16 de setembro de 2018

Capítulo 17


CLEO
PAELSIA

— Você viu o príncipe Ashur por aí? — Nic perguntou.
Cleo desviou o olhar do livro sobre a vida do chefe Basilius que tinha escolhido na estante do andar de baixo. Seus pensamentos estavam tão dispersos que ela devia ter lido a mesma página dez vezes — que contava sobre os cinco casamentos dele.
Nic estava parado na porta do quarto dela. Enzo estava de guarda do lado de fora, um protetor constante, mas ela tinha deixado claro que Nic podia interrompê-la.
— Hoje não — ela admitiu, ainda chocada por ter visto que o príncipe tinha renascido dos mortos. — Por quê? Isso é estranho?
— Ele gosta de sair por aí sem avisar ninguém. — Ele ficou sério. — Você acha que ele está diferente? Não sei dizer.
— Para mim, ele está igual, mas não o conheço muito bem — ela admitiu.
— Nem eu.
— Ah, não sei. Às vezes não precisamos de anos para conhecer alguém. Algumas conversas são mais do que suficientes para saber como a pessoa é.
— Se você acha…
Cleo sabia que Nic e Ashur eram bem próximos, a ponto de seu amigo ter sentido muito a perda do príncipe. E também sabia que existia mais do que uma simples amizade entre os dois, mas emoções que os dois estavam apenas começando a explorar. Talvez agora nunca mais se resolvessem.
— Parece que Taran e Felix também sumiram — ela disse. — Onde eles estão?
— Ótima pergunta. Pensei que Jonas fosse meu parceiro, mas parece que ele tem negócios com Magnus agora.
— O quê? — Só de pensar, ela sentiu vontade de rir. — Se você viu os dois conversando, é bem provável que o assunto seja o rei.
Desde que Jonas conseguira — ainda que não tenha conseguido — cravar a adaga no peito do rei, dois dias antes, Gaius não saía do quarto, com a mãe a seu lado o tempo todo, temendo que o filho estivesse perto demais da morte e não sobrevivesse tempo suficiente para receber a magia secreta e restauradora que ela prometera.
Cleo temia que, se o rei morresse antes de a bruxa encontrar Lucia, ela se recusaria a ajudá-los, mas não se incomodava em imaginá-lo sofrendo em um quartinho em Paelsia.
Um fim adequado para um monstro.
Como será que Gaius Damora era quando conheceu a mãe dela? A que horrores ele teria submetido Elena Corso? Era uma pergunta que a perseguia desde que ele dissera o nome dela.
— Você confia nele? — A voz de Nic interrompeu seus pensamentos.
— Em quem? Magnus?
Ele riu.
— Não, claro que não estou falando de Magnus. Em Jonas.
Ela confiava em Jonas, o garoto que a tinha sequestrado e aprisionado — não uma, mas duas vezes — e que, em determinado momento, quis que ela morresse por presenciar o assassinato de seu irmão?
Mas também era o garoto que se tornara um líder. Que lutara por seu povo. O garoto que tinha arriscado a própria vida para salvar a dela.
— Confio nele, sim — ela admitiu.
Muita coisa podia mudar em um único ano.
— Eu também — Nic disse.
Ela assentiu.
— Se ele está falando com Magnus, deve ser importante.
— Ainda assim, não gosto de pensar que esteja escondendo alguma coisa de nós.
Cleo também não gostava, principalmente se fosse um segredo entre Jonas e Magnus. E jurou que conseguiria algumas respostas. Ela não gostava de ficar por fora das questões.
Naquele mesmo dia, a chance apareceu. Quando Magnus pediu para falar com Enzo no pátio, ela começou a procurar informações por conta própria na hospedaria. Logo encontrou algo possivelmente interessante na sala de convivência: o caderno de desenho de Magnus.
Cleo já tinha visto Magnus desenhando nele, os dedos pretos por causa do carvão. Os limerianos não gostavam tanto de arte quanto os auranianos, que viam a beleza como um presente que o artista compartilhava com o mundo por meio de sua visão singular. Mas quando um limeriano desenhava, precisava ser bem semelhante ao original para ajudar na referência e no aprendizado.
Para isso, Magnus tinha passado um verão tendo aulas de arte na Ilha de Lukas muitos anos antes, uma viagem que muitos nobres e jovens da realeza — incluindo a mãe e a irmã de Cleo — faziam na juventude. Ela já tinha visto o antigo caderno de Magnus, no qual havia desenhos incrivelmente detalhados da flora e da fauna… além de vários retratos de Lucia, cada um feito com admiração indiscutível e atenção a cada centímetro do rosto perfeito da irmã.
Mas aquele era um caderno novo, o que deixou Cleo extremamente intrigada.
— Eu não devia olhar — ela disse a si mesma. — Magnus não me deu permissão.
Mas esse argumento nunca tinha funcionado.
O primeiro desenho era do jardim, um rascunho rápido, mas as dimensões e a precisão eram espantosas. Antes de abandonar aquele desenho, ele tinha se concentrado no detalhe de uma roseira, e mesmo com o traço grosso do carvão, tinha capturado a beleza em tons de preto e cinza.
A segunda, a terceira e a quarta páginas tinham sido arrancadas sem cuidado.
Na quinta página, não havia um desenho, mas uma mensagem.

Espiando para encontrar um retrato seu, princesa? Desculpe, mas hoje não. Talvez um dia eu desenhe você. Ou talvez não. Vamos ver o que o futuro nos reserva.
M.

Cleo fechou o caderno envergonhada, e também irritada.
Quando ouviu gritos, correu para as janelas com cortinas de lona grossa que davam para o pátio nos fundos da hospedaria.
O príncipe estava empunhando a espada, mirando em Milo e Enzo, que também seguravam suas armas. Quando atacaram, Cleo soltou um grito de susto antes de perceber o que estava acontecendo.
Eles estavam treinando. E a julgar pela força de ataque de Milo e de Enzo, Magnus tinha pedido para os dois darem o melhor de si.
Será que ela nunca tinha visto Magnus assim antes, em guarda, a testa suada, bloqueando as armas dos guardas com a espada? Ela pensou que aquilo podia trazer lembranças horrorosas daquele dia — do dia em que perdera Theon.
Mas naquela visão Magnus era um príncipe sem habilidade comparado a um guarda do palácio, e ele sabia disso.
Sinto muito, Theon, ela pensou, o coração apertado. Não esperava sentir isso por Magnus. Mas sinto. Não posso mais me apegar à sua lembrança. Não posso odiar o príncipe pelo que aconteceu, pelo que ele fez naquele dia. Magnus está muito diferente agora.
Ou talvez Cleo tivesse mudado irreversivelmente.
— Na minha opinião, não estão lutando tanto quanto deveriam.
Cleo se assustou com a voz de Jonas. Ela o viu a seu lado, escondido até aquele momento, com os olhos arregalados.
— Está surpresa? — ele perguntou, achando graça.
— Você se aproximar de alguém em uma sala escura com certeza não é uma surpresa, rebelde.
Jonas sorriu, mas voltou a observar o trio do lado de fora.
— Será que o príncipe estaria disposto a me enfrentar?
— Se estivesse, certamente um de vocês acabaria morto.
— Sim, mas quem? — Sua sobrancelha, que estava arqueada, abaixou quando ele viu a expressão sofrida dela. — Em pouco tempo você estará livre desse acordo infeliz com ele, prometo.
Cleo conteve a resposta, tomando cuidado para não defender o príncipe. Ela ainda achava que era melhor ninguém saber a verdade sobre eles.
— Magnus, o rei e Selia são o caminho para as respostas de que preciso para liberar a magia da Tétrade — ela comentou.
— Eu já disse: tem um deus elementar dentro daquele cristal — ele falou de modo incisivo.
Seu tom de voz a fez se encolher. Depois que descobriu sobre os deuses elementares, dois dias antes, ela não conseguia parar de pensar no assunto e mal tinha pregado os olhos devido à gravidade da situação.
— Se tivermos a oportunidade de aproveitar essa magia sem deixar o deus escapar, ainda acho que é um objetivo que vale a pena buscar. Vamos perder muito se não conseguirmos esse poder para nos ajudar de alguma forma, ainda que seja pouco.
Quando ela encarou Jonas, viu uma expressão séria, mas os olhos mais tranquilos.
— Não discordo totalmente.
Ela hesitou, mas só por um momento.
— É bom que saiba que, de acordo com Nic, você está escondendo dele a localização de Taran e Felix. Ele está bastante irritado com isso.
— Comecei a acreditar que o príncipe Ashur é tão mau quanto a irmã. Nic o conhece, mas não diz nada útil a respeito do que esperar dele. Gosto de Nic, mas não conto nenhum segredo que ele possa acidentalmente revelar ao príncipe.
Outra pessoa entrou na sala e chamou a atenção de Cleo. Era Ashur, poucos metros atrás de Jonas.
— Jonas… — ela começou.
— Ashur diz que é um herói lendário renascido dos mortos para trazer paz ao mundo. Um monte de besteira. Ele não passa de mais um membro mimado da realeza criado com todas as regalias possíveis que só precisa estalar os dedos para ter qualquer mulher linda que desejar. — Jonas franziu a testa. — Admito que isso seria uma vantagem.
Cleo limpou a garganta quando Ashur cruzou os braços diante do peito e inclinou a cabeça.
— Acho que você deveria… — ela começou.
— O quê? Falar com gentileza sobre alguém que confunde todo mundo porque está confuso em relação à irmã má e gananciosa que provavelmente vai destruir o mundo com sua sede por poder e magia? Ele poderia tirar o poder dela com facilidade. Poderia se impor, reclamar o título de imperador, contar para todo mundo que Amara matou a família deles. Pronto.
Ela sentia uma pontada no peito a cada palavra verdadeira, mas mordaz, que Jonas dizia.
— Pode ter certeza de que não fico confuso quando se trata de Amara — Ashur disse em voz baixa.
Jonas fez uma careta.
— Você poderia ter me dito que ele estava bem atrás de mim, princesa.
— Você estava ocupado demais admirando o som da própria voz. — E, para ser sincera, as reclamações de Jonas sobre Ashur tinham reacendido a irritação que ela mesma sentia em relação ao príncipe kraeshiano.
Não, não era irritação. Era raiva, beirando a fúria.
— Espero que não esteja confuso em relação a sua irmã — Cleo falou para Ashur. — Ela cravou uma adaga em seu peito por tê-la contrariado.
— As últimas atitudes de Amara foram infelizes, mas eu já sabia que ela estava tomando esse rumo. Na verdade, culpo minha avó por colocar seus próprios planos de revolução em ação. É irônico que minha madhosha derrube aqueles que também querem mudança no império. Ela tem muito mais em comum com os rebeldes do que pensa.
Cleo ficou olhando para ele, enojada.
— Infelizes… Você chama as escolhas de Amara de infelizes? Ela matou você, matou a própria família, e agora está matando todos os míticos que vê pela frente!
— Ela perdeu as estribeiras. A irmã que conheço, que eu conhecia, não resolve seus problemas com violência desnecessária.
— Sim, claro, os kraeshianos são conhecidos como um povo pacífico.
Ashur a observou atentamente.
— Você está infeliz comigo.
Ela olhou para Jonas e riu um pouco.
— Príncipe Ashur, por que eu estaria infeliz com você?
— Você é como Jonas. Não confia em mim.
— E deveríamos confiar? — Jonas perguntou. — Você não me conta nenhum de seus planos, desaparece por dias, fica isolado… Acha que eu deveria confiar em você mesmo assim?
— Você poderia tirar o trono de Amara — Cleo disse. — Se está tão interessado em ajudar o mundo, pode acabar com muito sofrimento simplesmente tornando-se imperador. Você é mais velho do que Amara. O trono é seu por direito. Tem tanto medo dela assim?
Ashur riu com frieza ao ouvir aquilo.
— Não tenho medo de Amara.
— Teve medo suficiente para, supostamente, tomar uma poção para salvar sua vida — Jonas disse. — Sabia que ela planejava matá-lo?
O belo rosto de Ashur ficou sério.
— Eu não sabia. Não com certeza. E a poção que tomei… foi bem antes de minha viagem para, acima de tudo, me proteger do rei Gaius, caso ele tentasse usar minha presença em seu reino contra meu pai. Eu nem imaginava que a poção funcionaria.
— Mas funcionou — Jonas disse. — Precisamos encontrar esse boticário ou essa bruxa ou quem quer que a tenha feito. Poções de ressurreição para todos. Magia assim poderia salvar muita gente.
— A magia da morte não é algo que se possa alterar — Ashur rebateu. — Não por qualquer motivo.
— Mas você alterou essa magia sombria para se salvar. — Cleo teve certeza de que o príncipe se encolheu diante da acusação, o que era incomum para ele. — Você se sente culpado por isso?
— Claro que não. — Apesar da resposta, Ashur não fez contato visual com ela.
— Chega de mentiras, Ashur. Se está tentando dar a impressão de que estamos todos do mesmo lado, precisa ser sincero conosco. Há mais coisas envolvidas nessa poção do que você quer revelar. Ela é perigosa, não é?
— Muitas poções são perigosas. O veneno nada mais é do que uma poção com a intenção de matar.
Cleo inspirou e soltou o ar devagar, com a sensação de que estava prestes a descobrir um segredo.
— Aprendi que toda magia tem um preço. Que preço você pagou pela oportunidade de viver de novo?
— Aprendi que o preço da magia costuma ser o oposto da magia em si. Para ter muita força, você viverá momentos de grande fraqueza. Para ter prazer, haverá dor. E para ter vida… haverá morte.
— Então você matou alguém — Jonas disse, os braços cruzados e tensos. — Ou muitas pessoas. Acaba aqui o que você diz sobre altruísmo.
Ashur caminhou até a janela para olhar para fora, os braços cruzados.
— Você não sabe nada sobre mim, Jonas. Matei quando precisei. Nem sempre sou pacifista. O boticário me alertou do preço que eu teria que pagar, mas não acreditei. Amara pagou o mesmo preço, mesmo sem querer, quando a ressuscitaram.
Cleo franziu a testa.
— Amara foi ressuscitada?
— Foi — Ashur respondeu solenemente, e então começou a contar para Cleo e Jonas o que tinha acontecido quando Amara era bebê e tinha sido salva de um afogamento pela magia negra e pelo sacrifício de sua mãe.
Cleo percebeu que precisava sentar, pois tinha ficado abalada com a história. Em Auranos — e em Mítica —, apesar de serem valorizadas pela habilidade que tinham como mães, cozinheiras e enfermeiras, as mulheres não eram impedidas de fazer outras coisas, se assim desejassem. E uma princesa podia ser a herdeira do trono do pai ou da mãe sem medo de ser assassinada apenas pelo suposto crime de ser uma mulher. Cleo não sabia se admirava a mãe de Amara por valorizar a vida da filha o suficiente para sacrificar a própria vida ou se culpava a mulher por sua filha ter se tornado um monstro.
— Quem morreu por você? — Cleo perguntou em voz baixa.
O olhar distante de Ashur ficou sério, e antes de continuar, ele lançou um rápido olhar para Jonas.
— Eu não tinha certeza, mas sabia que alguém tinha morrido. Passei o mês tentando descobrir. Viajei, visitei amigos e ex-amantes. Foi alguém com quem passei um único verão. Eu não fazia ideia de que ele ainda gostava de mim, de que nunca havia deixado de gostar… — Ele engoliu em seco. — De todas as pessoas que conheci, alguém que conviveu comigo apenas por alguns meses me amou tanto a ponto de morrer por esse amor. Não consigo entender. Eu sabia o preço, mas o ignorei por egoísmo. Soube que ele sofreu por vários dias. Ele descreveu a dor como uma faca sendo cravada lentamente em seu peito. Me disseram que nos últimos momentos, ele gritou meu nome. — Ashur ficou com os olhos azul-acinzentados marejados e respirou fundo. — A culpa que sinto pelo sofrimento, pela morte dele e pelo fato de eu ter apagado qualquer chance que ele tinha de ter uma vida plena e feliz… isso vai me assombrar para sempre.
A sala ficou em silêncio enquanto Cleo tentava processar o que estava ouvindo. Aquele Ashur parecia mais o homem sincero que tinha oferecido, na noite de seu casamento, uma adaga nupcial kraeshiana para tirar a vida da noiva infeliz ou de seu marido. Aquele Ashur não estava falando coisas confusas para desviar a atenção de seu sofrimento.
Mas, naquele momento, uma ideia lhe ocorreu.
— É por isso que você anda tão estranho com Nic — ela disse. — Ele não entende, acha que você está diferente, que seus sentimentos por ele mudaram, por tudo. Mas ele está enganado, não está?
Ashur não respondeu, mas olhou para baixo.
— Você teme que ele se apaixone por você e que você o machuque por causa desse amor.
Jonas ficou em silêncio, a testa franzida. Cleo esperava que ele não dissesse nada que fizesse o príncipe omitir a verdade.
— Eu tinha outros planos na ida a Auranos — Ashur disse finalmente. — Não queria que nada disso tivesse acontecido. Mas alguma coisa em Nicolo chamou minha atenção e eu não pude ignorar. Sei que deveria ter ignorado. Só consegui complicar a vida dele e causar dor desnecessária. Mas agora não vou permitir que nada de ruim aconteça com ele por cometer o erro de gostar de mim.
— Nic merece uma explicação — Cleo disse, com um nó na garganta.
— É melhor que ele pense que meus sentimentos mudaram. — Ashur limpou a garganta. — Se me dão licença, acho que já revelei mais do que pretendia.
Cleo não disse nada para impedi-lo de sair. Ela estava pensando em muitas coisas ao mesmo tempo; algumas se conectavam, mas a maioria só aumentava sua confusão.
Por fim, ela olhou para Jonas.
— Então… — ele disse, ainda franzindo a testa. — Nic e Ashur, certo?
Ela assentiu devagar.
— Estranho… Pensei que Nic gostasse de garotas. De você, em especial. Não costumo me enganar com essas coisas.
— Você não está enganado. Ele gosta de garotas.
— Mas Ashur… — ele olhou para a porta — não é uma garota.
— Não fique pensando sobre isso, rebelde. Pode fundir seu cérebro. Saiba apenas que é complicado.
— E todas as coisas não são complicadas? — Jonas sentou ao lado dela. — Agora que conheço o segredo de Ashur e sei que não se trata de uma ameaça pessoal a você nem a mim, preciso me concentrar em pegar a esfera que o rei escondeu. Você acha que está aqui na hospedaria?
— Nem imagino. Gostaria de saber. Eu ia dizer que… para liberar a magia precisamos do sangue de Lucia e do sangue de um Vigilante.
Surpreso, ele a encarou.
— Esse é o segredo?
Cleo assentiu.
— Isso impede o deus de sair?
— Não sei. Por isso é tão importante encontrarmos Lucia, descobrir mais informações com ela e o que deu errado com Kyan.
Os olhos castanhos de Jonas pareciam distantes.
— A profecia…
— O quê? — Cleo perguntou quando ele ficou em silêncio.
Ele balançou a cabeça.
— Deixa para lá. Conto mais quando descobrir se é verdade ou não.
— O problema é que não sei como encontrar um Vigilante. — Ela mordeu o lábio. — Claro que ainda deve haver alguns Vigilantes exilados vivos, mas acho que precisa ser um Vigilante pleno. Espero que Lucia se disponha a ajudar quando chegar o momento.
— Não se preocupe em encontrar um Vigilante. — Ele ficou em silêncio por um momento. — Essa parte eu resolvo.
Ela olhou para ele, surpresa.
— Como?
— Olivia — ele sussurrou. — Ela é.
Cleo ficou boquiaberta.
— Você não pode estar falando sério.
— É outro segredo, mas vou confiar que você não vai contar a ninguém. — Jonas abriu o meio sorriso que ela sempre achou charmoso e frustrante, ao mesmo tempo. — Muita coisa foi sacrificada nesse caminho que percorremos juntos. Muita perda para nós dois. Mas tento acreditar que sempre vai valer a pena, no fim.
Ela assentiu.
— Eu também.
— Acho que você precisa saber que a Lys gostava de você.
— Agora você está mentindo.
— Pode ser que nem ela soubesse, mas sei que ela respeitava você mais do que você pensa. Vocês têm uma coisa em comum: força. — A voz de Jonas falhou. — Só demonstram de jeitos diferentes.
Os olhos de Cleo começaram a arder ao ver Jonas se esforçando para não deixar as lágrimas escorrerem. Ela segurou as mãos do rebelde, puxando-o para mais perto.
— Sinto muito por sua perda, Jonas. Estou dizendo isso do fundo do coração.
Ele só assentiu, olhando para baixo.
— Ela me amava. Só me dei conta disso quando já era tarde demais. Ou talvez eu tenha percebido e não estivesse pronto para aceitar. Mas agora eu entendo… Ela era perfeita para mim.
— Tenho que concordar.
— Poderíamos ter construído uma vida juntos. Uma casa, talvez até uma quinta. — Jonas sorriu de novo, mas um sorriso mais triste. — Filhos. Um futuro. Quem sabe o que poderia ter acontecido? Só tenho certeza de uma coisa.
— De quê?
— De que Lys merecia alguém bem melhor do que eu.
— Não tenho a menor dúvida em relação a isso — Cleo concordou, satisfeita ao ver que a expressão surpresa de Jonas conseguiu apagar a dor em seus olhos. Ela abriu um sorriso caloroso. — Minha irmã acreditava que quem morre se torna uma estrela no céu. Então todas as noites podemos olhar para cima e saber que estão cuidando de nós.
Ele parecia desconfiado.
— Isso é uma lenda auraniana?
— E se for?
Uma mecha do cabelo dela tinha caído sobre a testa, e Jonas a ajeitou atrás da orelha e deslizou a mão por seu rosto.
— Nesse caso, gosto de lendas auranianas.
Cleo encostou a cabeça no ombro dele, e os dois ficaram ali, confortando um ao outro. Havia uma ligação entre eles — algo muito forte que ela nunca havia conseguido ignorar. E houve uma época, não muito tempo atrás, em que ela poderia ter amado aquele rebelde do fundo do coração.
E ela o amava, sim, mas não como Lysandra o havia amado.
Independentemente do que acontecesse, o coração de Cleo pertencia a outro.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!