3 de setembro de 2018

Capítulo 16

CLEO
LIMEROS

— Deixe-me tentar entender — Nic disse para Cleo. Ele estava nos aposentos dela enquanto Nerissa a ajudava a pentear o cabelo. — Jonas Agallon invade as dependências do palácio e aponta uma espada para a garganta do príncipe. Nesse momento Magnus descobre que você mentiu sobre ter trabalhado com Jonas durante meses e, em vez de matar os dois, ele decide devolver seu reino?
Cleo olhou para o reflexo de Nic no espelho.
— Parece bem difícil de acreditar quando a história é contada desse jeito. Você acha que ele está mentindo?
— Desculpa, mas você está mesmo me perguntando se acho que o príncipe Magnus, filho do Rei Sanguinário e irmão de uma feiticeira enlouquecida pelo poder, mentiria para a antiga princesa de Auranos? Está falando sério?
A presunção de Nic conseguia irritar Cleo ao máximo — principalmente porque ele quase sempre tinha razão para ser presunçoso e desconfiado. No momento, ela queria se apegar à crença de que Magnus estava sendo sincero. Afinal, se Magnus quisesse mesmo o pai morto, precisaria de Jonas para ajudá-lo a colocar a ideia em prática. E se ele se importava apenas com Limeros e não queria ter que lidar com os problemas de controlar os três reinos, então tudo realmente fazia sentido.
Por sorte, Nic não era a única pessoa em cuja opinião ela confiava.
Era tão maravilhoso ter Nerissa de volta, a bela garota com cabelo curto e escuro e mais sabedoria nos olhos do que qualquer pessoa de dezoito anos de idade. Pelo pequeno favor de trazer Nerissa de Auranos para o norte, Cleo sentia uma gratidão imensa em relação a Magnus. Ele facilmente poderia ter negado seu pedido.
Não que Cleo tivesse aceitado aquela resposta como definitiva.
Cleo pegou a mão da garota.
— Nerissa, o que você acha?
Nerissa colocou a escova de cabelo com cabo de opala sobre a penteadeira e olhou para o reflexo de Cleo no espelho.
— Você disse que já concordou com esse novo plano — ela comentou —, então acho que deve honrar o acordo. Esse estágio da ideia do príncipe está muito mais relacionado com Jonas do que com você. Ao que parece, nada mudou. Exceto, talvez, seu atual questionamento sobre o príncipe ser ou não capaz de honestidade a respeito de suas verdadeiras intenções.
— Acho que está certa — Cleo respondeu.
— Você disse que ele a perdoou por ter conspirado com Jonas.
— Ele disse que entende o que fiz e meus motivos.
Nic soltou um resmungo exasperado.
— Como vocês duas não entenderam ainda? Se a boca do príncipe está se mexendo, ele está mentindo.
O olhar de Cleo ficou carregado de frustração.
— E se ele não estiver mentindo o tempo todo? Vamos apenas desistir da primeira chance que tivemos em meses de retomar nosso reino?
— Mas e se ele estiver mentindo, enganando você mais uma vez? Cleo, que droga — ele praguejou em voz baixa. — Não posso perder você também. Entendeu? — Seu tom de voz era sério, mas os olhos estavam marejados. Ele os esfregou e virou de costas para ela. — Preciso tomar um ar, mesmo correndo o risco de congelar meus pulmões.
Ele deixou o quarto, e Cleo levantou para segui-lo.
— Deixe-o esfriar a cabeça — Nerissa disse, colocando a mão sobre o ombro da princesa. — Isso lhe dará tempo para fazer o mesmo.
— Nerissa... Não sei mais em que acreditar. Tudo costumava ser tão claro, e agora... estou tão confusa. — Sua voz falhou. — Nem tive a chance de falar com Jonas em particular.
Magnus tinha acomodado o rebelde e suas amigas na outra extremidade do castelo, mas Cleo não sabia exatamente onde. E o príncipe deixou claro que não contaria a ela.
— Sim, é claro que precisa falar com ele — Nerissa disse. — Mas primeiro precisa falar com o príncipe. Se conseguir eliminar as camadas de animosidade e desconfiança e... confusão que está sentindo, talvez perceba que seu senso de lucidez não está tão prejudicado quanto pensa.
A ideia de falar com Magnus depois de tudo o que havia acontecido na sala do trono fez seu corpo arrepiar.
Não, ela não se permitiria temê-lo. Odiá-lo? Abominá-lo? Desconfiar dele? Sim. Mas temer, nunca. Ela tinha tomado essa decisão havia muito tempo.
Ainda assim, Cleo balançou a cabeça.
— Hoje é o dia do silêncio em Limeros. Eu nem saberia onde encontrá-lo. — Cleo nunca tinha vivenciado um único dia de silêncio no palácio auraniano, e testemunhar tanta quietude em um lugar tão austero como o castelo era a coisa mais desagradável que era capaz de imaginar.
— Este dia de devoção só vai tornar mais fácil encontrá-lo e falar com ele em paz — Nerissa argumentou. — Todos em Limeros estão reunidos nos templos e centros comunitários para venerar a deusa. E, por acaso, sei exatamente onde o príncipe foi praticar sua adoração.
— Onde?
— Ele está bem aqui, no palácio, passando o dia no templo real. — Cleo a encarou admirada. Ela nem sabia que havia um templo real dentro do castelo. Nerissa sorriu. — Fiz amizade com Enzo, um jovem guarda do palácio. Ele tem muitas informações úteis. Agradeço muito por ter nos apresentado, princesa.
— Vocês ficaram muito amigos, não foi? — Cleo conhecia a proficiência de Nerissa na manipulação de homens receptivos e ingênuos e não conseguiu deixar de achar graça. — Fico feliz por você já estar se divertindo tão pouco tempo depois de sua chegada.
— Limeros é muito mais fascinante do que eu imaginava. E, para ser sincera, Enzo também.
— Bem, fico satisfeita em saber que pelo menos uma de nós está feliz aqui.
Nerissa abriu um sorriso largo.
— Vá ter aquela conversa com o príncipe. Tenho muita fé que você, mais do que qualquer outra pessoa, será capaz de arrancar algumas palavras do príncipe Magnus hoje.
Cleo caminhou até a ala oeste do castelo, que ficava no mesmo nível do alto penhasco. Ela foi até o fim de um corredor e abriu duas grandes portas de ébano esculpidas com uma série de serpentes retorcidas. Lá dentro, esperava encontrar uma pequena réplica do templo central localizado perto de Pico do Corvo — escuro e sinistro, muito diferente dos templos dedicados à deusa de quem Cleo herdara o nome, adornados com mosaicos, ouro e pedras preciosas.
Em vez disso, embora o pequeno templo tivesse piso de granito preto e grandes bancos de madeira de frente para um altar de obsidiana, apresentava uma outra característica tão surpreendente a seus olhos que Cleo foi incapaz de conter a admiração. Na parede oposta à entrada do templo havia três janelas que iam do chão até o teto com vista para o Mar Prateado, permitindo visão total do sol se pondo e das cores do céu: vermelho, laranja, roxo e azul. Ela conseguiu desviar os olhos da maravilhosa vista, então procurou os fiéis.
Viu apenas uma figura, o príncipe Magnus, sentado na frente, virado para a janela e de costas para ela.
Cleo caminhou devagar pelo corredor e se sentou em um banco bem atrás do príncipe.
— Essa vista... — Cleo comentou depois de alguns instantes. — Dá para entender por que quis passar o dia aqui. É tão lindo... E, devo admitir, tão inesperado em um lugar como este.
Ele não respondeu, mas Cleo não desistiu. Ela se debruçou sobre o encosto do banco dele. Seu cabelo castanho-escuro tinha crescido bastante nos últimos meses, e Magnus não tinha se dado ao trabalho de apará-lo. Ele não cheirava a couro quente, como quando saía para cavalgar. Naquele dia, seu perfume era de sândalo, como de costume, e algo cítrico. Seria uma nota de limão? Limões eram uma iguaria na gelada Limeros, muito caros para importar.
— Você coloca açúcar nos seus limões? — ela perguntou. — Nunca consegui comer sem açúcar. Sempre preferi que fossem espremidos e transformados em bebidas adocicadas.
Mais uma vez, Magnus não respondeu. Mas, na verdade, aquilo era muito mais agradável do que discutir.
Ela pousou o olhar sobre a cicatriz dele — uma linha irregular que ia do alto da orelha direita até o canto da boca. O rei tinha feito aquilo com Magnus, retalhado seu rosto por tentar roubar uma bela adaga durante uma visita ao palácio auraniano.
Ele tinha sete anos de idade. Receber uma punição tão violenta tão novo...
— Por que está aqui? — ele finalmente perguntou, a voz grave transformada em pouco mais que um sussurro.
O fim do silêncio a arrancou de seus pensamentos.
— Ele fala.
— Só para perguntar por que me interrompeu em um momento visivelmente inapropriado.
— Conheço as tradições deste dia, mas, mesmo assim, você passa muito tempo pensando sozinho. Tanta solidão não faz bem para a alma. — Ela olhou para baixo e viu um livro com capa de couro equilibrado no colo do príncipe. — Está pesquisando mais sobre magia?
— Que bom que você resolveu ser tão falante justo hoje. — Ele segurou o livro, cuja capa tinha uma estampa dourada com o nome LUKAS e o contorno do que parecia um pequeno país ou uma ilha.
— Lukas. Seu segundo nome — ela afirmou.
— Muito bem, princesa. Você prestou atenção. — Ele passou o dedo indicador sobre as letras. — E é daqui que vem o nome. Da Ilha de Lukas.
Isso mesmo. A ilha lhe era familiar. Ficava a cerca de oitenta quilômetros do extremo sul de Auranos, mas ela não pensava nela havia séculos.
— Já ouvi falar. Quis visitar alguns verões atrás, mas na época meu pai estava furioso comigo por ter deixado alguns amigos entrarem escondidos em um baile real, então não me deixou ir como castigo. — Ela franziu a testa. — Dão aulas de arte lá, não dão?
— Entre outras coisas.
Ela percebeu que o livro não pertencia à biblioteca. Era um caderno, semelhante ao que sua irmã tinha. Emilia havia frequentado aulas de arte na ilha, no mesmo verão em que descobrira que sua destreza no arqueirismo era muito maior do que o talento para desenhar árvores e flores. A mãe de Cleo também tinha estudado lá fazia muito tempo. O caderno de desenho de Elena Bellos era uma das únicas recordações que Cleo tinha da mãe, falecida tragicamente ao dar ela à luz.
— Seu nome é uma homenagem a uma ilha? — Cleo perguntou.
— A rainha queria usar o nome do meu avô, Davidus, pois acreditava que um dia eu seria um grande rei, como ele havia sido. Foi meu pai que insistiu em colocar Lukas. Ele passou uma temporada na ilha quando era jovem, assim como fiz três verões atrás. Imagino que o fato de ter me dado o nome da ilha queira dizer que o tempo que passou lá foi importante. Ou talvez tenha detestado e quis ter um lembrete constante. Ele nunca se preocupou em me explicar o motivo.
Cleo não conseguiu conter o riso.
— Está dizendo que você e o rei Gaius fizeram aulas de arte? Os limerianos não reprovam essas atividades frívolas?
— Há algo nobre em aprender como reproduzir perfeitamente uma imagem, o tipo de nobreza que faz meu pai achar que a arte às vezes pode ser um passatempo digno.
— Você disse perfeitamente. Deixe-me ver com meus próprios olhos se seus desenhos são bons. — Ele permaneceu imóvel, segurando o caderno com firmeza, então ela se debruçou ainda mais sobre o banco. — Vamos, não seja tímido.
Sentindo-se ousada, ela estendeu o braço e pegou o caderno, e Magnus não a impediu.
Cleo esperava não encontrar nada além de poucas páginas com rascunhos inacabados e sem inspiração do tedioso verão de Magnus em Lukas. Mas encontrou um caderno completo, do início ao fim, com dezenas de desenhos bonitos, todos diferentes, e um mais impressionante que o outro.
— Isso é incrível — ela disse, sem conseguir tirar os olhos da descoberta mais surpreendente a respeito do marido.
A primeira metade do caderno estava preenchida por desenhos que retratavam vários aspectos da Ilha de Lukas, desde paisagens até detalhes de pequenos roedores com cauda peluda e retratos de jovens, que Cleo presumiu serem os colegas de classe de Magnus. Mas quando chegou à segunda metade, ela notou uma mudança abrupta de temática. O resto do caderno continha apenas retratos, e todos eram de Lucia. Lucia olhando pela janela, Lucia andando pelos jardins, Lucia segurando uma flor, Lucia sorrindo, Lucia gargalhando.
Cada um retratava a imagem dela à perfeição, sem desprezar nenhum detalhe. Apenas o retrato da última página estava inacabado. Magnus só tinha esboçado dois olhos, que inequivocamente pertenciam a Lucia — desenhados com tanta nitidez que pareciam perfurar Cleo.
Ele sempre será meu, Lucia parecia dizer a ela. Esta é a única prova de que precisa.
Magnus pegou o caderno da mão dela e olhou para o último desenho de sua irmã adotiva.
A boca de Cleo estava seca.
— Foi por isso que veio aqui hoje, por isso queria ficar sozinho. Não para honrar este dia de adoração, mas para olhar seus desenhos. Você está preocupado com ela, não está?
Magnus não respondeu, mas cerrou os dentes. Cleo se levantou e foi sentar ao lado dele. Quando apoiou a mão sobre a do príncipe, ele ficou tenso, mas não se afastou.
— Você a ama — ela disse.
— Mais do que tudo.
Cleo sempre soube que era verdade, independentemente do que havia acontecido entre ela e Magnus. Ainda assim, algo em seu interior se contorcia de forma desagradável diante daquela admissão tão fácil. Ela passou por cima daquilo.
— E ela também o ama — Cleo disse. — Mas Lucia não é ela mesma neste momento. Aquele homem, Kyan... ele a está manipulando.
— O homem de fogo. Ouvi rumores a respeito dele nos últimos meses. Pensei que não passavam disso: rumores. — Ele olhou para a mão de Cleo. — Sabe, não parece que faz tanto tempo que estávamos sentados em outro templo, tendo outra conversa séria.
Ela se lembrava daquela noite na Cidade de Ouro com muita clareza. Sua necessidade de se aliar a Magnus era tão forte que ela pensou que podia de fato ser uma possibilidade.
Em vez de brigar o tempo todo, Cleo havia dito a ele, podíamos encontrar um jeito de ajudar um ao outro.
Desde então, Cleo tinha aprendido muita coisa sobre os perigos de simplesmente dizer seus pensamentos. Aqueles eram o tipo de pensamentos que seriam usados contra ela depois.
— Você estava embriagado aquela noite — ela afirmou, tentando usar um tom indiferente.
— Estava. Embriagado demais. Foi na mesma noite que levei Amara para minha cama. Achei que precisava estar com alguém muito menos... hostil que você. Foi revigorante, por um tempo.
Cleo tentou não demonstrar nenhum sinal do desgosto que sentia sobre aquele assunto.
— Todos cometemos grandes erros de julgamento.
— De fato. — Pela primeira vez desde que ela tinha entrado no templo, os olhos escuros e desanimados de Magnus olharam direto nos seus. — É uma pena, na verdade. Formamos uma dupla incrível, Amara e eu. Seus dons como amante não têm comparação, até mesmo em relação às cortesãs mais cobiçadas. Talvez, se ela tivesse confessado o verdadeiro motivo da visita ao meu quarto, eu teria compartilhado o cristal com ela.
Cleo soltou a mão dele, ficando com o sangue ácido.
— Não acredito em você.
— Verdade? É mais difícil de acreditar do que uma união secreta entre você e Jonas Agallon?
Ela estava errada. Seus olhos não estavam desanimados e indiferentes, e sim cheios de indignação.
— Achei que você tinha dito que entendia meus motivos.
— Entender? Sim. Aprovar? Não. Você tem um talento surpreendente para ocultar a verdade. Parabéns, princesa.
Como ela podia ter demorado tanto para perceber que Magnus estava furioso com ela?
— E daí? — ela disse, abandonando qualquer esperança de manter a diplomacia e partindo direto para o interrogatório. — Você também estava mentindo, não? Sobre esta nova aliança? Sobre o que vai acontecer depois?
— Finalmente a princesa revela suas verdadeiras intenções, o verdadeiro motivo de ter me procurado neste dia de devoção. Não tem interesse nenhum nos detalhes do meu passado.
— Não podem ser as duas coisas? Por que não posso querer informações sobre meu futuro e ter curiosidade sobre o seu passado ao mesmo tempo?
— Esta conversa está encerrada. — Ele levantou e caminhou na direção da saída, e Cleo correu atrás dele para bloquear seu caminho.
— Não, a conversa não está encerrada — ela bufou.
— Responda uma coisa, princesa: o que, exatamente, existe entre você e Agallon? É mais do que uma aliança amigável entre uma princesa e um rebelde?
— O que está insinuando?
Magnus olhou feio para ela como se fosse uma criança evitando, de propósito, dar uma resposta.
— Está apaixonada por ele?
Ela ficou boquiaberta.
— O quê?
— Sob quaisquer outras circunstâncias, eu não me importaria, é claro. Mas se vocês estiverem apaixonados, será muito mais complicado nós três seguirmos em frente.
— Você ficou louco.
— “Sim” ou “não” seria suficiente. Considerarei sua resposta como um... “talvez”. É bom saber, princesa. Fico muito grato.
Cleo pegou no braço dele e apertou com força.
Magnus olhou feio.
— Me solte.
— Ainda não. Preciso que ouça o que tenho para dizer.
Cleo se esforçou para encará-lo nos olhos, tentando ver além da raiva e da incerteza em seu olhar. Havia mais alguma coisa ali? A nova máscara que ele usava era maravilhosa, mais grossa e forte do que nunca, encobrindo todas as emoções, à exceção da raiva.
Mas toda máscara podia ser quebrada.
— O que precisa me dizer? — o príncipe finalmente perguntou.
Ela respirou fundo e reuniu o máximo de confiança possível.
— Eu de fato me apaixonei por alguém. Alguém que muitos diriam ser a pessoa mais errada para mim. Mas não me importei.
Ele a observou por um longo momento.
— É mesmo, princesa? E quem era essa pessoa?
Com ousadia, ela colocou a mão sobre o coração dele para sentir seu ritmo acelerado.
Ele ficou olhando, franzindo a testa enquanto a encarava.
— Quer mesmo saber? — ela perguntou, com a voz bem suave.
Magnus ficou tanto tempo em silêncio que ela não sabia se voltaria a falar. Então, finalmente, ele assentiu.
— Quero.
Ele a observava com um olhar sombrio enquanto ela mordia o lábio. Cleo já tinha visto aquela escuridão em seus olhos antes, e sabia que não vinha da raiva.
— Princesa — ele pediu. — Diga.
Ela o encarou.
— O nome dele era Theon Ranus — ela afirmou. — E você o assassinou.
Magnus se afastou dela, fechando a expressão que antes demonstrava sensibilidade.
— Às vezes eu esqueço aquele dia. — Ela tentou ignorar a dor em seu coração enquanto falava. — Mas algo sempre acaba me fazendo lembrar. Boa noite, Magnus.
Cleo saiu do templo sem olhar para trás.


Havia uma mensagem esperando por Cleo quando ela voltou a seus aposentos.

Encontre-me em meu quarto.
Nerissa

Cleo foi às pressas até a ala dos empregados e bateu na porta de Nerissa.
— Ótimo, você está aqui — Nerissa disse, abrindo a porta de imediato e agarrando Cleo pelo punho para puxá-la para dentro. Ela colocou a cabeça para fora, olhou para os dois lados do corredor, depois virou e sorriu para a princesa.
— Vou deixar vocês dois conversarem sozinhos. Mas, por favor, não demorem.
— Nerissa, o que você...?
Mas antes que Cleo tivesse tempo de terminar, Nerissa saiu do quarto e fechou a porta.
— Bem, vossa alteza, depois de uma pequena eternidade, parece que finalmente estamos a sós de novo.
Cleo se virou, com olhos arregalados, e se viu frente a frente com Jonas. O rebelde não estava mais usando aquele tapa-olho ridículo, o que era um alívio — principalmente porque, quando o viu com aquilo pela primeira vez, achou que ele tinha sofrido um terrível acidente. Ou que Magnus fosse o responsável.
Cleo respondeu à saudação de Jonas com um silêncio aturdido, e logo a expressão de satisfação dele tornou-se hesitante.
— Sinto muito pela maneira como cheguei. Não era minha intenção comprometê-la... e tenho vontade de me bater por isso. Acredite, Lys prometeu me estrangular na primeira oportunidade que tiver por quase condenar todos nós à morte. Foi idiota e irresponsável, mas garanto que...
Cleo atravessou o quarto correndo e se jogou nos braços dele.
— Eu estava tão preocupada com você!
— Oh. — Ele ficou tenso, depois riu de leve e a puxou para mais perto. — E eu estava esperando um belo tapa! Assim é mil vezes melhor.
— Por que veio até aqui? Devia saber que estaria correndo muito perigo.
— Por quê? — Ele tirou o cabelo do rosto. — Para salvar você, claro. E para matar o príncipe. Nessa ordem.
— Não preciso ser salva.
— Sim, bom, mas como eu poderia saber? Você desapareceu de Auranos. Poderia estar morta. Não mandou nenhuma mensagem para avisar que estava em segurança.
— E para onde eu deveria enviá-la? Para alguma casa da árvore nas Terras Selvagens? Ou deveria mandar por Nerissa e colocá-la em perigo?
— Se tem uma pessoa que sabe se virar é Nerissa.
— Eu também.
— É, sei disso agora. Parece que conseguiu domar a mais sinistra das feras. — Ele tentou sorrir, mas Cleo percebeu que estava tenso. — E eu achando que vocês se odiavam...
— Nós nos odiamos. Eu o odeio. — Basta disso, ela não tinha muito tempo com Jonas e queria discutir questões mais importantes. — Jonas, sei que recebeu minha última mensagem. As instruções para ir ao Templo de Cleiona...
— Recebi. E as segui à risca. Na verdade, ainda estávamos lá quando você e sua comitiva chegaram.
— Você... o quê?
Aquele olhar travesso estava de volta, e o sorriso parecia muito menos tenso do que antes.
— Sabia que era arriscado ficar ali, mas não consegui resistir à chance de ver a decepção no rosto do príncipe ao se dar conta de que alguém tinha chegado antes dele para invocar o cristal da terra. Impagável.
Uma onda de alívio agitou-se no peito de Cleo, e ela ignorou a alfinetada em Magnus.
— Então está com você?
— Ah, sim. — Ele colocou a mão no bolso e tirou uma esfera de obsidiana pequena o bastante para caber na palma da mão.
Ela prendeu a respiração.
— É isso — ela conseguiu dizer. Estendeu a mão trêmula para pegar a esfera. — O cristal da terra! É real!
— E é seu. — Jonas depositou o cristal sobre a palma da mão da princesa. — Eu o mantive em segurança para você. E aquecido. Tão aquecido que parecia que estava chocando um ovo.
Essa realidade era mais do que ela poderia esperar — mais do que estava se permitindo esperar. O cristal da terra, bem ali... Magia infinita ao alcance de suas mãos. Com ele, poderia reaver seu trono com facilidade. Ela sentiu o formigamento da magia subir pelo braço enquanto olhava para a superfície brilhante e jurou ter visto uma sombra cor de ébano girando dentro da esfera.
Ela estava sem fôlego.
— Jonas... Obrigada. Prometo recompensá-lo muito bem quando tudo isso acabar. Terá mais riquezas do que pode sonhar. E os cristais do ar e do fogo? Você os invocou também?
— Bem, princesa, viajamos aos locais que descreveu, desenhamos os símbolos com sangue no chão exatamente como você disse... mas não funcionou. Não como funcionou com o cristal da terra. Só estou com este. Sinto muito.
— Não, Jonas, por favor, não se desculpe. Encontrar um já é um milagre. Isso é maravilhoso. — Ela apertou a esfera, descobrindo que o simples peso da pedra em sua mão lhe dava força. — Agora... como funciona?
Jonas franziu a testa.
— Não tenho a mínima ideia. Você tinha instruções tão precisas sobre como encontrá-la... mas não sabe como usá-la?
Cleo ficou olhando para ele por vários minutos, em choque, e depois caiu na gargalhada.
— Também não faço a mínima ideia!
— Que azar. Eu já estava completamente preparado para ver você se transformar em uma deusa da terra, toda poderosa, e subjugar a todos nós.
Embora Cleo estivesse decepcionada por ainda não poder ter acesso a todos os segredos e poderes do cristal, também sentiu um grande alívio. Se ela não sabia como liberar o poder do cristal da terra, significava que Amara provavelmente também não sabia liberar o do cristal da água.
— Princesa, eu tenho um plano — Jonas disse com uma seriedade pouco usual. — Acredito ter provado ser digno de sua confiança, então espero que ouça com atenção.
Cleo assentiu.
— Nunca duvidei de você.
— Nunca? Verdade?
Ela sentiu o rosto aquecendo.
— Bem, depois que você me sequestrou... duas vezes... e tentou me matar, acabamos chegando a um acordo.
— Eu me sentiria muito melhor se você conseguisse esquecer os sequestros. Pelo menos o primeiro.
Cleo arregalou os olhos.
— Aqueles dias que passei presa no galpão de sua irmã foram muito desagradáveis.
— Eu cavei um penico improvisado muito bom para você. Não teria feito isso por qualquer refém da realeza, sabia?
Ela fez uma careta.
— Obrigada por me lembrar disso. Realmente quero esquecer que aconteceu.
— Sabia que mudaria de ideia.
Cleo sorriu e voltou a observar o cristal, os pensamentos girando em sincronia com a magia presa lá dentro.
— E então? Qual é o plano?
— Não confio no príncipe. Nem um pouco.
— Não? Parecia confiar quando concordou em ajudá-lo a matar o pai dele... antes e depois de ser acorrentado.
— É, bom, por sorte, tive tempo para pensar desde então. Provei que sou digno de confiança, provei a muitas pessoas nos últimos meses, mas ele, não. Não estou disposto a correr mais nenhum risco por causa dele. Lys, Olivia e eu vamos embora. E você vem conosco. Podemos descobrir como fazer o cristal funcionar e reconquistar nossas terras por conta própria assim que estivermos bem longe daqui.
Cleo já havia tido muitas oportunidades de simplesmente sumir do palácio limeriano desde quando chegaram às docas de Pico do Corvo. Mas não o fizera. Sentia que tinha mais coisas para descobrir ali, mais a ganhar, e que fugir apenas a deixaria na mesma posição em que estava.
— Sei que o príncipe tem princípios morais que, na melhor das hipóteses, podem ser descritos como “questionáveis”. Quero ficar longe dele tanto quanto você. Mas preciso ficar mais um tempo por aqui. Preciso saber onde o rei está e quais são seus planos.
— Podemos rastrear o rei de qualquer lugar.
Ela balançou a cabeça.
— Vai ser muito mais difícil sem os recursos e as informações de Limeros. Jonas, também tenho um plano. Espero que esteja disposto a me ajudar a colocá-lo em prática.
Jonas abriu a boca, como se estivesse pronto para argumentar contra sua decisão, mas assentiu.
— Muito bem. Que plano é esse?
— Temos um cristal, mas não sabemos como liberar sua magia. No entanto, acredito que um Vigilante deve conhecer esse segredo.
— Bem, então me deixe estalar o dedo e nos transportar até o Santuário para encontrar um — Jonas disse, sarcástico.
— Por favor, apenas ouça. Conheço uma Vigilante exilada que vive em Paelsia. Ela me falou das lendas, contou histórias que eu nunca tinha lido nem escutado antes. Relatos reais de Eva, a feiticeira original, e de seu caso de amor com um caçador mortal. Eva teve um filho com ele antes de as deusas a matarem pela Tétrade. — Cleo parou e respirou fundo, depois voltou a encarar Jonas.
Jonas ficava mais sério a cada palavra. Ela podia ver naqueles olhos castanhos a paciência brigando com o ceticismo.
— Continue.
— Preciso que você e suas amigas visitem essa Vigilante exilada e descubram se ela sabe como liberar a magia. Nic pode ir com vocês; ele vai saber onde encontrá-la.
Ele levantou uma sobrancelha.
— Está sugerindo que Nic, Lys, Olivia e eu devemos simplesmente fugir e deixá-la aqui, sozinha, com um príncipe que pode muito bem estar tramando sua morte?
— Vou ficar bem. Sei me cuidar sozinha.
— Sim, já provou isso. — Ele coçou o queixo e franziu a testa. — Vou dizer uma coisa: seu plano é muito mais intrigante que o meu.
Ela tentou não sorrir ao ouvir aquilo.
— Parabéns, rebelde.
— Acha mesmo que o príncipe vai nos deixar sair do palácio com tanta facilidade?
— Seu plano era ir embora daqui, não era?
— Sim, mas era com a certeza de nunca mais voltar. A segurança daqui não é tão impenetrável quanto a de Auranos, mas ainda é um palácio, e ainda há muitos sentinelas controlando todos os que entram e saem.
Jonas tinha um excelente argumento. E mesmo que Magnus não tivesse anunciado a todos que o líder rebelde paelsiano atualmente era um “hóspede” do castelo, ele teria muitas perguntas se, de repente, Jonas e suas amigas fossem embora do nada.
— Vou falar com Magnus e dar a ele um excelente motivo para sua saída temporária — ela disse com confiança. — Vou guardar o cristal da terra aqui comigo. Aquela Vigilante exilada pode ser muito gentil e sábia, mas não tenho certeza se posso confiar isso a ela.
Jonas cruzou os braços e a observou.
— E vai ser fácil assim? Ele simplesmente vai aceitar sua palavra sem questionar?
— Vai ter que aceitar. Senão meu plano não vai dar certo.
— Não, princesa. Eu cuido disso. Se vou levar esse plano adiante, não quero que se prejudique. Quando ele perguntar por mim, você vai simplesmente dizer que nem imagina para onde fui, que parti sem dizer nada. Lido com as consequências quando voltar.
O coração dela ficou leve.
— Então está dizendo que concorda? Que vai até lá?
Ele caminhou até o outro lado do pequeno quarto, ainda de braços cruzados. Cleo prendeu a respiração enquanto aguardava a resposta. Finalmente, Jonas se virou para ela e sorriu.
— Será uma honra, vossa alteza. Mas quando eu voltar, sem dúvida bem-sucedido, como um grande herói, vou pedir algo em troca. Algo que não tenho há muito tempo.
Ela ficou com o coração acelerado.
— Qualquer coisa. O que é?
Ele abriu um sorriso ainda mais largo.
— O beijo de uma princesa.

Um comentário:

  1. Ah,coitado, mal sabe ele...
    Ele devia se contentar com Lysandra, porque é meio bad ele ficar desse jeito, beijando a rebelde e pedindo beijos de Cleo.
    Aliás, por um louco segundo, pensei que ela ia dizer que tinha se apaixonado por Magnus, mas que ilusão a minha!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!