23 de setembro de 2018

Capítulo 18

AMARA
KRAESHIA

Amara sabia que, por sua culpa, um monstro estava livre — um monstro que destruiria o mundo a menos que fosse detido. E ela tinha deixado a bagunça para trás, para os outros arrumarem.
Ela esperava se sentir mais livre quanto mais longe da costa de Mítica estivesse, mas as correntes invisíveis que a amarravam ao que tinha feito não se romperam quando a Joia do Império finalmente surgiu diante dela.
Seu belo lar também seria destruído se Kyan não fosse preso de novo.
Ela precisaria ter fé em Lucia. E em Cleo.
Por enquanto, a fé teria que ser suficiente.
Costas, o único membro de sua guarda em que Amara confiava, permaneceu em Mítica para ficar de olho na família real. Ela lhe ordenara que enviasse uma mensagem se tivesse alguma notícia, por menor ou mais insignificante que parecesse.
Uma festa a esperava quando o navio atracou, uma multidão de kraeshianos eufóricos segurando placas proclamando seu amor e sua devoção pela nova imperatriz.
— Bem-vinda de volta, imperatriz Amara! — gritavam para ela.
Quando desembarcou, crianças e mães a olhavam com esperança, uma esperança que não era a mesma que tinham com seu pai — um imperador que sempre se concentrou apenas em poder, conquistas e fortuna ilimitada.
Amara seria diferente, aquelas mulheres acreditavam naquilo. Melhor. Mais humana. Mais benevolente e focada em união e paz como os governantes homens do passado não tinham sido.
Amara sorriu para todos, mas descobriu que o aperto em seu peito não cessava. Todas aquelas pessoas… morreriam nas mãos dos deuses da Tétrade se Lucia falhasse.
Lucia não podia falhar.
Amara confiava na magia da feiticeira, em sua profecia, na determinação que tinha visto nos olhos dela quando entrara no complexo pela primeira vez, procurando o irmão e o pai. Por um instante, apenas um instante antes do cortejo do rei partir para Auranos, Amara quis perguntar se Lucia poderia curar sua perna fraturada com magia da terra, como um favor.
Mas ela tinha controlado a língua, duvidando que a resposta seria positiva.
— Eu mereci esse ferimento — ela sussurrou para si mesma, apoiada na bengala. A dor havia diminuído, mas caminhar era difícil. Ela recusou o auxílio dos guardas que a cercavam, preferindo mancar sem ajuda.
Amara apreciou a paisagem de Joia durante o trajeto de carruagem até a Lança de Esmeralda, a residência real onde vivera desde seu nascimento. Às vezes, ela esquecia como Joia era uma cidade bela. O nome não tinha sido escolhido por acaso. Para onde quer que olhasse, seu entorno transbordava vida. Árvores verdes e exuberantes tinham folhas lisas e viçosas e eram muito mais altas que qualquer uma que ela tivesse visto em Mítica. As flores — a maioria em tons de roxo, a cor favorita do imperador — eram grandes como travessas. O ar era fresco e perfumado, com o cheiro das flores e do mar salgado que cercava a pequena ilha.
Amara fechou os olhos e tentou se concentrar apenas na sensação do ar úmido sobre seus braços, nos perfumes inebriantes de Joia, na vibração do povo por onde passassem.
Quando abriu os olhos de novo, viu o palácio que se estendia até as nuvens, como um fragmento inestimável de esmeralda brilhante. O projeto era de seu pai, construído anos antes do nascimento dela. O antigo rei nunca havia ficado satisfeito, não achava que tivesse ficado alto o bastante, distinto o bastante, impressionante o bastante.
Mas Amara amava aquele lugar.
Que agora pertencia a ela e a mais ninguém.
Por um instante, ela deixou de lado suas dúvidas, seus medos, sua culpa, e se permitiu se deleitar na própria vitória — a maior vitória de uma mulher na história.
O futuro de todas as pessoas que a tinham recebido seria brilhante como o cetro ancestral que ela levantaria em sua Ascensão pública.
Seria uma cerimônia grandiosa, muito parecida com a de seu pai muitos anos atrás, bem antes de seu nascimento, imortalizada em pinturas e esculturas para documentar tudo.
E então todos — gostando ou não — teriam que adorar e obedecer à primeira imperatriz na história dos mortais.
Usando túnicas cor-de-rosa, o cabelo preso em um coque grande e elegante na nuca, Neela esperava por ela na grande e reluzente entrada da Lança. A velha senhora abriu os braços na direção da neta. Guardas se enfileiravam na circunferência das dependências do palácio.
A bengala fez barulho ao tocar o piso verde-metálico enquanto Amara diminuía a distância entre as duas, então a imperatriz permitiu que a avó lhe desse um abraço caloroso.
— Minha linda dhosha voltou para mim — Neela disse.
A garganta de Amara ficou apertada, e seus olhos arderam.
— Senti sua falta, madhosha — ela sussurrou.
— E eu senti a sua.
Amara não conseguia tirar os olhos da avó. A senhora não parecia velha naquele dia. Estava vibrante. A pele brilhava, os olhos cintilavam. Até o cabelo grisalho parecia mais sedoso e volumoso.
— Está maravilhosa, madhosha — Amara lhe disse. — Claramente, acabar com uma revolução faz maravilhas para a pele.
Neela riu com leveza, tocando as próprias bochechas lisas e bronzeadas.
— Não foi bem assim. Meu boticário criou um elixir especial para mim, que sem dúvida contribuiu para renovar minhas forças. Durante o período que você passou em Mítica, eu sabia que não poderia deixar minha idade e minhas doenças me atrasarem.
O boticário era um homem misterioso que trabalhava em segredo para a família Cortas fazia muitos anos. Amara fez uma anotação mental para se lembrar de encontrá-lo em breve. Ela sabia que o homem também era responsável pela poção mágica que a tinha trazido de volta à vida quando era bebê, a mesma poção que tornara possível a ressurreição de Ashur.
Era um homem que ela precisava conhecer. Um homem sobre o qual precisava ter controle.
— Tenho muita coisa para contar — Amara disse.
— Talvez não tanto. Fui informada de tudo o que se passou na pequena Mítica, apesar das mensagens um tanto quanto curtas e enigmáticas que recebi de você. Venha, vamos conversar a sós, longe de ouvidos curiosos.
Um tanto surpresa, Amara acompanhou a avó pelos longos e estreitos corredores da Lança até a ala leste, saindo no jardim de pedras em seu pátio particular.
Ela observou seu lugar preferido no palácio — um lugar que seu pai odiava, pois considerava feio e banal. Mas Amara tinha adquirido cada uma das dezenas de milhares de rochas — brilhantes, feias, belas, de todos os tamanhos e todas as cores — ao longo da vida, e considerava cada uma delas um tesouro.
— Senti falta desse lugar — ela comentou.
— Tenho certeza disso.
Um criado trouxe uma bandeja com vinho e uma seleção de frutas exóticas, diferente de qualquer uma disponível em Mítica. Amara salivou ao vê-las.
Neela serviu um cálice de vinho para cada uma, e Amara deu um grande gole.
Vinho paelsiano.
O mesmo que ela tinha usado para envenenar a própria família.
Ela engoliu a bebida, embora estivesse com o estômago revirado pela lembrança.
— Ashur ainda está vivo — Neela comentou depois de também beber de seu cálice.
Amara ficou paralisada no meio do gole e demorou um instante para se recompor.
— Está. Ele adquiriu a poção de ressurreição de seu boticário.
— Também me disseram que, depois que o capturou, ele conseguiu fugir.
De novo, Amara soltou o ar lenta e calmamente antes de responder.
— Ele não será um problema.
— Sua Ascensão ainda deve levar quase uma semana. Se seu irmão aparecer por aqui, se reivindicar o direito ao título de imperador…
— Ele não vai fazer isso.
— Como pode ter certeza disso?
— Eu tenho. Meu irmão está… preocupado com outras questões.
— O jovem com quem passou a se importar até demais. Que atualmente é o veículo do deus do fogo.
Amara ficou olhando para a avó, perplexa.
— Quem lhe contou tudo isso?
Neela arqueou uma sobrancelha, pegando uma uva vermelha e redonda da bandeja, inspecionando-a com cuidado antes de jogá-la na boca e mastigar lentamente.
— Você nega alguma dessas coisas?
Um desconforto tomou conta de Amara. A avó não confiava nela. Se confiasse, não teria sentido a necessidade de ter um espião.
Um espião muito bem informado, inclusive.
— Não nego nada — Amara respondeu, afastando as próprias incertezas. — Fiz o que achei que devia. Tentei encontrar uma forma de controlar a Tétrade. Foi impossível. E agora… bem, deixei uma bela confusão para trás. — A voz de Amara estava trêmula. — Kyan pode destruir o mundo, madhosha. E a culpa seria toda minha.
Neela balançou a cabeça com o rosto sereno.
— Aprendi, no decorrer da vida, a controlar apenas o possível. Quando algo está fora de meu alcance, eu o deixo livre. O que está feito está feito. Os problemas em Mítica são problemas de Mítica, não nossos. Acha que existe alguma chance daqueles deuses elementares vencerem a feiticeira?
Amara segurou o cálice com mais força.
— Não sei.
— Existe alguma coisa que você possa fazer para auxiliá-la?
— Eu só pioraria as coisas, acho. É melhor eu ficar por aqui agora.
— Então está resolvido. O que tiver que acontecer vai acontecer. — Neela se serviu de mais vinho. — Acho que você deve saber que o rei Gaius Damora está morto.
— O quê? — Amara ficou sem palavras por um instante. — Ele está… morto? Como?
— Morreu com uma flecha no coração. Foi atingido no meio de um discurso sobre como pretendia derrotar você e tomar seu precioso reino de volta.
Amara permitiu que o choque daquela notícia incrível tomasse conta.
Gaius estava morto. Seu inimigo. Seu marido. O homem que tinha se casado com ela por uma chance de se aliar a seu pai. O homem que Amara acreditara, por um breve período, ser uma vantagem para seu reino, até que ele a traíra na primeira oportunidade que tivera.
Ela sabia que deveria ficar satisfeita com a notícia. Se não temesse a ira de Lucia, ela mesma teria ordenado a execução do rei.
Ainda assim, parecia-lhe muito estranho que um homem tão poderoso e implacável quanto Gaius Damora pudesse ser retirado do mundo por uma simples flecha.
— Inacreditável — ela sussurrou.
— Escolhi bem o assassino, dhosha — Neela disse.
Amara tirou os olhos do cálice, chocada com as palavras da avó.
— Foi um plano seu?
Neela confirmou com o olhar firme.
— O rei Gaius representava um possível obstáculo ao seu futuro. Agora você é viúva, e está livre para casar com alguém de sua escolha.
Amara balançou a cabeça. Talvez a avó esperasse gratidão, e não choque, por ter tomado aquela medida extrema.
Será que cabia a ela fazer tal escolha?
Gaius sem dúvida era um problema, mas era um problema — assim como tudo o que ela havia deixado para trás — com que Amara tinha resolvido lidar após sua Ascensão, quando seu poder fosse absoluto e inabalável.
— É claro, a senhora fez bem em tomar essa decisão — Amara finalmente disse. — No entanto, gostaria que tivesse me consultado antes.
— O resultado teria sido o mesmo, apenas demoraria mais. Alguns problemas requerem atenção imediata.
Amara deu mais uns passos mancos, segurando a bengala com força.
— Estou curiosa para saber quem em meu complexo está enviando mensagens tão detalhadas.
Neela abriu um pequeno sorriso.
— Alguém que deve chegar logo, com um presente muito especial que adquiri para você.
— Fascinante. Poderia me dar mais detalhes?
— Ainda não. Mas acredito que esse presente será incrivelmente útil para nós duas durante muitos anos. Não vou dizer mais nada, pois quero que seja uma surpresa.
Amara se forçou a relaxar. Apesar da notícia chocante do assassinato de Gaius, ela sabia que precisava agradecer pela inteligência, força e perspicácia de sua avó, e não questioná-la.
— Joia está linda e calma de novo — Amara comentou depois que um silêncio pacífico recaiu sobre elas. Ela havia passeado pelo jardim, tocado suas rochas favoritas e se lembrado de onde tinha guardado a esfera de água-marinha no curto período em que esteve em poder dela.
— Está — Neela concordou. — A maioria dos rebeldes foi eliminada imediatamente depois da prisão, mas estamos com o líder deles aqui no palácio, aguardando execução. Como ele costumava ser um criado aqui, achei que seria adequado que fosse morto em público, na sua cerimônia de Ascensão. Algo simbólico. — Ela levantou o queixo. — Um símbolo de que precisamos sobreviver apesar das ameaças a nosso poder de direito.
Amara pegou um pedaço de obsidiana irregular. Suas beiradas pretas e reluzentes refletiam a luz do sol.
— Um criado? Alguém que talvez eu conheça?
— Sim, com certeza. Mikah Kasro.
Amara apertou a pedra com mais força.
Mikah era seu guarda preferido e estava no palácio desde que os dois eram crianças.
— Mikah Kasro é o líder da revolução? — ela repetiu, certa de que tinha ouvido mal.
Neela confirmou.
— O líder da facção local, pelo menos. Ele foi responsável pelas fugas da prisão, que mataram quase duzentos guardas depois que você partiu para Mítica. — A expressão da avó era de repulsa. — Pouco tempo depois, fez um ataque direto à minha vida aqui no palácio. Mas não teve sucesso.
— Fico muito feliz que tenha fracassado.
— Eu também.
— Quero falar com ele. — A frase saiu da boca de Amara antes que se desse conta do que estava pedindo.
Neela arregalou os olhos.
— Por que desejaria uma coisa dessas?
Amara tentou refletir. Visitar um prisioneiro, principalmente um que tinha como objetivo derrubar seu governo, parecia absurdo, até mesmo para ela.
— Eu lembro que Mikah era tão leal, tão gentil e tão honesto. Ou pelo menos achei que fosse. Não compreendo isso.
Ele gostava de mim, e eu gostava dele, Amara quis acrescentar. Mas não disse nada.
Parecia que passar tanto tempo em Mítica, com seu povo falso e passivo-agressivo, tinha roubado dela o dom da absoluta franqueza de que os kraeshianos tanto se orgulhavam.
Sua avó franzia a testa profundamente, observando-a com curiosidade.
— Acho que isso pode ser providenciado. Já que insiste.
Amara precisava daquilo. Precisava falar com Mikah e entender o que ele queria, entender por que tinha decidido se rebelar e tentar destruir a família Cortas — mesmo que seu odioso pai e todos os seus herdeiros homens, à exceção de um, estivessem mortos.
Amara olhou para a avó.
— Sim, eu insisto.


Amara tinha feito uma ameaça ao guarda no complexo paelsiano, o que tinha se aliado a lorde Kurtis, de transformar sua cela em uma sala do esquecimento.
Mikah Kasro estava trancado em uma sala do esquecimento na Lança de Esmeralda fazia várias semanas.
Amara se apoiou na bengala e entrou na cela vazia e sem janelas, cercada de guardas, e se deparou com Mikah com as mãos e os pés acorrentados. Ele vestia apenas calças pretas esfarrapadas e tinha uma barba de muitas semanas no rosto. Havia cortes profundos em seu peito e seus braços, e o olho esquerdo estava machucado e fechado pelo inchaço. O cabelo preto na altura do ombro estava opaco e oleoso e a face estava macilenta.
Mas os olhos…
Os olhos de Mikah ardiam como pedras de carvão. Ele era apenas alguns anos mais velho que Amara, mas seus olhos eram sábios, firmes e repletos de uma força infinita, apesar de tudo o que havia passado.
— Ela voltou — Mikah disse. Sua voz não passava de um resmungo grave. — E está me presenteando com sua luminosa presença.
Ele falava como Felix, e isso a fez recuar.
— Dirija-se à imperatriz com respeito — um dos guardas rosnou.
— Tudo bem — Amara disse. — Mikah pode falar comigo como quiser hoje. Sou forte o bastante para suportar. Não esconda nada, meu velho amigo. Não me importo nem um pouco.
— Velho amigo — Mikah repetiu, rindo baixo. — Que engraçado. Já cheguei a pensar que isso fosse possível, que um reles criado e uma princesa pudessem ser amigos. Você era gentil comigo, muito mais gentil do que seu pai. E muito mais gentil do que Dastan e Elan juntos. Quando soube que os matou, comemorei.
Amara franziu os lábios.
— O que foi? Acha que ainda é segredo? — Mikah perguntou, arqueando a sobrancelha escura.
— Não passa de uma mentira venenosa — ela disse.
— Você é uma assassina, assim como seu pai, e um dia vai responder por seus crimes.
Antes que Amara pudesse dizer qualquer coisa, o guarda chutou o peito de Mikah. Ele caiu de costas, tossindo e respirando com dificuldade.
— Dirija-se à imperatriz com respeito ou vou cortar sua língua! — o guarda gritou.
Amara olhou para o guarda.
— Deixe-nos a sós.
— Ele lhe faltou com o respeito.
— Concordo. Mas não foi isso que pedi. Me deixe conversar com Mikah em particular. É uma ordem.
Com visível relutância, os guardas fizeram o que ela pediu. Quando saíram, fechando a porta, Amara virou de novo para Mikah. Ele sentou, protegendo as costelas machucadas com os braços.
— Você tem razão — ela disse. — Matei meu pai e meus irmãos. Eu os matei porque estavam atrapalhando o progresso, o progresso que nós dois queríamos.
— Ah, duvido muito disso — Mikah respondeu.
Ela estava acostumada com criados que a obedeciam sem fazer perguntas, mas Mikah sempre foi contestador e desafiador. Com o passar dos anos, ela tinha começado a esperar por aquilo. E, às vezes, gostava da provocação.
— Achei que você gostasse de mim — ela disse, arrependendo-se em seguida, por soar carente. — Vou me tornar uma boa imperatriz, alguém que coloca as necessidades dos súditos em primeiro lugar, diferente do meu pai.
— Seu pai era cruel, odioso, egoísta e vaidoso. Ele conquistava os outros para se divertir.
— Eu não sou assim.
Mikah riu, um som sombrio e oco ecoou em seu peito.
— Quem está tentando convencer, você mesma ou a mim? É uma pergunta simples. Você vai seguir os passos de seu pai e continuar a conquistar terras que não pertencem a Kraeshia?
Ela franziu a testa.
— É claro que sim. Um dia o mundo todo vai pertencer a Kraeshia. Seremos um só, e meu domínio vai ser absoluto.
Mikah balançou a cabeça.
— Não há necessidade de dominar o mundo todo. Não há necessidade de possuir todas as armas, todos os tesouros, toda a magia possível. É a liberdade que importa. Liberdade para todos, ricos ou pobres. A liberdade para escolhermos nossa própria vida, nosso próprio caminho, sem um governante absoluto nos dizendo o que podemos ou não fazer. É por isso que eu luto.
Amara não compreendia. O mundo que ele propunha seria um caos.
— Existe uma diferença entre aqueles que são fracos e aqueles que são fortes — ela começou a explicar, com cuidado. — Os fracos morrem, e os fortes sobrevivem… e dominam e fazem as escolhas que ajudam tudo a funcionar com tranquilidade. Sei que vou ser uma boa líder. Meu povo vai me amar.
— E se não amar? — ele perguntou. — E se as pessoas se rebelarem e tentarem mudar o que lhes foi imposto sem que pudessem escolher? Vai mandar matar todo mundo? — Amara parecia desconfortável. Mikah arqueou as sobrancelhas. — Pense nisso antes de sua Ascensão, porque é muito importante.
Amara tentou engolir o nó em sua garganta. Precisava bloquear o que ele havia dito, fingir que não a havia atingido.
— Quero perguntar uma coisa, Mikah — ela começou a dizer. — Se seu cerco ao palácio tivesse sido bem-sucedido, se você tivesse matado minha avó e ficasse frente a frente comigo, o que teria feito? Teria me deixado viver?
O olhar dele se manteve firme, ardendo com a inteligência e a intensidade que a tornavam incapaz de considerar bobagem tudo o que Mikah dizia.
— Não, eu a teria matado — ele respondeu.
Amara ficou tensa com aquela confissão franca, surpresa por ele não ter aproveitado a oportunidade para mentir.
— Então você não é melhor do que eu.
— Nunca disse que eu era. No entanto, você é muito perigosa no momento, está muito embriagada com o próprio poder. Mas o poder é como um tapete sob seus pés: pode ser puxado sem aviso.
Ela balançou a cabeça.
— Você está errado.
— Tenha cuidado com sua avó, princesa. As mãos dela estão naquele tapete sob seus pés. Sempre estiveram.
— Do que está falando?
— Ela está no controle aqui — ele explicou. — Você se acha muito esperta por ter conquistado tanto em tão pouco tempo. Nunca duvide de que tudo o que aconteceu, inclusive sua Ascensão, está de acordo com o plano dela, e não com o seu.
O coração de Amara acelerou ao ouvir aquelas palavras.
— Como ousa falar assim da minha avó? — ela vociferou. — Ela é a única que acreditou em mim.
— Sua avó só acredita no próprio desejo de poder.
Tinha sido um erro ir até lá. O que ela esperava? Desculpas de alguém de quem já gostou e em quem costumava confiar? Que Mikah se humilhasse diante dela e pedisse perdão?
Mikah achava que ela não era digna de governar o império. Que era imperfeita e cega como seu pai tinha sido.
Estava errado.
— Nosso próximo encontro será em minha Ascensão — Amara disse com firmeza —, quando você será publicamente executado por seus crimes. Todos os presentes vão testemunhar o que acontece com quem se posiciona contra o futuro de Kraeshia. Seu sangue vai marcar o início de uma verdadeira revolução. A minha revolução.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!