29 de setembro de 2018

Capítulo 18

ACOMPANHEI SHAZAD PARA FORA DO PAVILHÃO, cega novamente pela luz dourada e pelas cores vibrantes.
— Como ela fez aquilo? — perguntei enquanto a seguia pelo acampamento, olhando de relance para Imin. — Ela… não é uma andarilha, é?
— Não. Por incrível que pareça não queremos ser assassinados enquanto dormimos. A porta mantém os carniçais do lado de fora. Imin é uma demdji, como Delila — Shazad disse, como se fosse resposta suficiente. Ela abriu a aba de uma tenda que era menor do que a do príncipe, mas ainda assim alta o suficiente para se ficar de pé dentro dela. Estava organizada com grande precisão: uma cama bem arrumada, uma pilha de livros, um baú, armas enfileiradas no chão. Shazad abriu o baú. — Toma. — Ela puxou uma camisa branca simples e um shalvar marrom. — Devem servir em você. Está coberta de sangue.
— O que é um demdji? — perguntei, percebendo tarde demais que deveria ter dito “obrigada” antes.
— Você nunca ouviu falar dos demdjis? — Ela deixou a tampa do baú cair.
— Nasci muito longe daqui. — Num lugar onde príncipes e mulheres que mudam de forma só existem em histórias contadas ao redor da fogueira.
— Demdjis são filhos de djinnis e mulheres mortais. — Shazad sentou em cima do baú. — Tem cerca de uma dúzia no acampamento. Ahmed praticamente os coleciona agora.
— Todos conseguem mudar de forma? — Senti uma pontada na ferida no braço ao lembrar do andarilho no desfiladeiro. Tirei a camisa ensopada de sangue.
— Não, depende — Shazad explicou. — Djinnis são criaturas do deserto, naturalmente hábeis em ilusão e manipulação. Então é isso que seus filhos herdam: ilusões e manipulações, poderes que vêm dos ventos e do calor do deserto. Delila pode criar imagens que parecem reais, mas são vazias ao toque, como se feitas de ar. Imin pode tomar a forma de qualquer pessoa, homem ou mulher. Há um par de gêmeos que também podem mudar de forma, mas eles se tornam animais. Tem uma garota que entra sorrateira na sua cabeça e bagunça tudo até que você veja o que ela quer, como um devaneio provocado por insolação. Nos textos sagrados eles chamam isso de “dom dos djinnis”. Alguns dizem que é uma proteção para compensar a marca dos djinnis.
— Que marca? — Eu me sentia ignorante ouvindo ela falar sobre todas aquelas coisas como se fossem óbvias.
— Os olhos dourados de Imin, o cabelo roxo de Delila. — Shazad tirou o próprio cabelo escuro do rosto. — Alguns deles podem se passar por humanos no mundo lá fora. Quando ainda estávamos em Izman, Delila costumava tingir o cabelo com henna, ou jogar uma ilusão sobre ele. Mas tem aqueles que não conseguem esconder. — Os que acabavam levando tiro na cabeça. — Os gallans os matam porque acham que todos os seres primordiais estão contra seu deus inventado.
Lembrei da garota de Fahali. Achei que fosse sangue no cabelo dela. Talvez simplesmente fosse vermelho. A marca dos djinnis.
— Metade de Miraji os caçaria para obter alguma coisa. Como um dedo, pelos supostos poderes curativos. Pergunta a Bahi se quiser conhecer a teologia. A maioria das pessoas chama isso de…
— Magia do deserto. — Então as histórias realmente ganhavam vida ali. Heróis e monstros lutavam e morriam pelo príncipe rebelde.
Jin e eu tínhamos conversado sobre aquelas histórias. Sobre o príncipe rebelde. E Jin tinha mentido para mim até eu me tornar uma garota tola metida numa confusão para a qual não estava nem um pouco preparada.
Shazad era mais ou menos do meu tamanho. Só que uma vida comendo boas refeições a deixara mais farta em todas as regiões do corpo que me ajudavam a parecer um garoto quando eu precisava. Fiquei ajeitando as roupas que ela tinha me emprestado, desconfortável, enquanto cruzava o acampamento, tentando refazer meus passos daquela manhã.
Encontrei Bahi do lado de fora da tenda com dossel de estrelas onde eu tinha acordado. Ele estava saindo e me viu enquanto eu puxava o tecido na frente da camisa, o cabelo molhado pingando e grudando o tecido nas minhas costas. Shazad tinha me mostrado um lugar para tomar banho, uma pequena piscina escondida do acampamento, antes de me largar para fazer… o que quer que ela fizesse por ali. Eu não tinha mais nenhum lugar aonde ir ou outra coisa para fazer.
— Por que você está vestindo as roupas de Shazad? — Bahi perguntou, me olhando de cima a baixo.
— Como você reconhece as roupas dela tão rápido? — retruquei sem pensar.
Bahi coçou a nuca, fazendo uma careta. Parecia uma criança flagrada fazendo algo errado.
— É difícil tirar os olhos dela — ele admitiu. — Não conte a ela que eu disse isso. Tenho certeza de que ela conhece umas cinco maneiras diferentes de me matar sem nem precisar encostar em mim. E se eu estiver morto, não haverá ninguém para cuidar do seu príncipe.
— Ele não é meu — eu disse, na defensiva. Então completei, sem conseguir evitar: — Como ele está?
— Você o trouxe para cá em tempo. — Bahi passou a mão tatuada pelo cabelo. — Agora só precisamos esperar.
— Posso vê-lo?
— Não vejo por que não. — Bahi deu de ombros e gesticulou para dentro da tenda.
O calor me atingiu em cheio assim que puxei a aba da tenda. Jin estava deitado do mesmo jeito que eu o havia deixado, só que agora seu irmão estava sentado perto dele. A camisa do príncipe Ahmed estava aberta no pescoço, e eu podia ver uma cópia do sol de Jin tatuada no peito dele à luz fraca do lampião. Ahmed levantou a cabeça quando ouviu o som da tenda fechando atrás de mim.
— Majestade. — A palavra saiu artificial. — Desculpa, é melhor eu…
— Não, por favor, fique. — Interrompi minha retirada. Não sabia exatamente como contrariar um príncipe. Sentei de frente para Ahmed, do outro lado de Jin. A presença de Ahmed trazia toda a realidade de volta. Jin não era simplesmente um estrangeiro com sorriso traiçoeiro. Ele era filho do sultão, e eu me sentia deslocada ali sentada com dois príncipes.
— Jin é o nome real dele? — perguntei quando o silêncio começou a ficar constrangedor.
— É o apelido que Lien, sua mãe, deu a ele — disse Ahmed. — Nosso pai o chamou de Ajinahd Al’Oman bin Izman.
Durante quase dois meses ele nem tinha me dito seu nome verdadeiro.
Ahmed me observava.
— Você acha que ele não confia em você. Mas não é verdade.
Dei uma risadinha irônica.
— A bússola. — Pelo canto do olho, vi o objeto de latão gasto nas mãos dele. Pensei na tatuagem nas costas de Jin. Uma bússola. Do outro lado do sol. Como se seu coração batesse entre as duas coisas. — Foi feita pelos gamanix. Enquanto os albish e os gallans estão em guerra por causa da disputa entre a magia e a mortalidade, os gamanix equilibram as duas coisas. Um pouco de ciência, um pouco de magia. Cada bússola está ligada a seu par. Elas são nosso porto seguro. Nos seis anos desde que as conseguimos, nunca perdi a minha de vista. Teria perdido Jin uma dezena de vezes se não fosse por ela. Se ele confiou a própria família a você, então não teria como confiar mais. Foi a mãe de Jin que nos tirou do palácio vivos, sabia?
Eu não sabia disso. Assim como não sabia de nada sobre Jin. Mas Ahmed não parecia estar esperando uma resposta. Eu nem tinha certeza de que estava falando mesmo comigo.
— Lien e minha mãe eram como irmãs. Elas entraram no harém do meu pai quase ao mesmo tempo, e Jin e eu nascemos com horas de diferença. Eu nasci mais cedo, e Jin nasceu atrasado. Eu era o quinto filho do meu pai. Ele foi o sexto. Nascemos cedo o suficiente para sermos bem tratados, mas não tão cedo a ponto de ele prestar mais atenção em nós do que nossas mães gostariam. Lien chamava isso de destino. Jin não acredita em destino. Eu não tenho uma única memória do rosto da minha mãe. Era novo demais quando ela morreu.
A jovem e bela esposa do sultão, segundo a história. Aquela que foi espancada até a morte por dar luz a Delila. Para mim ela não passava de algumas breves palavras no conto do príncipe rebelde. Mas para Ahmed ela tinha sido de carne e osso.
— Todas as minhas memórias de Miraji são com meu irmão. Na noite em que Delila nasceu, Jin estava doente. Lien e minha mãe planejavam fugir desde que minha mãe descobrira que estava grávida de um djinni. Não era seguro levar Jin com febre, mas não era seguro Delila ficar. Então Lien teve que arriscar. Eu lembro de fragmentos daquela noite. Segurar na saia de Lien enquanto ela dava um montante equivalente ao resgate de um sultão em braceletes de ouro para pagar por um navio até Xicha… Mas essas coisas parecem um sonho. Minha lembrança mais forte é de sentar numa cabine sentindo as batidas do coração do meu irmão com a mão enquanto ele queimava de febre em um navio precário nos levando para longe de casa, e Lien pedindo que eu rezasse por Jin para ele sobreviver àquela noite enquanto ela ninava minha irmã para tentar conter seus gritos. — Ele engoliu em seco, a garganta subindo e descendo. — Perdi a conta de quantas preces já rezei pedindo para meu irmão continuar vivo desde então. Ele já estourou a cota de quase mortes.
— Algumas pessoas são simplesmente melhores em se colocar na linha de fogo — eu disse. — Majestade.
— Por favor, me chame de Ahmed. Basta olhar em volta para ver que minha majestade é bastante contestável. — Ele não parecia em nada com seu irmão naquele momento. Jin sempre sorria para mim como se ambos estivéssemos prestes a entrar em apuros e ele estivesse adorando. O príncipe sorria como se estivesse te perdoando por isso. — Meu irmão talvez se preocupe pouco com a própria segurança, mas na maior parte do tempo, quando entrou na linha de fogo, foi para me proteger ou proteger Delila. Eu nunca o vi flertar com a morte de modo tão descuidado por causa de outra pessoa. Até você.
Eu não sabia o que dizer em resposta. Me concentrei em Jin. Suas feições estrangeiras eram a única coisa familiar naquele lugar misterioso cheio de princesas de cabelo roxo e metamorfas de olhos dourados, embora ele tivesse se tornado um desconhecido novamente no momento em que Ahmed o chamara de irmão.
— Conquistar seu trono, seu reino… — comecei. — Vale o sacrifício de todas essas pessoas? — Vale a vida dele? — O sultão matou a sua mãe, o sultim roubou o seu trono. Isso não é problema dos outros. Você quer saber quem matou a minha mãe? Seu país. — Eu não tinha a intenção de que aquilo saísse como uma provocação. Mas realmente queria saber se havia uma chance de ele tornar esse deserto um lugar melhor.
— Não estou atrás de poder. — O príncipe Ahmed estava calmo, apesar de eu ter acabado de jogar o assassinato da minha mãe na cara dele. De alguma forma, ele não soava arrogante. — Eu vi o modo como meu pai governa: como um homem que tem medo de perder qualquer fiapo de poder para outro. Ele acha que é o único modo de manter o controle, e é por isso que somos pobres e fracos. Nunca planejei retornar a Miraji para tomar o trono do meu pai. Fomos a todo tipo de lugar antes de vir para cá. Visitamos a península ioniana, onde eles têm um conselho de homens e mulheres, escolhidos entre o próprio povo, ricos e pobres, para que possam ser ouvidos igualmente. Fomos a Amonpour, onde o comércio e a indústria tornam todos abastados, em vez de miseráveis e famintos. Viajamos para Albis, onde as mulheres podem herdar terras, trabalhar e são tratadas como iguais aos homens em tudo. E Espa, onde, numa noite regada a bebida, achamos que fazer isso — o príncipe puxou o colarinho para que eu pudesse ver por completo sua tatuagem, idêntica à de Jin — era uma boa ideia. É o símbolo xichan de sorte e fortuna. Apropriado quando você está vivendo entre um emprego e outro, entre um navio e outro, como a gente fazia naquela época. Eu não planejei que se tornasse o símbolo de toda uma revolução. As pessoas neste deserto deveriam ter um país que pertencesse a elas, não a um homem. Todos aqui vivem como se alguém ateasse fogo neles quando nascem. Tem tanta grandeza em Miraji, e tantos atos terríveis sendo cometidos pelo meu pai e pelos gallans. O povo merece algo melhor. Shazad merece um país onde sua inteligência não seja desperdiçada por ela ser mulher. Os demdjis não devem temer por sua vida só porque meu pai se aliou a um país que queima aqueles tocados pela magia. Minha mãe merecia algo melhor do que ser espancada até a morte por se rebelar contra uma vida que ela não escolhera. Poderíamos tornar Miraji o melhor país do mundo. Meu pai o deixou desse jeito. Um lugar violento e em conflito, quase nas mãos do rei gallan. E meu irmão Kadir é igual a ele. Com ele como sultim, continuaremos a viver subjugados a impérios estrangeiros que vêm sugar tudo o que as areias têm a oferecer. Mas poderíamos mudar tudo.
O rosto do príncipe Ahmed ganhou vida enquanto ele falava sobre o deserto. E quanto mais falava, mais difícil era duvidar dele. Finalmente entendi o garoto maluco na arena de tiro na noite em que conheci Jin. Aquelas ideias podiam fazer as pessoas gritarem pela rebelião mesmo quando significava uma sentença de morte.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!