29 de setembro de 2018

Capítulo 16

PUXEI A FACA DO CINTO DE JIN. Houve piedade e então uma fuga covarde, e os covardes já tinham seguido adiante. Pressionei a faca contra a ferida, e o veneno escuro vazou. Limpei-o na camisa antes de encostar a faca de novo em sua pele. Fiz isso de novo e de novo até meu pescoço queimar do sol e sair mais sangue do que líquido negro.
— Jin! — Dei um tapa forte na cara dele. Seus olhos pareceram ainda mais apertados, então bati de novo. Seus olhos abriram. — Jin! — Segurei os ombros dele. — Não ouse adormecer de novo.
Seus olhos se abriram só um pouquinho, o suficiente para me enxergar.
— Onde… — ele começou a falar, fraco.
— Eles continuaram andando. — Sentei. — Precisamos seguir a trilha da caravana até a civilização. Achar ajuda. Remédio.
— E você ainda está aqui? — Jin apertou os olhos na minha direção e começou a rir, sem forças. — Devo estar sonhando. Ou morto.
Eu tinha que mantê-lo acordado.
— Então você sonha comigo com frequência?
— Sonhos. Pesadelos. Não tenho certeza. — Ele ergueu a mão como se quisesse verificar se eu realmente era uma ilusão. Quando a passou pelo meu rosto, eu a segurei e a apoiei no meu ombro.
— Vamos lá, sonhe que está de pé. — Coloquei o ombro sob o braço dele e o puxei para cima.
Jin disse algo para mim em xichan e então riu como se fosse a coisa mais engraçada do mundo. Talvez ele não estivesse lúcido, mas pelo menos tinha levantado. E quando comecei a colocar um pé na frente do outro, ele fez o mesmo.
Estávamos caminhando já havia algum tempo quando ele começou a balbuciar. Palavras em outras línguas. Nomes que eu não conhecia. Só um deles eu reconheci: Sakhr. Nossa velha piada trazida à tona pela sua mente entorpecida pelo veneno. Tentei impedi-lo de falar, mas Jin estava perdido demais em algum delírio. E eu não tinha forças para me preocupar com mais nada além de mantê-lo andando.
O sol estava acima de nós quando percebi que não estávamos mais seguindo a trilha da caravana na areia. Eu me virei, confusa. Tínhamos nos desviado do caminho? A trilha tinha sido apagada pelo vento? O sol tinha nascido à nossa direita naquela manhã. Eu já não tinha certeza se ainda estávamos caminhando para o norte — ou para qualquer outra direção.
— Estamos perdidos.
Jin estava sentado com a cabeça entre os joelhos. Ele se esforçou para tirar alguma coisa do bolso que reluziu no sol. A bússola quebrada.
— Aqui. — Colocou a bússola na minha mão. — Não estamos perdidos.
Ele estava realmente delirando se achava que uma bússola quebrada nos ajudaria. Alguma coisa dentro de mim estava se partindo. Eu podia sentir na minha voz. Nós dois morreríamos. No deserto, perdido significa morto. Se as criaturas das sombras não matassem você, o sol matava.
— Jin. — Eu me agachei perto dele, tentando mantê-lo acordado. — Jin, esta bússola não aponta para o norte. Se a seguirmos, para onde estaremos indo?
Dava pra ver que Jin se esforçava para permanecer lúcido, seu corpo lutando contra o veneno do pesadelo.
— Conseguir ajuda. Não estamos longe.
— Não estamos longe do quê? — insisti.
Mas a única resposta foi algo em xichan que não entendi. Ele não estava mais falando coisa com coisa. Afundei na areia, segurando a bússola. A seta apontava diretamente para oeste agora. Para o vale de Dev. Em meio à cerração do calor do deserto eu conseguia ver o lugar onde a areia terminava: um penhasco. Certo. Não fazia muita diferença morrer seguindo o norte ou o oeste.
Era muito mais difícil descer o desfiladeiro do que parecia olhando de cima. E já tinha parecido impossível. Jin ainda conseguia andar, mas se apoiava com mais força em mim a cada passo que dava. Eu tinha um corte feio no braço de me ralar em algumas pedras soltas quando começamos a descida. Uma costela rachada de quando bati em uma pedra quando estávamos terminando de descer. E ainda contava com outros machucados adquiridos no meio do caminho com os quais ainda não tivera tempo de me preocupar. O resto do meu corpo irradiava uma dor entorpecente sob o peso de Jin.
Pelo menos havia água no fundo do vale.
O vale de Dev corria como um corte profundo na pele do deserto, e no meio dele havia um rio raso como uma veia exposta. Sentei Jin no chão e mergulhei as mãos na água, limpando o sangue antes de enfiar o rosto e engolir o mais rápido que podia.
Coletei um punhado de água.
— Jin. — A cabeça dele estava inclinada para trás, os olhos fechados com força contra algo que ele não queria ver, algo que só existia dentro da sua cabeça. — Jin.
Pressionei a água em sua boca e o forcei a beber.
Sentei com as pernas na água e peguei a bússola. Pelo menos ainda estava inteira. Ela apontava direto para o labirinto do desfiladeiro, mas não dizia quão longe eu precisava ir, e Jin não estava em condições de me explicar. Só tinha um jeito de descobrir.
Eu estava tentando levantar Jin quando ouvi um som ecoando pelas paredes do desfiladeiro: cascos de cavalo batendo em pedra. Alguém estava vindo de lá. Hesitei por apenas um instante antes de procurar um lugar para nos escondermos. Nos movíamos num ritmo dolorosamente lento, o peso de Jin pressionando minha coluna. Praticamente o arrastava até o labirinto empoeirado. Podia ouvir o som dos cascos aumentando a cada passo. Estávamos andando muito devagar. Precisávamos chegar a um esconderijo antes que fôssemos vistos. Alcançamos um dos corredores do desfiladeiro no mesmo instante em que um soldado vestido com o azul dos gallans surgiu por outro.
Meu corpo inteiro se rebelou quando lembrei dos gallans em Fahali. O general com a arma na cabeça da garota. Mas não havia nada que eu pudesse fazer a não ser prender a respiração e observar, escondida nas sombras do desfiladeiro, enquanto o soldado desmontava do cavalo, ajoelhando-se para tomar água.
— Amani… — Jin finalmente abriu os olhos. Eles pareceram lúcidos por um momento. — Ele não pode nos ver, se nos vir…
Tampei a boca dele enquanto o soldado levantava a cabeça, olhando na nossa direção.
— Ele não vai ver a gente — prometi o mais baixo possível.
Esperamos em silêncio enquanto o soldado terminava de beber a água do rio e montava novamente. Do topo do cavalo, puxou algo pendurado em seu pescoço com um brilho prateado e colocou uma ponta do objeto na boca. O som agudo e alto de um apito ecoou pelas paredes do desfiladeiro. Ele esperou até o silêncio retornar. E então outro apito respondeu. Em seguida, um terceiro se manifestou.
Uma equipe de busca. Para nós, ou para alguma outra coisa.
— Eles não vão ver a gente — repeti, tão baixo que não sabia se estava falando com Jin ou fazendo uma prece. — Não vão nos encontrar.


Estávamos caminhando havia algumas horas quando precisei descansar. Encostei na pedra, deixando Jin deslizar até o chão, tentando recuperar o fôlego. Tivéramos que voltar atrás duas vezes quando o caminho terminara em nada. Segurei a bússola contra o peito. Eu ainda estava seguindo a agulha, mas precisava que minha cabeça parasse de girar. Cada passo dado aumentava a chance de que o próximo me levasse aos soldados gallans.
O sol estava baixando no horizonte quando demos em outro caminho sem saída. Mas aquele era diferente dos outros.
A parede do desfiladeiro estava pintada de cores vibrantes, quase violentas, uma por cima da outra, do chão poeirento até onde eu conseguia enxergar. Uma garota loira se transformando num animal. Um djinni vermelho imenso lutando contra as ondas. Um homem de pele azul cercado de demônios. Uma batalha que seria capaz de rachar a terra onde estávamos e deixar uma marca do tamanho daquele vale. Entre uma dançarina com cobras no lugar do cabelo e um demônio segurando uma cabeça decepada, estava pintada uma porta. Verifiquei a bússola. Não havia dúvida de que apontava para a frente.
Passei a ponta do dedo na porta. Parecia de rocha sólida. Pelo menos até a palavra secreta ser sussurrada. Como nas histórias.
Talvez eu fosse uma garota ingênua com o mau hábito de acreditar nas histórias que minha mãe me contava.
— Jin. — Sacudi seus ombros. Eu tinha tanta sede que minha voz saiu arranhada. — Jin, acorda. Preciso que você acorde. Preciso da palavra secreta.
— Perdidos? — Recuei instintivamente ao ouvir aquilo. O soldado gallan, aquele que tínhamos visto antes, estava de pé a alguns metros de distância, encostado numa parede do outro lado do vale, na sombra, parecendo confiante.
Talvez eu teria ficado com medo se já não estivesse tão desesperada.
— Como você nos encontrou? — Minha voz estava falhando.
— De pé, senão terei que atirar — ele ordenou. Mas não havia armas à vista. E ele estava falando um mirajin perfeito.
Alguma coisa estava errada.
— Por que você não vem aqui e me obriga? — Ele hesitava em meio às sombras. Então notei o sangue fresco em seu queixo. — Ou está com medo da luz do dia, andarilho?
A mudança no seu rosto foi instantânea. Era o rosto de uma pessoa, mas sem qualquer traço de humanidade. O andarilho arreganhou os dentes pontiagudos no rosto do soldado — o rosto que pertencia à sua vítima mais recente, me dei conta. Observei aterrorizada o andarilho caminhar calmamente até os limites da sombra projetada pelas paredes do desfiladeiro.
— Seria legal te devorar agora. — Sua língua longa e escura serpenteou em meio aos dentes afiados. — Estou faminto. Mesmo depois de comer a carne daquele forasteiro. E você parece saborosa. Mas acho que posso esperar algumas horas.
— Pode esperar sentado. À noite não estarei mais aqui. — Apoiei o braço de Jin no meu ombro. Se tinha uma coisa capaz de me manter motivada, era um andarilho.
— E para onde você vai, olhos azuis? — O andarilho tinha um sorriso faminto. — Você está presa. — Olhei de relance para o caminho de onde tínhamos vindo. No tempo em que ficara sentada, o sol se movera o suficiente para deixar a abertura do vale em sombras.
Jin e eu estávamos no último resquício seguro de luz do sol.
— Abra. — Esmurrei a porta. — Destrave. Me deixe entrar. — A superfície de rocha pintada não se mexia. Eu não imaginava que a palavra secreta fosse óbvia, mas não ia morrer sem pelo menos tentar.
— Acho que vou manter você viva por um tempinho. — O andarilho caminhava em círculos perto do limite das sombras. — Assim você vai poder me ver consumir sua carne com esses olhos bonitos e eu vou poder ouvir você gritar. — O andarilho abriu um sorriso cheio de presas com a boca do soldado gallan morto. Ele queria minha atenção. Estava praticamente em cima de mim agora, as sombras tão próximas que tive que encolher o cotovelo para perto da barriga. A luz o queimaria. Mas ele era paciente, já que ela encolhia a cada instante.
Meu tempo estava se esgotando.
Escorei na pedra. Íamos morrer ali. Tínhamos escapado da Vila da Poeira, pulado de um trem, atravessado um deserto e sobrevivido a Fahali e aos pesadelos, e era assim que a minha história chegava ao fim. Num desfiladeiro empoeirado, pelas garras de um andarilho faminto.
Histórias. A memória relampejou fraca na minha mente.
Sakhr.
Jin tinha errado o nome. O nome do djinni usado para pedir ajuda, para abrir portas para o seu reino. E então Jin tinha errado o nome de novo. Tinha dito esse nome quando balbuciava coisas sem sentido por causa do veneno do pesadelo no deserto.
Me inclinei mais perto da porta. Me sentia tola, mas não havia ninguém assistindo além de um andarilho que queria me devorar inteira, e eu não me importava muito com o que ele pensava.
Encostei a boca na fechadura pintada e sussurrei o nome.
— Sakhr. — Prendi a respiração.
Nada aconteceu. Com o último fiapo de esperança destruído, apoiei as costas contra a porta.
O sol me traiu em um piscar de olhos. Num instante estávamos no último feixe de luz, no seguinte as sombras chegaram até mim. E com elas veio a mão do andarilho. Garras longas rasparam meu braço, sangue brotando em cinco longas trilhas na minha pele.
Ele tentou morder meu pescoço. Eu lembrei do que Jin tinha me ensinado: não tentei me soltar. Joguei meu peso contra o monstro. Seus dentes arranharam carne e sangue, abrindo meu ombro. Agonia tomou conta do meu corpo todo e caímos juntos no chão.
Eu o empurrei para longe e cambaleei para trás, batendo na parede pintada. Meu sangue manchou o desenho de uma garota montada num leopardo. Um detalhe bem insignificante para notar antes de morrer.
O ruído de pedra raspando contra pedra preencheu meus ouvidos. Um arco foi aberto onde antes havia a porta pintada. Ali estava a garota mais linda que eu já tinha visto. Como se ela já tivesse nascido bonita, mas tivesse sido tratada e arrumada até que ficasse o mais perfeita possível. Seu rosto eram planícies e dunas do deserto, mas seus olhos escuros não eram complacentes. Fios de cabelo escuro pendiam sobre seus cílios enquanto ela observava fixamente a cena diante de si. Suas sobrancelhas levantaram quando viu Jin desmaiado na areia, perto de mim. Ela então olhou para o andarilho. Puxou um par de cimitarras de trás de si, produzindo um assovio, e as empunhou diante do corpo.
— Você tem sangue nas garras. — O andarilho saltou pra cima dela.
A garota não se movia como Jin, ou como qualquer soldado que eu já tinha visto. Ela se movia como uma tempestade que alguém havia equipado com armas de ferro. Deu um passo para o lado, desviando do carniçal como se ele fosse insignificante, a espada na mão direita dilacerando o braço dele. O monstro rosnou e a contornou bem a tempo de ser atingido pela espada esquerda no estômago, enquanto a direita cortava seu pescoço. Os olhos no rosto roubado se arregalaram. Por um instante meu coração apertou — ele parecia tão humano. Então sua boca de presas se abriu.
A garota arrancou as lâminas do corpo dele, banhadas com o sangue escuro do carniçal. A criatura desabou no chão, morta.
— Então foi você que disse a senha — ela falou.
Abri a boca para responder.
Numa fração de segundo percebi que tinha perdido muito sangue e então tudo ficou escuro.

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