1 de setembro de 2018

Capítulo 19


LUCIA
AURANOS

O rei concordara de imediato que Ioannes fosse tutor dos elementia de Lucia. Ainda assim, de algum modo, Lucia não se dera conta de que essa decisão resultaria em aulas de verdade, achando que se tratava apenas de uma desculpa para Ioannes permanecer no palácio.
No início, ainda em Limeros, Magnus tentara ajudá-la com sua magia — encorajando-a a usar magia do ar para levantar objetos mais pesados que flores, invocar magia do fogo para algo mais poderoso do que acender uma vela. Apesar de todas as dificuldades recentes com o irmão, Magnus tinha sido o primeiro a encorajá-la, a ajudá-la a aceitar os poderes que floresciam em vez de julgá-los malignos como os das bruxas que eram executadas por seus crimes. Por isso, seria sempre grata a ele.
Mais recentemente, o rei havia libertado uma suposta bruxa do calabouço, na esperança de que ela pudesse ajudar sua filha a aprender a controlar suas habilidades. Mas a bruxa não havia sido uma tutora adequada. Era absurdamente fraca e se intimidou com facilidade pela magia muito superior que Lucia demonstrou com pouco esforço. E esse foi seu fim.
Ioannes era muito diferente. Afinal, como imortal, tinha sido criado a partir da magia. Mesmo em sua forma mortal ele a manifestava. Apesar de ter admitido de imediato que sua magia não era nada em comparação aos elementia proféticos de Lucia, tinha total confiança de que poderia ajudá-la. E a seu pai.
Ele e Lucia haviam compartilhado um dia inteiro de aulas, do nascer ao pôr do sol, trancados nos aposentos da princesa com os móveis e os tapetes afastados para os cantos, abrindo espaço suficiente para se movimentarem livremente no chão de mármore liso.
Assim como o método de ensino de Magnus, Ioannes fez Lucia levantar objetos com a magia do ar e usar a do fogo para criar pequenas chamas. Ela usou magia da água para criar gelo, e da terra para trazer plantas moribundas de volta à vida.
— Posso curar sua perna — ela disse, notando que Ioannes mancava de leve desde sua chegada. — Posso tentar?
Ioannes esfregou os dedos junto ao tecido da calça.
— Receio que não seja possível. Esse corte terá de se curar como o de um mortal. Magia da terra… magia de cura, minha ou de outra pessoa, não deve funcionar mais em mim. — Ele tentou abrir um sorriso quando viu o olhar de desalento dela. — Tudo bem. Existem muitas penalidades quando se abandona o Santuário. Essa é apenas mais uma delas. Vou ficar bem, prometo.
— Não aceito isso. Gostaria de tentar mesmo assim — ela insistiu.
— Muito bem, minha feiticeira teimosa. Tente. — Ele puxou a calça e desenrolou as bandagens. Lucia se contraiu ao ver o corte em sua pele dourada e perfeita. Deixou a surpresa de lado e se concentrou, canalizando o máximo de magia da terra que podia para o ferimento, assim como fizera ao curar Magnus quando ele fora terrivelmente ferido durante o cerco para tomar Auranos.
Mas, apesar de ter tido sucesso com Magnus, o mesmo não aconteceu com Ioannes. Lucia continuou tentando até ficar exausta.
— Chega, princesa. — Ele finalmente segurou o pulso dela. — Nossa última lição do dia é: você não pode ganhar todas as batalhas.
Mais do que tudo, estava irritada com o fracasso. E odiava que Ioannes estivesse ferido e ela não pudesse ajudar a aliviar sua dor. Aquele tinha sido o fim da aula do dia anterior. Lucia ficara tão exausta, com a mente tão tomada pelas trevas que costumavam surgir quando utilizava sua magia, que o corpo doía. Queria dormir por uma semana.
Mesmo assim, sua cabeça flutuava, e ela estava encantada com a realidade de ter Ioannes ali, em carne e osso. Tanto que, ao deitar na cama naquela noite, olhando para a cobertura de seda sobre sua cabeça, ela se deu conta de que mal havia perguntado a Ioannes sobre… bem, sobre nada. Não tinham conversado sobre nada além das aulas e das promessas de mostrar a cidade a ele. Prometeu corrigir isso no dia seguinte.
Ele chegou pouco depois de Lucia terminar seu leve desjejum, com chá, iogurte e pêssegos fatiados. A criada que levara a bandeja até seus aposentos olhava para ela e para Ioannes com curiosidade, fazendo Lucia rapidamente dispensá-la e trancar a porta para ter privacidade.
Ioannes passou os olhos pelo rosto dela.
— Você parece… bastante determinada hoje.
— E estou — ela concordou. — Você se encontrou com meu pai ontem à noite?
O rei insistira que o vigilante exilado o mantivesse atualizado ao fim de cada sessão diária. Provavelmente gostaria de monitorar as aulas em pessoa, mas Lucia não concordaria. Por sorte, ainda não havia sugerido isso.
— Sim. Eu disse que a filha dele está indo muito bem, e que o rei deveria se orgulhar. — Ele caminhou pelo quarto espaçoso, observando a cama com dossel, a penteadeira, a área de leitura e estudo atrás de uma passagem arqueada à esquerda, e as portas abertas da varanda, que deixavam entrar ar fresco e luz do sol. — Hoje vamos trabalhar aqui de novo, mas acho que amanhã devemos ter aulas ao ar livre, para ficar mais perto da natureza. Mais perto dos elementos.
— E quanto a Melenia? — Lucia perguntou.
Ioannes ficou imóvel e olhou para ela, franzindo a testa.
— O que tem ela?
— Ela entrou em contato com você?
— Na verdade, sim. Ela visitou meus sonhos ontem à noite pela primeira vez desde que saí do Santuário. Ficou muito satisfeita ao saber que eu havia chegado e feito contato com o rei. E, é claro, com você.
Quando se encontraram na cidade, Ioannes não mencionara que era mensageiro de outra bela imortal que possuía ligações misteriosas com seu pai. Ele dissera apenas que havia se exilado para ficar com ela. Porque a amava.
Quando admitiu ao rei, na sala do trono, o verdadeiro propósito de sua chegada, Lucia foi pega de surpresa e ficou em dúvida sobre como deveria se sentir. Sabia que não estava a par de muitas peças do quebra-cabeça que revelava o verdadeiro motivo da chegada de Ioannes. Ela queria — não, precisava — reuni-las o mais rápido possível.
— O que Melenia quer? — ela perguntou, tentando atenuar as palavras com um sorriso. — E com que frequência essa bela imortal pretende visitá-lo dessa maneira tão íntima?
Ioannes se aproximou. Seus olhos prateados encontraram os dela, e Lucia percebeu que continham um toque inesperado de humor.
— Você não está com ciúmes, está?
Ela ficou furiosa.
— É claro que não.
— Melenia é uma anciã, e minha líder, mesmo depois do exílio. Ela se preocupa com meu bem-estar, principalmente nestes primeiros dias como mortal. Tente não dar importância a ela ou aos interesses de seu pai pelos vigilantes. Em vez disso, concentre-se no que é importante: ficar mais forte, controlar e desenvolver seu poder.
— Por acaso isso significa “não seja uma garota tola que faz perguntas tolas”?
— De jeito nenhum. — O humor em seus olhos não diminuiu. — É melhor começarmos a aula de hoje. Vamos acabar com um pouco dessa paranoia com que você acordou esta manhã.
Talvez ele estivesse certo.
— Tudo bem. Vamos começar.


O segundo dia de aula acabou sendo bem diferente do primeiro. Ioannes começou formando uma labareda na palma da mão direita, o que a fez lembrar daquela que criara para impressionar e, também, assustar o garoto responsável pelas explosões durante a fuga dos rebeldes. Uma lembrança que logo esqueceu.
Lucia sabia que Amara estava hospedada no palácio nos últimos dias, mas não queria falar com ela. Sabendo que a outra princesa teria perguntas sobre sua magia que não estava preparada para responder, queria evitá-la pelo tempo que pudesse.
Lidaria com ela outro dia.
— Eis o que quero que faça — Ioannes disse, com o rosto iluminado pela chama tremeluzente. — Concentre-se neste fogo que criei com minha própria magia. Concentre-se com toda a sua mente. Sem usar sua magia do fogo, quero que tire esta chama de mim.
Ela demorou um instante para entender.
— Você quer que eu roube sua magia?
— Isso mesmo — ele disse. — É bem diferente do que fizemos ontem, que foi uma simples manifestação dos elementos.
— Sim, muito simples. — Ela ergueu uma sobrancelha.
Os lábios dele curvaram-se num sorriso.
— Para você, parece simples. No entanto, garanto que este desafio será um pouco maior. Pense em sua magia como um músculo invisível que, quando fortalecido, aumentará seu controle. Você mesma pode conjurar o fogo, ou pode pegar de alguém.
— Certo. Minha magia é um músculo. — Lucia observou a chama dançando na palma da mão dele. Concentrou-se com toda a força até que o mundo se fechou ao redor daquele pequeno foco de fogo. E foi capaz de sentir o calor da chama e de Ioannes.
Não da própria magia. Da magia dele.
Ela se concentrou o máximo que conseguiu, até gotas de suor se formarem em sua testa.
— É difícil — ela disse.
— É, sim. — Foi sua resposta irritante.
Ela se recusava a desistir. Levou vários minutos, mas, finalmente, com muito esforço, a chama desapareceu da mão de Ioannes e apareceu em sua mão. Ela respirou fundo, depois riu aliviada.
— Consegui!
— Você conseguiu. Muito bem, princesa. — Ele assentiu, satisfeito. Depois gesticulou com a mão e extinguiu a chama. Estendeu a palma, e uma segunda chama apareceu. — Agora, faça de novo.
O riso desapareceu do rosto dela.
— De novo?
— Isso mesmo.
Ela colocou as mãos na cintura.
— Eva precisou desse tipo de aula?
Foi a vez de Ioannes rir.
— Bem, Eva era imortal, nascida da magia e do poder. A feiticeira original não era uma garota mortal cujos elementia só despertaram aos dezesseis anos. Então, não. Ela não precisou desse tipo de aula.
Lucia sabia que podia terminar a aula imediatamente, mas isso não a levaria a lugar nenhum. Controlar seus elementia era seu único objetivo, e Ioannes podia ajudá-la. Além disso, não dava para dizer que passar horas e horas com o garoto de seus sonhos era um sofrimento muito grande, mesmo que já o considerasse um mestre muito severo.
Ela focou na chama, com o cenho franzido de concentração. Dessa vez, demorou metade do tempo para roubar a magia dele. Manteve o fogo na mão e sorriu para Ioannes.
— Ótimo — ele disse. Mais uma vez, com um gesto, o fogo desapareceu e ressurgiu na mão dele. — De novo.
O sorriso de Lucia desapareceu.
E assim foi, o mesmo exercício repetidas vezes — dez, vinte, trinta, quarenta vezes — até ela conseguir executar a tarefa com facilidade. Perto do meio-dia, Ioannes finalmente propôs um intervalo e foi para a varanda observar a paisagem que ia além das muralhas do palácio.
Ela ficou olhando para a chama, hipnotizada por sua beleza, até fechar a mão e extingui-la.
— Sabe, descobri que a biblioteca deste palácio tem muito mais livros sobre seu povo do que a de Limeros.
Meu povo? — Ioannes, debruçado na varanda, olhou para trás. — Você está se referindo aos vigilantes?
— Acho engraçado vocês se chamarem de vigilantes.
— A maioria não chama. Só aqueles que tiveram contato com mortais, que cunharam esse título para nós. Na verdade, uma alcunha mais apropriada seria guardiões.
— Porque sua gente foi criada para proteger a Tétrade.
Ele a olhou com curiosidade.
— Você tem lido livros interessantes, não é?
— Alguns. Mas existem muitas lendas que foram transmitidas de geração em geração. Gerações que existiam antes dos livros. — Lucia tivera uma babá que contava, antes de dormir, histórias que nem o rei nem a rainha aprovariam… histórias de belos imortais capazes de se transformar em falcões.
— Meu povo — ele disse — foi criado para proteger o mundo todo, para ajudar a mantê-lo em segurança. Defendê-lo de qualquer coisa, ou qualquer pessoa, que quisesse prejudicá-lo. Mas alguns planos não saem como deveriam. — Lucia se juntou a ele na varanda, desfrutando da sensação do sol quente no rosto. — Originalmente, seis imortais foram criados para serem esses guardiões. São os anciãos do nosso povo, e existiram durante séculos antes dos demais surgirem.
Lucia estava satisfeita por vê-lo disposto a compartilhar novas informações.
— Melenia é uma dos seis anciãos?
Ele confirmou.
— Eva também era.
— Li que ela era a mais nova e mais ingênua.
— Não é verdade — ele disse sem hesitar. — Na verdade, Eva foi a primeira imortal criada, por isso sua magia era a mais poderosa. Todos que foram criados depois dela eram, de certa forma, um pouco… inferiores. Ela era alvo de muita inveja por causa disso.
Lucia franziu a testa. Não era nisso que acreditara esse tempo todo, então foi uma revelação. Eva foi a primeira?
— Não é um detalhe conhecido da lenda. Não está em nenhum livro que li.
— Não, não deve estar. Alguns preferem manter essas verdades guardadas para servir a seus próprios objetivos. — Ele se encolheu e começou a esfregar o peito como se sentisse dor ao falar.
— Você está bem? — ela perguntou.
— Estou, sim. — Um sorriso surgiu em seu lindo rosto. — Acho que você me esgotou com as aulas desta manhã.
Isso valia só para ele. Lucia se sentia energizada, pronta para mais. Olhando para as mãos, ela disse:
— Então… minha magia é a mesma que Eva possuía. É como se fosse uma entidade distinta, que pode ser transmitida de uma pessoa para outra. Mais ou menos como fizemos com a chama?
Ioannes sacudiu a cabeça.
— Não é tão simples assim. Sua magia é uma parte de você, mas é poderosa o bastante para sobreviver à morte.
Lucia se esforçou para entender aquilo tudo e sua posição.
— Por que eu? Por que eu fui escolhida para receber a magia de Eva depois de todos esses anos? Por que não qualquer outra?
Ele olhou em volta do quarto como se procurasse respostas, e seu olhar parou sobre a silhueta de falcão dourado que sobrevoava a varanda ao longe. Sua expressão se tornou melancólica.
— Era para ser você, princesa. É seu destino e de mais ninguém. Mas admito que não tenho nenhuma razão tangível de por que foi você em particular. Simplesmente… foi.
— Que sorte a minha. — Ela ficou em silêncio por um instante. — Nos sonhos que compartilhamos, você me disse que minha magia poderia salvá-lo… salvar a todos da destruição. Disse que posso impedir que a magia desapareça do mundo.
Ioannes virou para ela com os olhos cheios de admiração.
— Você pode. E você vai.
— Como?
— Quando chegar a hora certa, vamos conversar sobre isso de novo. É o seu destino, princesa. Você é mais forte do que pensa.
Lucia levantou o queixo, frustrada por ele ter se recusado a contar tudo naquele exato momento.
— Eu nunca disse que não era forte.
— E nem pense em começar a duvidar de si mesma. Você é mortal, é verdade, e Eva era imortal. Mas não importa. Você nasceu para ter esse poder. Acredito nisso com todo o coração.
As palavras dele a confortaram, afastando as dúvidas.
— Obrigada.
— Mas isso não quer dizer que vou facilitar as coisas à tarde. Vamos trabalhar duro. Talvez acabe me odiando no fim do dia.
— Impossível — ela disse a ele, finalmente voltando a sorrir. Lucia olhou para o falcão que voava no céu azul. — Por que falcões?
— Como assim?
— Imortais… Vigilantes, guardiões, o que seja, podem assumir a forma de falcões. Por que não águias? Pardais? Ou até mesmo lagartos?
— Dizem que quando o criador do universo concebeu Eva, um falcão sobrevoou no exato momento em que a magia elementar formava seu corpo. O espírito do falcão se fundiu à alma dela, e à alma de todos os imortais criados depois. — Ioannes procurou uma reação nos olhos dela, sorrindo de leve. — O que posso dizer? Até entre meu povo as lendas são passadas de um para o outro.
— Em outras palavras, você não sabe ao certo.
— Não. Não totalmente. No entanto, a sensação de assumir forma de falcão e voar bem alto no céu para ficar de olho em vocês, mortais, não se compara a nada no mundo.
— Tenho certeza disso. — Ela não podia nem imaginar como devia ser incrível voar bem alto, para longe de todos os problemas terrenos. — Sinto muito por ter abandonado isso.
Uma sombra atravessou o rosto dele.
— Não sinta. Não existe outro lugar onde eu deva estar além de aqui, agora, com você. Acredite, princesa, é a mais pura verdade. — Ele pegou a mão de Lucia e a apertou. O coração dela parou por um instante, e os olhos dos dois se encontraram. — Agora, podemos retomar a aula?
Antes que pudesse responder, alguém bateu na porta. Irritada, ela perguntou:
— Quem é?
— Só tem um jeito de descobrir — Ioannes disse.
— Os criados sabem que não devem nos incomodar. — Com relutância, ela se afastou de Ioannes e atravessou o quarto para destrancar a porta.
Você — Cleo disse sem esperar Lucia cumprimentá-la. — Estou muito zangada com você.
Lucia ficou surpresa com essa saudação inesperada.
— Hã?
— Não a vejo há dois dias! Nem uma palavra desde o caos no dia das execuções. Fiquei sabendo pelas criadas que você tinha voltado ao palácio sã e salva. Não podia esperar nem mais um instante para ver com os próprios olhos, então vim até aqui. Agora, vejo que está ótima. Na verdade, está especialmente bonita hoje. Nem consigo dizer como estou aliviada. — Ela abriu um sorriso para Lucia.
Lucia estava achando Cleo exuberante e simpática. Mesmo assim, continuava acreditando que precisava ter cuidado com ela. Mas não podia negar que, depois de uma longa manhã de aulas, Cleo era uma visão agradável, mesmo interrompendo seu tempo com Ioannes.
— Está tudo bem — Lucia disse. — Obrigada por passar aqui para me ver.
Parte dela desejou visitar Cleo no dia anterior, depois que Ioannes lhe dera boa noite, na esperança de apaziguar a escuridão que crescia dentro dela por utilizar muito mais magia do que estava acostumada. Ela sabia que um simples instante com a princesa tinha o poder de afastar aquele sentimento.
Em vez de ir até lá, ficou esperando, depois de decidir que ainda era cedo demais para confiar totalmente na cunhada. A escuridão desapareceu sozinha depois de um tempo, permitindo que ela pegasse no sono.
— Ouvi dizer que seu novo tutor é lindo — Cleo disse, olhando para além de Lucia. — E aqui está ele.
Lucia olhou para trás e viu Ioannes parado em silêncio no centro do quarto.
— Sim, aqui está ele.
— O nome dele é Ioannes — Cleo disse.
— Isso mesmo.
— É o mesmo nome do vigilante sobre o qual me contou. — Lucia virou, e o olhar de Cleo encontrou seus olhos sem piscar. O coração de Lucia começou a bater com força e rápido. — Parece que ele é real, e não apenas um sonho — Cleo concluiu.
Lucia agarrou o braço de Cleo e a puxou para dentro do quarto. Confiara esse segredo a ela em um momento de fraqueza, sem imaginar que Ioannes apareceria de verdade.
— Eu não devia ter contado sobre ele.
— Não se preocupe. — O sorriso de Cleo estava calmo quando estendeu o braço para segurar a mão de Lucia. Imediatamente, uma sensação de serenidade se espalhou por ela. — Não vou contar a ninguém. Juro.
Lucia observou o rosto de Cleo e encontrou apenas sinceridade.
— Ótimo.
Ioannes se aproximou das duas.
— Vai nos apresentar? — perguntou a Lucia.
— Claro. — Lucia se apressou em retomar os bons modos. — Ioannes, esta é a princesa Cleiona, Cleo, esposa do meu irmão. Cleo, este é Ioannes.
Cleo abriu um sorriso simpático e estendeu a mão.
— É um prazer conhecê-lo.
— O prazer é meu. — Ioannes pegou a mão de Cleo e franziu a testa.
Lucia ficou encantada ao ver aquilo — um garoto ancião que parecia não saber como cumprimentar uma princesa desconhecida.
— Está tudo bem? — Cleo perguntou depois de um momento, quando Ioannes não soltou sua mão.
Ele só franziu ainda mais a testa.
— É que… seu anel. — O olhar inquisidor dele encontrou os olhos dela.
Cleo puxou a mão e a escondeu nas costas.
— Preciso ir. Não quis incomodar vocês.
Lucia observou os dois, confusa.
— O anel? Do que está falando?
Ioannes continuou encarando Cleo.
— Onde arrumou isso? Onde encontrou o anel?
— Não sei do que está falando. É o anel da minha mãe, passado de geração em geração. É uma herança de família.
— É claro — Ioannes murmurou, como se falasse consigo mesmo. — É tudo uma questão de destino, não é? Você está aqui. Lucia está aqui. Melenia já devia saber disso, com certeza. Mas eu não sabia.
— Bem — Cleo interrompeu, com um sorriso frio nos lábios. — Preciso ir. Tenham um ótimo dia.
Ela virou para a porta e a abriu com cuidado, mas Ioannes correu para bloquear a passagem. Ele fechou a porta e virou a tranca.
— Não tão rápido, princesa — ele disse.
— Explique-se agora mesmo, Ioannes — Lucia exigiu, chocada com a grosseria inesperada. — O que tem no anel de Cleo para você agir de maneira tão estranha de repente?
Ioannes olhou para ela e respirou fundo, esfregando o peito de novo, como se a marca dourada em sua pele causasse profundo desconforto. Devagar, recuperou o controle de sua expressão.
— Eva possuía um anel que a ajudava a controlar a superabundância de magia. Dizem que o anel foi criado a partir de elementia puros, retirados da própria Tétrade. Desse modo, permitia o contato direto com a Tétrade sem nenhum efeito maligno. Mas, depois de sua morte, o anel se perdeu. — Ele olhou para Cleo, que ainda mantinha a mão atrás do corpo. — Mas aqui está ele. Na mão da esposa do seu irmão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!