1 de setembro de 2018

Capítulo 17

MAGNUS
AURANOS

A Fera.
O nome da taverna já era divertido, mas depois que Magnus terminou a segunda garrafa de vinho, começou a achar aquilo absolutamente hilário.
— Mais uma — ele gritou. — Agora.
O atendente pôs uma terceira garrafa de vinho paelsiano na frente dele.
— Vinhedos Silas Agallon — Magnus leu em voz alta as palavras gravadas na garrafa de vidro verde.
Estava tomando vinho feito pela família de Jonas Agallon.
Ainda mais hilário.
Apesar da repulsa que sentia por Paelsia, Magnus logo passou a preferir o vinho daquele reino. Ainda assim, o local era uma terra desolada, na melhor das hipóteses. E, na pior, um local de más lembranças e escolhas erradas, de humilhação, derrota e arrependimento.
Começou a beber direto da garrafa, ignorando o cálice. Que idiotice seu pai ter proibido tais prazeres em Limeros durante todos esses anos, alegando motivos religiosos. Valoria havia ensinado que manter a mente limpa era manter um coração puro, e seu povo obedecia. Magnus sempre compartilhara dessa crença, acreditando que realmente preferia ter a mente limpa a… isso.
Sim. Isso era melhor.
Ficar bêbado era melhor do que estar sóbrio.
Ele deu uma olhada na taverna sombria. Os poucos clientes que restavam naquele horário tão avançado tinham se mudado para as mesas do fundo. As únicas pessoas próximas a Magnus eram alguns de seus guardas.
Ele pedira para ser deixado sozinho, mas o pedido foi ignorado. Estavam ali “para sua proteção”.
Cretinos insolentes.
Ele levantou a garrafa.
— À minha irmã e ao seu novíssimo tutor — ele brindou, apontando o vinho para o atendente antes de dar um longo gole. — E ao meu pai. Família… tão importante. Tão valiosa. Que todos apodreçam juntos nas terras sombrias um dia.
As próprias palavras o divertiram bastante, assim como a reação horrorizada do atendente ao brinde.
Magnus estava na metade da terceira garrafa quando sentiu uma mão em seu ombro.
— Alteza — Cronus disse. — Está na hora de ir.
Magnus afastou a mão do guarda.
— Mas ainda não terminei.
— O rei não ficaria satisfeito em vê-lo assim.
— Ah, não! O rei não ficaria satisfeito. Mas eu, sem sombra de dúvida, quero agradar o rei o tempo todo. Não quero? — Ele tomou mais um gole.
— Vossa alteza já bebeu demais.
— Você acordou hoje de manhã e, de repente, decidiu se tornar minha ama de leite, Cronus? Desculpe, mas não estou com nenhuma vontade de sugar seu mamilo hoje.
— Eu poderia carregá-lo de volta para o palácio, mas prefiro que tenha a chance de caminhar.
O príncipe respondeu à grosseria do guarda apenas com um olhar torto. Se qualquer outra pessoa se dirigisse a ele com tanto desrespeito, Magnus desejaria sua morte. Mas, por ser o guarda mais leal e confiável do rei havia muitos anos, Cronus se acostumara a falar o que pensava quando necessário, sem temer a repercussão. Ele conquistaria seu lugar em qualquer palácio que os Damora ocupassem. E um dia seria leal a Magnus e obedeceria a todos os seus comandos.
Mas, infelizmente para Magnus, esse dia ainda não havia chegado.
— Quanta gentileza. Caminhar é uma coisa que com certeza meu pai acha que faço bem.
Cronus o encarou com uma expressão impassível.
— O próprio rei me mandou vir buscá-lo.
— E você, é claro, obedeceu sem hesitar.
— Ele sabe que você desenvolveu um gosto pelo vinho.
Magnus lançou um olhar curioso ao guarda.
— É mesmo? E o que meu pai acha disso?
— Ele compreende totalmente. Sabe pelo que você está passando e perdoa seus passos equivocados. Mas prefere que beba dentro do palácio de agora em diante, e não em estabelecimentos questionáveis como este, onde as palavras e ações de alguém, seja quem for, podem ser usadas contra ele.
— Quanta consideração. — A leveza que o vinho trouxera para a cabeça de Magnus começava a se desfazer. Ele se levantou da banqueta e encarou os clientes no fundo da taverna. — Meu pai perdoa todos os meus passos equivocados! Ele permite que eu beba até me entorpecer, pois isso vai me ajudar a aceitar meu destino! Sou o Príncipe Sanguinário, herdeiro do meu pai, e o caminho para o meu futuro está gravado em pedra. Vocês me temem como temem a ele, seus plebeus inúteis?
Cronus apertou o ombro direito dele com firmeza.
— Chega. Aqui não é lugar para um príncipe coroado, principalmente depois do caos de ontem. Não é seguro.
— Não encoste em mim. — Magnus empurrou a mão do guarda, mas dessa vez não foi tão gentil.
Cronus se manteve paciente como sempre.
— Preferiria que saísse daqui por vontade própria, mas tenho ordens claras do rei. Devo levá-lo de volta ao palácio e, se for preciso, vossa alteza, vou deixá-lo inconsciente e arrastá-lo até lá.
Cronus era quinze anos mais velho que Magnus e muito mais habilidoso e experiente. Não havia dúvida de que o guarda podia cumprir a ameaça — e cumpriria.
Magnus podia estar bêbado, mas não era burro.
— Tudo bem — ele resmungou. — Já terminei mesmo.
Os outros guardas trocaram olhares cautelosos quando Magnus saiu da taverna, com Cronus logo atrás. O ar do início da noite estava quente e tinha o perfume adocicado de rosas — flor e perfume oficiais de Auranos.
Limeros cheirava a gelo. Paelsia, a terra. Mas Auranos cheirava a rosas.
Magnus odiava rosas. Que outra função tinham além de serem bonitas?
Apesar de tropeçar ao caminhar pela via estreita pavimentada com pedras, manteve um passo acelerado e não olhou para trás nenhuma vez para ver se os outros acompanhavam seu ritmo. Não se importava.
Ele finalmente diminuiu a velocidade quando virou uma esquina e deu com seis guardas em frente a uma construção grandiosa com fachada de mármore branco, cercada de pilares, encaixada entre duas tavernas de pedra comuns.
— O que é esse lugar? — perguntou.
— É o templo da deusa Cleiona — Cronus disse.
— Esses lugares deviam ser derrubados — Magnus murmurou. Depois, perguntou em voz alta: — Por que há guardas aqui? Eles abandonaram Valoria para idolatrar outra deusa? Meu pai não ficaria muito satisfeito com isso, ficaria?
Cronus foi consultar um dos guardas e voltou um instante depois.
— Parece que a princesa Cleiona está lá dentro. Ela recebeu permissão para fazer suas preces aqui várias vezes por semana.
Era a última coisa que Magnus esperava ouvir. Até onde sabia, a princesa não tinha permissão para sair do palácio desde a excursão de casamento.
— Por que eu não sabia disso?
Cronus estendeu as mãos abertas.
— Foi decisão do rei.
— Foi? — Magnus não tirou os olhos das portas do templo. Ele deveria ter sido consultado. Por que ela estava recebendo tais privilégios? — Não era uma decisão que cabia ao rei. Não foi ele que foi forçado a se casar com ela.
— Todas as decisões cabem ao rei.
Era totalmente inaceitável.
— Espere aqui fora — ele ordenou. — Quero informar à princesa que esta é a última vez que poderá vir aqui.
Ele esperava que Cronus protestasse, mas o guarda apenas assentiu com toda paciência.
— Muito bem, alteza. Faça o que tem que fazer.
Magnus passou pelas portas do templo, deixando os guardas do lado de fora. O espaço parecia uma versão em miniatura do enorme Templo de Cleiona, onde ele e Cleo tinham se casado, grande o suficiente para abrigar milhares de pessoas. Mas isso antes do terremoto que reduzira o local a uma pilha de escombros, transformando-o em um perigo para qualquer um que quisesse correr o risco de entrar.
Embora aquele templo fosse muito menor, era enfeitado e belo. Piso de mármore branco. Bancos esculpidos. Uma estátua da deusa olhando para Magnus com uma expressão parecida com desdém. Os símbolos do fogo e do ar estavam gravados na palma de suas mãos erguidas.
“Você não é bem-vindo aqui, limeriano”, ela parecia dizer com desdém.
Que pena.
O templo estava vazio, com exceção da garota loira sentada na primeira fileira. Ela olhava para o gigantesco mosaico que retratava a deusa com os vales verdes de Auranos ao fundo. À esquerda havia fogo, queimando em chamas laranja e azuis; à direita, um furacão.
Cleo viu Magnus pelo canto do olho quando ele se aproximou e sentou na fileira de bancos perto dela, olhando fixamente para o mosaico.
— Veio aqui rezar? — ela perguntou.
Ele conteve uma gargalhada.
— Acho difícil.
— Então está aqui apenas para interromper minhas orações.
— Como se você estivesse mesmo rezando…
Ela o encarou com os olhos semicerrados.
— Me poupe dos olhares de acusação — ele disse, revirando os olhos. — Nunca vi nenhum sinal de que fosse devota às suas crenças religiosas. É igual a todos neste reino hedonista e egoísta. Sua religião não passa de uma série de belas estátuas de mármore enfeitando espaços ostentosos.
— Você tem direito à sua opinião.
O comportamento desdenhoso não a ajudaria em nada naquela noite.
— Você vem aqui para fugir do palácio, mesmo que signifique ser acompanhada por meia dúzia de guardas. É aqui que pode pensar em particular, talvez sobre qual seria a melhor maneira de nos destruir.
Cleo cruzou os braços diante do corpete do vestido.
— Ah, agora você consegue ler a mente das pessoas? É incrível como tem o talento de sempre saber exatamente o que estou pensando.
— Ficaria surpresa com o que sei sobre seus pensamentos, princesa.
Ela o avaliou com uma simples passada de olhos.
— Você está bêbado.
— Estou?
— Está arrastando as palavras.
Não estava arrastando nada. Cleo devia ter dito apenas para magoá-lo — seu objetivo constante.
— Peço desculpas por não ter sido claro. Vim dizer que esta é a última vez que terá permissão para vir aqui.
Ela não pareceu muito preocupada.
— O rei me disse que posso vir sempre que quiser.
— Não me importa o que o rei disse.
A princesa levantou o queixo.
— Que direito você tem de me impedir de fazer uma coisa que já foi aprovada por seu pai?
Como estava sendo tola. Magnus deu uma gargalhada.
— Que direito? Sou seu marido, princesa. Isso me dá o direito de impedi-la de fazer qualquer coisa que me desagrade.
Ela suspirou. Mas Magnus notou que era um suspiro de cansaço, não de derrota.
— Amanhã de manhã — ela disse — você terá esquecido esta conversa. Diga, quanto você bebeu? Quatro litros? Mergulhou de cabeça no vinho e nadou um pouco lá dentro?
— Acho que está tentando mudar de assunto.
— Acho que quem bebe demais quer esquecer os problemas.
— Ah, é mesmo? É o que você faz?
Ela fez uma pausa, aparentemente não se deixando afetar pelo golpe.
— Bebo muito menos do que costumava. Descobri que beber nunca me levou aos lugares aonde gostaria de ir.
— Ah, é verdade. O vinho a levou para a cama de Aron Lagaris, não é?
A expressão dela mudou.
— Que gentileza sua me lembrar disso.
— Mas, infelizmente, não vai mais se deitar na cama dele de novo. Deve ter se tornado um lugar bem frio.
Ele podia ver que Cleo se esforçava para conter as emoções, mas já estava com o rosto bem corado.
— Quer que eu saia daqui, mas não me parece com tanta pressa de ir embora. O que tem lá fora que quer tanto evitar?
— Tudo — ele disse sem pensar, sem querer.
Ela o analisou com cuidado.
— Acho que está bebendo para esquecer o que aconteceu com sua mãe.
O peito dele ficou apertado.
— Cale a boca.
Ela passou os olhos pelo templo, vazio com exceção dos dois.
— Pode não acreditar em mim, mas entendo a dor que sente. O desejo de vingança.
A conversa entre os dois raramente se tornava tão pessoal.
— Não sinto nada disso.
— Não acredito em você.
— Não me importo com o que acredita, princesa. Não estou procurando uma amiga.
— Talvez devesse. Pelo que vejo, não tem amigos com quem conversar.
O fato de Cleo parecer conhecê-lo tão bem irritava Magnus.
— Não preciso de amigos.
Ela o encarou por um instante silencioso e desconfortável, com a testa franzida.
— Você se esforça tanto para ser horrível, para ser cruel, permanecer desconectado de tudo que possa causar dor. Mas vi a expressão em seu rosto quando foi arrastado para longe do local das execuções ontem. Ficou desesperado quando Lucia desapareceu na multidão. Pensou que ela estivesse ferida.
Ele se encolheu por dentro ao saber que Cleo tinha notado sua fraqueza com tanta facilidade.
— Minha irmã sabe se cuidar, acredite. Ela ficou bem, apenas se perdeu por alguns momentos. E voltou ao palácio não apenas ilesa, mas com um belo tutor novo que encontrou na cidade. Que bom para todos.
Cleo levantou e sentou ao lado de Magnus. O gesto o surpreendeu, mas ele não deixou transparecer.
— Acho você… extremamente confuso — Cleo disse. — Mais confuso a cada dia que passa.
— Algumas garotas se confundem com facilidade.
— Vez após outra, você se prova vil, repulsivo e odioso.
Ele soltou uma gargalhada. Finalmente haviam voltado para termos mais familiares.
— Sua opinião é irrelevante para mim, princesa.
— Você é todas essas coisas. — Ela assentiu, como se concordasse consigo mesma. — Mas, quanto mais penso a seu respeito, mais você se torna um enigma. Ontem foi apenas mais um exemplo. Antes disso, teve a oportunidade de me expor como espiã ao seu pai, mas não fez nada. Podia ter deixado aquele rapaz me esfaquear em Limeros, mas o impediu. Você me defendeu quando Aron expôs a perda de minha castidade. Caso contrário, o rei teria me expulsado. E não contou sobre a adaga nupcial que o príncipe Ashur me deu.
Cleo falava como se ele tivesse feito aquelas coisas de propósito para ajudá-la.
— Está imaginando gentilezas onde não existem.
— Foi você que escolheu chamar de gentileza. Tem certeza de que não é isso mesmo? — Ela observou seu rosto, fazendo-o se sentir nu e exposto, como se as máscaras que levara tanto tempo para construir estivessem desmoronando como castelos de areia ao vento.
— Você não sabe nada a meu respeito — ele vociferou. Pela primeira vez, amaldiçoou o fato de ter bebido em excesso. Precisava da mente clara diante dos inimigos.
Por que se dera o trabalho de entrar? Apenas para impor sua vontade sobre aquela garota? Para fazê-la lembrar que não tinha poder algum? Para intimidá-la na tentativa de recuperar sua própria força?
Isso só o tornava mais fraco do que antes.
— Tudo o que posso fazer agora é pensar — Cleo disse depois de um longo silêncio. — O dia todo, a noite toda. Penso em tudo o que aconteceu e repasso tudo na cabeça. E sabe o que acho, Magnus?
Por que ele continuava ali ouvindo o que ela estava dizendo? Precisava sair daquele lugar.
— Não me importo com o que acha.
— Acho que odeia seu pai. Você o odeia quase tanto quanto eu.
Ele demorou um instante para se dar conta de que estava sem fôlego.
— Se estiver certa, que diferença faz? — finalmente conseguiu dizer.
— Toda a diferença do mundo.
Cleo estava sendo corajosa naquela noite, dizendo coisas ao homem embriagado que nunca diria ao sóbrio.
Ele não respondera diretamente, mas também não havia negado.
— Você não é como o rei — ela afirmou com toda a calma quando ele não respondeu.
Magnus se virou.
— Você está errada. Sou exatamente como o rei. Desejo ser um homem tão grandioso como meu pai. É tudo o que sempre quis.
Ela tocou o braço de Magnus, que recuou.
— Você deseja ser como um homem que corta a face de uma criança como castigo por uma malcriação sem importância?
Lançando um olhar feio para Cleo, ele levou a mão à cicatriz. Nunca devia ter contado essa parte de seu passado. Tinha exposto mais uma fraqueza, que ela estava usando contra ele.
— O que acha que está fazendo, me dizendo essas coisas?
Ela mordeu o lábio antes de responder.
— Apenas tentando ter uma conversa civilizada com você.
Já bastava.
— Então esta conversa civilizada felizmente chegou ao fim. — Magnus levantou e começou a sair. Mas, de repente, Cleo estava de pé, bloqueando seu caminho.
— Eu não terminei — ela disse.
— Ah, terminou, sim.
— Não, não terminei.
Já estava farto. Ele a pegou pelos braços, a virou e empurrou até encostar no mosaico. A deusa se agigantava sobre ela, uma guardiã temível, onipotente, tomando conta da princesa auraniana.
— Não há bondade dentro de mim, princesa, então por favor não perca tempo fantasiando que possa haver.
— Lucia é sua irmã, e ela não é má — Cleo disse.
— Quer a verdade, princesa? Lucia é adotada. Não temos o mesmo sangue, embora isso não faça diferença para ela. Tenho certeza de que ouviu os rumores; um irmão que deseja a própria irmã. É tudo verdade. Mas não se preocupe. Ela não está maculada com a ideia de que algum dia possamos ficar juntos. A fantasia era apenas minha, não dela. Ela sente tanta aversão por mim quanto você. É algo que tem em comum com a garota de quem está tentando ficar amiga.
Cleo parecia chocada. Ele sabia que essas confissões estavam saindo de seus lábios como vinho de um barril aberto, mas não se importava mais.
— Devo admitir que ela não me tortura mais como antes, dia e noite — ele continuou. — Ultimamente meus sonhos mais perturbadores não têm sido com minha irmã de cabelos escuros, mas com uma princesa de cabelos claros e dourados. — Magnus pegou uma mecha do cabelo de Cleo, que ia até a cintura, e a torceu em volta do indicador. Ficou olhando para ela, paralisado. — Sonhos com aquela a quem fui preso contra minha vontade.
Ela arregalou os olhos azuis.
— Você sonha comigo?
Ele voltou a encará-la.
— Apenas pesadelos.
Magnus desejava que fossem apenas pesadelos.
Tentou se afastar dela, mas Cleo agarrou sua camisa.
— Em vez de brigar o tempo todo — ela sussurrou —, podíamos encontrar um jeito de ajudar um ao outro. É possível que tenhamos objetivos similares.
Essas palavras eram mais do que suficientes para assinar sua sentença de morte. Será que ela era tão estúpida a ponto de dizer aquelas coisas ao filho do rei? Ou será que o conhecia tão bem que se sentia confiante para ser tão ousada?
Cleo queria o trono de volta. Sobre isso não havia dúvida. Queria que o reino voltasse para sua família, e queria o pai dele morto para que nunca mais pudesse ferir ninguém que ela amasse. Lutava por isso em silêncio, mas com ardor, a cada dia, em cada palavra que dizia.
E, naquele momento, parecia a garota mais corajosa e mais bela que ele tinha visto.
Os efeitos do vinho ainda percorriam sua mente e seu corpo, e o mundo cintilava à sua volta. Mas um pensamento era bem nítido.
Aquela princesa, que o encarava naquela noite com mais esperança do que ódio no olhar… Se ele permitisse, ela poderia destruí-lo.
Magnus escorregou as mãos por seu vestido de seda e envolveu sua cintura estreita. Ele podia sentir o batimento acelerado de seu coração ao pressionar o corpo junto ao dela.
A respiração de Cleo ficou trêmula quando a boca dele roçou a curva de sua orelha.
— Diga, princesa — ele sussurrou. — O que Theon diria se soubesse que me deixou chegar tão perto?
Cleo ficou sem ar e o empurrou. Os olhos dela estavam arregalados e brilhantes devido às lágrimas geradas pela dura lembrança de seu amor perdido.
Ela deu um tapa no rosto de Magnus, e a dor o impressionou. Era muito mais forte do que parecia.
— Como ousa dizer o nome dele! — ela vociferou, com lágrimas escorrendo pelo rosto.
Era a reação que ele esperava, que podia dar um fim àquele confronto perigoso.
— Não foi nenhum esforço cravar a espada nas costas dele e mandá-lo para o além. — Ele forçou um sorriso falso. — E você ainda sugere uma aliança comigo. Como esqueceu rápido quem são seus verdadeiros inimigos, princesa. Isso me faz questionar sua inteligência.
O rosto de Cleo estava em chamas.
— Eu odeio você.
— Ótimo. Nunca esqueça seu lugar no palácio. Você continua viva apenas porque meu pai não a quer morta. Você não tem poder aqui. E, mais importante: não tem poder sobre mim.
Magnus viu a emoção fazê-la hesitar, mas então seu olhar se tornou desanimado e morto, a cor viva de raiva desaparecendo de seu rosto. Ela tinha levantado a guarda de novo — o que não era nenhuma surpresa quando se tratava dele.
— Muito obrigada pelo lembrete — ela disse.
— Boa noite, princesa. — Com isso, Magnus deixou o templo sem olhar para Cronus, que ainda esperava do lado de fora.
— A princesa? — Cronus perguntou.
Ele fez um sinal com a mão.
— Deixe-a rezar até cansar. Não me importo com o que ela faz.
— Suas opiniões mudaram muito no breve período que passou lá dentro.
— Nada mudou. Só lembrei o quanto sou indiferente àquela criatura falsa.
— Indiferente?
Magnus olhou com severidade para Cronus.
— Sim.
— Se é o que diz…
Ele voltou ao palácio pelas ruas escuras da cidade sem fazer mais nenhum desvio por lugares perigosos.
Assim que chegou, foi direto ao pátio para ficar sozinho com seus pensamentos sombrios. Ainda havia uma névoa ébria em sua mente, mas ele sabia que a manhã traria arrependimentos por ter revelado tantas verdades secretas.
A verdade sobre a adoção de Lucia e seus sentimentos por ela.
E a verdade sobre Cleo.
Que verdade sobre Cleo? Não havia verdade nenhuma. Ela não passava de uma garota com quem fora obrigado a se casar. Mas, se não sentia nada por ela, por que continuava a protegê-la? Não tinha se dado conta de que era isso que estava fazendo até ela tocar no assunto, mas a princesa tinha razão. Repetidas vezes, optara por mantê-la em segurança.
Magnus se lembrava nitidamente do encontro com Theon Ranus. Foi a primeira pessoa que matou. Na época, não sabia que Theon estava protegendo Cleo não só por ser um guarda do palácio enviado para resgatar a princesa em uma terra perigosa, mas porque a amava. E ela o amava também.
Não foram apenas as ordens de seu pai que mandaram Magnus para lá naquele dia. Foi o destino. Na época, ele era apenas um garoto sem experiência em batalha. Magnus matou o guarda para salvar a própria vida. Não se arrependia nem um pouco… exceto pelo puro ódio nos olhos de Cleo depois que a tarefa foi executada.
Mas ela era a filha do inimigo de Limeros. Seu pai havia conquistado o reino de Cleo, e ela deveria ser grata a ele por deixá-la viver mais um dia.
O fato de ter dedicado um único pensamento a ela quando havia tantas coisas mais importantes com que se ocupar era mais do que ridículo.
Andando de um lado para o outro no pátio, disse a si mesmo que ela não passava de um inconveniente.
— Minha nossa, príncipe Magnus, você parece muito chateado. Está tudo bem?
Ele se virou e viu a princesa Amara sentada nas sombras, em um banco próximo. A luz da lua refletia em seus cabelos escuros e nas joias que usava no pescoço.
— Peço desculpas. Não notei que estava aí — ele disse.
Logo depois do ataque, o rei insistiu que Amara ficasse no palácio por alguns dias, achando que ainda pudesse haver rebeldes por perto. Era uma cortesia que havia feito apenas por acreditar que não havia escolha — inimiga em potencial ou não, não seria de bom tom jogar um membro da realeza aos lobos.
— Estou feliz por ter a chance de falar com você a sós — Amara levantou do banco. — Queria me desculpar pelo que aconteceu na quinta.
Magnus se esforçou ao máximo para ser o mais cordial possível, apesar do estado de ânimo em que se encontrava.
— Do que está falando?
— Do beijo. — Amara olhou para ele sem um pingo de constrangimento. — Sinto que pode ter sido uma ofensa.
— De modo algum. — Se ao menos beijos roubados por belas princesas visitantes fossem seu único problema…
Amara se aproximou.
— Você e eu temos tanto em comum, não temos? Nossos pais são homens importantes com um desejo insaciável de aumentar seu poder.
— É verdade.
Amara era totalmente diferente de Cleo. Era tão intrigante e bela quanto, sem dúvida, mas Magnus não se sentia atraído por Amara como uma mariposa por uma chama. Não tinha o poder de fazê-lo arder com um olhar, com um toque.
Ela o observou na escuridão.
— Às vezes é bom encontrar alguém com quem temos afinidade, mesmo que a situação não seja totalmente ideal. É bom encontrar consolo em alguém assim, talvez se permitir uma noite de prazer com um amigo compreensivo quando, durante o dia, o mundo está cheio de inimigos. Não concorda?
Magnus não precisava pensar muito para entender o que ela estava querendo dizer.
— Concordo plenamente — ele afirmou.
Ele a puxou para perto, e sua boca tomou a dela, mergulhando, deixando-a comandar seus sentidos.
Sim. Era exatamente do que precisava naquela noite.

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