1 de setembro de 2018

Capítulo 18

CLEO
AURANOS

Quer o dia anterior tivesse sido bom ou ruim, o sol sempre surgia na manhã seguinte. E, por um breve instante, quando raios quentes entravam pela janela de Cleo e tocavam seu rosto, parecia que tudo tinha voltado a ser como antes. Seu pai e sua irmã estavam vivos e bem. Suas amigas estavam se preparando para festas e eventos. O palácio estava repleto de felicidade e vida.
Mas a ilusão acabou tão rápido quanto surgira, e ela lembrou que aquelas imagens não passavam de fantasmas de um passado que continuava a assombrá-la.
Mas aceitava a nova realidade. Não tinha escolha, apenas determinação. E paciência.
Nerissa chegou a seus aposentos para ajudá-la a arrumar o cabelo. A ex-costureira fora designada sua nova criada um dia antes, substituindo duas garotas limerianas terríveis. Aparentemente capaz de abrir caminho para qualquer posição no palácio, a própria garota tinha ido atrás do cargo. Era uma habilidade invejável, para dizer o mínimo, e Cleo estava grata por poder conversar com alguém que partilhasse dos mesmos segredos. Ela já havia confiado na garota para entregar uma mensagem a Jonas confirmando o interesse do rei pela Tétrade. Esperava ter mais informações para auxiliar os rebeldes em breve.
— Descobriu quantos foram mortos? — Cleo perguntou.
— Vinte e sete — Nerissa respondeu, olhando para ela através do espelho.
— São muitos. — Cleo sabia do plano para resgatar Lysandra e o outro rebelde. Nic contara sobre o acordo para ajudar Jonas e um colega a entrar no palácio usando uniformes limerianos e conduzi-los em segurança para fora da cidade. Seu temor pela segurança de Nic quase foi maior que a confiança nas habilidades de Jonas, e ela chegou muito perto de pedir que Nic desistisse. Mas Nic insistira que era a coisa certa a fazer. Era um ato de rebeldia que o rei não podia ignorar.
E o fato de Milo e Burrus, os dois valentões que atormentavam Nic, terem sido culpados pelas explosões e estarem presos no calabouço, aguardando seu destino, não provocava nenhuma inquietação em seu coração.
Mas as vinte e sete pessoas que morreram no processo a deixavam abalada. Tantas perdas, tanto sofrimento. Será que Jonas achava que o sacrifício de tantas vidas se justificava?
— Queria que houvesse outra maneira — Cleo disse.
— Eu sei, princesa. Mas não perca a fé. Jonas só quer o melhor para todos nós.
Cleo girou o anel de ametista, tentando extrair forças dele.
— Então ele é basicamente o oposto do príncipe Magnus.
— Gosto de pensar que sim.
Lembranças da noite anterior voltaram à sua cabeça. Ela tinha ido ao templo de repente, para rezar e ficar em silêncio com seus pensamentos. Mas então ele aparecera.
E pensar que, mesmo por um segundo, tinha chegado tão perto de… de quê? Confiar nele? Acreditar que fosse mais do que um garoto cruel que sentia prazer em torturá-la?
Era tão tola.
— Odeio Magnus — Cleo resmungou. — Odeio tanto que mal consigo pensar direito.
Nerissa fez uma trança grossa nos cachos longos e claros da princesa e depois a enrolou em um coque frouxo na nuca antes de prender com grampos.
— Sim, esse é definitivamente o seu problema.
Havia reprovação na voz dela?
Cleo piscou, surpresa.
— Como é?
— Ódio é como fogo. Queima quem o cultiva. E é muito difícil enxergar verdades mais proveitosas através de suas chamas.
Nerissa tinha uma sabedoria que ia além de seus dezoito anos.
— Você está completamente certa — Cleo disse, com a testa franzida enquanto se recordava da conversa com o príncipe. Deixou de lado as chamas ofuscantes do ódio pelo garoto que usara a morte de Theon para atingi-la, fazendo-a se arrepender profundamente de ter pensado que podia confiar nele.
Mas Cleo não tinha sido a única a expor verdades obscuras na noite anterior. Magnus revelara que Lucia era adotada — uma revelação mais chocante do que a confirmação de que sentia algo pela irmã.
Talvez ele tivesse se dado conta de que estava se abrindo demais, descascando as odiosas camadas que revelavam quem realmente era. O príncipe sabia que precisava se afastar dela antes que revelasse demais sobre si… e sobre o que tinha em comum com Cleo.
E tinha conseguido.
Mas aquele era um novo dia.
Cleo se deixara manipular pela lembrança da morte de Theon, e Magnus conseguira afastá-la quando chegou perto demais.
Nerissa estava certa. Fogo queimava. Fogo cegava.
Muito esperto, Magnus, ela pensou. Muito esperto.
Mas não esperto o bastante.


A cada passo que dava na direção dos aposentos de Magnus, Cleo oscilava entre confiar e duvidar do que estava prestes a fazer.
O comportamento natural de Magnus era azedo, seus modos eram desagradáveis. Mas ele também a tinha salvado. Ajudado. Guardado seus segredos.
Devia haver mais alguma coisa nele.
Quando chegou na porta, permitiu-se um momento de hesitação.
Posso fazer isso, ela disse a si mesma. Preciso ser forte.
Ela levantou a mão para bater, mas, antes de encostar na porta, ela se abriu, e Cleo se viu frente a frente com a princesa Amara.
Amara abriu um sorriso.
— Bom dia, Cleo.
Aturdida, Cleo ficou ali parada, sem reação.
— Amara, eu… não esperava ver você aqui. — Ela então viu as amarras parcialmente desatadas do vestido da outra princesa.
Amara franziu a sobrancelha.
— Ah, querida. Isso não é um problema, é? Pelo que ouvi dizer, imaginei que essas questões não fossem importantes para você.
Cleo olhou para além de Amara e viu Magnus se aproximando da porta. Estava com o cabelo escuro despenteado e sem camisa, revelando mais pele descoberta do que já tinha visto antes.
A constatação de que os dois tinham passado a noite juntos a atingiu como um peso de chumbo.
— A que devo tão inesperada visita, princesa? — Magnus se apoiou no batente, não demonstrando nenhum sinal de que tivesse dificuldade para se recuperar de todo o álcool consumido na noite anterior. Pelo jeito, o bom vinho paelsiano não provocava nenhum efeito colateral além de língua solta, segredos espalhados e falta de julgamento sobre com quem se compartilhava a cama.
Cleo lutou para encontrar palavras para preencher o silêncio.
— Depois das palavras duras de ontem à noite, achei que devíamos conversar de novo. Mas estou vendo que está ocupado com outras coisas.
— Eu já estava de saída. — Amara lançou um olhar preocupado a Magnus por entre os cílios fartos. — Por acaso ultrapassei algum limite?
— Nenhum limite que eu não quisesse que ultrapassasse. — Magnus colocou o braço em volta da cintura dela, puxou-a para perto e a beijou. — Vejo você de novo em breve.
— Bom dia, Cleo. — Amara sorriu, passou por ela e seguiu pelo corredor. Cleo ficou observando até ela desaparecer.
Ela sabia da conversa que Nic tivera com os irmãos Cortas na quinta alguns dias antes, e aquilo tinha feito sua cabeça entrar em parafuso, cheia de possibilidades e dúvidas ao mesmo tempo. Sabia que teria muito em que pensar antes de tomar qualquer decisão ou fazer alianças, não importava quanto poder prometessem.
Pelo que tinha visto naquela manhã, no entanto, parecia que a princesa Amara estava oferecendo alianças a todos.
— Ela é muito bela, não é? — Magnus disse. — Sua beleza me faz pensar por que nunca cogitei visitar Kraeshia. Preciso me lembrar de ir em breve. Enfim, você disse que queria falar comigo? Não imagino o que temos para discutir.
Cleo olhou feio para ele.
— O que os criados vão dizer?
— Sobre?
— Você não se importa com os rumores que vão espalhar? Já existem tantos sobre você e Lucia… Agora vão começar a dizer que você e eu não compartilhamos a mesma cama!
Ele a observou com desinteresse.
— Sinto muito, princesa, mas tenho certeza de que já estão bem cientes desse fato. Além disso, os criados podem falar o que quiserem, não me importo. Nosso casamento não significa nada. Não compartilhamos nada além de um arranjo infeliz que nenhum dos dois escolheu. É no mínimo risível que esteja surpresa por eu dividir a cama com outra pessoa. — Ela tinha um olhar furioso que o fez gargalhar. — Eu mereço outro tapa? Nem tente; desta vez posso dar outro em troca.
Por que ela tinha ido até lá? Era inútil tentar racionalizar com aquela criatura odiosa.
— Eu não desperdiçaria minha energia.
— Excelente. Agora diga o que tem para dizer e acabe logo com isso. Preciso me vestir.
Outro lembrete desnecessário de que Magnus estava seminu.
— Não é nada — ela respondeu. — Foi um erro.
— Ah é? Ou será que encontrar Amara eliminou temporariamente quaisquer outros pensamentos de sua cabeça? Ficou incomodada de encontrá-la aqui? — Ele sorriu, exibindo os dentes como um predador. — Não diga que está com ciúmes, porque não vou acreditar.
O rosto dela ardeu com a mera sugestão.
— Não estou com ciúmes, Magnus. Estou horrorizada. Enojada. Constrangida.
— É uma ladainha e tanto de emoções. São tantas, princesas, e todas direcionadas a mim e àquela com quem escolhi dormir. Interessante.
O fogo de seu ódio era ofuscante. Cleo mal podia ver através das chamas, mas uma explosão de riso escapou de seus lábios.
— Acredite em mim, príncipe Magnus, não me importo com quem dorme. Seja criada, cortesã ou… uma cabra. É menos do que insignificante para mim.
— Duvido muito que optaria por uma cabra.
— A mim não parece.
Ele curvou os lábios e se aproximou dela.
— Sua língua está muito afiada a esta hora da manhã. A de Amara era bem menos afiada. Eu sei porque a conheci muito bem ontem à noite.
Cleo já estava cansada daquelas bobagens. Ela se virou, fechando as mãos em punho para impedi-las de tremer.
— Tem certeza de que mudou de ideia quanto àquela conversa? — ele acrescentou em voz alta.
Ela continuou andando e não se dignou a responder.
Cleo procurou um rosto amigo no palácio que a ajudasse a enxergar melhor as coisas.
Viu Nic perto da sala do trono e fez um sinal para encontrá-la no corredor, onde poderiam conversar com mais privacidade. Depois do que tinha acabado de testemunhar, suspeitava de tudo.
— O que foi? — ele perguntou quando conseguiu escapar do posto.
Cleo soltou um suspiro longo e trêmulo e tentou liberar o ódio que queimava sem parar dentro dela. Olhou para Nic e hesitou diante dos ferimentos em seu rosto.
Ela tocou sua face com cuidado.
— Parece muito dolorido.
— Dói menos a cada dia. Estou bem, na verdade. Mas parece que você está tendo uma crise de ansiedade hoje.
— É mais decepção. Nossa aliada em potencial parece estar dormindo com o inimigo. — Ela contou a ele sobre seu encontro recente.
— Uau. — Nic ergueu as sobrancelhas. — Mas, agora que mencionou, ouvi dizer que as garotas kraeshianas são famosas por serem um tanto… amigáveis. Parece que Amara representa bem seu império, mesmo que tenha um gosto questionável.
Cleo fez uma careta.
— Me faz imaginar o que ela realmente quer, e se ela e o irmão têm objetivos diferentes.
Nic pareceu considerar essa nova informação.
— Talvez ela acredite que Magnus pode levá-la à Tétrade. Será que Amara acha que ele guarda os cristais debaixo das cobertas?
Cleo olhou feio para ele.
— Não tem graça.
— Eu nunca ousaria fazer piada com uma coisa dessas. — Mas seus lábios estavam se curvando de leve.
Nic já tinha demonstrado ciúmes do comportamento dela em relação a Magnus na excursão de casamento. Mas foi obrigado a entender que era necessário fingir um certo grau de afeto. Mesmo assim, ele a havia acusado de ter se apaixonado pelo príncipe.
Que ideia mais ridícula.
Ela ainda tinha uma curiosidade insaciável sobre a relação de Nic com o príncipe Ashur. Além da confissão sobre o beijo, ele não parecia inclinado a revelar muita coisa. Cleo tentou ser paciente. Ele já havia confiado tanta coisa a ela, e Cleo tinha certeza de que contaria mais se houvesse o que contar.
— Não confio neles, Nic. Não posso me aliar a alguém em quem não confio. Então, o que devo fazer agora?
— Bem que eu queria saber.
Ela sentiu sua vida e seus objetivos espiralando para além de seu controle.
— Preciso de um sinal. Algo que me diga o que fazer. Algum sinal que me diga que ainda há esperança para nós.
Nesse exato momento, as portas da sala do trono se abriram, e vozes ecoaram pelo corredor. Cleo espiou e viu o rei sair, seguido pelo belo rapaz designado como novo tutor de Lucia. Lucia passara o dia anterior inteiro trancada em seus aposentos com o garoto, dando início às aulas particulares.
O teor das aulas não fora revelado a ninguém, mas muitos criados tinham começado a cochichar que envolviam o talento secreto e perigoso da princesa Lucia com os elementia.
Fosse qual fosse a verdade, Cleo entendia por que Lucia parecia tão ansiosa para se dedicar aos novos estudos. Seu tutor era alto e esguio, e incrivelmente encantador. Seus traços pareciam forjados de metais preciosos — cabelos cor de bronze e olhos prateados. A pele brilhava com um bronzeado dourado etéreo, como se iluminada por dentro.
— Sabe alguma coisa sobre ele? — Cleo perguntou a Nic.
— Não muito. Pelo jeito, Lucia o encontrou na cidade depois da fuga dos rebeldes. Ela o trouxe para o palácio, e o rei o recebeu de braços abertos. Algo improvável, em se tratando de Gaius. — Nic olhou para a dupla com desdém. — Conhecendo sua majestade, dou a Ioannes uma semana, talvez duas, até que esteja morto.
Ioannes. Ela já tinha ouvido aquele nome de passagem, mas sua mente estava tão ocupada com uma série de outros problemas que não conseguia se lembrar do contexto.
De repente, o nome ressoou profundamente dentro dela.
Cleo prendeu a respiração ao se lembrar do que Lucia confessara quando passearam juntas pela cidade.
Um vigilante chamado Ioannes visitou meus sonhos. Era o garoto mais bonito que já vi. Ele prometeu me visitar de novo depois que eu acordasse, mas não o vi mais desde então.
— Cleo? — Nic tocou o braço dela. — Você ficou pálida. O que foi?
Ela encarou aqueles olhos preocupados, e um sorriso surgiu lentamente em seu rosto.
— Sabe aquele sinal de que eu precisava, para me dar esperança? Acho que acabou de sair por aquela porta.

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