direito de recusar um casamento. — Me identifiquei imediatamente com o que eles defendiam. — Felizmente, ser a filha do general Hamad ajuda bastante na hora de lidar com soldados. Dei uma bronca neles por prenderem o único filho homem do general, e logo estavam correndo para libertar o restante deles. Não tinham ideia de que haviam prendido acidentalmente o príncipe Ahmed, ou duvido que ser filha do general teria ajudado alguma coisa. Ahmed estava alugando um quarto nas favelas de Izman sob um nome falso naquela época. — Imaginei que havia um motivo para deixarem esse tipo de detalhe fora das histórias. Ninguém queria imaginar seu heroico príncipe dormindo em uma cama infestada de pulgas. — Arrastei meu irmão para casa, e Ahmed foi com a gente. Quando chegamos lá, dei uma bronca nele por quase fazer meu irmão ser morto. Quando percebi, estávamos discutindo a filosofia de Ataullah sobre o papel do governante no Estado, e então concordei em treiná-lo para os jogos do sultim.
— Eu estava isolado na Ordem Sagrada naquela época — Bahi disse, de boca cheia. — Ou teria sido a voz do bom senso.
— Você quer contar a ela o que realmente fez depois que foi expulso, ou conto eu? — Shazad disse.
Bahi de repente estava prestando muita atenção na comida.
— Não lembro.
Shazad não perdeu a oportunidade.
— Ele ficou muito bêbado e apareceu para fazer uma serenata para mim do lado de fora da casa do meu pai.
Minha risada saiu pelo nariz.
— Qual era a canção? — Não consegui resistir à pergunta.
— Não lembro — Bahi murmurou novamente.
— “Rumi e a princesa”, acho — disse Shazad.
— Não. — Bahi levantou a cabeça, na defensiva. — Era “O djinni e o Dev”, e foi lindo. — Ele estufou o peito enquanto Shazad se dobrava de tanto rir. Aquilo era contagioso, e logo eu estava rindo também. Bahi pediu um drinque e disse que cantaria para nós depois de beber um pouco.
Pra falar a verdade, eu já me sentia entorpecida.
A noite e as cores e o riso e a sensação de força e certeza no que estavam fazendo eram intoxicantes. Aquela revolução era uma lenda em desenvolvimento. O tipo de história que tinha começado muito antes de mim e continuaria muito depois. O tipo de épica que era contada várias vezes para explicar como o mundo nunca mais tinha sido o mesmo depois que aquele punhado de gente viveu, lutou, venceu ou morreu tentando. E depois que terminasse, a história de alguma forma pareceria inevitável. Como se o mundo estivesse esperando para ser mudado, precisando ser salvo, e os participantes daquela trama tivessem sido todos arrancados de suas vidas comuns e colocados exatamente no lugar onde precisavam estar, como peças em um tabuleiro, esperando para fazer a história acontecer. Mas a realidade era mais louca e aterrorizante e intoxicante, e mais incerta, do que eu imaginara. E eu poderia fazer parte daquilo. Se quisesse. Estava ficando tarde demais para pular fora daquela história, ou para arrancá-la de dentro de mim.
— Onde você esteve, garoto sagrado? — Uma voz desconhecida me arrancou do meu devaneio. Tinha achado Delila e Imin impressionantes, mas a garota que apareceu sem ser convidada na nossa fogueira era feita de ouro. Tudo, desde a ponta das suas unhas até seus cílios, dava a impressão de que ela tinha sido moldada em metal em vez de ter nascido. Exceto pelo cabelo, que era tão escuro quanto o meu, e pelos olhos negros. Outra demdji. — Você pode resolver isso? — ela perguntou, estendendo o braço para ele, sujo de sangue e com marcas de queimadura.
Bahi fez uma expressão aflita quando viu.
— O que aconteceu?
— Houve uma pequena explosão — a garota dourada disse, seca.
— As queimaduras não são tão ruins — Bahi disse. — É mais difícil se queimar quando seu pai é um ser primordial feito de puro fogo.
— Quando você retornou, Hala? — Shazad perguntou.
Hala não respondeu. Apenas gesticulou sarcasticamente para as roupas de viagem manchadas de sangue, como se sugerisse que Shazad era burra por não perceber que havia acabado de chegar.
— Chegamos tarde demais — Hala disse. — Ela já tinha sido presa. Pensei que ela duraria mais tempo. Metamorfos normalmente são muito bons em se esconder. Imin durou duas semanas, lembra? Mas aparentemente essa não é esperta. Dizem que está presa aguardando julgamento em Fahali. Voltei atrás de reforços. Acho que devemos partir esta noite, nos infiltrar e confundir a mente deles antes que a enforquem.
— Você está falando da garota de cabelo vermelho? — interrompi sem pensar. Pela primeira vez a garota dourada parecia ter notado minha presença. — Era ela que você estava procurando em Fahali. Uma demdji. — A palavra ainda soava estranha. — Ela tinha cabelo vermelho e mudava de cara.
— Você a viu! — O rosto dourado da garota reluziu ansioso à luz da fogueira quando ela se inclinou para a frente, e eu soube que estávamos falando da mesma pessoa.
As palavras que saíram da minha boca em seguida a desanimaram instantaneamente.
— Os gallans atiraram na cabeça dela.
O bom humor em torno da fogueira se apagou.
— Então como você ainda está viva? — A expressão de Hala ficou mais dura.
Algo na voz dela indicava que esperava que eu me humilhasse. Que eu gaguejasse tentando explicar como ousei sobreviver quando a pessoa que ela tinha ido salvar não tivera a mesma sorte.
— Eles não atiraram na minha cabeça — respondi.
Sua expressão de escárnio me lembrou um pente de ouro e marfim que a mãe de Tamid tinha.
Hala gesticulou como se quisesse que eu continuasse. Notei que só tinha oito dedos. Faltavam dois na mão esquerda, e eu podia jurar que estavam lá momentos antes. Hala notou que eu tinha percebido, e um instante depois sua mão estava intacta novamente.
— É falta de educação encarar. — Um besouro preto rastejou para fora da areia, subindo na minha bota, escalando meu corpo. — E é falta de educação deixar alguém morrer para salvar a própria pele.
Tentei espantar o besouro, mas, quando minha mão encostou nele, ele simplesmente explodiu se transformando em outros dez, e então cada um deles em dez mais, até que fiquei coberta deles, batendo em mim mesma até ficar vermelha e dolorida.
— Hala, o que quer que esteja fazendo, pare — Shazad ordenou. Eu tinha pensado que sua voz era afiada, mas na verdade era limpa, como um bom corte. Os besouros sumiram.
Shazad tinha dito algo sobre um demdji que conseguia penetrar a mente das pessoas. Percebi que tinha acabado de conhecê-la. E já a odiava.
— De onde eu vim, as pessoas cuidam dos seus. — Hala ficou mexendo nas unhas como se não tivesse acabado de distorcer minha mente.
— Ela estava cuidando — Jin disse atrás de mim.

Um comentário:

  1. Mas acho que não valeu muito apena fazer isso. A caravana largou ela no meio do deserto sozinha com o jin

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Boa leitura, E SEM SPOILER!