23 de setembro de 2018

Capítulo 17

JONAS
AURANOS

Jonas não compareceu ao discurso do rei. Ele já sabia muito bem o que esperar. Falsas promessas. Mentiras. Mais mentiras.
As típicas baboseiras políticas.
Em vez disso, ele e Felix percorreram a Cidade de Ouro procurando Ashur. Desde sua chegada à cidade murada onde ficava o palácio, com o príncipe Magnus, que não estava nada morto, o príncipe kraeshiano estava visitando tavernas locais onde, ele dizia, os clientes soltavam a língua e se dispunham a revelar segredos que provavelmente não diriam sóbrios.
Segredos sobre magia.
Segredos sobre bruxas locais.
Segredos sobre alguém, qualquer um, que pudesse usar suas habilidades para ajudar a exterminar Kyan assim que aparecesse em seu corpo roubado.
Jonas tinha seu próprio meio secreto para acabar com Kyan, preso na bainha de seu cinto. Pelo pouco que Timotheus havia compartilhado sobre a adaga dourada, Jonas achava que ela funcionaria muito bem para acabar com o deus do fogo.
No entanto, ela acabaria também com Nic. Então estavam procurando outras possibilidades.
Jonas desceu uma rua movimentada com Felix, cheia de lojas, padarias e locais onde os auranianos podiam comprar bugigangas brilhantes para pendurar nas orelhas e enrolar no pescoço. Muitas pessoas caminhavam na direção do palácio, dispostas a se amontoar na praça no calor ardente do meio-dia para ouvir as mentiras mais recentes do rei Gaius.
Um homem que vestia um sobretudo azul-escuro bordado com o que pareciam diamantes brilhantes, esbarrou em Felix. Ele o encarou feio e o empurrou para conseguir passar.
— Você já quis começar a matar pessoas aleatoriamente só por serem um bando de ricos pomposos? — Felix murmurou para Jonas, vendo o homem se afastar.
— Eu costumava ser assim — Jonas admitiu. — Odiava membros da família real. Odiava auranianos só por terem os privilégios que eram negados aos paelsianos.
— E agora?
— O ímpeto ainda existe, mas sei que seria errado.
Felix resmungou.
— Talvez seja, mas a sensação seria muito boa. Não? Liberar um pouco da frustração reprimida. — Ele indicou uma dupla de soldados kraeshianos uniformizados que observava o fluxo de cidadãos que passava. — Poderíamos começar com eles?
Ver a ocupação de Amara que diminuía, mas ainda existia, era um lembrete de mais opressão.
— Para ser sincero, eu não o impediria.
— Você viu Enzo com o uniforme de guarda hoje de manhã? — Felix torceu o nariz como se estivesse sentindo um cheiro ruim. — Ele finalmente voltou ao trabalho em seu posto… e disse que era uma honra.
— Ele é limeriano até o último fio de cabelo. Não consegue eliminar sua ligação com o dever e a honra, mesmo que isso signifique aceitar ordens do próprio rei Gaius. — Jonas lançou um olhar irônico para seu amigo. — Às vezes eu esqueço que você também é limeriano. Você não tem nada a ver com os outros, não é?
Felix abriu um sorriso forçado.
— Parte do meu charme é a capacidade de me adaptar ao local onde estiver. Sou um camaleão.
Não havia nada em Felix Gaebras, com seu tapa-olho e sua presença hostil e intimidadora, que se adaptasse a qualquer lugar onde estivesse. Mas Jonas preferiu não discutir.
— Você é mesmo um camaleão — ele concordou, assentindo.
— Talvez seja por isso que Enzo está de mau humor nos últimos dias — Felix comentou quando os dois pararam na frente de uma loja com vitrines extremamente limpas, mostrando uma seleção de bolos e doces decorados. — Ele está insuportável.
Jonas conhecia bem demais os humores de Enzo.
— Ele pediu Nerissa em casamento.
— O quê? — Felix o encarou chocado. — E o que Nerissa respondeu?
— Ela não aceitou.
Felix assentiu e ficou pensativo.
— Com certeza é porque ela se apaixonou perdidamente por mim.
— Não é verdade.
— Dê um tempo a ela.
— Você pode acreditar no que quiser.
— Posso mesmo.
Jonas olhou para trás, na direção do palácio, que ficava bem no centro da cidade. Dava para ver a torre dourada mais alta sobre as lojas que o cercavam.
— Por quanto tempo será que o rei vai falar?
— Por horas, provavelmente. Ele gosta do som da própria voz mais do que qualquer um. — Felix olhou para o labirinto de fachadas de lojas e construções à sua volta. — Nunca vamos encontrar Ashur se ele não quiser ser encontrado. Lembra quando estávamos em Basilia e, puft, ele apenas desapareceu? Foi embora e não contou a ninguém? Os kraeshianos são muito furtivos.
— Ashur só está fazendo o que precisa fazer.
— Então… ele e Nic, hein? — Felix disse, arqueando uma sobrancelha sobre o tapa-olho. — Eu sabia que tinha algo ali, mas só me dei conta quando estávamos no fosso. Daí pensei “Eu sabia!”, porque eu realmente sabia. Dá para perceber essas coisas.
Jonas franziu a testa e virou para ele.
— Do que você está falando?
— Ashur e… Nic. — Felix estendeu as mãos. — Eles…
O som de um grito chamou a atenção deles. Mais gritos se seguiram, e uma comoção se fez na região do palácio.
Felix lançou um olhar sério para Jonas.
— Deve ter sido um discurso e tanto.
— Precisamos voltar — Jonas afirmou.
Eles correram para o palácio sem dizer mais nada. O coração de Jonas batia rápido e forte quando segurou um homem que passava pelo ombro.
— O que está acontecendo? — ele perguntou.
— O rei! — o homem exclamou com o rosto pálido e os olhos arregalados. — O rei está morto!
Jonas ficou olhando para o homem, que saiu correndo.
Quando chegaram ao palácio, encontraram um caos. Todos os guardas estavam de espada em punho, prontos para a batalha.
— Não pode ser verdade — Jonas disse enquanto a dupla se apressava pelos corredores. — Não acredito.
Eles encontraram Nerissa andando rapidamente pelo corredor que levava aos aposentos deles.
— Nerissa! — Jonas gritou para ela. — O que está acontecendo? Estão dizendo que o rei Gaius está morto.
— Ele está — ela confirmou em voz baixa. — Aconteceu durante o discurso… um arqueiro no meio do público. Ele foi capturado antes de fugir.
Ainda parecia um tanto quanto surreal para Jonas aceitar.
— Você viu?
Ela confirmou.
— Vi tudo. Foi horrível. Lucia, Magnus e Cleo estavam com ele na sacada.
— Lucia está…? — ele tentou perguntar. — Cleo está…?
— Estão bem… até onde é possível, dadas as circunstâncias. Suponho que o rei tenha morrido no mesmo instante, ou a princesa Lucia conseguiria curá-lo com sua magia.
— Um rebelde — Jonas disse, balançando a cabeça. — Um rebelde finalmente acabou com o rei.
— Sim. — A expressão de Nerissa não guardava nenhum luto, mas seus olhos estavam repletos de preocupação. — Acho que o assassino será executado publicamente depois de ser interrogado.
Felix cruzou os braços grossos diante do peito largo.
— É errado eu estar com uma leve inveja por não ter sido o responsável por isso?
Nerissa olhou feio para ele.
— Sério, Felix?
— Ele me deixou em Kraeshia para levar a culpa pelo assassinato do imperador. Não é algo que se possa esquecer e perdoar. Estou feliz com a morte dele!
— Aconselho que guarde essa opinião para si mesmo — Nerissa disse. — Principalmente perto do príncipe Magnus e da princesa Lucia.
Jonas mal conseguiu registrar aquela conversa. Estava absorto em seus pensamentos, lembrando a vez em que enfiou uma adaga no coração do rei, certo de que finalmente tinha feito o que ninguém nunca tinha conseguido fazer. Mas foi um ferimento a que o rei sobreviveu, graças a algum feitiço lançado por sua mãe bruxa.
— Não acredito que ele está morto — Jonas disse, sacudindo a cabeça. — O Rei Sanguinário finalmente está morto.
Jonas tinha que concordar com Felix. Aquele assassinato tinha trazido mais bem do que mal.
Talvez o rebelde estivesse trabalhando com Tarus Vasco.
Talvez tivesse sido o próprio Tarus.
Ele estava prestes a perguntar a Nerissa mais sobre o arqueiro, mas sua atenção se desviou para alguém que apareceu no fim do corredor.
A princesa Lucia caminhava rapidamente na direção deles.
Apesar do próprio ódio pelo rei, Lucia era filha dele — e tinha testemunhado sua morte. Certamente, estava de luto e sofrendo por ele.
Jonas jurou que não tornaria aquela dor pior.
— Princesa — ele disse em voz baixa. — Soube o que aconteceu.
Seus olhos azul-celeste encararam os dele, e Lucia franziu a testa.
— Eu falei que era tudo culpa dela… e ela chorou tanto, mais do que jamais a ouvi chorar antes. O que aconteceu é culpa minha. Talvez eu devesse ter concordado desde o início e ele não teria feito isso. Sou tão idiota. Sou uma tola.
— Lucia — Jonas franziu a testa. — Do que você está falando?
Então ele olhou, horrorizado, para a adaga que ela segurava. Da outra mão, pingava sangue sobre o piso de mármore.
— O que você fez? — ele perguntou. — Você se cortou?
Lucia olhou para o ferimento: um corte profundo na palma de sua mão direita.
— Eu queria curar isso, mas não consigo.
— Princesa, por que fez isso? — Nerissa perguntou enquanto tirava um lenço do bolso e o enrolava na mão da princesa.
Lucia ficou olhando sem expressão para a atadura.
— Naquela noite, não faz muito tempo, eu o invoquei com o símbolo da magia do fogo desenhado na neve com meu próprio sangue. Ioannes me ensinou como fazer isso antes de morrer. Mas dessa vez nada aconteceu. Eu… eu não sei como encontrá-lo e trazê-la de volta.
— De quem está falando? — A voz de Felix saiu bem mais dura do que a de Jonas ou de Nerissa quando se dirigiu à princesa. — Não está dizendo que tentou invocar Kyan aqui, está?
O olhar de Lucia se fixou no único olho de Felix.
— Ele levou Lyssa.
— O quê? — Jonas ficou ofegante. — Não, isso é impossível.
— A ama virou cinzas. Aconteceu quando eu estava com Magnus e o assassino do meu pai no calabouço. Quando voltei para meus aposentos… Lyssa não estava mais lá! — Lucia respirava com dificuldade e começou a chorar. — Preciso ir.
Lucia tentou passar por eles, mas Jonas a segurou pelo punho.
— Aonde está indo? — ele perguntou.
— Preciso encontrar Timotheus. Preciso de respostas. E preciso da ajuda dele. — A expressão dela se tornou dura e fria como aço. — Se ele se recusar, juro pelo coração de Valoria que o mato. Agora, solte meu braço.
— Não — ele respondeu. — Você está falando coisas sem sentido. Sei que seu pai acabou de morrer e que foi terrível testemunhar isso. Talvez esteja imaginando coisas. Você precisa descansar.
— Eu preciso — o tom de voz dela foi frio e cortante — é que você me solte.
Ela puxou o braço, e Jonas de repente começou a levitar e foi arremessado no meio do corredor. Quando atingiu o piso duro de mármore, o ar saiu de seus pulmões.
— Lucia, pare!
Ela não parou. Jonas viu apenas a barra de sua saia cinza-escuro quando ela virou em outro corredor e desapareceu.
A mão de Felix surgiu diante de seu rosto. Ele aceitou o auxílio e deixou o amigo ajudá-lo a se levantar.
— Quem é Timotheus? — Felix perguntou.
Apenas um imortal que viu um futuro que incluía a mesma adaga dourada que Jonas agora possuía enfiada no peito de Lucia.
Antes que pudesse responder à pergunta de Felix em voz alta, outra pessoa apareceu no corredor e foi na direção do trio.
— Preciso falar com você, Agallon — Magnus resmungou.
Os irmãos Damora eram igualmente diretos e insuportáveis.
— Sobre Lucia? — ele perguntou.
— Não.
Jonas queria seguir a princesa, queria tentar impedir qualquer carnificina que ela estivesse prestes a causar em seu estado de confusão e sofrimento.
Mas o melhor a fazer era se acalmar e elaborar um plano.
Ele tinha mudado muito desde seus dias de líder rebelde, e não sabia ao certo se a hesitação era uma vantagem ou não.
— Então, o que foi? — Jonas perguntou, sem paciência.
— Preciso que vá para Kraeshia.
Ele encarou o príncipe.
— Por quê?
— Porque Amara Cortas precisa morrer.
— O quê?
Magnus acariciou distraidamente a cicatriz que tinha do lado direito do rosto.
— Ela é responsável pelo assassinato do meu pai. Não vou deixar que se safe disso sem pagar. Ela é uma ameaça a tudo e a todos.
Jonas se obrigou a respirar fundo. Tanto Lucia quanto Magnus estavam de luto, o que os fazia agir de modo irracional e imprudente.
— Seu desejo de vingança é compreensível — Jonas disse, mantendo a voz firme. — Mas é um pedido impossível. Mesmo que eu concordasse, não poderia chegar perto dela sem ninguém saber, muito menos escapar depois de uma tentativa de assassinato… — Ele balançou a cabeça. — É impossível.
— Eu vou — Felix disse apenas.
Jonas olhou para ele, surpreso.
— Péssima ideia, Felix.
— Não acho — ele respondeu. — É uma ótima ideia.
— Vossa alteza — Nerissa chamou. — Com todo respeito, preciso perguntar: é a coisa certa a fazer no momento? Achei que sua ideia fosse nos concentrarmos na Tétrade e em ajudar Cleo e Taran.
Magnus lançou um olhar sombrio para a garota.
— Esse ainda é meu foco. Mas também é a coisa certa a fazer, que eu devia ter feito meses atrás. Amara é responsável por inúmeras atrocidades cometidas contra inocentes.
— Assim como seu pai — Nerissa afirmou, sem recuar quando o olhar de Magnus ficou mais sombrio. — Sinto muito, mas é verdade.
— Posso partir imediatamente — Felix disse. — Fico feliz em servi-lo. Estava esperando essa oportunidade.
— Que oportunidade? — Jonas perguntou, olhando feio para o amigo. — De ser morto?
— É um risco que estou disposto a correr. — Felix deu de ombros e estendeu as mãos. — É o que faço, e sou muito bom no meu trabalho, vossa alteza. Jonas talvez tenha uma ética importuna quando se trata de matar uma mulher. Mas eu? A mulher certa, na hora certa, com a lâmina certa… ou, que se dane, com minhas próprias mãos. Ela não vai mais ser um problema para ninguém.
— Ótimo — Magnus disse com um maneio de cabeça. — Vá hoje e leve quem quiser para ajudar.
— Não vou precisar de ninguém.
— Eu vou com você — Nerissa disse.
Felix revirou os olhos.
— O quê? Para tentar me impedir? Para me lembrar de que todo mundo merece uma chance de redenção? Pode economizar sua saliva.
— Não. Vou para garantir que você não seja massacrado sem necessidade. Acabei conhecendo Amara muito bem durante o curto período que passei como sua criada. E acho que ela confia em mim, apesar de eu ter escolhido ficar ao lado da princesa Cleo.
Felix a encarou com desconfiança.
— Você não vai tentar me impedir?
— Não, vou ajudar você.
— Está bem — Magnus disse. — Você vai com Felix. E façam o favor de avisar Amara, antes de seu último suspiro, que estão seguindo ordens minhas.
Felix abaixou a cabeça.
— Será um prazer, vossa alteza.
Magnus deu meia-volta como se fosse sair, mas Jonas sabia que não podia deixá-lo ir.
— Lucia foi embora — ele disse.
Os ombros de Magnus ficaram tensos. Ele virou lentamente e encarou Jonas com um olhar tão ameaçador que quase o fez recuar.
— O quê? — ele gritou.
— Ela acredita que Kyan esteve aqui, que sequestrou Lyssa. E foi atrás dele.
Magnus xingou em voz baixa.
— É verdade? Kyan esteve aqui e não suscitou nenhum alarde?
— Não tenho certeza. Mas Lucia com certeza acha que sim.
— Não posso partir. Não com Cleo aqui, não com tudo o que aconteceu hoje. — Um fio de pânico tinha surgido na voz grave de Magnus. Então ele praguejou mais uma vez e olhou para Jonas. — Você.
Jonas franziu a testa.
— Eu?
— Vá atrás da minha irmã. Traga-a de volta. Não é minha primeira opção, mas você já fez isso antes, e pode muito bem fazer de novo. É uma ordem.
Jonas fez uma careta.
— Uma ordem?
A ferocidade desapareceu dos olhos escuros de Magnus e foi substituída pela preocupação.
— Tudo bem. Não vou dar ordens. Vou pedir… por favor. Confio mais em você do que em qualquer outro. Por favor, encontre minha irmã e a traga de volta. Se ela estiver certa, se Kyan fez isso, vamos procurar minha sobrinha juntos.
Jonas não conseguiu falar. Apenas assentiu.
Ele faria o que Magnus tinha pedido.
Mas não arrastaria Lucia de volta a contragosto. Nem achava que conseguiria, mesmo se quisesse. Em vez disso, ele a seguiria. E a ajudaria.
E, ele pensou com uma determinação dolorosa, se Timotheus estiver certo e ela acabar usando sua magia para auxiliar Kyan, condenando o resto do mundo e todos os que vivem nele…
Ele passou a mão pela adaga dourada em sua cintura.
Então vou matá-la.

4 comentários:

  1. III o último que planejou mata-lá se apaixonou por ela kkkk

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  2. Vai vendo que o Félix vai morrer por causa da Nerissa apaixonada pelo louca da Amara , como e frustrante 😡😡

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  3. Também previ isso Renata.
    Tomara que nossas orecisoes sejam igual a de Timotheos :)
    Muito desagradável se Félix morrer por causa disso.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!