16 de setembro de 2018

Capítulo 18

MAGNUS
PAELSIA

Ficou claro para Magnus que Enzo e Milo estavam se controlando na luta, com receio de ferir um príncipe. Magnus deixou os dois sangrando como punição e voltou para a hospedaria, sentindo uma grande necessidade de desenhar.
Ele parou na porta quando viu Jonas e Cleo na sala de convivência. Os dois estavam sentados próximos um do outro, falando baixo. Magnus se aproximou para ouvir, mas só conseguiu ver o rebelde acariciar o cabelo de Cleo, sem que a princesa reclamasse, e, logo depois, seu rosto. Os dois se entreolharam por mais tempo do que o normal.
Magnus ficou muito irritado.
Por um lado, queria entrar ali com tudo, afastá-los e matar o rebelde antes de tirar Cleo da hospedaria e de perto dele para sempre. Seu lado mais racional dizia que nem tudo o que via era o que imaginava e que ele não deveria tirar conclusões precipitadas.
Ainda assim, se entrasse ali e confrontasse os dois, alguém com certeza morreria. Então ele saiu da hospedaria e desceu a rua até a taverna, resmungando ao pedir vinho ao taberneiro.
Magnus perdeu a conta de quantas taças de vinho teve de beber até começar a se acalmar. Já sabia que a princesa gostava do rebelde, que os dois tinham uma história romântica sobre a qual não queria pensar muito. Por que ela não desejaria alguém como Jonas? Alguém corajoso e forte — apesar de pobre, ridículo e muito azarado com todos os que já tinham se alistado sob sua liderança rebelde.
Magnus também conseguia entender que alguém como Jonas, que olhava para a princesa como se ela fosse uma estrela brilhante na noite escura, podia ser tentador. Pelo menos quando comparado a Magnus, que era sombrio, instável e afeito à violência.
Ele encarou a taça vazia.
— Com um milhão de outros problemas e questões para resolver, estou obcecado pensando por quem ela tem sentimentos. — Ele olhou meio embriagado para o atendente. — Por que meu copo está vazio?
— Peço desculpas. — O homem logo encheu a taça até transbordar.
Alguém sentou no banco de madeira a seu lado. Ele estava prestes a vociferar que precisava de espaço e que se o homem valorizava a própria vida, deveria ir para outro lugar, mas então percebeu quem era.
— O vinho nunca ajuda uma pessoa a esquecer suas preocupações por muito tempo — seu pai disse, o rosto pálido e macilento como o de um cadáver por baixo do capuz grosso de seu manto preto.
Como o rei tinha se isolado em um quarto no andar superior da hospedaria desde a noite da chegada, foi uma surpresa vê-lo ali. Magnus observou ao redor para ver se ele tinha trazido Milo para protegê-lo, mas não viu o guarda em nenhum lugar. Talvez ainda estivesse tratando os ferimentos depois da luta.
Magnus ignorou o comentário do rei e tomou todo o vinho do copo antes de falar.
— Selia sabe que você está aqui? Não acho que ela aprovaria.
— Ela não sabe. Sua preocupação com minha morte iminente me tornou seu prisioneiro. Não ligo muito para isso.
— Não liga para a preocupação com sua morte iminente ou com o fato de ter sido feito prisioneiro? Não precisa responder. Tenho certeza de que as duas experiências são novas para você. — Magnus pegou o vinho do atendente, e mandou o homem se afastar com um aceno. Então bebeu direto da garrafa.
— Antigamente, me rendia a pecados assim — o rei comentou.
— Ao vinho ou à forte autopiedade?
— Você está tendo problemas com a princesa?
— Aposto que isso o deixaria muito feliz, não?
— Saber que você deseja se afastar de alguém que acho que causará sua destruição? “Feliz” não seria bem a palavra que eu escolheria, mas, sim. Seria o melhor.
— Não vou falar sobre Cleo com você, nem agora nem nunca — Magnus resmungou, detestando o fato de sua mente estar tão nebulosa com o pai por perto. Ele preferiria ter controle total dos sentidos, mas era tarde demais para se preocupar com isso depois de tomar tanto vinho.
— Escolha inteligente — o rei respondeu. — Ela sem dúvida não é meu assunto preferido.
— Esse ódio que você nutre por ela… — O príncipe pensou no assunto, no ódio aparentemente sem fim que o rei sentia por Cleo. — Deve ter a ver com a mãe dela, não?
— Sim, na verdade, tem.
Uma resposta direta. Que incomum — e profundamente curioso.
— Rainha Elena Bellos — Magnus continuou, encorajado pelo vinho que soltava sua língua. — Vi o retrato dela no palácio auraniano antes de você destruí-lo. Era uma bela mulher.
— Com certeza era. — O rei deu as costas e olhou com saudosismo para a rua escura pelas janelas da taverna. Magnus viu quando os lábios pálidos e fantasmagóricos sorriram discretamente.
Perceber a situação mexeu com ele.
— Você era apaixonado por ela — Magnus disse, chocado com as próprias palavras, mas sabendo que eram verdade. — Você era apaixonado pela mãe de Cleo. — A acusação fez o rei encará-lo de novo, os olhos vermelhos um tanto arregalados, surpresos. Magnus demorou um pouco para assimilar a confirmação silenciosa e tomou mais um gole de vinho para molhar a garganta repentinamente seca. — Deve ter sido há muito tempo, quando você era capaz de uma emoção tão pura.
O sorriso logo desapareceu do rosto pálido e desanimado do pai.
— Faz muito tempo. Essa fraqueza quase me destruiu, e é exatamente por isso que quis cuidar de você.
Magnus riu ao ouvir isso, uma risada alta que surpreendeu a ele próprio.
— Cuidar de mim? Ah, pai, não gaste saliva com essas mentiras!
O rei socou o balcão.
— Você é cego? Totalmente cego? Tudo o que fiz foi por você!
A força da ira repentina fez Magnus derramar parte do vinho na túnica. Ele olhou feio para o pai.
— Estranho eu ter esquecido isso quando você decidiu acabar com a minha vida e com a vida da minha mãe.
— A morte seria um alívio deste mundo para muitos de nós.
— Não vou esquecer nada que você fez, a começar por isso. — Magnus apontou a cicatriz no lado direito do rosto. — Você lembra desse dia tão bem quanto eu?
O rei contraiu o maxilar.
— Lembro.
— Eu tinha sete anos. Sete. Você se arrependeu por um momento que seja?
O rei semicerrou os olhos.
— Você não deveria ter tentado roubar o palácio auraniano. Se tivesse conseguido, a vergonha teria sido grande.
— Sete anos! — A garganta de Magnus ardeu porque ele gritou. — Eu era apenas uma criança cometendo um erro, tentada por uma coisa brilhante e linda, uma vez que eu levava uma vida cinza e sem graça num palácio cinza e sem graça. Ninguém ficaria sabendo que peguei aquela adaga! Que diferença faria?
— Eu ficaria sabendo — o rei disse. — A adaga que você pretendia roubar era de Elena. Eu ficaria sabendo porque fui eu quem deu a adaga a ela, quando era um garoto ingênuo tentando impressionar uma moça bonita. Não sabia que ela a tinha guardado, que ela a tinha valorizado e exposto o tempo todo em que ficamos separados. Quando a vi em suas mãos seis anos depois da morte dela… não pensei. Simplesmente reagi.
Magnus percebeu que não tinha uma resposta na ponta da língua. Com suas perguntas respondidas depois de tanto tempo, ele não conseguia processar tudo depressa.
— Não justifica o que você fez.
— Não, claro que não.
Magnus desviou o olhar do rei e tentou se concentrar em outra coisa, qualquer coisa. Ajudou perceber que o mundo ia além daquela conversa. Um homem enorme veio em direção ao bar carregando muitos copos vazios, a túnica subindo o suficiente para deixar a barriga peluda à mostra. Uma atendente afastou a mão de um marinheiro com um tapa tímido. Os músicos no canto da taverna tocavam uma música animada, e muitos batiam palmas.
Vários outros dançavam em uma mesa.
— O poder é tudo o que importa, Magnus. O legado é tudo o que importa. — O rei dizia isso como se tentasse convencer a si próprio. — Sem ele, somos como camponeses paelsianos.
Magnus já tinha ouvido aquelas bobagens tantas vezes que já haviam se tornado mais do que palavras sem sentido.
— Diga uma coisa: Elena Bellos retribuiu seu amor ou foi só uma obsessão triste e impossível que transformou seu coração e sua alma em gelo?
O pai demorou tanto para responder que Magnus pensou que ele tinha levantado e ido embora. O príncipe desviou o olhar da taverna movimentada para ver se o rei ainda estava a seu lado.
— Ela me amava — Gaius disse, por fim, a voz quase inaudível. — Mas o amor não foi suficiente para resolver nossos problemas.
Magnus segurou a garrafa de vinho com força.
— Agora você vai me contar uma história de amor e perda… sobre um garoto e uma garota?
— Não.
Pensar que o pai mencionaria aquela história de amor épico sem contar tudo era previsível, mas ainda assim frustrante.
— Então por que você está aqui?
— Para contar a lição que aprendi. Amor é dor. Amor é morte. E o amor tira o poder de uma pessoa. Se eu pudesse voltar no tempo, gostaria de não ter conhecido Elena Corso. Desde aquela época, eu a odeio.
— Que romântico. Como se casou com Corvin Bellos, imagino que ela sentisse a mesma coisa.
— Tenho certeza disso. E agora lembro dela todos os dias, de tudo o que perdi, por causa daquela criatura mentirosa, Cleo. Ela se tornou sua fraqueza fatal, Magnus.
O ódio tinha voltado à voz de Gaius. Magnus encarou os olhos frios do pai.
— Seu ódio sem fim por Cleo me parece muito errado. Você deveria culpar a bruxa que amaldiçoou Elena. — Magnus suspirou, chocado ao perceber. — Você a culpa, não é? Por isso condenou tantas bruxas à morte ao longo dos anos… Para pagarem pelo crime dela. Pode dizer que odeia Elena, mas ainda a ama, até mesmo depois de sua morte. Por qual outro motivo você teria tomado a poção de minha avó?
— Pense o que quiser. — Um músculo se contraiu no rosto do rei. — A poção era a única maneira de afastar o pesar e a dor e deixar apenas a força. Mas agora aquela força sumiu, desapareceu quando caí daquele penhasco. A dor e o pesar voltaram, piores do que antes. E odeio isso. Odeio tudo nesta vida: o que tive que fazer, como passei todo esse tempo obcecado apenas pelo poder. Mas agora acabou.
— É o que anda prometendo.
Magnus precisava sair daquela taverna barulhenta e enfumaçada. Precisava de tempo e de espaço para esfriar a cabeça.
Quando levantou, o rei segurou seu braço.
— Imploro a você, meu filho, que mande Cleiona embora antes que ela o destrua. A princesa não ama você de verdade, se é o que você pensa. Independentemente do que ela disser, são apenas mentiras.
— O Rei Sanguinário implorando! Agora não falta mais nada. — Ele suspirou. — Já bebi demais por hoje. Foi um prazer conversar com você, pai. Tente voltar para a hospedaria sem morrer. Tenho certeza de que sua mãe ficaria muito abalada se alguma coisa ruim acontecesse.
Ele saiu sem dizer mais nada, detestando a confusão de pensamentos e sentimentos.
Enquanto Magnus caminhava por uma rua estreita, alguém bloqueou sua passagem para o caminho principal com ombros largos e uma cara séria.
Não havia mais ninguém à vista.
— É, acho que reconheci você uma noite dessas — disse o homem. — Você é o príncipe Magnus Damora, de Limeros.
— E você está redondamente enganado. Desculpe pela decepção. — Magnus tentou passar acotovelando o homem, que levou a enorme mão à garganta dele, puxando-o para tão perto que Magnus conseguiu sentir seu hálito de cerveja.
— Dez anos atrás, seu pai queimou minha esposa viva, dizendo que ela era uma bruxa. O que acha de eu fazer a mesma coisa com você como vingança?
— Acho que você precisa me soltar agora mesmo. — Magnus arregalou os olhos para o homem. — Sua necessidade de vingança não tem nada a ver comigo.
— Ele está certo. — O rei deu um passo à frente e tirou o capuz. — Tem a ver comigo.
O homem olhou para Gaius, surpreso, como se não acreditasse no que via.
— Sinto muito pela morte de sua esposa — o rei disse, e uma única lamparina acima da saída da taverna iluminava seu rosto quase esquelético. — Odeio bruxas por mais motivos do que poderia mencionar aqui e agora. Mas raramente executei uma que não estivesse envolvida com sangue e mortes. Se sua esposa está na terra da escuridão agora, é porque merece estar.
Com o rosto vermelho de ódio, o homem deu um passo à frente empunhando uma faca afiada. Magnus observou o pai de pé ali, sem se mexer, a pele amarelada, os ombros curvados. Ele não lutaria, não conseguiria lutar por sua vida.
Gaius queria morrer?
A atenção do homem estava totalmente voltada para o rei naquele momento, e o ódio ardia em seus olhos quando ele avançou.
Magnus se moveu antes mesmo de se dar conta de suas intenções, segurou as mãos do homem e impediu que a faca acertasse o alvo.
— Se alguém tem o direito de matar meu pai, esse alguém sou eu — ele vociferou. — Mas não hoje.
Ele virou a lâmina afiada para afundá-la no peito do homem, que gritou de dor e desabou no chão. O sangue jorrou livremente do ferimento fatal.
Houve um momento de completo silêncio na rua até o rei falar de novo.
— Precisamos ir embora antes que alguém veja isso.
Magnus teve que concordar. Limpou o sangue das mãos no manto preto e os dois logo voltaram à hospedaria Falcão e Lança.
— Não pense que esse gesto mostra que não odeio você — Magnus disse.
O rei assentiu com seriedade.
— Eu o consideraria um idiota se não me odiasse. Ainda assim, apesar do ódio que sente por mim, quero lhe dar algo.
— O quê?
— O cristal do ar.
Não havia como o Rei Sanguinário entregar uma parte da Tétrade a alguém, nem mesmo ao próprio filho.
E, ainda assim, Gaius levou Magnus ao andar de cima, ao quarto onde tinha ficado por dois dias.
Magnus observou o espaço.
— Onde está Selia?
— No pátio. — O rei indicou a janela com a cabeça. — Sua avó gosta de cumprir os rituais antigos todas as noites, a esta hora e sob o luar, por isso consegui sair.
O rei foi até a cama de palha, levantou as cobertas e passou a mão por baixo do colchão. Em seguida, franziu a testa.
— Ajude-me a levantá-lo — ele disse.
— Está tão fraco assim? Então você teria mesmo ficado parado, esperando aquele homem te matar?
— Faça o que estou mandando. — O olhar que o pai lançou foi muito mais familiar do que qualquer conversa sobre compartilhar e arrependimentos.
— Tudo bem. — Magnus foi até o lado de Gaius e levantou o colchão para seu pai procurar embaixo dele.
Os olhos vermelhos e marejados do rei foram tomados pelo susto.
— Não está aqui.
Magnus lançou um olhar desconfiado para o rei.
— Que conveniente, se considerarmos que você estava prestes a entregá-lo a mim. Por favor, pai, me poupe dessas dissimulações. Como se você fosse esconder um tesouro como aquele em um lugar tão óbvio!
— Não é dissimulação. Estava aqui. Andei muito debilitado para encontrar um lugar melhor onde escondê-lo. — Gaius ficou sério. — Aquela sua princesinha o roubou.
Só podia ser mentira. Mais uma mentira. Magnus não conseguia pensar em outra explicação, não para algo tão importante.
Antes que pudesse responder, o rei cambaleou com dificuldade para sair do quarto. Magnus o seguiu pelo corredor, onde Cleo ainda estava com Jonas.
Magnus não conseguia acreditar no que via. Precisou de todo o autocontrole possível para não transformar Jonas no segundo morto da noite.
Cleo levantou depressa quando o rei e Magnus entraram.
— O que foi? O que aconteceu?
— Você roubou o cristal do ar? — Magnus perguntou, incomodado com a maneira arrastada como estava falando.
— O quê? Eu… eu nem sabia onde estava!
— Sim ou não, princesa?
Cleo semicerrou os olhos e levantou o queixo.
— Não.
— Ela está mentindo — o rei disse.
— O rei das mentiras querendo acusar a princesa, não é? — Jonas quase cuspiu as palavras, os punhos cerrados. — Que ironia.
— Onde está o cristal da terra? — Magnus perguntou.
Cleo franziu a testa ao enfiar a mão no bolso e arregalou os olhos.
— Não está aqui. Mas estava, juro! Eu o carrego comigo o tempo todo!
Magnus sentiu uma náusea. Havia um ladrão entre eles. E quem quer que fosse, em breve ia se arrepender profundamente por suas atitudes.
Não demorou para que todos corressem até a sala para ver o que estava acontecendo. Milo e Enzo já empunhavam as armas, prontos para um combate.
Magnus observou o grupo. Estava todo mundo ali: Nic, Olivia, até Selia havia se unido ao grupo, com o rosto corado devido ao ritual da lua daquela noite. Todo mundo, menos uma pessoa.
— Onde está o príncipe Ashur? — Jonas perguntou, franzindo a testa. — Ele estava aqui mais cedo com Cleo e comigo.
— Eu não o vi hoje — Olivia respondeu. — Talvez tenha saído.
— Talvez. Alguém sabe aonde ele foi?
Enzo e Milo balançaram a cabeça em negativa.
Selia foi para o lado do rei pálido, que caminhava até uma cadeira para sentar.
— Gaius, querido, o que está fazendo fora da cama?
Magnus os ignorou, prestando atenção em Nic, que estava em silêncio.
Enquanto os outros conversavam sobre o paradeiro do príncipe, Nic saiu da sala. Magnus imediatamente o seguiu pelo corredor em direção à porta da frente.
Quando Nic notou que Magnus estava perto, seus ombros ficaram tensos.
— Está procurando alguém? — Magnus perguntou, com os braços cruzados.
— Quero sair para respirar um pouco de ar fresco.
— Ele levou os dois cristais, não levou? E contou a você sobre os planos.
Nic balançou a cabeça, mas não o encarou nos olhos. Magnus não tinha mais paciência para mentiras naquela noite. Ele puxou a frente da túnica de Nic e o jogou contra a parede.
— Onde está Ashur? — ele resmungou.
— Você está bêbado.
— Demais, mas não faz a menor diferença agora. Responda! Ashur roubou os cristais, não roubou?
Nic rangeu os dentes.
— Você acha que o príncipe me conta alguma coisa?
— Não faço ideia do que o príncipe sussurra em seu ouvido, mas não sou cego. Sei que tem algo entre vocês dois, que são mais próximos do que aparentam. E sei que você sabe mais do que está me contando.
Jonas se aproximou, tenso, vindo de um canto.
— O que está fazendo com ele?
Magnus não soltou o garoto.
— Nic sabe os segredos de Ashur e vou descobrir quais são.
— Responda à pergunta, Nic — Jonas disse, os braços cruzados. — Sabe para onde Ashur foi?
Nic riu.
— Como é? Vocês estão trabalhando juntos agora?
— Não — Magnus e Jonas responderam em uníssono, e então se entreolharam.
Nic suspirou.
— Tudo bem. O príncipe acabou de partir para ver a irmã. Tentei convencê-lo a não fazer isso, mas ele não ouviu nada do que eu disse. Está determinado a fazer o que puder para colocar juízo na cabeça dela e, se não conseguir, vai exigir o título de imperador.
Magnus sentiu o estômago revirar.
— E ele levou para Amara os cristais do ar e da terra. Que lindo presente, considerando que Amara está com o cristal da água.
Por fim, Nic lançou um olhar preocupado.
— Ashur não faria isso.
— Não? — Magnus tentou continuar segurando a túnica de Nic para que o idiota não fugisse, mas sua visão estava turva. Vinho demais, rápido demais. Os efeitos só passariam ao amanhecer. — Talvez Amara tenha retirado os cristais dos esconderijos com sua magia, e eles voaram em asas de borboletas para ela.
— Vou falar mais uma vez. — Nic semicerrou os olhos. — Me solte.
— E se não soltar? Vai chamar a princesa para salvá-lo?
— Odeio você. Desejo vê-lo morto e enterrado. — Ele olhou para Jonas, irritado. — Uma ajuda?
— Nic, você precisa pensar — Jonas disse com calma. — Se Magnus estiver certo em relação a Ashur…
Magnus lançou um olhar fulminante ao rebelde.
— Você acabou de me chamar apenas pelo meu primeiro nome?
Jonas revirou os olhos.
— Amara Cortas não pode ter mais poder do que já tem. E se o irmão dela levou os cristais da Tétrade, é a pior coisa que poderia acontecer. Ela pode liberar três deuses elementares como Kyan.
— Eu sei — Nic respondeu. — Eu entendo.
— Entende?
— Então a culpa é minha? Vai deixar sua majestade quebrar meu pescoço? Por quê? Por não ter conseguido impedir Ashur de fazer o que queria? Ele faz o que bem entende.
— Prometo que sua majestade não vai quebrar seu pescoço.
— Não vamos nos precipitar — Magnus disse, divertindo-se com o breve olhar assustado do garoto. Ele nunca mataria Nic. Cleo nunca o perdoaria.
— Você vai fazer o seguinte — Magnus disse. — Vai atrás de Ashur para impedi-lo de fazer alguma coisa idiota e imperdoável por senso de lealdade familiar kraeshiano bizarro e sem propósito. E vai recuperar os cristais que ele roubou, custe o que custar.
Nic o encarou incrédulo.
— Não vou deixar Cleo de novo.
— Ah, vai, sim, com certeza. E vai agora. Você vai voltar com os cristais da Tétrade ou minha paciência com você vai acabar. — Magnus tentou organizar a mente confusa para encontrar uma maneira de fazer Nic cumprir a ordem.
— Você pode até me odiar, mas viu que mantive sua preciosa princesa viva todos esses meses, enquanto outros a queriam morta. Juro pela deusa que vou parar de protegê-la se não fizer exatamente o que mandei.
Nic se encolheu, mas manteve o olhar firme.
— Cleo ficaria bem até mesmo sem sua ajuda.
— Talvez sim. Talvez não. Em tempos de guerra, e não se engane, é exatamente o que essa ocupação “pacífica” kraeshiana é, ninguém está seguro.
Nic ficou sem resposta. Apenas o observou furioso.
— Com ameaça ou sem — Jonas disse impaciente —, o príncipe está certo, Nic, você precisa ir atrás de Ashur. Nós dois precisamos. Eu deveria ter acompanhado Felix e Taran quando eles partiram. Não há motivos para eu estar aqui.
— Não há motivos, rebelde? — Magnus lançou um olhar para ele. — Que esquisito. E pensei que você estivesse gostando de bajular a princesa, em busca de migalhas.
Jonas lançou um olhar raivoso para Magnus.
— Eu receberia muito mais do que você.
Magnus sorriu para ele.
— Não tenha tanta certeza disso.
Jonas ficou ainda mais sério.
— Terminamos por aqui. Nic, pegue o que precisa para ir ao complexo do chefe Basilius. Espero alcançar Ashur antes que ele chegue lá. E, Magnus?
— Sim, rebelde?
Jonas semicerrou os olhos.
— Se encostar em um fio de cabelo da princesa, juro por qualquer deusa em quem você acredita que vou fazer você implorar para morrer.

3 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!