16 de setembro de 2018

Capítulo 19

AMARA
PAELSIA

Um único falcão dourado voava em círculos sobre os cidadãos paelsianos reunidos para ouvir o discurso de Amara. A imperatriz estava em pé diante da janela aberta de seus aposentos, observando a multidão de rostos ansiosos.
Muitos estavam perplexos por estarem dentro da propriedade privada do ex-chefe; os portões tinham ficado trancados para o público durante o governo dele. Naquele dia, os paelsianos viam pela primeira vez a cidade labiríntica, o que fez Amara lembrar muito da Cidade de Ouro, mas, em vez de metais e joias, a cidade onde estava era feita de barro, tijolo, pedra e terra.
— Vossa graça, gostaria que reconsiderasse esse discurso — Kurtis disse atrás dela. — A senhora está muito mais segura aqui dentro, principalmente com a notícia de rebeldes por perto.
Ela tirou os olhos da janela e se virou para o grão-vassalo onipresente.
— É por isso que tenho guardas ao meu redor o tempo todo, lorde Kurtis. Os rebeldes estão sempre por perto. Infelizmente, não posso fazer todos entenderem meu ponto de vista. Há quem se oponha ao reinado de meu marido, ao reinado de meu pai. E há aqueles que se opõem ao meu também. Falarei com meus cidadãos hoje, aqueles que vão me apoiar sem questionamentos e aqueles que duvidam de minhas intenções aqui. Preciso dar a eles uma esperança para o futuro… uma esperança que nunca tiveram.
— O que é uma atitude incrível, vossa graça, mas… os paelsianos são selvagens, violentos.
Amara considerou as palavras ofensivas.
— Há quem diga o mesmo dos kraeshianos — ela respondeu mais irritada. — Talvez você não tenha me ouvido até agora, mas falarei hoje.
— Vossa graça…
Ela levantou uma mão, decidindo parar de sorrir.
— Falarei hoje — ela disse com firmeza. — E ninguém vai me dizer que não posso fazer isso. Com a notícia dos rebeldes e com a discordância entre meus próprios soldados, preciso do apoio dessas pessoas para o futuro de meu reinado. E não permitirei que ninguém diga o que posso e o que não posso fazer. Entendido?
Ele se curvou no mesmo instante, corado.
— Claro, vossa graça. Não quis desrespeitá-la.
A porta se abriu e Nerissa entrou, fazendo uma reverência.
— Está na hora, imperatriz.
— Ótimo, estou pronta. — Amara alisou a seda de seu vestido. Era o mesmo que usava nas ocasiões mais especiais em Kraeshia. Ela o levava sempre que viajava caso tivesse a oportunidade de vestir uma peça tão esplêndida. A costura brilhante e as contas de esmeralda e ametista reluziam sob o sol paelsiano quando ela saiu de sua grande quinta.
Um grupo de guardas esperava Amara do lado de fora e, com Nerissa a seu lado, ela se aproximou do grande pódio em um palco de madeira bem acima da multidão de quatro mil pessoas reunidas lado a lado na antiga arena do chefe.
Aqueles eram seus novos súditos. Absorveriam tudo o que dissesse e espalhariam a notícia de sua glória a quem quisesse ouvir. E em breve, seriam os primeiros a reverenciá-la como uma verdadeira deusa.
A multidão gritou e a atmosfera foi tomada por sons de aprovação. Ela olhou para Nerissa, que sorriu e assentiu, incentivando-a a começar.
Amara ergueu os braços, e a grande plateia ficou em silêncio.
— Eu me dirijo ao lindo povo de Paelsia, um reino que tem passado por muitos testes e muitas atribulações ao longo de várias gerações. — Sua voz ecoou nos pilares de pedra, o que ajudou a amplificar as palavras de modo que até as pessoas nas arquibancadas pudessem ouvi-la. — Sou Amara Cortas, a primeira imperatriz de Kraeshia, e trago a vocês a notícia oficial de que não são mais cidadãos de Mítica, uma tríade de reinos que os oprimiu por um século. Agora vocês são cidadãos do grande Império Kraeshiano. E seu futuro é tão brilhante quanto o sol que nos ilumina hoje!
A multidão comemorou, e Amara parou um instante para analisar os rostos, alguns sujos, de pessoas com roupas simples puídas, gastas pela sujeira e pelo tempo. Olhos atentos se voltaram para ela, olhos que tinham assistido a muitos líderes fazerem promessas falsas e causarem dor e sofrimento. Ainda assim, ela viu uma esperança tímida até mesmo nos olhos dos mais velhos.
— Cuidaremos de sua terra — ela continuou. — Vamos torná-la rica de novo e pronta para as plantações que vão sustentar vocês e suas famílias. Vamos importar animais que servirão de alimento. E enquanto continuarem produzindo o vinho pelo qual Paelsia é conhecida, os lucros serão de vocês, integralmente, pois prometo que não serão cobrados impostos kraeshianos sobre esse produto por vinte anos. As leis que impediam a exportação do vinho a qualquer lugar que não fosse Auranos estão vetadas a partir de agora. Vejo Paelsia como um patrimônio maravilhoso do meu império e quero demonstrar isso cuidando para que minhas atitudes sejam condizentes com minhas palavras. Vocês fazem bem em acreditar em mim, porque eu acredito em vocês. Juntos, vamos marchar para o futuro, de mãos dadas!
O barulho vindo da plateia aumentou, e, por um instante, Amara fechou os olhos e permitiu-se aproveitar o momento. Tinha sido por isso que ela se sacrificou tanto. Tinha sido por isso que ela fez o que fez. Por aquele poder.
Não fora à toa que seu pai havia tomado decisões tão precipitadas durante seu reinado. Aquela sensação diante da obediência, da adoração e da reverência era mesmo viciante.
Se ela conseguiria ou não cumprir o prometido, ainda precisava verificar.
Ela sentia a magia que havia na crença que emanava do povo paelsiano. Uma magia tão rica e pura na qual queria se banhar.
— Vossa graça! — Nerissa exclamou, assustada.
Amara abriu os olhos a tempo de ver uma flecha de relance, e então um de seus guardas a tirou do caminho. A flecha acertou o homem no pescoço, e ele caiu se debatendo no chão do palco.
— O que está acontecendo? — ela quis saber.
— O grupo de rebeldes que ameaçou vir aqui hoje… eles estão aqui! — Nerissa agarrou o braço dela.
Duas outras flechas voaram na direção dela, bem perto, acertando outros dois guardas.
— Quantos? — Amara conseguiu perguntar. — Quantos rebeldes estão aqui?
— Não sei… — Nerissa ergueu a cabeça para olhar para a multidão quando outra flecha passou por ela. — Vinte, talvez trinta ou mais.
Amara observou chocada quando seu exército de soldados invadiu o mar cada vez maior de civis para capturar os rebeldes. Os soldados derrubavam qualquer pessoa que aparecesse no caminho, fossem rebeldes ou paelsianos. A multidão entrou em pânico e tentou fugir. O caos se instalou, gritos de medo e de indignação eram ouvidos por todos os lados quando sangue começou a ser derramado.
Paelsianos empunharam armas, trocando rapidamente a expressão esperançosa pela de ódio, e começaram a lutar não só contra os soldados, mas uns contra os outros, facas cortando a carne, socos acertando rostos e abdomens.
“Os paelsianos são selvagens, violentos”, Kurtis tinha alertado.
Mães agarravam os filhos, chorando e correndo para todas as direções.
— O que vamos fazer? — Nerissa perguntou. Ela tinha agachado ao lado de Amara, e as duas se encolheram atrás do pódio.
— Não sei — Amara disse depressa, e se arrependeu de suas palavras.
Palavras de medo. Palavras de vítima.
Ela não ia se acovardar diante de rebeldes naquele momento — nem nunca.
O medo logo se transformou em raiva. Aquilo, fosse o que fosse, não fazia parte de seu plano. Aqueles que desejavam destruir sua chance de transformar aquele povo determinado em seu aliado, um povo que já estava pronto para aceitá-la como líder, pagariam com a vida.
Amara levantou do esconderijo, punhos cerrados, quando alguém se aproximou do palco trás dela. Ela ouviu passos pesados na superfície de madeira.
Quando se virou, viu dois de seus guarda-costas caindo com a garganta cortada. Atrás deles, um rosto assustadoramente familiar.
— Bem, princesa, eu poderia apostar um monte de moedas de ouro que você não esperava me ver de novo.
Felix Gaebras apontava uma espada a poucos centímetros de seu rosto.
O rosto dele aparecia em seus pesadelos. Ou talvez os pesadelos tivessem sido premonições. Naqueles sonhos, ele tentava matá-la.
— Felix… você fez isso, tudo isso, só para chegar até mim — ela começou, dando um passo hesitante para trás para se afastar do jovem que acreditava estar morto fazia muito tempo.
Ele sorriu.
— Sinceramente? Eu estava só observando de longe. Foi uma coincidência feliz. Acho que há muitos outros rebeldes que querem derramar seu sangue. Mas parece que a honra será minha.
Ela olhou para a esquerda e viu três guardas correndo na direção de Felix, mas foram derrubados por outro jovem de cabelo escuro e expressão irritada.
— O plano não era esse, Felix — o rapaz gritou. — Nós dois vamos morrer por sua causa.
— Calado, Taran — Felix respondeu. — Estou retomando contato com uma antiga namorada.
Ao sentir a lâmina em seu rosto, Amara olhou para o tapa-olho preto que ele usava.
— Seu olho…
— Perdi. Graças a você.
Ela se encolheu.
— Sei que você deve me odiar pelo que fiz.
— Odiar? — Ele arqueou as sobrancelhas escuras, movendo de leve o tapa-olho. — “Ódio” é uma palavra muito leve, não acha?
Amara tentou ver se algum guarda se aproximava para ajudá-la, mas Taran, o amigo de Felix, os afastava com a espada e o arco que trazia.
Amara virou para a frente, para o olho bom de Felix, e disse com o máximo de arrependimento que conseguiu reunir:
— Não importa o que tenha enfrentado, minha bela fera. Juro que posso me retratar.
— Não me chame assim. Perdeu o direito de me chamar assim quando me abandonou e me deixou para morrer. — Felix encostou a lâmina no rosto dela de novo, fazendo-a olhar para a multidão. — Viu o que fez? É culpa sua. Tudo o que você toca acaba em morte.
O olhar tenso de Amara passou pela multidão que tinha percorrido quilômetros para se reunir e ouvi-la falar. Muitos paelsianos estavam mortos entre os combatentes, pisoteados, assassinados pelas espadas dos guardas ou por seus próprios compatriotas.
Felix tinha razão: era culpa dela. Um momento de vaidade, o desejo de sentir o amor de seus novos súditos depois de tanta dor e decepção, acabou em morte.
Tudo acabava em morte.
O mesmo falcão que ela vira sobrevoando a multidão grasnou alto o suficiente para Amara ouvir. No chão, alguém preso no meio do caos chamou sua atenção: um jovem de cabelo ruivo, cor rara de ser encontrada, caminhava em direção ao palco.
Ela reconheceu o amigo de Cleo, Nic. Aquele com que Ashur tinha ficado obcecado.
Amara observou horrorizada quando dois paelsianos agarraram Nic e rasgaram o saco de moedas preso ao passador de sua calça. Nic tentou segurar o saco, e a faca de um dos homens reluziu à luz do sol antes de ser fincada no peito dele.
Ela se assustou.
O corpo de Nic caiu no chão e logo se perdeu na multidão.
Aquilo era culpa dela, apenas dela.
Ela franziu a testa ao pensar nisso. Não… tinha sido azar de Nic, uma circunstância infeliz. Ela não tinha assassinado o amigo de Cleo com as próprias mãos. Amara se recusava a assumir a culpa pelo azar de outras pessoas.
Apesar de ter odiado seu pai e seus irmãos com a mesma intensidade, a família Cortas não era nada fraca. Inclusive ela.
E além da família Cortas, as mulheres não eram fracas. Eram líderes. Campeãs. Guerreiras. Rainhas.
Amara tinha enfrentado inimigos muito maiores do que Felix Gaebras na vida.
Ela se forçou a falar de modo assustado quando virou para ele de novo.
— Você é maior do que isso, Felix. Matar uma garota desarmada? Não combina com você.
— Não combina comigo? Sou um assassino profissional, meu amor. Matar é o que faço melhor.
De canto do olho, ela observou o amigo derrubar mais dois de seus homens com uma só mão.
— Pense bem, governo um terço do mundo e controlo toda a fortuna. Quer ser um homem muito rico?
Ele levantou um dos ombros.
— Não.
Amara tinha esquecido que ele era diferente dos outros homens que conhecia — uma vantagem no começo, mas um problema no presente.
— Mulheres, então. Dez, vinte, cinquenta garotas que desejem apenas você.
Felix abriu o sorriso mais frio que ela já tinha visto.
— E como eu saberia que não são vadias frias e dissimuladas como você? Não tem acordo, imperatriz.
Amara ficou com os olhos marejados. Fazia muito tempo que não chorava, mas chorar era um talento que desenvolvera desde cedo. Sabia que a maneira mais fácil para uma mulher evitar problemas ou castigos era fingir fraqueza entre os homens.
As lágrimas logo começaram a descer livremente por seu rosto.
— Eu pretendia libertá-lo, mas me disseram que você já estava morto, assassinado em uma tentativa de fuga. Meu coração ficou destruído quando pensei que tinha perdido você para sempre. Deveria tê-lo incluído em meus planos, mas eu estava com medo, muito medo. Ah, Felix, eu não queria que nada acontecesse com você, sinceramente! Eu… eu amo você! Sempre vou amar, não importa o que você decida fazer hoje!
Felix olhou para ela como se estivesse assustado com o que ouvia.
— O que disse? Que me ama?
— Sim. Eu amo você.
A ponta da espada se mexeu. Mas logo foi afastada.
— Bela tentativa, meu amor. Eu poderia até acreditar, se fosse um completo imbecil. — Felix sorriu para ela. — Hora de morrer.
Um instante depois, Carlos, que tinha subido no palco e conseguido passar por Taran, derrubou Felix.
Antes que conseguisse recuperar o fôlego, Taran e Felix estavam diante dela, ajoelhados. Nerissa voltou para seu lado, e Amara segurou a mão dela, apertando-a para ter a certeza de que a criada não tinha se ferido.
— Os outros rebeldes morreram, vossa graça — Carlos informou. O rosto dele sangrava devido a um corte profundo no nariz.
Amara respondeu assentindo brevemente e então olhou para Felix.
Ele deu de ombros de novo.
— Não posso dizer que não tentei.
— Devia ter sido mais rápido.
— Acho que gosto muito de falar. — Ele abriu um grande sorriso, mas seu olhar estava frio. Voltou-se para Nerissa por um instante antes de voltar a encarar Amara. — Vamos falar de novo sobre aquela oferta do harém de lindas mulheres?
Amara tocou o rosto de Felix, levantando sua cabeça.
— Sinto muito pelo seu olho. Gostei daquele olho, assim como de outras partes suas. Por algumas noites, pelo menos.
— Devemos executá-los agora mesmo, vossa graça? — Carlos perguntou, com a espada ao lado do corpo.
Ela esperou o medo aparecer no único olho de Felix, mas ele manteve a pose desafiadora.
— Se eu poupá-lo, o que fará? Vai tentar me matar de novo?
— Num piscar de olhos — ele disse.
— Você é um grande idiota — Taran rosnou.
Sua bela fera a tinha entretido por um período. E ainda entretinha.
Apesar de tudo, Amara ainda se sentia atraída por ele. Mas não importava. Ele deveria ter morrido muito tempo antes, e não ser mais um problema para ela.
Amara assentiu para o guarda.
— Jogue os dois no fosso. Cuido deles mais tarde.

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