3 de setembro de 2018

Capítulo 17


LUCIA
PAELSIA

Se Kyan soubesse da visita de Timotheus a Lucia em um sonho, ficaria furioso. E como Lucia aprendeu rápido durante suas andanças que o melhor era manter um deus do fogo calmo, resolveu não falar nada.
Ainda assim, o sonho a havia deixado perturbada — e irritada também. O objetivo de Timotheus era dissuadi-la de ajudar Kyan, mas o tom ofensivo e as palavras desrespeitosas só tinham conseguido renovar seu comprometimento com a causa do deus do fogo. Se Ioannes tivesse revelado metade do comportamento desagradável do Vigilante mais velho, Lucia nem teria dado atenção a ele.
Olhando em retrospecto, teria sido muito melhor para todos. Ela afastou aquele encontro detestável com Timotheus da mente e se concentrou na tarefa atual: encontrar sua verdadeira família.
Lucia e Kyan estavam trabalhando juntos para tirar informações de várias bruxas de Mítica por meio de uma combinação de rompantes de fogo e extração de verdades, e finalmente tinham uma pista sólida para seguir.
Essa pista os levara para a vila de Basilia, perto do Porto do Comércio, em Paelsia. A vila era cercada por vinhedos, portanto, seus cidadãos se sustentavam com os lucros provenientes de navios visitantes e da exportação de vinho para Auranos. Graças à localização privilegiada perto do porto e do fluxo constante de visitantes e comerciantes, Basilia era a vila mais abastada e luxuosa de toda Paelsia, com hospedarias confortáveis, tavernas movimentadas que serviam bebidas importadas de todo o mundo conhecido, e uma variedade de bordéis para marinheiros.
Eles entraram em uma taverna chamada A Videira Púrpura, movimentada pelos clientes apesar de ainda ser meio-dia.
A primeira coisa que Lucia notou foi que era uma das únicas cinco mulheres presentes, e que a maioria dos clientes era formada por homens barulhentos, grandes e grosseiros, gritando, batendo nas mesas e pedindo mais comida e bebida. Os odores — de todos os tipos, desde carne de cabrito queimada até o fedor azedo de axilas mal lavadas — fizeram Lucia querer dar meia-volta e sair, mesmo que com isso perdesse a pista promissora.
— Isso é fascinante — Kyan disse, sorrindo enquanto passava os olhos pela multidão. — Mortais em um momento de lazer.
Ela mal podia ouvi-lo com todo aquele barulho. Segurando o braço de Kyan, ela abriu caminho pela multidão até uma mesa vaga perto de um pequeno palco de madeira, do outro lado do salão. Era impossível chegar à mesa sem encostar nos homens, e Lucia se contorcia a cada contato.
Um brutamontes peludo assobiou para ela.
— Menina bonita, vem aqui sentar no meu colo!
Ela mandou um sopro de magia do ar na direção dele, derrubando a grande caneca de cerveja sobre suas pernas. Ele praguejou em voz alta e levantou, e Lucia virou a cabeça para esconder o sorriso dissimulado.
Irritada de precisar se submeter a tanta apalpação apenas para chegar até o palco, ela parou diante de uma mesa a vários passos de distância de seu objetivo inicial. Já estava ocupada.
— Quero sentar aqui — ela disse para o homem de aparência grosseira que estava sentado.
— Vá embora, menina. — O homem a dispensou com um aceno. — E me traga um pouco de guisado de cordeiro... e pão para acompanhar.
Kyan observou Lucia com um sorriso e os braços cruzados.
— E então? Vai trazer o guisado para ele? Eu também gostaria de provar um pouco.
Lucia se aproximou mais do homem e, ignorando a podridão de seu bafo, encarou seus olhos aquosos.
— Eu disse que quero sentar aqui. Saia da minha frente.
O rosto do homem se contorceu, e ele cuspiu uma mistura de saliva e cerveja. No mesmo instante, Lucia pensou na reação aflitiva de Magnus à sua magia, e seu estômago ficou embrulhado.
O homem pegou a tigela de guisado e desocupou a mesa sem dizer mais nada — e, felizmente, antes que sofresse qualquer sofrimento real.
— Muito bem — Kyan disse, pegando a cadeira recém-desocupada pelo homem. — Você está ficando cada vez melhor nisso.
— Mentes fracas facilitam as coisas... para eles e para mim. Sente.
Ao se sentarem, Lucia fez sinal para a atendente e pediu duas sidras e uma tigela de guisado de cordeiro para Kyan.
— Não querem vinho? — a atendente perguntou, uma mão no quadril largo. — A maioria das moças finas como você só consegue tolerar um lugar como este com um pouco de vinho na barriga.
— Eu não bebo vinho.
— Não bebe vinho? — A atendente riu. — Por acaso é limeriana? — Ela virou sem esperar a resposta, e Lucia a acompanhou com o olhar até a moça desaparecer na multidão.
No outro canto da taverna, um trio de flautistas começou a tocar, e o salão começou a se aquietar.
A apresentação estava começando.
Lucia estava ali para encontrar uma dançarina conhecida como Deusa das Serpentes e agora sabia que estava no lugar certo. Quando a melodia do trio chegou ao primeiro crescendo, uma jovem saiu de trás do palco. Os braços, as pernas e o rosto estavam pintados com tinta dourada, e o cabelo bem preto era longo, chegando quase até o joelho, com tranças finas espalhadas em volta do rosto. Os olhos azuis eram expressivamente delineados com kajal. Ela usava uma máscara enfeitada com pedras preciosas que cobria metade do rosto, e tudo o que cobria seu corpo ágil e bronzeado era um traje feito de véus transparentes. A vestimenta não teria atraído nenhum olhar em uma localidade mais exótica, como Kraeshia, mas ali era uma imagem chocante, pelo menos para Lucia. Mas o aspecto mais chocante da garota não era a veste reveladora, mas a grande jiboia branca que trazia pendurada nos ombros.
A multidão vibrava enquanto a Deusa das Serpentes dançava e balançava os quadris no ritmo da música, enquanto sua cobra de estimação mostrava a língua sem parar, como se procurasse a próxima refeição.
Quando a dança terminou, a multidão aplaudiu e pediu mais, e a dançarina com a cobra soprou beijos, prometendo voltar à tarde.
Ela estava prestes a retornar aos bastidores quando Lucia tirou da bolsa um punhado de moedas, colocando-as sobre a mesa. Lucia viu a dançarina parar, expressar curiosidade diante do tilintar e do brilho da prata, e então dar meia-volta e ir até a mesa. Ela parou diante de Lucia e Kyan, abrindo um grande sorriso.
— Bem-vindos À Videira Púrpura — ela murmurou acariciando a cabeça da cobra branca, ainda enrolada em seus ombros como um xale escamoso.
Lucia empurrou as moedas na direção dela.
— Sente conosco por um momento.
Houve apenas um segundo de hesitação, e a dançarina apanhou as moedas, envolveu-as com um dos lenços e sentou.
De repente, Lucia percebeu que estava nervosa, e tinha muito pouco a ver com a serpente. Que ridículo. Era ela que estava no controle. A prata compraria as respostas de que precisava. E se não comprasse, sua magia o faria.
A atendente voltou com as sidras e o guisado de Kyan. Lucia esperou a mulher sair antes de falar.
— Deusa das Serpentes é um nome encantador — ela afirmou, querendo manter a voz calma e equilibrada. — Mas qual é seu nome verdadeiro?
A garota sorriu.
— Laelia.
— Certo. E suponho que não seja uma deusa de verdade.
— É uma questão de opinião. — Ela sorriu e passou a mão no braço de Lucia enquanto seu bicho de estimação se enrolava cada vez mais no corpo da dona. — Por mais algumas moedas, eu ficaria feliz em fazer você e seu belo amigo se sentirem como um deus e uma deusa hoje à noite. É uma oferta especial, que faço muito raramente, e apenas para almas especiais que me atraem de imediato.
Lucia lançou um olhar severo para Laelia, e a dançarina retirou a mão rapidamente, como se tivesse se queimado.
— Peço desculpas — ela disse, visivelmente assustada. — Talvez tenha interpretado mal suas intenções...
— Sem dúvida.
— Fica para outra vez. — Laelia se recompôs, recostando sem pressa na cadeira e estampando um novo sorriso no rosto. — Por que, então, vocês me atraíram até sua mesa com a oferta de mais moedas do que posso ganhar aqui em um mês?
Kyan permaneceu em silêncio e concentrado em sua refeição, deixando Lucia conduzir a conversa.
— Fiquei sabendo que você talvez saiba algo sobre uma profecia — Lucia disse.
O sorriso de Laelia se desfez.
— Uma profecia?
— Sim — Lucia respondeu, fingindo acreditar na falsa ignorância da garota, mas começando a ficar impaciente. — Uma profecia sobre uma menina que poderia possuir a magia de uma feiticeira. Quando a profecia se realizou, duas bruxas roubaram-na do berço, ainda bebê, e assassinaram sua mãe. Isso aconteceu em alguma parte de Paelsia, há quase dezessete anos.
— Que história trágica — Laelia disse, com a pele por trás da máscara quase tão pálida quanto sua companheira de sangue frio. — Mas, sinto muito, não sei como posso ser útil a vocês.
— Quantos anos você tem? — Lucia perguntou. A garota obviamente estava mentindo. — Dezenove? Vinte? Você devia ser muito nova na época, mas imagino que uma história como essa, de assassinato e sequestro, tenha sido passada adiante pelas vilas de Paelsia por muitos anos. Sei que conhece a história a que estou me referindo.
Laelia levantou com a respiração acelerada.
— Por que está me fazendo essas perguntas?
— Porque sou a criança da profecia — Lucia revelou, olhando fixamente para a garota.
— O quê? — Laelia voltou a sentar, depois ficou encarando Lucia por alguns minutos. — Você é a criança roubada?
Lucia assentiu, esperando Laelia juntar as peças e revelar alguma coisa. Finalmente, Laelia falou de novo, a voz estridente:
— Em uma noite, quando eu tinha três anos... minha mãe foi assassinada logo depois que dois ladrões levaram minha irmãzinha do berço. Meu pai procurou por todo lado, mas ninguém sabia de nada... ou preferira não dizer. Pouco tempo depois, se casou de novo e foi como se tivesse se esquecido de tudo, como se a perda da filha e da esposa não importasse mais. — Ela ficou assustada. — Mas aquela profecia... não era sobre minha irmã. Era sobre meu pai. Foi o que ele sempre nos disse. Ele acreditava que era um feiticeiro e que um dia salvaria Paelsia de sua maldição sinistra. Acreditou nisso até o dia de sua morte.
O peito de Lucia ficava mais apertado a cada palavra que Laelia dizia.
— Quem é... quem era seu pai?
A garota passou os olhos pela taverna, como se de repente tivesse ficado com medo de ser ouvida.
— Tento não falar mais sobre ele. Não quero que me culpem por todas as coisas que ele fez. É por isso que uso essa máscara quando danço.
Lucia apertou a mão de Laelia com força, fazendo-a voltar os olhos para ela. Olhos, agora Lucia percebia, que eram exatamente da mesma cor dos seus.
— Quem era ele? — ela insistiu.
Uma expressão de concentração dolorosa apareceu no rosto de Laelia quando Lucia a obrigou a contar a verdade por meio de sua magia.
— O ex-líder de Paelsia. Hugo Basilius.
Uma pontada de choque atravessou Lucia. Ela soltou a mão da garota.
Chefe Basilius. Um homem tolo e ignorante que cobrava impostos absurdos enquanto vivia como rei. Assassinado pelo rei Gaius depois de ter sido enganado e convencido a ajudá-lo a conquistar Auranos.
Seu povo acreditava que ele era um feiticeiro. Acreditava que era um deus vivo, quando, na verdade, não passava de uma fraude. Uma fraude egoísta, enganadora e mentirosa.
A cobra de Laelia se arrastou, enrolando-se ainda mais em seu pescoço, como se tentasse lhe dar um abraço reconfortante.
— Você é minha irmã — Laelia disse em um sussurro.
Lucia levantou.
— Preciso ir. Agora.
Laelia segurou a mão dela, impedindo-a.
— Não, por favor. Por favor, fique. Precisamos conversar mais. Você é minha irmã... e tem dinheiro. Você precisa me ajudar.
Lucia fechou os olhos e evocou magia do fogo. Laelia se assustou e tirou a mão quando sua pele ficou vermelha e cheia de bolhas.
— Fique longe de mim — Lucia murmurou. — Não quero saber de você.
Finalmente, Lucia teve a resposta que procurou por tanto tempo. E só serviu para se sentir mais vazia do que nunca.
Ela não tinha uma família de verdade. E nunca teria.
Kyan a acompanhou até o lado de fora.
— Lucia, pare.
— Na verdade, é engraçado. — Ela riu, mas a risada não soou verdadeira. Uma tempestade se formava dentro dela, e Lucia mal podia esperar para deixá-la sair. — O que eu esperava? Descobrir uma família boa e normal, com mãe, pai e irmãos que ficariam felizes em me reencontrar? Que ridículo!
Kyan segurou nos ombros dela.
— Conheço muito bem sua decepção. Você precisa usar isso para se fortalecer. Use tudo o que sente, as coisas boas e ruins, para obter mais poder.
— Estou totalmente sozinha. Em um mundo que odeio. Que odeio muito.
— Você não está sozinha, pequena feiticeira. Você tem a mim.
Seus olhos ardiam, mas ela se recusava a chorar. Em vez disso, olhou para Kyan.
— Tenho?
— É claro que tem. Você acha que somos muito diferentes, mas somos exatamente iguais. Desejo as mesmas coisas que você: uma família, um lar. Uma vida real e apaixonante. Mas essas coisas sempre estão fora do nosso alcance. E, por causa disso, ambos guardamos uma raiva incontrolável que precisa ser libertada. E quando libertamos essa raiva, outros se juntam ao nosso sofrimento. Sabe o que isso significa?
Ela não confirmou nem negou, mas manteve um olhar firme e resoluto.
— O quê?
— Significa que nós somos uma família.
Kyan falou com tanta certeza, tanta confiança, que ela soube que falava a verdade. O grande peso que tinha se instalado em seu coração ficou um pouco mais leve.
— Eu e você. Uma família.
Kyan sorriu.
— Sim. E assim que nos reunirmos com meus irmãos, seremos um grupo apavorante para esses mortais imperfeitos e simplórios.
— Mas eu sou mortal.
— Ah, mas isso não passa de um obstáculo, uma pequena dose de fragilidade sobre a qual ainda não precisamos pensar. — Ele acariciou o cabelo preto de Lucia, ajeitando uma mecha atrás da orelha. — Agora, vou visitar uma bruxa para falar sobre uma roda de pedra. Você fica aqui e explora o mercado. Refresque a cabeça. Divirta-se um pouco até eu voltar.
— Minha mãe costumava fazer isso. Ir ao mercado para se sentir melhor. — Lucia franziu a testa. — A rainha, na verdade. Não minha mãe. A rainha me levava para Pico do Corvo para comprar coisas que achava dignas de uma princesa limeriana. Vestidos, sapatilhas, joias. Mas eu só queria livros.
Kyan sorriu e indicou com a cabeça a direção do mercado movimentado.
— Sei que há muitos tipos de livros aqui. Vá. Compre o que quiser. E nos vemos em breve, certo?
— Certo. — Ele se aproximou e deu um beijo na testa de Lucia, e o gesto inesperado a fez sorrir.
Lucia caminhou até o mercado no centro da vila, entrando no meio da multidão barulhenta que cercava centenas de comerciantes em bancas coloridas. Tudo o que pudesse imaginar — vinho, legumes e verduras, carnes defumadas, joias, vestidos bordados, belas colchas — estava à venda.
Um homem sentado atrás de um cavalete a chamou.
— Mocinha bonita! Por favor, me faça um favor e me deixe desenhá-la. Seria um prazer. Apenas cinco cêntimos de prata.
— Só tenho limmeas.
— Muito bem. Um retrato por apenas dez limmeas de prata, então.
— Você cobra o dobro do preço em moeda limeriana? Não faz o menor sentido. Usei minhas moedas em Paelsia sem nenhum problema até agora.
O homem virou a palma das mãos para cima, como se sugerisse que não tinha controle sobre os valores.
— Cêntimos são aceitos em toda Mítica, sem sombra de dúvida, mas limmeas, não. É assim que as coisas são. Mas, tudo bem, que tal oito limmeas de prata?
— Seu trabalho não vale tanto — ela o ridicularizou. E continuou andando, deixando o artista imbecil para trás. Que atitude mais simplória e ignorante, barganhar com clientes para fazer uma venda.
Em seguida, ela passou por uma banca com carcaças de animais pequenos despelados. O vendedor acenou para ela.
— Venha, experimente minhas lascas de warlag condimentadas com um pão que acabou de sair do forno. Ou talvez sementes de chaeva, ideais para aliviar as terríveis cólicas mensais?
Lucia sentiu o cheiro do warlag — um animal comum, nativo de Paelsia, que parecia um cruzamento de coelho com rato — extremamente condimentado, e seu estômago revirou.
— Não, obrigada. — Ela passou rápido pela banca.
Depois de escapar do vendedor e do odor terrível, Lucia chegou a uma banca enfeitada com lenços, todos bordados à mão com elaborados padrões florais. Ela parou e passou a mão em um modelo azul e violeta.
— Ótima escolha. Combina muito com seus olhos. — A vendedora idosa sorriu, esticando o rosto abatido e enrugado e revelando a ausência de vários dentes.
— É lindo — Lucia concordou.
A mulher pegou o lenço e colocou nos ombros de Lucia.
— Eu sabia. Foi feito para você. Deve ser seu, e de mais ninguém.
Só o suntuoso material já valia muito mais que qualquer retrato desenhado às pressas, sem falar no tempo e na habilidade exigidos na costura e no elaborado bordado. Ela pegou a bolsa com as moedas.
— Quanto é? — ela perguntou. — Já aviso, só tenho limmeas.
A vendedora assentiu.
— Duas limmeas de prata, então.
Lucia arregalou os olhos.
— Tão pouco?
— Seria um prazer saber que minha criação será usada e apreciada por uma garota encantadora como você.
Lucia entregou três moedas de ouro à mulher.
— Aceite estas moedas e saiba que usarei o lenço com muito orgulho.
A velha ficou encarando-a, com um brilho contente de surpresa nos olhos, enquanto Lucia saía com sua nova compra.
Em seguida, ela se demorou em uma banca movimentada que exibia túnicas bordadas com contas, todas chamativas demais para qualquer cidadão de Limeros usar em público. De qualquer modo, uma túnica em particular a atraiu, macia e costurada para parecer a silhueta de um falcão, e ela passou os dedos pela costura.
Alguém esbarrou nela. Quando se virou, deparou com um belo jovem com ombros largos e olhos brilhantes.
— Peço desculpas — ele disse.
Ela tentou ignorá-lo, voltando a olhar a túnica de falcão.
— Linda camisa — ele disse. — Não acha? Embora seja um pouco auraniana demais para o meu gosto.
— Não estou muito para conversa hoje. Siga seu caminho.
— Ah, o que é isso? O dia está lindo... não tão lindo quanto você, é claro.
— Me deixe em paz.
— Tudo bem, como quiser. Mas, antes de ir, preciso de uma coisa sua.
Ela se virou e fez cara feia para o rapaz sorridente.
— O quê?
Ele indicou a bolsa.
— Isso.
Ela suspirou, sentindo pena do aspirante a ladrão que resolveu perturbá-la.
— Você realmente precisa...
Mas, antes que ela pudesse terminar, o homem puxou a bolsa da mão dela com uma força que quase a machucou. Lucia ficou boquiaberta, e ele cobriu seu rosto com a mão e a empurrou para trás, derrubando-a sobre a banca de túnicas.
Então, um conhecido véu sombrio tomou conta dela.
Lucia olhou para cima e viu o céu se fechando enquanto se levantava. Procurou o ladrão no meio da multidão, pronta para incendiá-lo. Ele pensava que podia assaltá-la?
O rapaz nunca mais roubaria nada de ninguém.
Ela tinha uma visão clara do indivíduo, mas pouco antes de lançar a magia, o ladrão tropeçou e caiu no chão com tudo. Lucia correu até lá e se juntou à multidão que se formava ao redor dele.
Um jovem que usava um tapa-olho preto estava sobre o ladrão, a sola da bota sobre o peito do homem.
— Sabe — ele disse, abaixando-se para tirar a bolsa dele —, você é o tipo de escória que dá a todos nós, paelsianos, uma má reputação.
Com a bolsa de Lucia na mão, o jovem tirou a bota do peito do ladrão.
— Você devia aprender a cuidar da própria vida — o ladrão resmungou enquanto tentava levantar.
— Sempre fui péssimo nisso. Agora, vá. Antes que eu mude de ideia. — Ele tirou uma adaga com o cabo adornado com pedras preciosas da cintura e a girou devagar.
O ladrão olhou rapidamente para a faca e saiu correndo na outra direção. A luz apareceu no céu nublado.
O jovem de tapa-olho olhou para cima e depois virou para Lucia, que se aproximava dele.
— Parece que vamos ter uma tempestade — ele comentou. — O clima é imprevisível aqui em Paelsia. As nuvens sempre aparecem sem avisar, como se fosse mágica.
O rapaz era jovem, não muito mais velho que ela, tinha cabelo escuro como Magnus, mas era muito mais baixo que seu irmão. A pele era muito bronzeada, e o olho que não estava escondido tinha cor de canela.
— Está tudo bem? — ele perguntou, franzindo a testa diante do silêncio de Lucia.
A obscuridade dentro dela continuou aumentando, ainda querendo ser libertada.
— Aqui está. — Ele entregou a bolsa para Lucia, que hesitou apenas por um segundo antes de pegá-la e guardá-la sob o manto.
— Imagino que queira uma recompensa — ela afirmou.
— É claro que não. Ajudar uma jovem encantadora como você é recompensa suficiente. — Ele sorriu.
E então tudo ficou claro. Ela sabia exatamente quem era o rapaz.
— Você é Jonas Agallon.
Ele piscou.
— O quê?
— Você é Jonas Agallon. O líder rebelde procurado pelo assassinato da rainha Althea. — Ela tinha visto os cartazes que ofereciam recompensa por sua captura, mas nunca o havia visto em pessoa. Com certeza teria se lembrado. — Desculpe, mas seu disfarce é péssimo.
— Ah, está falando disso? — Ele apontou para o tapa-olho. — Foi um acidente com um forcado. Foi terrível. Sinto muito decepcioná-la, mas não sou esse tal de Jonas Agallon.
As tentativas de negar eram quase cômicas.
— Não se preocupe, não vou entregá-lo. Sou grata por tudo o que fez na luta contra o rei. Por que parou?
O rapaz olhou de novo para cima.
— O céu está abrindo. Não vai ter tempestade, no fim das contas.
— Muito bem. Posso fazer uma pergunta que talvez você responda? — Lucia sugeriu em um tom de voz desprovido de raiva.
— Sem dúvida pode tentar.
Ela manteve um sorriso firme nos lábios.
— Onde está o cristal da terra?
O olhar consternado no rosto dele confirmou uma antiga suspeita de Lucia: Cleo tinha dado ao rebelde informações sobre os cristais, permitindo que ele os obtivesse primeiro.
A princesa mentirosa merecia morrer.
Lucia se distraiu de repente com a imagem de alguém caminhando no meio da multidão, empurrando as pessoas que estavam em seu caminho, indo direto em sua direção. A garota estranha, que tinha cabelo escuro e cacheado e usava um vestido amarelo horroroso, parou ao lado de Jonas. Ela segurava um arco e flecha e apontava bem para o rosto de Lucia.
Jonas olhou para a garota, sobressaltado.
— Abaixe isso, Lys. Você vai acabar machucando alguém.
— Cale a boca — a garota murmurou. — Você perdeu a cabeça? Tem ideia de quem é essa?
Jonas tirou os olhos da garota selvagem e voltou a encarar Lucia.
— Claro que sim — ele afirmou com firmeza. — É a princesa Lucia Damora.

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