23 de setembro de 2018

Capítulo 19

LUCIA
PAELSIA

Ela tinha saído do palácio apenas com o vestido cinza-escuro e uma bolsa pequena com cêntimos auranianos. Tinha deixado todo o resto para trás, incluindo as esferas de cristal do fogo, da terra e do ar, que estavam trancadas em uma grande caixa de ferro em seus aposentos.
Ela já havia se afastado o suficiente da Cidade de Ouro para a onda de pânico, temor e confusão se dissipar, e seu pensamento racional estava retornando.
— Foi um descuido muito grande deixar as esferas para trás — ela criticava a si mesma em voz baixa, sentada atrás de uma carruagem que contratara para levá-la a seu destino.
Ela devia ter mantido as esferas em seu poder o tempo todo, como Cleo fazia. A princesa tinha recusado a oferta de guardar o cristal de água-marinha no cofre com as outras.
Lucia não tinha contado a ninguém onde elas estavam. Não confiava seu segredo a ninguém. E rezou para aquela viagem não demorar muito, para que pudesse voltar logo.
Quando ela percebera que Lyssa tinha desaparecido, o pânico tinha tomado conta de seus pensamentos e suas ações. Desde então, estava concentrada em uma coisa para ajudar a diminuir o medo enlouquecedor por causa do sequestro de sua filha.
O deus do fogo acreditava que ela tinha os meios e a magia para aprisioná-lo. Se machucasse Lyssa, se queimasse um fio de seu cabelo fino, sem dúvida esperaria que Lucia fosse até os confins da terra para acabar com ele, e não para ajudá-lo.
Ela acreditava que o deus do fogo manteria Lyssa em segurança. A bebê era uma garantia de que ele tinha algo que Lucia valorizava acima de tudo.
Ela levou quase uma semana de viagem para chegar a Shadowrock, um pequeno vilarejo na parte oeste de Paelsia. Era um dos poucos vilarejos naquela área próxima às Montanhas Proibidas, e antes existia um vilarejo vizinho, cerca de oito quilômetros ao sul.
Quando a carruagem passou pelas ruínas desertas e escurecidas daquele vilarejo, Lucia espiou pela pequena janela e estremeceu com a paisagem. Ela com certeza se lembrava dos gritos de terror e dor daqueles que viviam ali, daqueles que viram seu lar queimar ou foram queimados com ele.
Lucia sabia que não podia mudar o passado. Mas se não aprendesse com isso e não melhorasse no futuro, aquelas pessoas teriam sofrido e morrido em vão.
Quando Shadowrock apareceu ao longe, ela olhou para a palma da mão. O corte feito para sangrar, em uma tentativa de invocar Kyan, teria levado um mês para cicatrizar, mas ela tinha encontrado magia da terra dentro de si suficiente para acelerar o processo. Apenas uma cicatriz restava na palma de sua mão, mas se estivesse em seu estado melhor e mais poderoso, não haveria indício nenhum do ferimento.
Cicatrizes eram coisas boas, ela pensou. Eram um excelente lembrete de um passado que não deveria se repetir.
Lucia pagou por um quarto em uma hospedaria onde já tinha ficado. Tinha camas confortáveis e comida decente. Ela descansaria ali à noite e continuaria pelas montanhas no dia seguinte.
E agora, ela imaginou, era hora de lidar com ele.
Jonas Agallon a tinha seguido da Cidade de Ouro até Shadowrock, às vezes a pé, outras a cavalo. Ele mantinha certa distância e devia achar que não estava sendo notado.
Mas ela tinha notado.
Lucia tinha optado por não o confrontar e permitiu que ele pensasse que era esquivo como uma sombra na noite.
Ela usou a porta dos fundos da hospedaria para que Jonas não a visse sair pela frente. Então, foi até uma rua lateral estreita para se aproximar dele por trás.
Ele estava na soleira da porta de um sapateiro em frente à hospedaria, apoiado em uma viga de madeira e com o capuz do manto azul-escuro sobre a cabeça para ajudar a esconder sua identidade. Mas Lucia já conhecia o ex-líder rebelde bem o suficiente para reconhecê-lo independentemente de qualquer disfarce. Ela reconhecia a silhueta de seu corpo forte que sempre parecia tenso, como um gato selvagem prestes a dar o bote em sua presa. Reconhecia seu modo de caminhar sem hesitação, escolhendo uma direção e rapidamente seguindo por ela, mesmo correndo o risco de se perder no processo.
Ele nunca admitiria nada daquilo, é claro.
Lucia sabia, sem nem olhar para o rosto dele, que sua boca formava uma determinada posição e que seus olhos cor de canela estavam sérios. Eram sempre sérios, mesmo quando ele se divertia com os amigos.
Jonas Agallon tinha perdido muito no ano anterior, mas nada tinha mudado sua essência. Ele era forte, bom e corajoso. E Lucia confiava nele, mesmo que estivesse sendo seguida em segredo. Ela sabia, sem sombra de dúvida, que Jonas estava fazendo isso em uma tentativa equivocada de protegê-la.
Agora, observando-o a uma distância de apenas seis passos, ela sentia a magia de Jonas — uma sensação agradável, calorosa e latejante que tinha passado a associar ao rebelde.
Lucia estava muito mais forte desde que deixara o complexo de Amara, mas precisava admitir que saber que a magia de Jonas tinha ficado mais forte enquanto a dela continuava enfraquecendo a perturbava, especialmente quando mais precisava dela.
Ela se aproximou. Jonas olhava fixamente para a hospedaria.
Ficou perto o bastante para ouvi-lo murmurando para si mesmo:
— Bem, princesa, qual seria o seu plano neste pequeno vilarejo?
— Acho que você poderia perguntar diretamente para mim — ela disse.
Ele deu um salto e logo virou para ela com os olhos arregalados de choque.
— Você… — ele tentou dizer. — Você está bem aqui na minha frente.
— Estou — ela respondeu.
— Você sabia…?
— Que você estava me seguindo como um lobo faminto há dias? Sim, sabia.
— Olha só. — Ele passou a mão pelo cabelo castanho, depois voltou o olhar sério na direção dela. — Você está bem?
— Como assim?
— Você estava tão perturbada no palácio… Com razão, é claro. E sua mão…
Lucia mostrou a ele a palma de sua mão que tinha sido ferida.
— Já estou melhor. Raciocinando com mais clareza. E tenho um plano.
— Quer falar com Timotheus.
— Sim, esse é o plano.
Seria muito mais fácil continuar sozinha, sem ter que dar satisfação nem se preocupar com ninguém. Mas se aquela fosse sua decisão, teria confrontado Jonas antes e pedido para ele voltar a Auranos.
— Está com fome? — ela perguntou.
Ele franziu a testa.
— O quê?
— Fome. Viajamos muitas horas hoje, e você não tirou os olhos de mim o tempo todo. Imagino que esteja com fome.
— Eu… acho que sim.
— Venha. — Lucia saiu andando na direção da hospedaria. — Vou pagar seu jantar.
Jonas não discutiu. Entrou com ela na taverna ao lado da hospedaria. Era um salão pequeno com uma dúzia de mesas de madeira. Apenas três estavam ocupadas. Em uma delas, havia uma dupla de soldados kraeshianos.
— A ocupação continua, mesmo aqui — Jonas disse em voz baixa.
— Não me incomoda. — Lucia o viu retirar o manto e deixá-lo no encosto da cadeira. Algo dourado em seu cinto refletiu a luz do sol do fim da tarde que entrava pela grande janela. — Não me diga que voltou àquela hospedaria durante nossa viagem e recuperou aquela adaga horrível.
Jonas levou as mãos à arma embainhada, cobrindo-a. Ele franziu as sobrancelhas. Então sentou e esboçou um sorriso.
— Você acertou. Sou um idiota, o que posso fazer?
Ela balançou a cabeça.
— Eu não usaria essa palavra para descrevê-lo.
— Ah, não? E que palavra usaria?
— Sentimental.
Jonas a ficou encarando por um instante.
— Princesa, eu gostaria de dizer que sinto muito por sua perda. O que eu achava do rei… com certeza não diminui sua dor.
— Meu pai era um homem cruel e ávido por poder que feriu muita gente inocente. Você tem todo o direito de sentir ódio por ele. — Lucia piscou. Seus olhos estavam secos. Ela tinha chorado mais do que o suficiente nos últimos dias para perceber que as lágrimas não lhe ajudavam em nada. — Mas, ainda assim, eu o amava, e sinto a falta dele.
Ele estendeu o braço sobre a mesa e apertou a mão dela.
— Eu sei. E saiba que vou ajudar você de todas as formas a encontrar Lyssa.
— Obrigada. — Lucia franziu a testa e olhou para as mãos dadas. — Sinto tanta magia em você, Jonas. Mais do que já senti.
Jonas soltou a mão dela de imediato.
— Peço desculpas.
— Não, não foi isso que eu… — Lucia parou de falar quando uma atendente se aproximou, uma garota com cabelo ruivo e com um sorriso amplo e amigável.
Lucia a reconheceu no mesmo instante e a encarou, chocada.
— Temos sopa de batata hoje — disse a garota ruiva. — E alguns tipos de carne seca e frutas. O cozinheiro pede desculpas pela falta de variedade no cardápio do dia, mas nosso carregamento de suprimentos do Porto do Comércio atrasou.
— Mia? — Lucia perguntou com cautela.
A garota inclinou a cabeça.
— Sim, esse é meu nome. Nós nos conhecemos?
Ah, sem dúvida. Depois da batalha com Kyan, quando sua forma inflamada e monstruosa foi destruída perto do misterioso monólito de cristal, Lucia se viu no gramado do santuário, com a Cidade de Cristal visível ao longe. Assim que ela chegou à cidade e encontrou a gigantesca e reluzente metrópole silenciosa e vazia como uma cidade fantasma, seu caminho se cruzou com o de uma imortal amável e prestativa que a levou até Timotheus.
— Você não lembra? — Lucia perguntou. — Não faz tanto tempo.
— Peço desculpas — Mia disse. — Por favor, não pense que sou grosseira, mas recentemente esqueci a maior parte do meu passado. Já visitei vários curandeiros que me disseram que uma amnésia como essa pode ser resultado de uma pancada forte na cabeça.
— Amnésia? — Lucia repetiu com o coração disparado. — Impossível.
— Não é impossível. — Mia negou. — Espero recobrar minha memória logo, mas, até lá, o dono dessa hospedaria prometeu cuidar de mim.
Jonas se inclinou para a frente.
— Prometeu para quem? — ele perguntou.
O olhar de Mia ficou distante, e ela franziu a testa.
— Lembro como se fosse um sonho, na verdade. Indistinto e distante. Mas havia uma mulher, uma mulher bonita, de cabelo escuro. Ela foi muito gentil comigo e me prometeu que tudo ficaria bem, mas eu teria que confiar nela.
Lucia prestava atenção, mal conseguindo respirar. A garota não estava mentindo; era nisso que acreditava.
— Confiar nela como?
— Não me lembro. — Mia franziu ainda mais a testa. — Sei que ela tinha um pedaço afiado e achatado de rocha preta. — Ela olhou para o próprio braço. — Acho que me cortou com ele, mas não doeu muito. E, depois disso, eu estava aqui. Ah, e a coisa mais estranha… a mão dela… não era bem uma mão. Não sei bem como explicar. — Ela deu de ombros. — Devo ter batido a cabeça com muita força.
Lucia observou o rosto dela.
— É só disso que se lembra?
— Infelizmente sim. Então, se já a encontrei antes, por favor, me perdoe por não reconhecê-la. Espero me lembrar um dia. Agora, posso trazer a sopa de batata para vocês? Garanto que está deliciosa.
Lucia queria levantar, sacudir Mia e fazê-la contar mais, tentar usar sua magia para extrair toda a verdade de seus lábios.
Nada daquilo fazia sentido.
Mia era uma imortal que vivia no santuário com os poucos outros imortais que ainda existiam. Recentemente, Timotheus tinha decidido não deixar nenhum deles sair pelos portais de pedra que davam nesse mundo, nem mesmo em forma de falcão, por medo de que Kyan os matasse.
Como aquilo acontecera? E quem era a mulher de cabelo escuro que cortou o braço de Mia?
— Sim, uma sopa seria ótimo — Lucia disse. — Muito obrigada.
Mia assentiu e seguiu na direção da cozinha.
Lucia ficou em silêncio, perdida em pensamentos sobre o que poderia ter acontecido com ela. Será que havia acontecido com mais alguém?
— Problemas? — Jonas perguntou.
— Acho que sim, mas ainda não sei o que significa.
Ele a observou, e o exame detalhado a distraiu de seus pensamentos.
— Seu irmão quer que volte para casa. Ele está preocupado com você.
— Tenho certeza disso. — Lucia odiava pensar que suas decisões estavam causando ainda mais dor a Magnus. — Mas não vou voltar agora. Preciso falar com Timotheus. Não acredito que ele me abandonou agora, no momento de maior necessidade. Ele quer a Tétrade aprisionada tanto quanto eu. Ainda assim, não tenho nenhum sonho há tempos, e tenho muitas perguntas para ele.
— Timotheus disse que a magia dele está acabando — Jonas disse. — Que não podia usar o que restava para visitar os sonhos dos mortais.
Lucia levou um tempo para absorver o que Jonas tinha acabado de dizer.
Ela arregalou os olhos.
— Como sabe disso?
Jonas ficou tenso.
— O quê?
— O que acabou de dizer, que a magia de Timotheus está acabando. Quando soube disso?
— Ele… visitou meu sonho quando estávamos no complexo.
— Seu sonho? — Uma mistura de raiva e irritação tomou conta dela. — Por que Timotheus visitou seu sonho e não o meu?
— Acredite, princesa, eu preferiria que ele tivesse visitado o seu. Ele é um homem muito difícil. Tudo o que diz é como um enigma para decifrar. Ele… queria que eu continuasse cuidando de você, que a mantivesse protegida. E Lyssa também. Ele sabia sobre ela e que você tinha sobrevivido ao parto. E disse que… confia em mim.
Lucia não podia se distrair com as escolhas de Timotheus, que sempre lhe trouxeram dificuldades. Seu relacionamento fora carregado de tensão e desconfiança desde o princípio.
Finalmente, ela assentiu.
— Ele está certo em confiar em você.
— Por que diz isso?
— Porque você é a pessoa mais confiável que conheço — ela disse com total sinceridade. — Até mesmo meu pai e meu irmão mentiram para mim e me manipularam, mas você nunca fez isso. E é algo que eu valorizo mais do que você imagina.
Jonas apenas a encarou em silêncio, com uma expressão aflita.
Talvez ele não se sentisse confortável com seus elogios. Mas aquilo não os tornava menos verdadeiros.
— Você vem comigo — Lucia disse depois que o silêncio recaiu sobre eles.
— Vou? — Jonas arqueou uma sobrancelha. — Para onde?
Ela apontou com a cabeça na direção da janela.
— Para as Montanhas Proibidas. Partimos ao amanhecer.
Jonas olhou para as montanhas pretas e irregulares ali perto.
— O que tem nas montanhas?
— A passagem para o Santuário. — Diante do olhar de perplexidade dele, Lucia esboçou um sorriso. — Você me seguiu até aqui. Vai mesmo me impedir agora?

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